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3 ANÁLISE DE DISCURSO CRÍTICA COMO MÉTODO

4.4 Procedimentos de coleta/produção de dados

Nesta pesquisa, enfoco as ideologias linguísticas no espaço da UNILAB. A escolha da referida instituição para realização da pesquisa, em grande medida, deve-se à concentração de distintas configurações de falantes bilíngues e/ou multilíngues ali presentes que têm em seus países a língua portuguesa como oficial. Em consequência disso, o alcance da diversidade linguística e cultural que isso proporciona, é fator imprescindível para uma análise sobre ideologias linguísticas em disputa (WOOLARD, 1998; KROSKRITY, 2000, 2004).

Nossa entrada no contexto investigada foi auxiliada por algumas pessoas, notadamente, duas professoras da instituição ajudaram bastante em meu acesso ao campo, locus da pesquisa, refiro-me, sobretudo, às professoras

vinculadas ao curso de graduação em Letras Língua Portuguesa da UNILAB: Cláudia Ramos Carioca e Ana Paula Rabelo. Cláudia, por um lado, deu-nos toda uma assistência inicial para que fosse possível realizar a pesquisa na universidade. Ana Paula, por outro lado, sempre nos motivou durante todo o período da pesquisa, inclusive, oferecendo carona para ir de Fortaleza – CE a Redenção – CE.

De março de 2017 a maio de 2019 se deu a pesquisa de campo. Nesse período, frequentei regularmente a UNILAB, em Redenção – CE. Durante esse tempo, em alguns momentos, tive mais assiduidade do que em outros, especificamente entre agosto de 2017 à junho de 2018, período em que nossa presença nesse contexto se intensificou, sobretudo, por intencionalmente dedicar mais tempo às visitas, facilitadas pelo fato de estar ministrando um curso de extensão nessa universidade, bem como por, a cada semana, ir estabelecendo contatos com pessoas que vivenciavam aquele contexto e que poderiam fazer parte da pesquisa. Nesse momento, formulei alguns critérios para a coleta e a construção de dados.

A definição da amostragem desta pesqui se deu após idas e vindas ao campo (que compreende os oito primeiros meses do percurso etnográfico da pesquisa). Dessa forma, grande parte dos critérios para a coleta de dados previamente existentes e construção de dados com os participantes foram sendo feitas após as nossas experiências com o contexto pesquisado, de modo flexível e gradativo. Com a finalidade de estabelecer comparações e contrastes entre as perspectivas encontradas no campo e, inclusive, a minha como observador/pesquisador, recorri ao que Flick (2009, p. 106) denomina de três procedimentos básicos e mais comuns em coleta e produção de dados qualitativos.

A primeira está centrada principalmente na evocação de dados verbais – em entrevistas, na estimulação de narrativas e em grupos focais. A segunda abordagem se concentra na produção de descrições do que se observou na etnografia ou em uma observação (na maioria dos casos, participante). Os dados a serem analisados são notas de campo mais ou menos ampliados, registros e coisas do tipo. A terceira abordagem está baseada na transformação de documentos em dados (qualitativos) das ciências sociais – textos, arquivos, fotos, filmes etc. Em alguns casos, esses documentos são produzidos na pesquisa e para ela; em muitos, usa-se documentos existentes. Por fim, encontramos abordagens baseadas na análise de

materiais produzidos por uma das três outras abordagens. Esses materiais podem ser analisados com ênfase em uma perspectiva de análise de narrativa ou discurso /conversação orientada à codificação.

Seguindo essa direção, o corpus desta pesquisa foi composto a partir de três procedimentos metodológicos: (1) as observações em campo, com registros e anotações em diários; (2) a seleção de os documentos oficiais da instituição e (3) as entrevistas elaboradas com os sujeitos participantes e atuantes no contexto situado da UNILAB. Após termos coletado/construído os três conjuntos de dados, iniciei os procedimentos de triangulação dos dados, com o intuito de analisar os discursos recorrentes ali presentes e visando ter uma compreensão mais profunda possível dos processos discursivos e ideológicos que atravessam o contexto da UNILAB, Redenção-CE.

O primeiro passo metodológico foi observar as representações discursivas que se repetiam nos dados investigados, de modo a focalizar temas e modos de abordá-los que se apresentavam como constantes e/ou recorrentes. Isso me orientou a estabelecer relações entre discursos e nos auxiliou a formular questões para as entrevistas.

A escolha do quadro de atores sociais que iriam participar da pesquisa foi, em grande medida, influenciada pelo percurso de descoberta do campo, suas características e suas relações. Inicialmente, com a finalidade de delimitar a pesquisa, defini que as entrevistas seriam somente com estudantes da UNILAB, unidade de Redenção-CE. Posteriormente, a experiência do campo me fez repensar essa resolução, de modo que passei a incluir professores da instituição. A partir de um determinado momento da pesquisa, passei a acreditar que estudantes e professores são os atores sociais que têm acesso com mais profundidade aos que eu estava interessado em investigar. Dito de outro modo, esses seriam os papéis de atores sociais que vivenciam (como produtores e/ou interpretes) mais frequentemente ideologias linguísticas que circulam nesse espaço universitário.

Para tanto, busquei criar estratégias que me permitiram conhecer o maior número de atores sociais do tipo supracitado21, que

21 Além de com regularidade do grupo de pesquisa Interação e Diversidade Discursiva na Lusofonia, ofertamos um curso de extensão que abordou a dimensão política da linguagem.

vivenciam/vivenciavam o contexto da UNILAB, com a finalidade de conhecer participantes “que tornam a experiência relevante para o estudo” (FLICK, 2009). Dessa forma, procurei aproximação com atores sociais que julguei aptos a refletir sobre sua experiência de contatos linguísticos e culturais e verbalizar essa reflexão.

Definidos os tipos de atores sociais que iriam fazer parte da pesquisa, passei aos outros critérios. Nesse sentido, dentro desse quadro (estudantes e professores) procurei na construção da amostragem, evidenciar a variedade e a heterogeneidade dos sujeitos que vivenciam o contexto social da UNILAB, em Redeção – CE, e, portanto, que têm contato com o assunto/fenômeno objeto de nossa pesquisa. Dessa forma, consequentemente, tive o cuidado e o interesse de garantir a pluralidade de percepções êmicas criadas no contexto estudado (ANGRISINO, 2009; FLICK, 2009), visto que, como ressalta Flick (2009, p. 46), “levar a sério a amostragem na pesquisa qualitativa é uma maneira de administrar a diversidade, de forma que a variação e a variedade do fenômeno em estudo possam ser captadas no material empírico com o maior alcance possível”.

Nesse sentido, após todo um estágio de conversas informais (com muitos desencontros por conta mesmo da agenda das pessoas), fui selecionando os participantes. Em um determinado ponto, defini nove pessoas para participar da pesquisa, que estão em uma faixa etária entre 22 a 47 anos. O primeiro critério para selecioná-los foi o interesse demonstrado pelas pessoas que fui conhecendo no processo. O segundo critério foi a heterogeneidade dos participantes, já que, como já mencionado, busquei uma amostra que contemplasse o maior número de países (dos sete) que compõem a UNILAB.

Nesse sentido, portanto, desenhei um quadro de participantes composto da seguinte forma: um grupo de seis estudantes e um grupo de três professores. O primeiro grupo (dos estudantes) é composto por dois estudantes brasileiros e quatro estudantes dos demais países (entre eles: um guineense, um moçambicano, uma angolana e uma tomense). O segundo grupo (dos professores) foi formado por uma professora guineense, um professor brasileiro e um professor português. Conheci alguns dos estudantes participantes da pesquisa durante um curso de extensão que ministrei na UNILAB durante o

segundo semestre de 2016, no campus da Liberdade sobre a dimensão política da linguagem.

O conjunto de ações e de procedimentos utilizados na construção dos dados foi efetuado por meio de instrumentos como caderno de notas, diário de campo e gravador, bem como por meio de leituras sistemáticas dos documentos oficiais e do que eu estava observando em campo. Meus dados resultam, portanto, da execução de três procedimentos de pesquisa, quais sejam: leitura sistemática dos documentos oficiais da UNILAB, observações situadas e entrevistas com os participantes. Na sequência, descrevo algumas características dos participantes da pesquisa e, para que fique mais claro, descrevo, de modo específico, cada um dos três procedimentos metodológicos supracitados.