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Procedimentos de construção do corpus de pesquisa

2 Laudas que comportam o batuque dos peitos: percursos metodológicos

2.2. Procedimentos de construção do corpus de pesquisa

Pensar nos caminhos metodológicos para produção de informações nesta pesquisa foi, an- tes mais nada, um exercício de criar passagens, rupturas e aberturas que possibilitaram encon- tros com o outro e, a partir deles, com os mais variados enunciados.

Dewes (2013) esclarece que muitas áreas de pesquisa são contempladas por técnicas de amostragem e estimação padrões que permitem obtenção de informações de maneira precisa. Da mesma forma, o autor chama atenção para o fato de haver grupos para os quais tais técni- cas não são aplicáveis. Estes grupos se caracterizam como populações escondidas e difíceis de encontrar em decorrência de duas situações: por não se diferenciar da população em geral ou por se tratar de um tema sensível que pode envolver ilegalidade, reprovação social ou, ainda, ambas as situações e, em decorrência disso, os participantes não queiram se expor.

Nesse sentido, durante o processo de pesquisa, percebi que os meninos e meninas com in- teresse e envolvimento com o crime se aproximavam dessas características, sendo difícil vê-

los pela cidade e, igualmente, eles não pareciam querer falar sobre suas vidas, muitas vezes com receio de serem expostos, tanto em relação à família quanto em relação à polícia.

Com isso, Dewes (2013) aponta para a amostragem em bola de neve como um método pautado em uma rede de amizades dos membros existentes na amostra, em que um participan- te indica mais um ou outros até que se alcance o número de participantes desejado.

De acordo com ele, o método é efetivo no processo de acessar populações difíceis de en- contrar, porém deve-se considerar que ele não possibilita generalizações e, ainda, que pode haver viés na escolha da “semente”, nome usado pelo autor para se referir às pessoas selecio- nadas no início do processo para indicar os demais.

Nesse contexto, os caminhos da pesquisa consideravam encontrar com meninos e meninas com discursos que indicassem interesse pelo “mundo do crime” a partir de mediadores, pes- soas que, de alguma forma, estariam em contato com eles. Assim, entrei em contato com três pessoas que eu conhecia e que desenvolviam atividades culturais e esportivas com crianças e adolescentes em regiões periféricas da cidade, explicando a pesquisa. Destes, dois não esta- vam mais desenvolvendo as atividades e um afirmou que mantinha o trabalho com crianças e adolescentes em uma região periférica da cidade e que alguns jovens envolvidos com o crime participavam às vezes, convidando-me para ir até o local.

Nos primeiros encontros expliquei a proposta para os participantes da atividade e, apesar de todos ali dizerem que não tinham envolvimento com o crime ou interesse por ele, alguns meninos conheciam outros jovens e se dispuseram a falar com eles. Assim, participei das ati- vidades, aproximei-me daqueles que frequentavam as aulas, conheci outras pessoas do bairro, o próprio bairro e meninos e meninas que se admiravam com o “mundo do crime”. Dessa forma, ia às aulas duas vezes por semana e, ao fim delas, permanecia no bairro conversando e caminhando com as pessoas que eu havia conhecido.

O processo de conhecer pessoas no território foi importante para a produção dos dados da pesquisa, porém, mais do que isso, os encontros com meninos e meninas que se admiram com o “mundo do crime” só foi possível pelas indicações de outras pessoas que estavam ali, nos quais eles confiavam e me ajudaram a garantir que aquelas informações não seriam levadas à polícia.

Diante disso e levando em consideração o lugar do território nas pesquisas que versam sobre o envolvimento de jovens com a criminalidade, conforme apontado anteriormente, os procedimentos de produção de informações partiram dos espaços apontados como relevantes pelos participantes dentro do território onde eles estabeleciam relações significativas com o tema abordado. Portanto, foram realizadas entrevistas individuais semi-estruturadas, buscando

maior aproximação com os participantes, bem como com suas histórias de vida e suas percep- ções sobre as vivências com a criminalidade no território.

O roteiro era composto pelas seguintes perguntas: O que você faz durante o dia? Quanto tempo você mora neste bairro? Como é morar aqui? O que você mais gosta de fazer? O que você menos gosta? O que você gostaria que fosse diferente neste bairro? Como é sua relação com as outras pessoas que moram aqui? Você já morou em outros lugares? Do que você se lembra desse outro lugar? Você já foi a outros bairros? O que foi fazer? Como foi? Você já foi a outras cidades? O que foi fazer? Como foi? Você já teve alguma experiência com o crime? Como você imagina que vai estar sua vida daqui 5 anos?

De acordo com Gaskell (2002), a entrevista se constitui enquanto processo social, em que ocorre interação e troca entre entrevistador e entrevistado, permitindo diálogo entre dife- rentes realidades e percepções. Portanto, através desse recurso, busca-se compreender “uma certa” realidade composta pelo modo como o participante se relaciona com seu meio, suas idiossincrasias, pontos de vista, motivações e recursos diante das suas experiências.

Durante as entrevistas, foi possível caminhar pelo território com duas participantes. Estes percursos ocorreram sem definição de roteiro prévio e possibilitaram aprofundar em questões abordadas nas entrevistas, bem como apreender o modo como elas se articulam com o espaço. As entrevistas foram gravadas diante da aprovação do entrevistado e, posteriormen- te, transcritas na íntegra, sendo que Zago (2003) ressalta que a gravação do material é de fun- damental importância por garantir maior liberdade ao pesquisador para conduzir as questões, favorecer a relação de interlocução e avançar na problematização.

Nas transcrições, o uso coloquial da linguagem foi mantido, com intuito de preservar o máximo possível o tom das entrevistas. Além disso, a substituição dos termos para adequá-los aos padrões da língua portuguesa poderia descaracterizar os modos de comunicação dos en- trevistados, e consequentemente, vários aspectos que giram em torno da produção desses e- nunciados.

As observações feitas por mim durante o processo foram registradas em diário de campo, entendendo, como afirma Diehl, Maraschin e Tittoni (2006), que este é um espaço de experimentação diferente dos demais recursos constituidores da pesquisa em que supera a transcrição e a representação das experiências vividas e convida o observador a assumir posi- ção ativa, participante dessas experiências e do próprio movimento que elas geram.

Por se tratar de pesquisa qualitativa e, considerando o grande volume dos dados colhi- dos nas entrevistas e do material de transcrição, bem como a profundidade dos encontros fei-

tos, apontou-se para a necessidade de um número reduzido de participantes, garantindo que os dados coletados nos encontros fossem posteriormente analisados com minúcia.