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1 INTRODUÇÃO

3.3 Contexto da pesquisa

3.3.3 Procedimentos de interpretação

colunas quantas forem necessárias para se proceder ao refinamento e à ressignificação e, assim, à tematização. Na organização do material que obtive, as colunas subsequentes foram acrescentadas mediante a adição de outras folhas A4, conforme registrado na Figura 1.

Figura 1 – Organização dos registros.

Fonte: Registro em acervo da pesquisadora.

Uma vez organizado o material e disponível para a leitura de forma integral, iniciei o processo de tematização, propriamente dito. Em alguns momentos, além da leitura, achei importante retornar aos áudios das gravações, fosse para revisar algum ponto da transcrição ou recuperar eventuais sentidos que pudessem ser evidenciados pelo contato com o material original, como entonação, pausas e silêncios.

A geração das primeiras unidades de significação foi a que demandou mais tempo. No caso, aproximadamente dois meses e meio para percorrer integralmente, uma vez, o material textualizado. Essa demanda, em minha percepção, ocorreu não apenas pelo contato com o material mais extenso, mas também pela própria aprendizagem requerida pela abordagem.

No início, as primeiras unidades de significado emergiram de forma bastante irregular porque ler a partir da proposição da AHFC exigia um auto-monitoramento permanente. Meu embate inicial foi a dificuldade de evidenciar, identificar e desnaturalizar o meu olhar de leitora-professora para reconstruí-lo em direção ao olhar de leitora-pesquisadora sob a perspectiva de uma abordagem interpretativa. Essa foi uma experiência de encontrar e vislumbrar ideias

pré-construídas, conhecimentos, recursos e técnicas anteriores, além dos pré-conceitos arraigados à minha própria formação leitora.

Conforme relata Melo (2017, p. 73),

Na AHFC, se reconhece não haver como o pesquisador anular-se no momento da interpretação, considerando-se que sua própria experiência pode contribuir para o estudo da experiência em questão. No entanto, criam-se mecanismos para que a interpretação não recaia somente sobre a subjetividade do intérprete, tornando-a tendenciosa.

Remetendo a Gadamer (1996), Melo (2017, p. 73) explica que a consciência hermenêutica recorre ao encontro de seus próprios vieses como o mecanismo para que a alteridade no texto interpretado seja preservada pelo pesquisador. Conforme percorria os textos, em sua trama de vozes, encarava frente a frente as memórias, as narrativas, os risos, a concordância e os embates entre ideias e vivências. Nesse movimento, eu enxergava meu próprio processo de leitura ocorrendo diante do desvendamento de um fenômeno de formação leitora.

Como ensina Freire (2010, p. 25),

[...] a abordagem hermenêutico-fenomenológica [complexa], como orientação metodológica, envolve o pesquisador de uma forma inusitada, colocando-o em contato diferenciado com os textos coletados e considerando sua bagagem experiencial e sua subjetividade como traços relevantes que não podem ser, simplesmente, ignorados. Nesse sentido, os procedimentos de refinamento, ressignificação e nomeação de temas estão naturalmente marcados pela ótica desse pesquisador que, portanto, não pretende apresentar uma interpretação única e final para o fenômeno que investiga, ou melhor, para uma manifestação desse fenômeno.

No desenvolvimento de minha interpretação, o encontro, reencontro e desencontro com minha própria formação como leitora foi muito evidente, devido à própria natureza do fenômeno que investiguei. O processo de tematização, como processo de leitura, também ensejou em mim a emersão de uma leitora-pesquisadora sob o enfoque proposto pela pesquisa na AHFC.

A rotina de interpretação da AHFC (FREIRE, 2010, p. 25) prevê que as primeiras unidades de significação sejam as mais evidentes e perceptíveis, em relação ao fenômeno investigado. Em meu processo interpretativo, a percepção dessas primeiras unidades realizou-se inicialmente nos relatos e, em realizou-seguida, na conversa hermenêutica. No material impresso,

também utilizei grifos e anotações paralelas para a manipulação desses trechos, bem como o destaque de passagens que fossem significativas nessa primeira interpretação.

O Quadro 8 reproduz um exemplo da emersão das primeiras unidades de significado. A coluna à esquerda é a que contém a textualização; no exemplo, utilizo o trecho inicial do relato de Adelma, em que destaquei os primeiros grifos dos trechos relacionados ao fenômeno em estudo. A segunda coluna apresenta o início da tematização: por meio do refinamento, registrei as primeiras unidades de significado, que eram as mais evidentes em minha interpretação. Esse procedimento ocorreu sucessivas vezes, sem perder de vista o fenômeno focalizado, de modo que, em momentos diferentes, as primeiras unidades fossem revisitadas, confirmando ou refutando a interpretação.

Por meio do refinamento e da ressignificação, realizei leituras e releituras para o confrontamento das unidades provisoriamente selecionadas e a articulação entre elas, o que Freire (2010, p. 25) denomina metaforicamente de mergulho interpretativo. Por meio desses processos, também podem surgir novas unidades de significado, outras podem ser excluídas ou ressignificadas. O Quadro 9 apresenta esse desenvolvimento da tematização no relato exemplificado:

Quadro 8 – Primeiras unidades de significado.

Textualização Tematização

Refinamento: primeiras unidades de significado

Minha experiência com a leitura começou muito cedo e se deu dentro de casa. Lembro-me que morávamos na casa de Lembro-meus avós, na Avenida Coronel Alcântara, pertinho da Praça da Bandeira, onde meus pais, aos domingos, nos levava para brincar e na volta, era de praxe, passar na banca de jornal para comprarmos gibis e revistinhas de colorir e brincar.

Meu avô e meu pai gostavam muito de ler, acho que eles são os responsáveis por despertar o gosto da leitura em todos nós da família. Em casa não há quem não goste de ler. Eles nos proporcionaram desde muito cedo o contato com os diferentes gêneros e portadores textuais. Em casa tínhamos desde gibi a Barsa. Na sala tinha uma estante abarrotada de livros, ele dizia que “a leitura abria portas e o conhecimento um mundo melhor”. Nessa estante tínhamos a coleção inteira de Monteiro Lobato (uns livros de capa dura vermelha), a coleção inteira de Machado de Assis (capa dura verde escura), a coleção inteira de José de Alencar dentre outros nomes da literatura nacional. Meu pai era sócio do Clube do Livro do Exército, acho que de quinze em quinze dias chegava livros em casa. O jornal era leitura obrigatória. Lembro-me perfeitamente que na época, o leite e o jornal eram entregues na porta de casa bem de manhãzinha e antes de sair para o trabalho, tanto meu pai quanto meu avô ficavam com a “Folha de São Paulo” nas mãos, acho que eles dividiam os cadernos, só pode, rs.

experiência com a leitura, cedo, dentro de casa casa de meus avós

pais, domingos, levava para brincar banca de jornal, gibis e revistinhas avô, pai, responsáveis por despertar em todos nós da família

desde muito cedo o contato com os diferentes gêneros e portadores textuais, casa, gibi, Barsa, sala, estante, livros abria portas, conhecimento, mundo melhor

coleção inteira de Monteiro Lobato Machado de Assis, José de Alencar

literatura nacional, pai, sócio do Clube do Livro do Exército, livros em casa, o jornal era leitura obrigatória, leite e o jornal, na porta de casa

pai, avô, Folha de São Paulo, nas mãos eles dividiam os cadernos

Fonte: Elaborado pela pesquisadora.

Quadro 9 – Refinamento e ressignificação.

Textualização

Tematização

Refinamento: primeiras unidades de significado

Refinamento:

primeiras unidades de significado

Refinamento e Ciclo de validação ressignificação

Refinamento e ressignificação

Temas e subtemas

Minha experiência com a leitura começou muito cedo e se deu dentro de casa. Lembro-me que morávamos na casa de meus avós, na Avenida Coronel Alcântara, pertinho da Praça da Bandeira, onde meus pais, aos domingos, nos levava para brincar e na volta, era de praxe, passar na banca de jornal para comprarmos gibis e revistinhas de colorir e brincar.

Meu avô e meu pai gostavam muito de ler, acho que eles são os responsáveis por despertar o gosto da leitura em todos nós da família. Em casa não há quem não goste de ler. Eles nos proporcionaram desde muito cedo o contato com os diferentes gêneros e portadores textuais. Em casa tínhamos desde gibi a Barsa. Na sala tinha uma estante abarrotada de livros, ele dizia que “a leitura abria portas e o conhecimento um mundo melhor”. Nessa estante tínhamos a coleção inteira de Monteiro Lobato (uns livros de capa dura vermelha), a coleção inteira de Machado de Assis (capa dura verde escura), a coleção inteira de José

experiência com a leitura, cedo, dentro de

casa casa de meus avós pais, domingos, levava

para brincar banca de jornal, gibis e

revistinhas avô, pai, responsáveis

por despertar em todos nós da família

desde muito cedo o contato com os diferentes gêneros e portadores textuais, casa, gibi, Barsa, sala,

estante, livros

experiência com a leitura, cedo, dentro de casa

experiência leitora na infância

Tema:

Incentivo Subtema:

Família casa de meus avós

pais, domingos, levava para brincar

ambiente doméstico pais e avô

Influência pai avô banca de jornal, gibis e

revistinhas

gibis, revistinhas avô, pai, responsáveis

por despertar

avô e pai como influenciadore s

literatura nacional em todos nós da

família

desde muito cedo o contato com os diferentes gêneros e portadores textuais,

de Alencar dentre outros nomes da literatura nacional.

Meu pai era sócio do Clube do Livro do Exército, acho que de quinze em quinze dias chegava livros em casa. O jornal era leitura obrigatória. Lembro-me perfeitamente que na época, o leite e o jornal eram entregues na porta de casa bem de manhãzinha e antes de sair para o trabalho, tanto meu pai quanto meu avô ficavam com a

“Folha de São Paulo” nas mãos, acho que eles dividiam os cadernos, só pode, rs.

abria portas, conhecimento, mundo

melhor coleção inteira de

Monteiro Lobato Machado de Assis, José

de Alencar literatura nacional, pai, sócio do Clube do Livro

do Exército, livros em casa, o jornal era leitura

obrigatória, leite e o jornal, na porta de casa

casa, gibi, Barsa, sala, estante, livros

Tema:

Materialid ade abria portas,

conhecimento, mundo melhor

coleção inteira de monteiro lobato

Estante autores clássicos

autores clássicos impressos Machado de Assis,

José de Alencar literatura nacional, pai, sócio do clube do livro do exército, livros em casa, o jornal era leitura obrigatória, leite e o jornal, na porta de casa

livros em casa jornal

pai, avô, Folha de São Paulo, nas mãos eles dividiam os cadernos

Fonte: Elaborado pela pesquisadora.

Esse momento da interpretação foi o mais intenso e o que mais demandou retomadas em todos os sentidos possíveis, gerando um movimento circular, recursivo, sistêmico e hologramático, que foi construindo uma urdidura com pontos cada vez mais tensos. A natureza de (re-)ligação e os movimentos da Complexidade presentes na abordagem (FREIRE, 2017, p.

180) se fizeram sentir de modo mais evidente nesse processo. A partir de um dado momento, percebi que os relatos e as conversas começaram a se materializar em um todo-interpretação. A cada retomada do material, ficavam mais evidentes os temas que, sob meu olhar, refletiam holograficamente os textos gerados.

Esse mergulho também foi intenso pelo enfrentamento da imprevisibilidade, da ambiguidade e da ordem-desordem características do Pensamento Complexo. Houve circunstâncias em que processos inteiros da interpretação, bem como os temas surgidos deles, ruíram após uma retomada ou a conferência de uma interpretação realizada em colunas anteriores. Houve momentos em que temas que pareciam muito consolidados tiveram que ser descartados a partir da retomada ou do confronto de um pequeno trecho.

No percurso das rotinas de interpretação (FREIRE, 2010, p. 25), à medida que temas emergiam, também revisitei minhas convicções como pesquisadora. A premissa da Complexidade de (re-)ligar as conexões desfeitas pelo pensamento tradicional foi um dos desafios que enfrentei em meu processo interpretativo por meio da abordagem, uma vez que em mais de um momento enveredei por caminhos em que ainda identificava minha formação na pesquisa clássica.

O momento mais crítico desse enfrentamento ocorreu quando me defrontei com uma resistência pessoal muito grande em relação ao encontro de temas que fugiam ao meu olhar de pesquisadora, ainda habituado à regularidade, à linearidade e à simplificação. Embora as leituras, discussões e o contato prévio com a Complexidade já fizessem parte de meu repertório, foi somente na prática da interpretação proposta pela abordagem que realmente se evidenciaram para mim, de forma mais nítida, essas questões.

Houve um momento em que, por dias seguidos, eu olhava os papéis escritos, riscados, marcados, rabiscados e não os compreendia - eles não se encaixavam! Como nos faz enxergar Morin (2013, p. 192), “Enquanto não religamos os conhecimentos segundo o conhecimento complexo, permanecemos incapazes de conhecer o tecido comum das coisas: não enxergamos senão os fios separados de uma tapeçaria”.Eu reconhecia a profundidade dos sentidos expostos, sabia que eles me diziam algo importante, mas não encontrava o caminho da interpretação.

Foi necessário um distanciamento, tanto dos textos originais quanto do material que eu mesma já havia interpretado. Revisitei meus saberes consolidados, retomei os textos teóricos,

contei com momentos de orientação, além de retomar os próprios trabalhos realizados na AHFC em busca de caminhos e reflexões que pudessem contribuir para a continuidade de minha interpretação.

Quando retornei ao processo de tematização após a revisitação dos conceitos e dos meus próprios paradigmas e pré-conceitos como pesquisadora, as primeiras indagações apontaram para o sentido da compreensão do operador dialógico nos textos – do diálogo dos opostos, do entendimento de que, em dadas situações, os elementos contraditórios operam de forma complementar, como será detalhado na seção 4.

Esse foi um momento de profunda transformação, que refletiu significativamente na pesquisa, uma vez que a abertura proporcionada por esse entendimento, por meio de vivência prática da interpretação em uma metodologia complexa, permitiu compreender mais profundamente o fenômeno investigado e revisitar os temas que até então tinham se configurado, percebendo as correlações ecossistêmicas que eu percebia intuitivamente, mas não interpretava ainda na pesquisa. Após esse processo, fui de fato capaz de ver emergirem os temas e se revelar, com mais nitidez, a essência do meu fenômeno. A interpretação que resultou desse processo segue relatada na seção a seguir.