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5. Discussões sobre as categorias de análise

5.2 As Concepções/Representações da Professora da 5ª série C

5.2.2 O programa H ORA DA LEITURA : o envolvimento da docente

5.2.2.3 Procedimentos Didáticos

A sala de aula da quinta série C ficava no segundo andar da escola. Em suas paredes não havia quadros, cartazes, ou coisas semelhantes, mas apenas duas lousas grandes: uma situada na frente da classe, e a outra do lado direito de quem está posicionado ao fundo da sala. As pichações feitas com giz eram constantes. As carteiras, em todas as aulas, estavam sempre localizadas em seis fileiras. Nunca presenciei uma mudança em função de alguma atividade de leitura. O espaço, relativamente grande, o número de alunos (34) e de carteiras (em média 36) permitiam que os alunos ficassem bem acomodados. A mesa da professora era pequena e antiga e sempre ficava próxima às janelas. No dia em que cheguei, havia alguns lugares vagos no fundo da sala, onde me sentei para que tivesse uma melhor visão do ambiente.

Logo no início, pude perceber o ritual na sala de aula. A HORA DA LEITURA era a primeira aula do período da tarde, às 13h. Em função disso, a sala estava sempre com as carteiras um pouco desorganizadas e com algum sinal de sujeira no chão. Os alunos da manhã haviam saído há pouco tempo e o pessoal responsável pela limpeza não tinha tempo hábil para organizar o ambiente. Assim que entravam na sala, os alunos da quinta série C começavam a arrastar carteiras, escolhendo as que melhor lhes convinham. Não se incomodavam com os apelos da professora para que não fizessem muito barulho. Fernanda sentava-se e começava a fazer a chamada, em seguida, dava alguns recados e iniciava as atividades que obedeciam quase sempre a um mesmo padrão:

• distribuía folhas mimeografadas para que os alunos copiassem alguma história curta, alertando-os para que não amassassem ou riscassem o papel, já que seria utilizado em outras classes e, após a cópia, recolhia os papéis;

• procedia à leitura do texto que havia sido copiado na aula anterior e questionava os alunos com respeito ao gênero, ao autor, ao enredo e às personagens;

• às vezes, contava alguma história e abria uma discussão;

• distribuía charges e caricaturas para que os alunos respondessem algumas questões que eram colocadas na lousa.

De vez em quando, levava-os à biblioteca, distribuía alguns livros e gibis nas mesas e deixava-os livres para ler ou lia alguma obra para que eles ouvissem, já que não havia exemplares para todos.

Assim, como procedimentos didáticos de leitura, a professora Fernanda privilegiava,

na biblioteca e na sala de aula, a leitura com e para os alunos e a contação de histórias,

sempre escolhendo textos curtos e de temática considerada relevante – amor, amizade, o futuro, a imaginação... Apesar de sua descrença quanto ao gosto dos alunos pela leitura, notei o envolvimento da maioria, quando alguns contos eram lidos e/ou contados. As intervenções dos alunos eram muitas, o que, às vezes, causava certa dispersão e a perda do interesse. Os primeiros cinco minutos de leitura e/ou contação eram cruciais. Se a atenção dos alunos não tivesse sido garantida, por meio de abordagens que lhes despertasse o interesse pela história e/ou sensibilizações, dificilmente a atividade prosseguiria a contento. Outras vezes, contudo, quando os textos eram primeiramente copiados, como veremos em uma atividade descrita abaixo, e depois lidos, a dispersão e a falta de interesse eram absolutas. Observemos o registro de duas aulas que foram utilizadas para o trabalho com o texto A Princesa e a Ervilha de Hans Christian Andersen, conforme anotado em meu diário de campo.

--- 1ª Aula

Na sala de aula, as atividades começaram às 13:15h, como de costume. Alguns minutos foram gastos na arrumação das carteiras e para jogar os papéis no lixo, deixados na sala pelos colegas da manhã. Esses momentos eram intercalados com muita risada e conversa.

Após vários pedidos da professora, todos se sentaram e tiveram início as atividades. A professora distribuiu uma folha avulsa de papel sulfite xerocada, contendo o texto que iam trabalhar e já foi anunciando:

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A = "

+

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2ª Aula

A professora iniciou a aula: “@ %

Todos sabiam que isso significava uma avaliação.

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Não houve nenhuma forma de sensibilização para leitura

9 #

Após alguns minutos de relutância, um dos alunos, Wanderley, se oferece para fazer a leitura.

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O aluno lê algumas linhas e é interrompido pela professora, que solicita a outro aluno que prossiga a leitura. Enquanto a leitura acontecia, observei que um grupo estava distraído com um catálogo de vendas, alguns acompanhavam o texto copiado no caderno na aula anterior outros simplesmente realizavam tarefas de outras disciplinas. A maioria, porém, prestava atenção e acompanhava a leitura, talvez menos pela motivação e mais pela obrigação, afinal seriam avaliados.

Um dos alunos que estava distraído com o catálogo insistiu para ler o último parágrafo. Leu silabando. Após a leitura, a professora iniciou um diálogo, uma tentativa de interação buscando resgatar o que já havia ensinado. A dispersão era patente.

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Nessa tentativa de diálogo não houve nenhuma interferência pontual. Na realidade, a professora perguntava, voltando-se para os alunos mais participativos, e percebia, pelos gestos de cabeça, que havia uma concordância, assim prosseguia com seus comentários.

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À medida em que iam terminando o desenho, os alunos começavam a fazer outras atividades. Uma aluna me trouxe um livro para que eu visse uma das histórias que estava lendo. O livro era As melhores histórias de todos os tempos, de Lídia Chaili e Mônica Rodrigues da Costa. Outra criança pegou o livro que estava sobre minha carteira, Histórias de Tia Anastácia de Monteiro Lobato, e começou a ler uma história. Parecia compenetrada. Fernanda interrompe a leitura para anunciar a Atividade 2:

& FG 2

A aula já estava terminando. Alguns alunos entregaram a tarefa e outros pediram para entregá-la na próxima aula, pois queriam passar a limpo. Proposta aceita, despedidas, fim da aula.

As aulas registradas anteriormente representam, em grande medida, a totalidade dos caminhos percorridos pela professora no tratamento de um texto literário. Ao final da leitura, sempre eram realizados debates informais e/ou desenhos, que, em algumas ocasiões, fugiam completamente ao tema lido. As abordagens feitas não permitiam aos jovens estabelecer uma relação essencial e efetiva com a obra com a qual estavam tendo contato. Não havia um estímulo à verbalização dos alunos que lhes permitisse perceber os “temas e os seres humanos que afloram em meio à trama ficicional” (ZILBERMAN, 2003, p.29). Antes, pelo contrário, eram impedidos de viver a “aventura espiritual que toda verdadeira criação literária deve ser” (COELHO, 2000, p.47). Os procedimentos didáticos adotados por Fernanda, segundo Coelho (2000, p.51), sinalizam seu desconhecimento da

…importância que se atribui, hoje, à orientação a ser dada às crianças, no sentido de que, ludicamente, sem tensões ou traumatismos, elas consigam estabelecer relações fecundas entre o universo literário e seu mundo interior, para que se forme, assim, uma consciência que facilite ou amplie suas relações com o universo real que elas estão descobrindo dia-a-dia e onde elas precisam aprender a se situar com segurança, para nele poder agir. (grifo nosso)

Fernanda supunha estar dando o melhor de si, mas, de forma inconsciente, tornava-se um instrumento de exclusão, usando procedimentos que afastavam seus alunos dos livros. Afirmo isso baseada nos seguintes pressupostos: “a escola, que se pretende democrática, na verdade, também exclui, pois mesmo os alunos que têm acesso a ela sofrem, muitas vezes, um tipo velado de exclusão. Isso porque a inscrição do sujeito leitor se faz controlada e dirigida” (PAULINO, 2001, p.27). (grifo nosso)

Além disso, considero importante ressaltar que os desenhos eram considerados por Fernanda uma forma de criar um ambiente mais lúdico e prazeroso neste contato dos alunos com o texto literário, motivando-os assim a outras leituras. Não tinha a percepção de que esse tipo de atividade era periférico ao ato da leitura, “ao contato solitário e profundo que o texto literário pede” (LAJOLO,1993, p.15). E, ainda assim, as crianças tinham prazer em mostrar suas produções e requisitavam a atenção da professora e a minha para que apreciássemos seus trabalhos.

As fichas de leitura também constituíam um outro recurso utilizado. Certa feita, foi realizada uma avaliação por meio de ficha de leitura, comunicada no início da aula. Ainda que

a dispersão fosse grande, percebi, durante a leitura da obra O Patinho Feio, de Hans Cristian Andersen, realizada pela professora, que as conversas em grupo se centravam em levantar o nome das personagens e no que havia acontecido no começo, no meio e no fim da história. Perguntei a um grupo o por que anotavam esses detalhes, ao que me responderam que já estavam habituados às fichas de leitura e sabiam exatamente o que seria perguntado. Terminada a atividade, voltei ao grupo e quis saber se haviam gostado da história, a resposta

de um aluno foi imediata: . Pareceu-

me, à primeira vista, que em nenhum momento haviam atentado para a beleza da história, mas uma jovenzinha interrompeu o colega e falou: "

Percebi, naquele momento, a dificuldade de julgarmos as ações, assim como suas conseqüências.

É fato, porém, que propiciar ao educando o acesso ao discurso literário, impregnado de sensibilidade e imaginação, e ao gosto pela leitura em um espaço que privilegia o raciocínio lógico e as cobranças de leitura torna-se difícil, se não impossível (RODARI, 1982). Nessa perspectiva, a escola, por meio de seus métodos e práticas, age em sentido contrário ao esperado. Cria um modelo de leitor não-voraz, com formação literária precária, “matando paulatinamente todo o potencial de leitura do mundo e da palavra que as crianças trazem para o contexto escolar” (SILVA, 1993, p.38).

Semeghini-Siqueira (1994, p.184) partilha dessa visão ao afirmar que o professor “ao obrigar, ao pressionar o aluno a ler determinado livro, está contribuindo para desenvolver um forte sentimento de aversão à leitura”. Para a autora, somente se esse sentimento não for instalado no âmago do ser, o aluno tem “a oportunidade, de um dia, talvez, encontrar um texto que o toque profundamente e se transforme em um leitor contumaz”. É por isso que o escritor Lobato já dizia: “obrigar alguém a ler um livro, mesmo que seja pelas melhores razões do mundo, só serve para vacinar o sujeito para sempre contra a leitura”. (apud MACHADO, 2002, p.14)