4. MÉTODOS DE PESQUISA
4.2 Procedimentos do Estudo de Casos Múltiplos
Uma vez que o objeto de estudo da tese não é controlável e focaliza acontecimentos contemporâneos complexos, optou-se pela realização de um estudo de casos múltiplos. O método de estudo de caso para este objeto de pesquisa foi, inclusive, sugerido por Lopes (2009, p. 103), pois permitiria maior profundidade na análise dos arranjos entre usinas e grupos de comercialização. Antes de falar sobre estudo de caso,
porém, cabe explicar os princípios de abordagem qualitativa seguidos neste trabalho e as formas de coleta de dados.
A abordagem qualitativa em estudos que envolvem organizações tem, segundo Bryman (1989), as seguintes características: ênfase na interpretação, forte contextualização, ênfase no processo, maior flexibilidade de trabalho, existência de três fontes de dados (observação, entrevista e documentos), melhor concepção das realidades organizacionais e maior proximidade com o fenômeno estudado.
Como dito no parágrafo anterior, a abordagem qualitativa envolve três técnicas principais para coleta de dados: observação participante, entrevistas semi- estruturadas e análise de documentos (BRYMAN, 1989, p. 142). A primeira técnica é a que permite conhecimento maior sobre contexto e comportamentos em estudos organizacionais, mas exige uma suficiente imersão prolongada do pesquisador no contexto estudado, com a observação de indivíduos à medida que seguem suas atividades normais de trabalho. Embora tenha ocorrido visita às sedes dos grupos de comercialização analisados, não foi possível um acompanhamento das reuniões entre associados, uma vez que questões consideradas estratégicas pelas empresas são tratadas nesse fórum de discussão.
Desta forma, optou-se pela realização de entrevistas semi-estruturadas, que têm como objetivo extrair a maneira dos respondentes pensarem sobre os temas da pesquisa. Vale lembrar que a principal característica da abordagem qualitativa, quando contrastada com a abordagem quantitativa, é justamente a ênfase da pesquisa na perspectiva dos indivíduos que estão sendo estudados (BRYMAN, 1989).
Buscou-se minimizar o grau de constrangimento dos respondentes, adotando formas não tão rígidas de perguntas, sendo a entrevista conduzida sob a forma de um bate-papo. Seguindo conselhos de Bryman (1989) foi utilizado um roteiro, disponível no apêndice, para garantir que todos os pontos importantes fossem cobertos e que, ao mesmo tempo, permitisse flexibilidade no processo. As entrevistas foram gravadas, mediante autorização dos entrevistados. Em uma das entrevistas, porém, o entrevistado solicitou que a gravação fosse interrompida, de modo que ele pudesse passar informações sem comprometê-lo; nesse caso, tomou-se nota dos principais pontos. Em outra entrevista, foi solicitada desde o início a não-gravação, usando-se também da anotação dos principais pontos para registro das informações.
A análise de documentos, terceira técnica de coleta de dados usual em abordagem qualitativa, envolve o exame de diferentes materiais, tais como
correspondências internas, relatórios, memorandos, atas de reuniões, artigos de jornais, dentre outros. Com a utilidade principal de obter dados adicionais ou checar informações derivadas de outras fontes de informação, no estudo de casos foram analisados: sites dos grupos de comercialização e das usinas; apresentações e informativos institucionais fornecidas por alguns grupos e usinas; notícias veiculadas na imprensa sobre os grupos, usinas associadas e distribuidoras de combustíveis.
Ao focalizar um fenômeno contemporâneo complexo, esta pesquisa busca entender como são organizados os grupos, como as decisões são tomadas e qual o comportamento de seus membros. Essas são características típicas de um estudo de caso. Ao verificar o porquê das empresas se associarem, foi avaliado se a melhoria no poder de barganha e os benefícios da governança em rede são motivos que justificam a criação desses grupos e, mais do que isso, se eles são eficazes em atingi-los. Dessa forma, como indica o quadro a seguir, a técnica de pesquisa de estudo de caso mostra-se a mais adequada.
Segundo Bebensat et al. (1987 apud VOSS; TSIKRIKTSIS; FROHLICH, 2002), uma das forças do estudo de caso é permitir que o fenômeno seja estudado em seu contexto natural e significante. Além disso, permite que questões do tipo por que, o que e como sejam respondidas com um entendimento relativamente completo da natureza e complexidade do fenômeno, conforme exposto no quadro 8.
Técnica Forma de questão de
pesquisa Exige controle sobre eventos comportamentais
Focaliza acontecimentos contemporâneos
Experimento como, por que Sim Sim
Levantamento quem, o que, onde, quantos, quanto
Não Sim
Análise de arquivos quem, o que, onde,
quantos, quanto Não Sim/não
Pesquisa histórica como, por que Não Não
Estudo de caso como, por que Não Sim
Quadro 8. Situações relevantes para diferentes técnicas de pesquisa
Fonte: Cosmos Corporation (YIN, 2005)
Voss, Tsikriktsis e Frohlich (2002) argumentam, ainda, que estudos de casos podem ser utilizados com propósitos diversos, como: exploratório, construção de teoria, teste de teoria e refinamento da teoria. Nesse caso, busca-se testar e refinar a teoria sobre governança na distribuição do setor sucroalcooleiro, com a proposição de que os grupos caracterizam formas de governança em rede.
São objetos deste estudo os grupos de comercialização atuantes na região Centro-Sul do país. Com um estudo de casos múltiplos, aumenta-se a validade externa e evita-se viés (VOSS; TSIKRIKTSIS; FROHLICH, 2002). Desta forma, foram estudados três casos, número relevante considerando-se que são quatro os grupos estruturados que atuam no Centro-Sul. A fim de garantir o sigilo dos que participaram do estudo, nem empresas nem respondentes foram identificados. Quando há identificação de empresas (grupos de comercialização, usinas ou distribuidoras), isto não é feito na descrição dos casos e ocorre somente para discussão de informações públicas, disponíveis em outros trabalhos acadêmicos, sites das mesmas ou notícias.
Por cada caso estudado compreenda-se o grupo de comercialização e sua respectiva rede, composta pelas indústrias associadas ao grupo. Além disso, também se constituem em fonte de informações as distribuidoras de combustíveis que adquirem etanol dessas empresas e entidades representativas.
Os dados não foram coletados de maneira quantitativa, nem seguindo critérios estatísticos, sendo os respondentes selecionados pelo critério de conveniência, ou seja, foram enviadas solicitações a várias empresas e participaram aqueles que deram o aceite. Apesar disso, julga-se que os resultados sejam representativos, já que foram abordados grupos de comercialização, usinas e respondentes de história e importância reconhecidas pelo setor. Além disso, foram abordadas tanto pequenas usinas quanto alguns dos maiores grupos industriais sucroalcooleiros do país.
Vale destacar a dificuldade para se obter o aceite de empresas para participar do estudo. Do lado dos grupos de comercialização, os quatro mais atuantes no Centro-Sul foram contatados, mas só três concordaram em fornecer informações e conceder entrevistas. Com relação às usinas desses três grupos de comercialização, 20 foram convidadas para entrevistas, mas somente cinco aceitaram. Do lado das distribuidoras, foram feitos contatos com cinco empresas, das quais duas aceitaram (as duas do Sindicom). No contato com as empresas, muitas vezes era trocado mais de um email e realizada ao menos uma ligação telefônica no caso de não se obter resposta por email, sendo, quando solicitado pela empresa, enviado também ofício por correio. É preciso lembrar que em cada empresa não necessariamente apenas uma pessoa era entrevistada; por vezes, duas ou mais pessoas participaram da entrevista.
No quadro 9, apresenta-se o protocolo de pesquisa do caso A, assim denominado para manter sigilo sobre as informações repassadas. Foram três entrevistas, cada uma com duração de uma hora a uma hora e meia e sendo realizadas nas sedes das
empresas. Além disso, entrevistas com distribuidoras foram realizadas para validar os resultados.
Unidades de análise
Ambiente institucional (transformações do setor relacionadas à criação do grupo); características do grupo de comercialização (constituição jurídica e histórico);
atributos de rede (características das empresas e das transações entre os atores); coesão e fatores comportamentais dos membros; poder de barganha e relacionamento com distribuidoras.
Entrevistados
- Diretor da empresa coordenadora do grupo de comercialização, com 10 anos de experiência no grupo
- Sócio-superintendente de uma usina associada, com 25 anos de experiência na empresa e participação na UNICA
- Diretor-superintendente de uma usina associada, com 16 anos de experiência na empresa
- Gerente de compras de uma distribuidora de combustíveis associada ao Sindicom, com 10 anos de experiência na empresa
- Trader de uma distribuidora de combustíveis associada ao Sindicom, com 11 anos de experiência no setor
Período Entrevistas com a coordenadora do grupo e com usinas realizadas entre dezembro de 2010 e fevereiro de 2011; entrevistas com distribuidoras realizadas em janeiro e junho de 2011.
Validade dos
constructos Adequação das variáveis à teoria
Validade interna
Múltiplas fontes de dados, com a realização de 5 entrevistas e análise de documentos (site do grupo, site das usinas associadas, informativos e notícias veiculadas na mídia). As entrevistas acompanhavam, também, questionário fechado com variáveis sobre coesão.
Questões Roteiro de entrevista disponível no apêndice
Quadro 9. Protocolo de pesquisa – caso A
Fonte: Elaborado pelo autor
Tendo por objetivo identificar características de rede e analisar a coesão, foram realizadas perguntas seguindo os roteiros de entrevista apresentados no apêndice deste trabalho, cada um adaptado a usina, grupo de comercialização ou distribuidora. Pontos como confiança, cooperação, conexões e comprometimento fizeram parte da análise. Como alguns desses pontos são de difícil externalização pelos respondentes, ao final era aplicado um questionário em que o respondente deveria assinalar, para diversas afirmações, o grau em que esses elementos estavam presentes, em escala de quatro pontos (de muito fraco a muito forte).
Os roteiros de entrevista permitiram caracterizar de maneira qualitativa cada caso, por meio da percepção dos respondentes sobre o setor, as empresas a que pertencem, o grupo de comercialização e seus associados. Desta forma, houve cuidado
na escolha dos respondentes, pessoas em posição de diretoria e/ou que atuassem diretamente no contato com as demais empresas. No quadro 10, apresenta-se o protocolo de pesquisa do caso B, que se diferencia do primeiro quanto aos entrevistados e período de coleta de dados.
Unidades de análise
Ambiente institucional (transformações do setor relacionadas à criação do grupo); características do grupo de comercialização (constituição jurídica e histórico); atributos de rede (características das empresas e das transações entre os atores); coesão e fatores
comportamentais dos membros; poder de barganha e relacionamento com distribuidoras.
Entrevistados
- Diretor da coordenadora do grupo de comercialização, há 5 anos no grupo
- Gerente de planejamento da coordenadora do grupo de comercialização, há 10 anos no grupo
- Coordenador comercial de uma corporação com várias usinas, há 6 meses na empresa mas com 15 anos de experiência no setor; analista de inteligência de mercado da mesma empresa
- Gerente comercial de outra corporação com várias usinas, há 2,5 anos na empresa, mas com 15 anos de experiência no setor
- Gerente de compras de uma distribuidora de combustíveis associada ao Sindicom, com 10 anos de experiência na empresa
- Trader de uma distribuidora de combustíveis associada ao Sindicom, com 11 anos de experiência no setor
Período entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011; entrevistas com Entrevistas com a coordenadora do grupo e com usinas realizadas distribuidoras realizadas em janeiro e junho de 2011.
Validade dos constructos Adequação das variáveis à teoria
Validade interna
Múltiplas fontes de dados, com a realização de 6 entrevistas e análise de documentos (site do grupo, site das usinas associadas e notícias veiculadas na mídia).
As entrevistas acompanhavam, também, questionário fechado com variáveis sobre coesão.
Questões Roteiro de entrevista disponível no apêndice
Quadro 10. Protocolo de pesquisa – caso B
Fonte: Elaborado pelo autor
No quadro 11, é exibido o protocolo de pesquisa do caso C. Neste caso, o número de entrevistas foi menor do que os demais. Entretanto, isto foi compensado por maior acesso a documentos. Foram fornecidos pelo grupo o código interno de conduta e relatórios referentes às operações nos anos de 2009 e 2010.
Unidades de análise
Ambiente institucional (transformações do setor relacionadas à criação do grupo); características do grupo de comercialização (constituição jurídica e histórico); atributos de rede (características das empresas e das transações entre os atores); coesão e fatores
comportamentais dos membros; poder de barganha e relacionamento com distribuidoras.
Entrevistados
- Diretor de comunicação da coordenadora do grupo de comercialização, há 4 meses na empresa
- Supervisor comercial de uma usina, na empresa desde a sua fundação; contador da mesma usina, também atuando nela desde sua fundação
- Gerente de compras de uma distribuidora de combustíveis associada ao Sindicom, com 10 anos de experiência na empresa
- Trader de uma distribuidora de combustíveis associada ao Sindicom, com 11 anos de experiência no setor
Período agosto de 2011; entrevistas com distribuidoras realizadas em janeiro e Entrevistas com a coordenadora do grupo e com a usina realizadas em junho de 2011.
Validade dos constructos Adequação das variáveis à teoria
Validade interna
Múltiplas fontes de dados, com a realização de 3 entrevistas e análise de documentos (código de conduta, relatório de atividades, site do grupo, site de usinas associadas e notícias veiculadas na mídia).
As entrevistas acompanhavam, também, questionário fechado com variáveis sobre coesão.
Questões Roteiro de entrevista disponível no apêndice
Quadro 11. Protocolo de pesquisa – caso C
Fonte: Elaborado pelo autor
Por fim, foi realizada entrevista com dirigente do Sindicom, entidade mais representativa das distribuidoras de combustíveis. Essa entrevista e as realizadas com as distribuidoras foram fundamentais para melhor compreensão do ambiente institucional e para validar os resultados obtidos junto a coordenadoras e usinas.