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Procedimentos e Instrumentos: Decurso de ADD

Capítulo 3 – Resultados

3.1. Análise de conteúdo das entrevistas

3.1.4. Procedimentos e Instrumentos: Decurso de ADD

Quanto à forma como decorre o processo de ADD, os depoimentos eluci- dam as representações dos sujeitos que apontam para um modelo avaliativo de caráter eminentemente sumativo, com certo distanciamento do modelo formati-

vo. Desta forma, a ADD pouco contribui para a melhoria da qualidade de ensino que deveria constituir a sua principal finalidade. Pelas declarações abaixo cita- das, depreende-se que, em termos práticos, a ADD assenta essencialmente no preenchimento de um formulário pelos coordenadores de disciplina com a homologação do professor avaliado, do Diretor da escola e subdiretor pedagó- gico, sem assumir o pendor de desenvolvimento profissional do professor. Logo, identifica-se mais com o modelo de prestação de contas e burocrático:

No final do ano letivo, temos as fichas para assinar, que contêm indica- dores para mostrar como foi o nosso desempenho no decorrer do ano letivo. (XXDFV)

Normalmente (…) dão uma ficha quase no fim do ano, às vezes no prin- cípio do ano, toda preenchida e o professor vem assinar. Mas nem sem- pre está em concordância com aquilo que o professor fez (...). (XXDFG) Os dados revelam também a necessidade de se diversificar os instru- mentos de ADD, evitando desta forma o apego excessivo à observação as aulas como forma única de avaliar o desempenho dos professores:

No que concerne aos procedimentos e instrumentos de ADD, quase todos centraram na observação as aulas. (XYGMI)

Também somos avaliados através das cadernetas (…). No final do ano, eles dão a ficha. (XXDMT)

O coordenador, mais a sua equipe vão para assistir à aula. São duas aulas por trimestre, depois forma-se um processo (ficha, mais o plano de aula anexado) que é encaminhado para a direção pedagógica. (XYCMH) A observação as aulas é um aspeto fundamental da ADD. (XYCMH) Independentemente das afirmações supracitadas que denotam a obser- vação as aulas como a forma básica utilizada para avaliar o desempenho dos professores nestas escolas, outros afirmam existirem outros indicadores como:

Os outros são vistos pela direção da escola, como a pontualidade, apre- sentação, o humanismo… O coordenador da cadeira, não consegue muito bem controlar esta parte porque também nem sempre está lá na escola (...). (XYCMH)

(…) as reuniões de coordenação, as assembleias, os seminários, ativi- dades extraescolares, assistências às aulas, relações públicas, pontuali- dade e assiduidade. (XYCMJ)

Também são avaliados aspetos como a pontualidade e a assiduidade (...). (XXCFL)

Já estou aqui a dizer que este processo é apenas avaliação da aula, deveria abranger todas as situações, (...) aspetos afetivos, socialização (…) para classificar o professor. (XYDMF)

É feita tendo em conta a participação nas reuniões, nas assembleias dos trabalhadores, pontualidade, assiduidade (…) assistência às aulas, rela- ção professor/aluno, professor/professor. (XXDFV)

A ADD deveria funcionar como uma bússola, um termómetro ou um alarme, por medir, orientar e despertar os professores sobre a sua atuação pedagógica. Por isso, deveria responder à necessidade de ser realista ou, ao menos, aproximar-se da realidade, em termos de autoconhecimento e de autor- regulação.

A observação as aulas é realizada pelos coordenadores de disciplina que se apresentam nas aulas previamente avisadas, e pelo subdiretor pedagó- gico que o faz sempre que pode, porém sem prévio aviso, observação- surpresa. Tanto a observação de aulas com aviso prévio como a observação de aula “surpreendida” apresentam desvantagens, partindo do pressuposto de que numa das instituições não foi possível proceder a observação as aulas dentro da semana calendarizada para o efeito no plano de atividades devido a ausên- cia dos docentes quando tivessem conhecimento da visita, o que demonstra que a observação as aulas é ainda mal encarada por muitos professores, já a observação da aula surpresa tende a desconcentrar o professor. A este propó- sito, vejam-se as declarações seguintes:

Normalmente nós acompanhamos algumas aulas, se bem que muitas vezes são mal vistas, o objetivo é de ajudar os professores (…), contri- buir para o desenvolvimento profissional do mesmo. (…) Os encontros de coordenação são mensais, isto facilita a troca de impressões e a reparação de dificuldades por parte dos professores. (...) (XYCFJ)

Ninguém gosta de ser surpreendido, sentimos que o professor fica um pouco desconcertado (...), já surpreendemos professores que passam quinze minutos e os preliminares não estão no quadro, às vezes damos conta que aquela aula nem sequer está planificada (...) vai mentir, vai mutilar os alunos. (XYGMI)

Noutra hora, o professor não aparecia quando soubesse que seria observado a sua aula, mas agora já se vê a assistência as aulas como um aspeto de repreensão para retificar, para o professor compreender o que está bem e o que está mal, onde deve melhorar e onde deve aplicar a remediação (...). (XXGFC)

Há uma contrapartida, um indivíduo avisado, naquele dia não aparece então atrapalha o processo (...). (XYCMJ)

As observações das aulas podem ser avisadas e surpresas. (…) Existem professores resistentes que negam-se em serem observados, durante o ano letivo todo, não gostam de ser acompanhadas e não aceitam uma avaliação negativa. (XYCFJ)

É notório um certo nível de inibição e ceticismo por parte dos sujeitos entrevistados, principalmente dos avaliadores em atribuírem aos colegas men- ções “suficiente, mau”, alegando o facto de terem conhecimentos de que este resultado vir a comprometer a progressão na carreira do colega, pela certeza de esta classificação não produzir efeito algum de aprendizagem, temer repre- sálias quando for destituído do cargo, atribuindo ao processo “mera atividade com caráter burocrático”, como nos confirmam:

Todo mundo tem medo de um dia quando terminar ter uma legião de inimigos. A avaliação ainda não está a cumprir o seu verdadeiro papel, verdadeira função certos gestores têm receios, medos de avaliar corre- tamente por desconhecimento dos procedimentos e distanciamento entre colegas. Temos que admitir que somos humanos, e por mais justos que possamos ser às vezes há aquelas figuras que aplicar-lhes uma classificação de mau, de zero a nove, ou até suficiente… de a nota ter reflexos na vida porque é publicado e se me obrigo a aplicar bom ao pro- fessor que merecia mau, (...) qual é a moral que eu vou ter para aplicar a mesma classificação a outro professor por não ter um sobrenome? O que faço com este devo fazer com todos! (...) Então caímos todos no porreirismo nacional. Bom, bom, bom para todos na escola. (XYGMI)

Muitas vezes têm casos do género BOM, BOM, BOM, é porque, se o indivíduo tiver dois suficientes poderá perigar a sua situação laboral, então alguns gestores agem mais com o coração (...). (XYCMJ)