3. PERCURSOS METODOLÓGICOS
3.3 Procedimentos e instrumentos
O percurso empírico da pesquisa aconteceu por meio de três procedimentos. Estes foram
pensados no intuito de realizarmos a triangulação de perspectivas, que consiste na utilização de
“no mínimo três instrumentos de coleta de dados, ou três perspectivas diferentes” (IVENICKI;
CANEN, 2016, p. 29) no processo da investigação. De acordo com os autores, a triangulação
constitui um dos importantes critérios de rigor na pesquisa qualitativa. Baseados em Denzin e
Lincoln (2006), Ivenicki e Canen (2016, p. 29) afirmam ainda que a triangulação representa
uma “tentativa de assegurar uma compreensão em profundidade do fenômeno em questão”.
Sendo assim, os três procedimentos escolhidos para a realização de nossa pesquisa foram:
a) a observação de aulas de Geografia regulares, nos anos iniciais do Ensino Fundamental do
INES;
b) a realização de sessão de grupo focal com professores regentes de turmas do primeiro
segmento do Ensino Fundamental do INES;
c) a criação e realização da Oficina de Geografia, coordenada pela professora – pesquisadora,
com participação de uma professora do primeiro segmento e colaboração de uma professora
surda.
Q
UADRO3.P
ROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS E PERÍODO DE REALIZAÇÃOProcedimentos metodológicos da pesquisa Período de Realização
Observação de aulas regulares no SEF -1 Setembro a dezembro de 2017
Grupo Focal com professores do SEF- 1 Novembro de 2017
Oficina de Geografia com duas turmas do 5º
ano Março a setembro de 2018
Fonte: elaborado pela autora
Importante destacar que, antes de iniciar os procedimentos de investigação, o projeto de
pesquisa foi apresentado a todos os professores do SEF 1 do INES, em agosto de 2017, em uma
reunião com duração de 1 hora.
a) Observação
Como procedimento inicial, foram observadas um total de 90 horas/aulas, de 45 minutos
cada, em quatro turmas diferentes: 1º, 2º, 3º e 4º ano do Ensino Fundamental (ver quadro 2),
distribuídas nos dois turnos (manhã e tarde), durante os meses de setembro, outubro, novembro
e dezembro de 2017. Nesse período, ficou acordado, entre a pesquisadora e os professores das
turmas, que a observação teria 3h/a semanais em cada turma pesquisada. Nessas aulas, os
docentes se organizaram para desenvolver os conteúdos relacionados ao currículo de Geografia.
Importante relatar que não estivemos presentes em nenhuma turma de 5º ano, tendo em vista
que escolheríamos uma das turmas observadas para a realização da Oficina de Geografia, no
ano de 2018. Os estudantes do 5º ano, por sua vez, passariam para o segundo segmento do
Ensino Fundamental no ano seguinte, invalidando o acompanhamento.
As observações de aulas regulares foram realizadas no intuito de obter pistas acerca das
especificidades existentes na construção do conhecimento em Geografia com alunos surdos,
em distintas fases dos anos iniciais. Por meio das observações também buscamos refletir sobre
particularidades pedagógicas envolvidas nesse processo. Segundo Gil (2008), a observação
constitui elemento fundamental para a pesquisa e apresenta como principal vantagem a
percepção direta dos fenômenos, sem qualquer intermediação. Lüdke e André (1986) também
corroboram com a importância desta técnica nas pesquisas qualitativas, destacando que a
observação direta permite ainda a percepção das perspectivas dos sujeitos investigados.
Outro importante ponto destacado pelas autoras, no tocante à técnica da observação,
consiste na definição do grau de envolvimento e participação do observador na realidade
investigada. Lüdke e André (ibidem) ressaltam que pode acontecer do pesquisador começar o
trabalho como um espectador e tornar-se gradualmente um participante. No entanto, assinalam
que também é possível ocorrer o contrário, havendo “uma imersão total na fase inicial do estudo
e um distanciamento gradativo nas fases subsequentes” (p. 28).
A nossa observação transcorreu de modo semelhante à primeira opção apontada por
Lüdke e André. Por se tratar da primeira etapa da pesquisa, iniciamos com uma postura de
maior observação, no entanto, o próprio método de pesquisa-ação escolhido direcionou-nos a
momentos de conversas com alunos e professores, bem como realização de atividades
pedagógicas, em algumas turmas, no último mês de observação, configurando-se como uma
observação participante. Neto (2002, p. 59) assinalada que “a técnica de observação participante
se realiza através do contato direto do pesquisador com o fenômeno observado para obter
informações sobre a realidade dos atores sociais em seus próprios contextos”. O autor também
salienta que por fazer parte do ambiente de observação, é estabelecida uma relação face-face
entre pesquisador e pesquisados. Nesse processo, o pesquisador, “ao mesmo tempo, pode
modificar e ser modificado pelo contexto” (idem).
Q
UADRO4.Q
UANTITATIVO DE HORAS/
AULAS ACOMPANHADAS NA ETAPA DE OBSERVAÇÃOFonte: elaboração da autora
Para o registro, utilizamos dois instrumentos: o Protocolo de Observação de Interação e
Atividades (KELMAN, 2005), que constitui o anexo 1 desta tese, e o caderno de campo. O
Protocolo foi utilizado na sala de aula, a fim de registrar o desenvolvimento das aulas e a
interação entre alunos, professores e pesquisadora. Em momentos posteriores, em casa ou no
próprio local de pesquisa, alguns acontecimentos anotados no protocolo foram aprofundados
em caderno de campo, onde puderam ser mais detalhados. Optamos por realizar o registro desta
forma, tendo em vista a dificuldade de se fazer anotações pormenorizadas, no momento em que
estávamos em interação com os sujeitos pesquisados.
Cabe destacar uma dúvida que tivemos para o registro dos diálogos em Libras, que
ocorreram nas aulas. Algumas questões nos preocupavam: como reconstruir os diálogos,
utilizando-se das próprias palavras dos sujeitos, conforme sugerem Bogdan e Biklen (1982
apud LÜDKE; ANDRÉ, 1986), se isso implica a interpretação da pesquisadora acerca das
sinalizações dos estudantes? Como reproduzir no caderno de campo a riqueza de uma língua
visuo-gestual, que envolve as mais variadas expressões faciais e corporais? De fato, pela própria
característica da Libras, a maioria das pesquisas com surdos utilizam-se de registros
videogravados, o que foi realizado ao longo da Oficina de Geografia, última etapa da pesquisa.
No entanto, como a observação tratou-se da primeira fase de pesquisa e inserção no campo,
entendemos que a presença de câmeras poderia configurar-se como um aspecto invasivo. Desse
modo, alguns trechos do caderno de campo, que serão destacados na análise dos dados da
14Não conseguimos observar as mesmas quantidades de hora/aula nas diferentes turmas, uma vez que houve feriados e ausência de professores, por participação em Congresso, que coincidiram com os dias e horários pré- combinados para a observação.
Turma Hora/aula
141º ano
(turno: tarde) 18 h/a
2º ano
(turno: manhã) 30 h/a
3º ano
(turno: tarde) 18 h/a
4º ano
(turno: manhã) 24h/a
observação, não apresentam falas diretas dos alunos, mas sim a descrição da pesquisadora
acerca do que foi visto e sinalizado pelos estudantes surdos.
Na análise dos dados da observação, trabalhamos em um viés construtivo-
interpretativo, “em que nenhuma expressão do sujeito pode ser tomada de forma direta pelo
pesquisador fora do contexto geral em que se produz” (REY, 2005, p. 91). Atentamo-nos
também às considerações de Freitas (2002, p. 28), quando aponta que, em uma abordagem
histórico-cultural, “a observação não se deve limitar à pura descrição de fatos singulares, o seu
verdadeiro objetivo é compreender como uma coisa ou acontecimento se relaciona com outras
coisas e acontecimentos”. Deste modo, percebemos similaridades em situações registradas,
sendo possível agrupá-las e definir três eixos de discussão: corporeidade e imagens na
elaboração de relatos; sinais e construção de sentidos em Geografia; cartografia e alunos surdos
– relações (não) construídas pela segunda língua. Procuramos também seguir as recomendações
de Vianna (2003, p. 98), quando destaca que na observação “é interessante para a análise
estabelecer-se uma relação entre teorias e dados, sem engessar os dados pela teoria”.
b) Grupo Focal
Em novembro de 2017, organizamos uma sessão de grupo focal com sete professores
atuantes no SEF 1 do CAP/INES. De acordo com Gatti (2005), o grupo focal consiste na seleção
de um grupo de pessoas, que são reunidas por pesquisadores para discutir um tema – que é o
objeto da pesquisa -, embasadas em suas experiências pessoais. O uso desta técnica em nossa
pesquisa visou identificar, através da fala dos professores: a) o que eles observam quanto ao
aprendizado e construção de sentidos dos alunos surdos nas aulas de Geografia; b) quais as
dificuldades no processo ensino – aprendizagem; c) quais métodos e materiais são utilizados
nas aulas de Geografia; d) o que é esperado em termos de desenvolvimento dos alunos.
É importante justificar a escolha pela realização de um grupo focal ao invés de
entrevistas individuais com os docentes. Primeiramente, grupos focais são produtivos em
abordagens de pesquisa-ação (BARBOUR, 2009). A pesquisa-ação sugere a comunicação e
compartilhamento entre pesquisador e sujeitos acerca das questões que movem a pesquisa.
Desse modo, entendemos que, proporcionar um ambiente coletivo para debate poderia seria um
caminho mais interessante. Baseamo-nos também em Bauer e Gaskell (2017, p. 76) quando
assinalam que “o grupo focal é um ambiente mais natural e holístico em que os participantes
levam em consideração os pontos de vista dos outros na formulação de suas respostas e
comentam suas próprias experiências e a dos outros”. Os autores ainda destacam que
“na situação grupal, a partilha e o contraste de experiências constrói um quadro de interesses e
preocupações comuns que, em parte experienciadas por todos, são raramente articuladas por
um único indivíduo” (ibidem, p. 77). Desse modo, como a pesquisa também visava a
organização de uma Oficina de Geografia, o grupo focal seria um procedimento interessante
para a mobilização dos professores acerca da temática pesquisada, bem como a discussão a
respeito das possibilidades pedagógicas para o ensino de Geografia nos anos iniciais.
Optamos pela participação de apenas sete professores, uma vez que Backes et al (2011)
recomendam que, para aprofundar-se nas percepções dos sujeitos, grupos menores são mais
indicados. Os professores foram escolhidos levando em conta que estavam, no ano de 2017,
atuando com os conteúdos de Português, História e Geografia
15. Também compôs o grupo um
professor surdo, que ministrava a disciplina Libras. Como a disciplina de Libras entra em
interface com diferentes conhecimentos, inclusive os de Geografia, consideramos importante
convidar um professor surdo, lotado no SEF-1, para também trazer as suas percepções acerca
do assunto discutido.
A participação do professor surdo implicou na necessidade de interpretação simultânea.
Desse modo, foram contratadas duas intérpretes que atuaram, em esquema de revezamento, ao
longo de toda a sessão. A fim de contemplar o discurso do professor surdo, utilizamos, além de
dois gravadores de voz, uma câmera para o registro em vídeo da sessão. Foram registrados
1h31min de discussão. Conforme orientação de Gatti (2005), também tivemos uma auxiliar de
pesquisa que atuou como relatora, contribuindo com registros escritos das discussões e falas
dos participantes. Isso foi necessário tendo em vista a inviabilidade da pesquisadora, enquanto
mediadora do grupo focal, realizar anotações pormenorizadas em tempo real.
É importante ressaltar que nossa intenção inicial era realizar duas sessões de grupo focal
com estes participantes, ao final do ano de 2017. Gatti (2005) afirma que com uma ou duas
sessões já é possível ter informações necessárias para uma boa análise. No entanto, para que
conseguíssemos reunir os sete professores em um mesmo dia e horário, estes tiveram que ser
dispensados da reunião de Orientação Pedagógica, que acontece semanalmente. Na
impossibilidade de haver outra dispensa, devido às demandas surgidas com o final do ano letivo
no INES, não conseguimos realizar outra sessão em 2017. Pensamos na realização de um outro
encontro em 2018, contudo, já idealizávamos iniciar a Oficina de Geografia no início do
15Atualmente, no SEF – 1 do INES, as turmas (exceto 1º ano) possuem docentes que se dividem por áreas de
conhecimento: Português, História e Geografia ou Matemática e Ciências. Além desses dois docentes, cada turma também conta com professores que atuam com as disciplinas de Artes, Educação Física e Libras (professor surdo).
semestre
16e gostaríamos da contribuição dos professores para o planejamento da oficina. Nesse
sentido, na mesma ficha em que solicitamos as informações básicas dos docentes, inserimos
duas perguntas, a fim de que pudéssemos suplementar algumas informações (Apêndice 2)
17.
Para análise do material transcrito do grupo focal e das respostas do questionário,
baseamo-nos nos pressupostos da análise de conteúdo de Bardin (2002). De acordo com a
autora, esta técnica compreende três fases: 1) pré-análise - que consiste na etapa de organização
do material; 2) a descrição analítica – com estudo aprofundado acerca do material que constitui
o corpus da pesquisa; e 3) tratamento dos resultados, inferência e interpretação. A realização
destas etapas resulta na elaboração de categorias interpretativas. De acordo com Franco (2018),
existem dois caminhos que podem ser seguidos para a elaboração de categorias na análise de
conteúdo: categorias criadas a priori e categorias não definidas a priori. Em nossa análise,
realizamos uma hibridização destas duas possibilidades. Ao debruçar-nos sobre o material
transcrito da discussão grupal, adotamos a segunda opção, que consiste em definir categorias a
partir da “fala, do discurso, do conteúdo das respostas e implicam constante ida e volta do
material de análise à teoria” (p. 65). Já na análise das respostas do questionário suplementar
enviado aos professores, o próprio direcionamento das perguntas contribuiu para uma definição
prévia de categorias.
Os resultados desta etapa, além de já apresentarem importantes dados da investigação,
auxiliaram a delinear o planejamento da última fase da pesquisa, a Oficina de Geografia.
c) Oficina de Geografia
Em março de 2018, iniciamos a Oficina de Geografia. Optamos por realizar estas
atividades pedagógicas com a turma que, no período de nossa observação, em 2017, estava no
4º ano. Algumas das razões para essa escolha foram: a boa relação estabelecida entre
pesquisadora e alunos no ano anterior e a qualidade da aquisição de Libras pelos estudantes, o
que favorece os processos comunicacionais e pedagógicos. Em fevereiro de 2018, me reuni
com a professora responsável pela turma - então no 5º ano - que aceitou prontamente participar
da Oficina. No entanto, na mesma conversa fui informada que a turma tinha se desmembrado
em duas, tendo em vista o remanejamento de alunos da tarde para o 5º ano da manhã e a chegada
16 A mudança de ano também conferiu mudanças ao grupo. Houve um professor que saiu do Instituto, pelo término
do seu contrato temporário e outros que, no ano anterior, estavam lecionando Português, História e Geografia, e passaram, em 2018, a lecionar Matemática e Ciências.
17Não recebemos a tempo da elaboração da Oficina de Geografia, a resposta do questionário complementar de
uma professora participante do grupo focal. No entanto, como esta docente foi ativa na discussão grupal, tal fato não inviabilizou a manutenção da mesma como sujeito de pesquisa.
de alunos externos. Deste modo, decidimos realizar a Oficina nas duas turmas de 5º ano do
turno da manhã, que aqui serão nomeadas como turma A e turma B.
Para garantir a presença dos estudantes, foi necessário desenvolver as atividades no
horário regular das aulas. Desse modo, realizamos a Oficina de Geografia, quinzenalmente,
durante os meses de março a setembro de 2018, compreendendo um total de 10 encontros com
cada turma, com média de 1h20min a 2horas de atividades, por sessão. As oficinas foram
registradas por meio de gravação em vídeo, contabilizando aproximadamente 25horas de
gravação. Vale lembrar que este não consiste no tempo total de realização das atividades, uma
vez que o 3º encontro da Oficina transcorreu em um Trabalho de Campo pela cidade do Rio de
Janeiro, das 8h às 12h. Devido a questões técnicas e de segurança, só foi possível registrar, por
meio de vídeo, poucos minutos dessa atividade.
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UADRO5.T
EMPO DE GRAVAÇÃO DASO
FICINAS DEG
EOGRAFIASequência das Oficinas
Tempo de Gravação
Total
Turma A Turma B
Oficina 1 - (05/03/2018) 1h20min. 1h45min. 3h5min.
Oficina 2 - (19/03/2018) 1h22min. 1h50min. 3h12min.
Oficina 3 - (04/04/2018) 14min. 14min.
Oficina 4 - (16/04/2018) 1h52min.
181h52min.
Oficina 5 - (15/05/2018) 1h20min. 1h33min. 2h53min.
Oficina 6 - (04/06/2018) 1h33min.
191h33min.
Oficina 7 - (18/06/2018) 1h25min. 1h35min. 3h
Oficina 8 – (turma A:
16/08/2018; turma B:
13/08/2018)
1h44min. 1h51min. 3h35min.
Oficina 9 – (27/08/2018) 1h37min. 1h25min. 3h02min.
Oficina 10 – (13/09/2018) 1h22min. 1h02min. 2h24min.
24h50min.
Fonte: elaboração da autora
O objetivo da Oficina de Geografia consistiu em analisar os estudantes surdos em meio
ao processo de construção de conhecimentos, propor metodologias para o desenvolvimento de
18Devido à baixa quantidade de alunos, a Oficina 4 foi desenvolvida em conjunto com as turmas A e B.