CAPÍTULO 3. METODOLOGIA
3.4. Procedimentos e instrumentos utilizados na coleta de dados
Lieblich et al. (1998, p.2) explica que a pesquisa com narrativas envolve tanto textos orais, resultantes de entrevistas, quanto os escritos por uma pessoa ou por uma outra que observa e escreve notas de campo. A narrativa pode ser o objeto da pesquisa ou um meio para a investigação de uma outra questão. Segundo essas autoras (p.9), o uso da metodologia narrativa resulta em uma grande quantidade de dados - únicos e ricos, que não podem ser obtidos através de experimentos, questionários ou observações - e que podem ser analisados através de uma miríade de dimensões.
O principal instrumento de coleta de dados deste estudo foi entrevistas individuais semiestruturadas, gravadas em áudio, que geraram narrativas sobre as experiências e percepções das participantes. Além de permitirem uma interação rica entre pesquisador e colaboradores, entrevistas semiestruturadas proporcionam maior flexibilidade e emergência de tópicos não previstos pelo pesquisador (ABRAHÃO, 2006, p. 223). Como lembra Juarrero (1999, p. 226), quanto mais o interpretador conhece o agente, as circunstâncias em torno de seus comportamentos e como os dois interagem, mais tranquilo e seguro será o processo de reconstrução do espaço de possibilidades do agente.
Com exceção da primeira entrevista (Apêndice 1), as demais (Apêndice 2) foram realizada após as sessões de visionamento das gravações, em vídeo, das aulas. As sessões de visionamento funcionaram como instrumento mediador entre pesquisadora e entrevistadas, bem como ferramenta para promover a reflexão acerca dos eventos ocorridos na sala de aula.
Outra fonte de material documentário foram observações das aulas. Conforme sugerido por Abrahão (2006, p. 225), a observação possibilita documentar sistematicamente as ações e as ocorrências que são particularmente relevantes para as questões e tópicos da investigação. Concomitante às observações, foram registradas
notas de campo, tecendo minhas apreciações sobre os eventos da sala de aula, procurando remontar o rol de alternativas disponíveis às professoras, especialmente aquelas que não eram percebidas por elas.
3.4.1. Processo de coleta de dados
A coleta dos dados foi realizada no primeiro semestre de 2012. Primeiramente, as professoras e a direção das escolas receberam a carta-convite (Apêndices 3 e 5) e, concordando com a pesquisa, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE (Apêndices 4 e 6). A seguir, as professoras foram entrevistadas individualmente (Apêndice 1), em horário e local de suas preferências. Essa primeira entrevista teve como objetivo documentar as histórias pessoais das professoras a partir de suas percepções sobre si mesmas, assim como de suas experiências anteriores e atuais, de aprendizagem e ensino, de modo a traçar um perfil pessoal e profissional das mesmas.
Após essa entrevista inicial, visitei as turmas - escolhidas pelas professoras – e me apresentei aos alunos, explicando os objetivos da pesquisa, assim como a necessidade de gravação em vídeo das aulas, assegurando que as imagens seriam usadas apenas para fins de pesquisa e que o foco das gravações seria a professora.
Feito o contato inicial, comecei a observar as aulas, inicialmente, sem filmagens para que alunos e professoras se ambientassem com minha presença. A partir da terceira observação, as aulas passaram a ser gravadas em vídeo. Juntamente com as observações, anotações de campo documentaram as interações mais relevantes. Seguindo os procedimentos de Miccoli (1997), as gravações em vídeo orientaram a organização das entrevistas. Na tentativa de responder às perguntas desta pesquisa, um roteiro foi elaborado (Apêndice 2). No entanto, como característico de entrevistas semiestruturadas, outras perguntas emergiram a partir dos eventos vivenciados em sala de aula, assim como de minhas observações. A partir das gravações, foram elaborados
scripts dos vídeos das aulas descrevendo os eventos principais (Apêndice 7). Assim, as
perguntas que guiariam a entrevista subsequente se baseavam no roteiro pré- estabelecido e também nesses scripts, além das experiências relatadas na entrevista anterior. A elaboração de perguntas foi feita tendo em base os seguintes propósitos: 1) estabelecer o espaço de possibilidades das professoras, tentando levantar suas alternativas de ação; 3) verificar a autopercepção das professoras a partir do que fazem e
vivenciam em sala de aula; 4) proporcionar às participantes um possível momento de reflexão sobre suas atuações em sala de aula, reconstruindo suas experiências ao contá- las.
As entrevistas ocorreram a cada duas aulas observadas, organizadas da seguinte maneira: (a) observação de uma aula por semana a fim de se estabelecer contato semanal com as professoras e as turmas e (b) preparação e realização das entrevistas na semana subsequente. As professoras escolhiam o melhor dia, horário e local para serem entrevistadas. As professoras da escola pública – Diana e Maria - optaram, inicialmente, por serem entrevistadas em suas residências. Depois, as entrevistas aconteceram em minha casa devido ao barulho da casa de Diana, o que interferia na qualidade das gravações, e à mudança de Maria para outra cidade, como já mencionado. Já as professoras da escola particular – Lola e Lia – preferiram ser entrevistadas na própria escola.
Para que as professoras pudessem se organizar, preparei, para cada uma delas, um calendário de observações e entrevistas (Apêndice 8). Ainda assim, houve alterações devido a imprevistos ao longo do semestre, incorrendo na diminuição do número de aulas a serem observadas (dez para nove), bem como no número de entrevistas referentes às aulas observadas (cinco para quatro). De modo geral, o fator principal para as alterações foi a coincidência entre provas e aulas a serem observadas, apesar do calendário de observações e entrevistas ter sido entregue antes do início das observações. Não só provas de inglês, mas também provas de outras disciplinas acabaram por interferir no número de aulas e entrevistas programadas. Diana, por exemplo, teve uma de suas aulas tomadas devido à aplicação da prova Brasil de português. A escola particular adotava, no período da coleta de dados, um sistema global de provas, agendadas pela coordenação, incorrendo na realização de provas de outras disciplinas (ou simulados de vestibular) durante algumas aulas de inglês. No caso de Lola, foi possível manter o número programado de observações (nove) e entrevistas (quatro), mas Lia teve seu calendário alterado. Além dessa coincidência entre provas e observações, imprevistos de cunho pessoal também acabaram por determinar alterações no calendário. Maria, como já mencionado em sua descrição, deixou a turma e a escola durante a realização da pesquisa, incorrendo na diminuição de observações (sete ao invés de nove) e entrevistas (três ao invés de quatro). Já Lia teve um imprevisto de
saúde durante a coleta de dados, precisando ser internada, resultando na redução do número de observações (sete ao invés de nove) e entrevistas (três ao invés de quatro).
Em síntese, Diana, da escola pública, e Lola, da escola particular, tiveram nove aulas observadas e gravadas em vídeo e cinco entrevistas (uma sobre as experiências pessoais e quatro referentes às aulas observadas) e Maria, da escola pública, e Lia, da escola particular, tiveram sete aulas observadas e gravadas e quatro entrevistas (uma sobre as experiências pessoais e três referentes às aulas observadas). Diana ofereceu, ainda, um depoimento escrito sobre o incidente de incêndio na sala dos professores.
Vale ressaltar que essa diminuição do número de aulas observadas e entrevistas não incorreu em prejuízo para a coleta de dados. Ainda assim, obteve-se uma amostra significativa de experiências de ensino (194 páginas de transcrição de entrevistas, digitadas em espaçamento simples entre linhas), que geraram dados ricos e frutíferos, capazes de atender aos objetivos da pesquisa.
A TABELA 1 apresenta o período das observações de aulas e a TABELA 2 as datas e durações das entrevistas.
Professora Março Abril Maio Junho
Diana 19, 29 9, 16, 26 14, 28 4, 11
Maria 8, 15, 29 12, 26 3, 17 ---
Lola 20, 22 3, 10, 24 15, 22 12, 19
Lia 20 3, 24 15, 22 5, 12
TABELA 1: Datas das observações das aulas
Professora Entrevista 1 Entrevista 2 Entrevista 3 Entrevista 4 Entrevista 5
Diana 29/02 46 min 41s 03/04 25 min 36 s 24/04 33 min 34 s 05/06 41 min 23 s 26/6 27 min 57 s Maria 28/02 24 min 52 s 21/03 29 min 04 s 19/04 22 min 40 s 11/06 30 min --- Lola 01/03 51 min 58 s 26/03 31 min 56 s 20/04 35 min 14 s 04/06 1h 35s 29/06 30 min 31 s Lia 08/03 40 min 29/03 28 min 19 s 03/05 36 min 59 s 28/06 22 min 59 s --- TABELA 2: Data e duração das entrevistas