Capítulo II: Componente Empírica
6. Estudo I (Estudo Central)
6.4. Procedimentos e Método
Em termos de processualismos associados ao Estudo I da presente dissertação foi adoptada uma abordagem directamente implícita à utilização de métodos e instrumentos novos, em sets naturalísticos, não artificializados. A proposta central do projecto, focada numa recolha não laboratorial, promoveu uma abordagem ecológica e etariamente representativa, contabilizando, sempre, a persecução dos objectivos últimos de estudo. Isto envolveu várias etapas. A escolha do material de exposição/estimulação tornou-se a primeira fase de investigação, com o estabelecimento de alguns critérios a priori, passíveis de enformar tal decisão. Na óptica de influência mediática noticiosa que tem sido primária à dissertação, optou- se por se amostrar um segmento televisivo de um telejornal, nacional, de entre os canais com melhor organização, historial e arquivo mediático; isto serviu de filtro à exclusão do canal CMTV, pela falta de sequencialização e ordenamento cronológico disponibilizado ao público. Subsequentemente, foram utilizados critérios de audiência. De entre os principais canais que apresentam um formato televisivo integrador de um telejornal, foram seleccionadas as estações televisivas da RTP1, SIC e TVI e, numa filtração intrínseca a estas, direccionada à maior audiência obtida no índice GFK de 2016, optou-se por se utilizar o telejornal da TVI como fonte de estimulação para o presente trabalho (TVI = 4,3%, n = 414.185 vs. RTP1 = 2,7%, n =
263.889 vs. SIC = 3,5%, n = 339.221). Uma vez finalizada a anterior etapa, foram estabelecidos
72 activadoras, na sua representação mediática, foram as tipologias de homicídio e terrorismo, com médias de activação situadas entre os 5,44 e os 6,39, numa escala de 7 pontos. Por conseguinte, e tendo em conta o destaque mediático dado à problemática terrorista nos últimos anos, tornou- se imperativo utilizar um segmento noticioso datado de um período rico em acontecimentos desta natureza. Alguns candidatos abrangiam os ataques de Londres, os ataques de Barcelona e o ataque de Nice. Tendo em conta a cobertura mediática de cada um deles e tendo em conta os períodos temporais em que ocorreram, acabou por ser selecionado o ataque de Nice, datado de 14 de Julho de 2016, pela heterogeneidade de vítimas que provocou e pelo maior distanciamento temporal que representava da actualidade. Após esta selecção inicial, foi necessária a promoção de uma edição da componente de estimulação, uma vez que a totalidade do segmento noticioso comportava uma duração de, aproximadamente, 67 minutos, passível de induzir os participantes em estados de fadiga, cansaço e frustração cognitivas e afectivas. Adicionalmente, a própria disponibilidade dos participantes condicionou a utilização do segmento na sua totalidade. À vista disto, foram utilizados os primeiros 41 minutos para a estimulação experimental. Uma vez seleccionado e editado o vídeo, procedeu-se à sua introdução no protocolo experimental, juntamente com as questões da medida auto-reportada (post-measure). Previamente ao estudo ser lançado, concretamente, foi aplicada uma pré- medida, auto-reportada, de autoritarismo aos participantes, utilizando-se, para isso, um conjunto de itens representativos retirados da escala de Adorno et al. (1950). Este evento ocorreu uma semana antes do lançamento. Posteriormente, o estudo foi activado numa interface de software que pressupõe a utilização de uma unidade de estimulação (computador ou televisão), um sensor – carregado antes de cada estudo - e um smartphone equipado com uma aplicação simbiótica ao mesmo. Assim, na data de disponibilização do estudo, este tornou-se livre para acesso no telemóvel de cada participante que, após a sua aceitação, deveria seguir um conjunto de instruções fornecidas com o sensor – pessoal e intransmissível – colocando-o na sua mão não dominante e acedendo à área de visualização (área de estimulação) através do seu computador. Foi pedido a cada sujeito que na preparação do estudo se situasse num espaço familiar, tranquilo, confortável e sem nenhuma distracção e que manipulasse a aplicação à medida que era exposto ao estímulo. Isto significa que, aquando da visualização do vídeo no
dashboard dos seus computadores, os sujeitos poderiam ir classificando o conteúdo/forma
visualizado de acordo com o seu nível de agradabilidade/desagradabilidade percepcionado –
like/dislike – numa componente de mensuração semelhante a uma mensuração hedónica. As
73 de batimentos cardíacos por minuto (bpm) a ser captado por meio de uma unidade óptica colocada nas extremidades do corpo, e respostas de condutância electrodérmica da pele, enquanto comportamento resistivo da pele na palma das mãos, dependente da actividade de glândulas sudoríparas, passível de ser afetada por estímulos auditivos e estímulos visuais relevantes. De notar é ainda o facto do software utilizado ter permitido uma captação métrica contínua – fisiológica e declarativa – o que significa que foi possível o estabelecimento de padrões de resposta sincronizados, segundo a segundo, face ao conteúdo de estimulação. Tal como aconteceu no estudo piloto, o protocolo utilizado correu um conjunto de instruções alusivas ao seu conteúdo e modos de tramitação da experiência e integrou, similarmente, uma cruz de fixação “+” (cross-fixation) com o propósito de alocar os recursos atencionais dos participantes, garantindo que o seu olhar estava focado no ecrã. Durante esta fase, com duração aproximada de 1minuto, foram recolhidos os níveis referenciais de HR e EDA, sem- estimulação – baseline – e, de seguida, deu-se início à unidade de estimulação para cada sujeito, individualmente. Quando a visualização do segmento noticioso terminou os sujeitos responderam a um conjunto de questões relacionadas com os seus hábitos de exposição
mediática, atitudes autoritárias-libertárias e atitudes imigratórias. Como nota final, os mais
rigorosos trâmites éticos da investigação científica foram assegurados, no presente estudo, com a assinatura de consentimentos informados, pré-protocolares, descritivos dos principais pontos de anonimato – com devida etapa de codificação - confidencialidade e voluntariedade inerentes à experiência e, no sentido de se promulgar uma correcta investigação científica.