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CAPÍTULO 1 – UM OLHAR CONTIGENCIAL: DE ONDE SE FALA E SE

1.2 A DESESTABILIZAÇÃO DE CERTEZAS: A CONSTRUÇÃO DA PESQUISA

1.2.2 Narrativas sinalizadas e a tessitura da investigação

1.2.2.1 Procedimentos e sessões dialogadas: a captura das narrativas

Os critérios para convidar os professores surdos para esta investigação foram a sua participação na construção da proposta de educação bilíngüe no IF-SC (LIBRAS e Língua

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portuguesa) e o traço identitário que Gladis Perlin (1998a, p.63)38 denomina de “identidade política surda” – para a autora, “trata-se de uma identidade que se sobressai na militância pelo específico surdo. É a consciência surda de ser definitivamente diferente e de necessitar de implicações e recursos completamente visuais.”

O grupo de narradores iniciou composto por cinco (5) professores surdos que ministram a disciplina de LIBRAS para diferentes cursos, entre outras disciplinas (Geografia, Matemática, Ciências, etc). Essas disciplinas são bem diferenciadas entre eles. A experiência profissional dos professores também é variada, vai de três (3) a dez (10) anos de atuação na Educação; há duas categorias funcionais: duas (2) professoras e um (1) professor efetivos e uma (1) professora e um (1) professor substituto. A formação dos professores é em nível superior, sendo a maioria pós-graduada ou em curso: (1) Graduado, (1) Especialização e (3) Mestrado. Ao longo da pesquisa, os professores substitutos finalizaram seus contratos de trabalho com o IF-SC, justificando o impedimento de continuarem suas participações na pesquisa por assumirem outros compromissos profissionais.

Dentre os professores que continuaram na pesquisa, uma é de Porto Alegre e passou a residir em Florianópolis com seu ingresso como professora efetiva do IF-SC, sendo os outros dois residentes permanentes. Os três participam do NEPES como pesquisadores. Para apresentação das narrativas definiu-se, por sugestão dos professores, não identificar a autoria das narrativas, sendo designados NARRADOR 1, NARRADOR 2 e NARRADOR 3 quando se recorrer aos excertos/fragmentos para os capítulos de análise apresentados na Parte B da tese.

Constituído o grupo, utilizamos o procedimento de montar uma composição de fotos escolhidas por eles, em seus acervos particulares e no acervo do NEPES, que seriam motivadoras para a produção de suas narrativas em futuras entrevistas. As composições de

38 Perlin (1998) , em sua dissertação de Mestrado, procurou (re)construir, conforme o título indica (Histórias de

vida surda:identidades em questão,) a heterogeneidade surda. A autora descreve pelo menos cinco representações de identidades: identidades surdas assumem os aspectos políticos da diferença, recriam a cultura visual, militam pelo específico surdo e têm consciência das implicações de sua diferença em termos políticos e sociais; identidades surdas híbridas, constituídas por pessoas que se tornaram surdas, mas “conhecem uma forma ontológica de existir através da experiência da audição”; identidades surdas de transição, constituídos de surdos que “foram mantidos sob o cativeiro da hegemônica experiência ouvinte e que passam para a comunidade surda [...] e ficam com seqüelas de representação”; identidades surdas incompletas negam a representação surda, consideram a ouvinte superior e tentam reproduzi-la; identidades flutuantes, que não partilham nem da comunidade ouvinte, e nem da comunidade surda, por não dominarem nem o português e nem a língua de sinais, permanecendo em uma condição intervalar.

fotografias39 rememorando o contexto de nossas atividades curriculares da proposta de educação bilíngüe nos levariam a eixos aglutinadores a serem problematizados quanto a alguns aspectos políticos da diferença surda nos saberes da escola para a comunidade surda. Suspeitava-se que, dessa maneira, teríamos um primeiro exercício capaz de estabelecer conexões de orientação para as sessões coletivas, as narrativas propriamente ditas para alcançar a materialidade de alguns aspectos que nos levassem à reflexão sobre a construção curricular bilíngüe segundo o olhar desse grupo de professores.

Vale salientar a dificuldade do exercício de selecionar as fotos trazidas e o seu agrupamento primeiramente por mim, depois de exaustivas observações. Esse momento teve como fim estabelecer eixos norteadores que permitiriam levar às sessões dialogadas, para chegar posteriormente às narrativas surdas. Antes, porém, das sessões, em avaliação, optamos por duas composições (composição visual de cada entrada dos Capítulos de análises 3 e 4), após extensas e exaustivas discussões, em função da particularidade de cada olhar. Alcançamos esse acordo frente a indicativos que diziam alguma coisa sobre o objeto de estudo, ou seja, motivar a orientação das narrativas sobre a proposta bilíngüe em construção no que tange às questões curriculares vivenciadas pelos próprios professores. Com esse procedimento, optamos por dois eixos: eixo 1 – As linguagens e a comunicação visual do surdo; e eixo 2 – Espaços de conflito entre a proposta curricular bilíngüe e a política inclusiva. Cada um dos eixos levou a sessões dialogadas coletivas, que foram transcritas na modalidade escrita da língua portuguesa. Para tanto, foram elaborados esquemas40 (Anexos II e III) norteadores das sessões coletivas. Com essas transcrições prontas chegou o momento de escolher os excertos que “costurassem” a tessitura dos capítulos de análises. Nesse caminhar pelas leituras das narrativas já traduzidas, aconteceram, paralelamente, leituras de autores, vozes interlocutoras, propiciando outros destaques, ou seja, outros enunciados que emergiam dos materiais e me balizaram na produção da narrativa que constitui a tese.

Em cada enunciado novo que se apresentava nessas narrativas, os escritos de Foucault (1988, p. 56) faziam mais sentido para mim. O autor escreve sobre “os discursos como um

39 Considero relevante esclarecer que as composições fotográficas não têm a intenção de contar a história até aqui construída da Proposta Bilíngüe do IF-SC. E não estou entendendo essa forma de utilizar o texto fotográfico como tema de investigação ou mesmo como fonte de dados, à maneira como são utilizadas, por exemplo, na pesquisa de Lopes (2002) e Rangel (2004) na educação de surdos. Portanto, não há intenção de análise das fotografias, o que poderia ser uma opção, conforme sugere Galano (2006), mas não é o objeto de estudo desta investigação. Ver GALANO, A. M. Iniciação à pesquisa com imagens. In: FELDMAN-BIANCO, B. & MOREIRA LEITE, M. (Orgs.) Desafios da imagem: Fotografias, iconografias e vídeos nas ciências sociais. Campinas, SP: Papirus, 2006. p. 173-193.

40 Utilizo o termo “esquema” numa aproximação do que, segundo a definição de Lüdke e André (1986, p.34) constrói a entrevista chamada semi-estruturada, “que se desenrola a partir de um esquema básico, porém não aplicado rigidamente, permitindo que o entrevistado faça as necessárias adaptações”.

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conjunto de signos [...], mas como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam [...] o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar coisas. É esse mais que os torna irredutíveis à língua e ao ato de fala”. A busca dos enunciados do discurso em forma de narrativa impele a olhar para além da simples referência às “coisas” e mera utilização de letras, palavras e frases (traduzidos das narrativas). Essa busca vai se refinando na medida em que vamos nos apropriando de referenciais teóricos e processando as leituras por meio de exercícios de escrita e de falas. Falar e escrever ajudam a organizar o que vemos e a criar formas de explicitar o que estamos vendo.

O sentido desse mais “que os torna irredutíveis à língua e ao ato de fala” está intimamente ligado à compreensão que a narrativa assume nesta pesquisa, principalmente pelas questões que, de modo especial, permitem pensar algumas elementos curriculares pelo viés da diferença cultural surda, como meio de capturar o significado que a cultura imprime na alteridade e nas “almas” dos sujeitos, tanto quanto o “que é impresso na materialidade de seus corpos” (LOPES & VEIGA-NETO, 2006, p.84). Os autores usam o termo no sentido dado por Foucault no livro “Vigiar e Punir”, não são apenas objetividades e materialidades, são também cicatrizes, atravessamentos que constituem subjetividades nos indivíduos. Segundo os autores, são “[...] também, impressões que, ao informarem sobre como o outro me vê, imprimem em nós sentimentos que nos constituem como um sujeito marcado pelo outro e, por isso, diferente em relação ao outro”.

São compreensões na perspectiva relacional de produções de discursividades geralmente simplificadas quando as pessoas ou especialistas costumam polarizá-las em positivas e negativas. São discursos negados, atravessados por um caráter de validade que agride aqueles que os olham. Nesse caso, apenas alguns são vistos como “os verdadeiros”, sujeitando outros a práticas corretivas com a finalidade de normalização (LOPES & VEIGA- NETO, 2006).

Assim se elegem classificações de sujeitos aceitos no grupo dos incluídos; elas definem também os sujeitos que não podem pertencer a tal grupo. Essa invenção de fronteiras discursivas imateriais mantém uma geografia segregacionista que se realimenta dos padrões sociais em vigência, produzindo os grupos incluídos/excluídos. O sentido dado para a cultura nesta pesquisa não foi o de algo que possa ser comum, “semelhante” em nossa brasileiridade, mas de algo em que há diferenças e elos identitários que constituem os surdos e os unem como uma outra comunidade brasileira e produzem saberes a serem considerados nas questões curriculares.

A dinâmica de construir a pesquisa no processo imprimiu o procedimento de sessão coletiva para cada construção dos capítulos, a partir de análise das narrativas, reorientando os eixos escolhidos algumas vezes até a definição dos eixos 1 e 2 citados.