No exercício de conhecer e interpretar a realidade estudada, com a modesta intenção de contribuir com sua transformação, reservamos o esforço de conectar os aspectos particulares das experiências em campo à totalidade das relações socioambientais que permeiam tanto o contexto mais geral dos sujeitos camponeses, como a área de estudo em educação ambiental.
Tais orientações foram base para realizar este trabalho em uma perspectiva dialética e crítica, particularmente, da relação rural (campo) - urbano, embora saibamos que há uma predominância do modelo urbano industrial moderno como referência ontológica (interpretação de sujeito, sociedade, realidade, ambiente). Conscientes da não neutralidade científica, sabemos que tal fato influencia diretamente o processo epistemológico e metodológico de pesquisa, o que não nos isenta de equívocos interpretativos.
Por este motivo, seguiremos orientações de Whitaker e Fiamengue (2002, p. 22- 23) sobre os obstáculos epistemológicos manifestados por preconceitos da ciência urbano-centrada que prejudicam as pesquisas em assentamentos rurais, particularmente,
modéstia ou a pretensão iluminada de capacitação (como se “o outro” não fosse capaz, ou se somente sozinho fosse, de tomar consciência de sua condição de desigualdade) são alguns dos preconceitos apontados pelas autoras.
Para compreender dialeticamente a complexidade da realidade estudada lançamos mão de um olhar poliocular, proposto por Whitaker e Fiamengue (2002, p. 21), com base em Morin, procurando compreender diferentes fenômenos por dentro do cotidiano dos grupos e em diálogo com diferentes sujeitos e teorias, reconhecendo as capacidades de todas as pessoas de narrar e interpretar as contradições de sua realidade.
Neste sentido, procuramos não subestimar os sujeitos por suas opiniões ou decisões contrárias como se fossem por falta de entendimento, mas sim por sua própria escolha e opinião, além de tomarmos o cuidado de não simplificar as informações discutidas ao ponto de ridicularizar ou colocar em questionamento a capacidade de aprendizagem adulta camponesa e suas técnicas de produção. Ainda seguindo orientações das autoras analisamos os dados sem julgar impactos socioambientais do campo (caça, pesca, animais em extinção) com referências exclusivamente urbanas e elitizadas, inclusive respeitando o nível de necessidade básica a ser suprida pelos sujeitos que não tem como padrão a troca monetária.
Com estas orientações, a coleta de dados empíricos foi realizada, principalmente, por meio entrevistas individuais e coletivas, observações que compuseram as anotações em diário de campo e a escuta atenta aos depoimentos que associavam práticas de educação do campo e da agroecologia focadas na luta pela reforma agrária popular e algumas de suas (des)conexões com a educação ambiental. Também adaptamos algumas técnicas da análise documental para colher informações secundárias de uma das empresas que disputam ideologicamente e materialmente com as práticas educativas e produtivas que sustentam a cultura camponesa.
Consideramos na tese tanto as entrevistas no sentido amplo de comunicação verbal com pessoas da realidade estudada, como no sentido restrito de coleta de informações sobre o tema aqui estudado. Utilizamos roteiros não-estruturados procurando focar nos temas de interesse da pesquisa. Algumas entrevistas foram mais abrangentes para conseguir o máximo de informações sobre aquela realidade, outras mais específicas que relacionavam diretamente a educação ambiental ao contexto.
Para algumas entrevistas utilizamos o gravador, em outras fizemos anotações sínteses durante a entrevista, no próprio diário de campo. No geral, as entrevistas seguiram um formato descontraído, em clima amistoso de conversa, no próprio contexto das pessoas, o que facilitou estabelecer alguns vínculos de confiança em um ambiente confortável para a comunicação. Fizemos entrevistas individuais e outras coletivas, chamadas por Minayo (2010) de grupos focais que foram mais apropriados nas entrevistas com docentes e direção das escolas do campo.
A observação aconteceu ao longo da pesquisa de campo, como uma experiência sensorial e intencional que nos permitiu descrever lugares, interações, culturas com o intuito de compreender a dimensão do vivido naquela realidade sendo, portanto, subsídio das entrevistas e do diário de campo triangulada com ambas as técnicas. A observação foi aprofundada gradualmente conforme o relevo tomado a partir dos elementos e temas que foram ressaltados durante a pesquisa, além de elementos que a atravessam (SANTOS et al., 2016).
Na confecção do diário de campo não seguimos um modelo pré-definido procuramos apreender partes da realidade que nos chamaram atenção, além de registrar densamente as experiências acompanhadas. Fizemos o exercício de descrever fatos, situações, gestos, sensações e acontecimentos, realizando um processo interpretativo de mediação dialética com a teoria. Esta técnica possibilitou um olhar cada vez mais atento e aprofundado da pesquisadora na relação intersubjetiva com os sujeitos envolvidos e com a literatura sobre as categorias levantadas.
Convém apresentar as/os interlocutoras/es da pesquisa:
Quadro 2.Caracterização dos sujeitos e relação das principais técnicas utilizadas Sujeitos/
Instituição Caracterização e contexto Técnicas utilizadas Assentamento Jacy Rocha – Prado/BA
*Escola Popular de Agroecologia e Agrofloresta Egídio Brunetto coordenadora
EB
Coordenação Nacional do MST. Atua no núcleo pedagógico da
Escola
Entrevista aberta com anotações em diário de campo. Observação do local da produção Assentamento Kageyama – Eunápolis/BA
*Atividade de alfabetização: Sim eu posso
Assentamento Lulão – Santa Cruz Cabrália/BA *Escola Municipal de Ensino fundamental Paulo Freire diretora 1
EC
Militante do MST. Diretora
Entrevista com docentes e observação do entorno. professor 1 – EC Militante do MST Professor de matemática Entrevista coletiva professora 2 – EC Militante do MST Professora de português professora 3 – EC Militante do MST
Professora de educação infantil
Assentamento Gildésio – Eunápolis/Bahia
*Escola Municipal de Alfabetização e Ensino Fundamental Estrelas do Che diretora 2 PF Militante do MST Diretora Entrevista coletiva professora 1 PF Militante do MST Professora de Português professora 2 PF Militante do MST Professora de Artes professora 3 PF Militante do MST Professora de Matemática
Pré-Assentamento Fazenda Santa Maria – Porto Seguro/BA APRUNVE – Associação dos Produtores Rurais Unidos Venceremos camponesas/es
e equipe técnica da Esalq/Usp
Formação em agroecologia – técnicas de adubação verde, com metodologia inspirada no método
Camponês a camponês.
Observação com anotações em diário de campo
Esalq-USP – Projeto Assentamentos Agroecológicos educadora
popular EB
Integrante do projeto com atuação na Escola Popular de Agroecologia e Agrofloresta Egídio Brunetto entre
os anos de 2015 a 2017.
Entrevista aberta e semiestruturada.
educadora técnica
Integrante do projeto atuante na área de educação, em assentamentos de
reforma agrária de diferentes movimentos sociais.
Entrevista aberta com anotações em diário de campo.
Representante da indústria de papel e celulose empresa
Veracel
Relatório de sustentabilidade da empresa – ano base 2016. Análise feita devido ao relato crítico
apresentado em entrevista pelo polo do trabalho
Análise de documento
*Modelo de termo utilizado para autorização do uso de fala dos sujeitos da realidade investigada (Apêndice I).
Ao todo foram 20 dias de imersão no extremo sul da Bahia, especificamente nos municípios de Eunápolis, Prado, Santa Cruz Cabrália e Porto Seguro que resultaram na transcrição da expressividade dos sujeitos, de forma a respeitar a sintaxe gramatical da língua portuguesa, tendo em vista não caricaturar foneticamente as falas das pessoas entrevistadas. A sistematização e a análise dos dados foram feitas considerando dialeticamente tanto as subjetividades reveladas pelas/os interlocutoras/es, por meio de seus relatos e práticas, como suas contradições frente ao avanço do capital e seus atravessamentos. A figura 3 traz um esquema das relações que compõem o contexto da pesquisa.
Figura 3: Representação esquemática das relações no extremo sul da Bahia.