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O estudo é desenhado para aceder aos processos de pensamento e estratégias dos estudantes nas suas tentativas de dar significado aos conteúdos programáticos da Análi-se Numérica. Dado que pretendo recolher informações sobre as reacções dos estudantes num contexto que envolve observação ‘em acção’, o estudo não fica restrito à análise do desempenho de indivíduos no final da sua participação. É necessário recolher um con-junto de dados sobre o que acontece durante a realização das tarefas de investigação e sobre as percepções dos estudantes participantes no estudo. Recorro a um leque alarga-do de fontes de informação de moalarga-do a que os vários instrumentos de recolha de daalarga-dos não só se complementem mas também permitem uma abordagem a partir de diversas perspectivas (Bogdan & Biklen, 1994). A recolha dos dados empíricos é realizada no decorrer do 1.º semestre do ano lectivo de 2008/09, utilizando, como descrevo a seguir, diversos instrumentos de recolha de dados, seleccionados de entre as técnicas mais usa-das na metodologia qualitativa: observação participante, entrevista, questionário e análi-se documental.

Observação participante

As observações são cruciais como técnica de recolha de dados em abordagens qualitativas, pois permitem obter informação normalmente não acessível por outros pro-cessos (Ludke & André, 1986). A observação qualitativa é fundamentalmente naturalis-ta pois ocorre no contexto dos acontecimentos e das experiências que queremos obser-var, permitindo registar comportamentos e acontecimentos à medida que estes vão ocor-rendo. Possibilita, ainda, um contacto pessoal e estreito do investigador com o fenóme-no a investigar.

Na observação participante o investigador acaba por se tornar um membro da comunidade ou da população em estudo, participando nas respectivas actividades e observando o modo como as pessoas se comportam e interagem umas com as outras. O

investigador integra-se no grupo, o que é fundamental para compreender e interpretar o que está a acontecer. A dimensão desta integração depende, em grande parte, das carac-terísticas do estudo a desenvolver, das caraccarac-terísticas dos participantes e do tipo de questões a estudar. Merriam (1988) discute os diferentes graus de participação que podem ser adoptados pelo investigador no decurso das suas observações. Entre as duas posições extremas de observador “totalmente participante” e “meramente espectador” existe um contínuo e, muitas vezes, o grau de participação do investigador varia ao lon-go do estudo (Matos & Carreira, 1994).

Este estudo privilegia a observação participante, em que a investigadora desem-penha simultaneamente o papel de docente da disciplina. Este tipo de observação, sendo particularmente adequada para estudar muitos aspectos da interacção humana, tem em vista compreender em profundidade os processos em que os alunos se envolvem na resolução de tarefas de investigação e as questões com que se defrontam. Estou cons-ciente da dificuldade desta posição. Ao mesmo tempo que é necessário participar no contexto em estudo, empenhando-me como professora, no ensino e apoio aos alunos, é preciso manter-me suficientemente desligada para o observar e analisar. A subjectivida-de associada à minha personalidasubjectivida-de, valores e sentimentos é um factor a que presto também especial atenção. Tento que estes elementos não interfiram negativamente na observação e interpretação dos acontecimentos, mas sim que possam constituir um fac-tor facilitador da investigação. Tento ainda que a minha postura permita um desenvol-vimento das actividades o mais próximo possível do habitual de forma a não induzir, com a minha presença, modificações de comportamento dos alunos, diminuindo o cha-mado “efeito do observador”.

Para Bogdan e Biklen (1994), uma forma de tornar a observação participante mais eficiente é recorrer a notas de campo que devem ser detalhadas, extensas e preci-sas. Embora os autores considerem que na observação participante todos os dados reco-lhidos são notas de campo, esta técnica pode ser encarada de forma mais restrita, consi-derando apenas que se trata de notas tomadas como forma de complementar aquilo que não é possível recolher com base nas outras técnicas, constituindo assim o relato escrito daquilo que o investigador ouve, vê, experimenta e pensa no decurso da recolha de dados num estudo qualitativo. A principal característica destas notas é a sua capacidade de descrever com exactidão o que está a acontecer, nomeadamente fazendo um retrato dos sujeitos, uma descrição do espaço físico, o relato dos acontecimentos particulares, a descrição pormenorizada das actividades e o comportamento do observador.

Durante a realização das tarefas de investigação, eu, enquanto investigadora, tiro notas de campo, com o objectivo de registar informações pormenorizadas sobre os par-ticipantes e o seu envolvimento neste tipo de tarefas, relatos de acontecimentos inespe-rados, conjecturas sobre factos observados e descrições de episódios respeitantes às actividades desenvolvidas pelos alunos. Procuro ainda recolher informações sobre as dúvidas geradas pelas próprias tarefas e perceber quais as estratégias usadas pelos alu-nos na sua resolução. Coloco também questões que conduzam a uma participação mais efectiva dos alunos levando-os a explicitar os seus raciocínios de forma escrita e em voz alta, de modo a identificar a sua compreensão dos aspectos a investigar. As questões colocadas servem como indicadores do desempenho dos alunos quando lhes procuram responder, sendo possível, por vezes, identificar os processos e procedimentos subjacen-tes ao raciocínio desenvolvido. Encontro-me, assim, numa situação de observação parti-cipante que me permite interagir com os alunos, tomando, no entanto, uma postura que não altere o modo de realização das tarefas.

Além disso, no final de cada uma das aulas, faço o registo de situações que tenham ocorrido e que me pareçam pertinentes relativamente ao objectivo do estudo, seguindo um guião previamente estabelecido (Anexo 2). Por exemplo, assinalo a forma como as tarefas são introduzidas e como os alunos iniciam a sua exploração, o tempo previsto e o tempo efectivamente gasto para a sua realização, os impasses que surgem e pequenos diálogos e dificuldades que se manifestam. A par desta parte descritiva existe uma parte reflexiva, que contém a parte mais subjectiva das notas, com reflexões sobre a análise, o método, os conflitos e dilemas éticos, o ponto de vista do observador e pon-tos de clarificação (Bogdan & Biklen, 1994). Assim, os regispon-tos por mim elaborados contemplam ainda, reflexões pessoais sobre aspectos que considero potencialmente importantes para uma melhor planificação e condução das aulas seguintes e das próprias entrevistas aos alunos que constituem os casos. Desta forma, no presente estudo, as notas de campo são um registo sistemático das observações realizadas por mim sobre os acontecimentos na sala de aula, complementadas por reflexões pessoais sobre os acon-tecimentos observados.

A tomada de notas é uma forma de registo selectivo de eventos. Não é possível manter a conversação e reproduzir de forma exacta no papel mais do que poucas linhas consecutivas de diálogo. Existe também o risco de assinalar apenas uma selecção espon-tânea do que vale a pena anotar numa situação observada e assim perder informação útil. Neste sentido, será necessário criar condições para garantir uma melhor captação

das suas reacções e raciocínios no decorrer das aulas de realização de tarefas investiga-tivas, em particular, durante as discussões em grande grupo. Seleccionei a gravação áudio como uma abordagem apropriada para complementar a tomada de notas e mini-mizar estes problemas.

Entrevistas

Já referi a dificuldade de um acompanhamento continuado dos alunos em obser-vação durante a realização das tarefas na sala de aula e as consequências que este facto acarreta, nomeadamente a redução da perspectiva geral de funcionamento das aulas e de toda a turma perante as tarefas de investigação. Num estudo que visa a clarificação e a compreensão dos efeitos gerados pela introdução de um conjunto de factores, em parti-cular as actividades de exploração/investigação, é necessário diversificar as experiências com os alunos a observar. Deste modo, realizo igualmente entrevistas.

Uma entrevista consiste numa conversa intencional entre duas ou mais pessoas, dirigida pelo entrevistador, com objectivo específico de obter informação relevante para a investigação (Cannell & Kahn, 1968). Este método de recolha de dados permite clari-ficar os acontecimentos, ajudando o investigador a interpretar as acções e atitudes dos participantes. Desta forma, constitui um instrumento de recolha de dados privilegiado na investigação qualitativa, permitindo obter de um modo completo e imediato a infor-mação desejada e tornando possível o seu aprofundamento (Ludke & André, 1986). As entrevistas podem constituir a estratégia dominante para a recolha de dados ou podem ser utilizadas em conjunto com a observação participante, análise de documentos e outras técnicas (Bogdan & Biklen, 1994).

A escolha do tipo de entrevista e o seu grau de estruturação depende do objecti-vo da investigação, podendo até ser usadas entrevistas de mais do que um tipo em dife-rentes fases de uma mesma investigação. De acordo com Bogdan e Biklen (1994), as entrevistas qualitativas variam quanto ao grau de estrutura. Existe um contínuo desde a entrevista estruturada, em que o conteúdo e os procedimentos são organizados antecipa-damente e o entrevistador tem pouca liberdade para alterações ao guião durante a res-pectiva realização, até à entrevista não estruturada, onde o seu conteúdo e a sequência das questões estão inteiramente nas mãos do entrevistador.

Para este estudo, e como complemento da observação realizada nas aulas de exploração das tarefas, conduzi entrevistas individuais aos alunos que constituem os

estudos de caso. As entrevistas contam apenas com a presença da investigadora e dos alunos a serem entrevistados e decorrem após a realização das tarefas, como conversas informais em que evito conduzir a entrevista e restringir a temática a abordar, dando liberdade aos entrevistados para produzirem o seu discurso, de forma a obter a maior quantidade de informação possível. O período durante o qual decorre a entrevista é sempre marcado de acordo com a disponibilidade dos alunos, normalmente fora do período lectivo, de forma a não interferir com as actividades curriculares. São realizadas em ambiente informal e, com a autorização dos alunos visados, as entrevistas são regis-tadas através de gravações áudio tendo em vista captar aspectos que de outra forma podem passar despercebidos e, ao serem analisados mais tarde, fora do contexto dos encontros, fornecer elementos importantes sobre o que ocorre.

O foco dessas entrevistas é determinado pelo trabalho desenvolvido na realiza-ção das actividades de investigarealiza-ção e o meu objectivo é a compreensão das estratégias desenvolvidas pelos alunos e a obtenção de dados significativos para clarificar ambigui-dades ou verificar explicações das concepções dos entrevistados.

Optei por entrevistas semi-estruturadas, guiadas por questões gerais e centradas em tópicos que emergem da análise do material escrito e que não podem ser claramente inferidas das tarefas. As entrevistas iniciam-se com um conjunto de questões relaciona-das com as respostas darelaciona-das (ou não) pelos alunos na exploração da tarefa, de modo a compreender o seu significado. Estas não decorrem, por isso, de um guião previamente estruturado mas acompanham a própria estrutura de cada tarefa, em que cada nova ques-tão é adaptada em função da resposta ou da informação que o aluno der, a fim de a apro-fundar e melhorar a sua compreensão e acompanhar o pensamento dos alunos. Neste sentido, realizo quatro entrevistas a cada um dos seis alunos participantes no estudo, com uma duração de tempo variável, entre 30 a 60 minutos, dependendo da discussão que venha a surgir.

As questões das entrevistas e a sua condução são estabelecidas para permitir conversas mais ou menos abertas e naturais e a obtenção de respostas francas dos estu-dantes. Informo previamente os alunos que o objectivo é questioná-los acerca dos pro-cessos de resolução adoptados, não para indicar se as suas respostas estão certas ou erradas, mas apenas tentar compreender como foi obtida essa mesma resposta. Durante as entrevistas tento sempre que a minha postura e as minhas perguntas e respostas sejam as mais neutras possíveis, para que os alunos não foquem a sua atenção em indícios imprevistos em vez de seguirem o seu próprio raciocínio. Mantenho ainda alguns

cuida-dos relacionacuida-dos com movimentos faciais, expressões, intensidade da voz e movimen-tos, de modo a que estes não sejam entendidos pelos alunos como sinais de aprovação ou desaprovação (Hunting, 1997).

Finalmente, é de referir que um conjunto de questões de base para as últimas entrevistas podem ainda ser desenhadas a partir dos assuntos que surgirem durante as primeiras entrevistas.

No decurso destas entrevistas gravadas, as notas de campo poderão também ser uma ajuda preciosa, pois podem evidenciar situações que não sejam captadas pelo gra-vador, como, por exemplo, os gestos feitos pelos participantes, as expressões faciais ou até mesmo comentários feitos antes e depois da entrevista que podem ajudar à com-preensão da situação.

Questionários

Para este estudo, são elaborados dois questionários, aplicados no início e no final da experiência de ensino a todos os alunos das duas turmas. O questionário inicial, já descrito anteriormente, é aplicado na primeira aula do semestre com o objectivo de seleccionar os participantes que constituem os casos. Com a aplicação de um questioná-rio final, após o término da experiência de ensino, pretendo conhecer a opinião indivi-dual de todos os alunos sobre alguns aspectos relacionados com a experiência.

O questionário final (Anexo 3), é constituído por questões fechadas, elaboradas especificamente para este estudo, com o objectivo de obter as opiniões dos alunos sobre a experiência realizada, relativamente às actividades propostas, às dificuldades sentidas e ao modo como se desenvolveu o processo de aprendizagem. Neste questionário utili-zei uma escala de Likert, com 5 níveis (Tuckman, 2002): discordo totalmente, discordo parcialmente, não discordo nem concordo, concordo parcialmente e concordo totalmen-te. Solicito aos alunos que manifestem o seu grau de concordância ou de discordância relativamente a cada uma das questões que constituem o questionário. Além das ques-tões fechadas incluo ainda, neste questionário, algumas quesques-tões abertas, onde os alunos se podem manifestar mais livremente em relação aos aspectos que consideraram positi-vos ou negatipositi-vos e dar sugestões para uma implementação futura com sucesso.

De forma a evitar que os alunos respondam de acordo com aquilo que julgam ser a expectativa da professora/investigadora, dando respostas “institucionalmente correc-tas”, o questionário final é respondido de forma anónima. Desta forma, cada aluno pode

manifestar a sua opinião com toda a sinceridade, sem o receio de qualquer tipo de repre-sália ou estigma. A garantia de que as opiniões expressas pelos alunos não são identifi-cadas, é também uma forma de assegurar a fiabilidade deste instrumento.

Análise documental

Nos métodos de recolha de dados acima descritos o papel principal na produção dos dados cabe ao investigador, que escreve as notas de campo e conduz as entrevistas. O investigador pode complementar o trabalho de observação no campo com a recolha de informação e a posterior análise de aspectos documentados que foram gerados no âmbito das actividades relacionadas com o problema em estudo, tais como relatórios, resoluções de problemas ou mesmo testes escritos.

A importância de recolher informações a partir da análise de documentos é refe-rida por vários autores. Para Ludke e André (1986), a adopção de um instrumento de recolha de dados que consiste no uso de documentos constitui uma fonte viável e rica que permite obter evidências contextualizadas fundamentais para as suas conclusões. Merriam (1988) salienta que essa importância advém do facto de estes registos serem produzidos habitualmente de forma independente dos propósitos da investigação, o que não acontece com as entrevistas e as observações. Yin (2003), pelo seu lado, refere que os documentos são uma fonte de dados de grande importância porque permitem corro-borar ou confirmar inferências sugeridas por outras fontes de dados. Este tipo de docu-mentos pode ser uma fonte interessante de informação sobre as actividades realizadas e os processos que ocorrerem, gerando ideias para novas questões a retomar posterior-mente através de novas observações ou entrevistas.

Subjacente à experiência de ensino que apresento, está um conjunto de tarefas de natureza exploratória em que é expressamente pedido aos alunos um registo escrito do seu trabalho. Assim, a análise dos documentos centra-se essencialmente nos relatórios escritos produzidos pelos alunos no final de cada aula de exploração das tarefas de investigação propostas. Estes trabalhos constituem documentos cuja análise permite verificar e complementar as observações efectuadas por mim durante as aulas de reali-zação de tarefas e nas entrevistas.

Em síntese, a metodologia de recolha de dados não se extingue na observação da actuação dos alunos no decurso das actividades de investigação em tempo lectivo. Pelo contrário, envolve a utilização de múltiplas estratégias, conforme se observa no quadro

seguinte: (i) observação dos alunos na realização de actividades de investigação, em situação de sala de aula; (ii) notas de campo respeitantes à actividade desenvolvida pelos alunos nas aulas de carácter investigativo; (iii) entrevistas aos alunos dos estudos de caso, no final da realização das actividades de investigação; (iv) questionários apli-cados aos alunos no início e no final da experiência de ensino; e (v) relatórios escritos no final da exploração de cada tarefa. Esta variedade de formas de recolha de dados permite a triangulação dos resultados emergentes, com vista à consistência da própria informação recolhida e das interpretações produzidas.

Quadro 4.1 – Recolha de material empírico: técnicas, fontes e formas de registo de dados

Técnicas Fontes Formas de registo

Observação participante Aulas + Professora Gravação áudio / transcrição Notas de campo; Entrevista Alunos participantes (casos) Gravação áudio / transcrição

Questionários Alunos Questionário inicial e final

Recolha documental Alunos Relatórios escritos