3. METODOLOGIA
3.2 Procedimentos Econométricos para Estimação da Demanda
A estimação de equações de demanda está suscetível a diferentes problemas, entre eles a endogeneidade. A endogeneidade ocorre em situações em que uma variável explicativa é correlacionada com o erro, sendo suas principais fontes variáveis omitidas, erro de mensuração e simultaneidade (WOOLDRIDGE, 2011). A equação (13) sofre do viés de simultaneidade, pois o produto (produção de cereais) é função da quantidade utilizada de nitrogênio, do preço
11 Devido a disponibilidade de dados referentes a Preços, para estimação de demanda foi considerado um período de tempo menor (2014-2018)
dos cereais e do preço do nitrogênio. Portanto, foi preciso utilizar uma técnica de equação simultânea. Logo, na presença de simultaneidade, os modelos podem ser estimados pelo método de mínimos quadrados ordinários (MQO), pelo método dos mínimos quadrados indiretos (MQI) ou pelos métodos de mínimos quadrados em dois estágios (MQ2E) ou em três estágios (MQ3E) com a utilização de variáveis instrumentais. Cada um desses métodos possui particularidades.
Utiliza-se o MQO somente quando as equações do sistema formarem um modelo recursivo;
com relação ao MQI, usa-se caso as equações forem exatamente identificadas; já o MQ2E e MQ3E quando o sistema apresentar equações superidentificadas, que em caso de simultaneidade e superidentificação do sistema, podem gerar estimadores eficientes e consistentes (PROFETA; BRAGA, 2011).
Para correção da endogeneidade entre a variável e , utilizou-se o modelo de MQ2E com o uso de variáveis instrumentais. As variáveis instrumentais consideradas foram referentes ao Preço dos cereais defasado em um ano e a Produção de cereais defasada em um ano. A escolha dessas variáveis se deve ao fato de que o produtor muitas vezes toma a decisão de quanto produzir mediante ao que ocorreu no passado. Ou seja, se o preço do cereal no ano passado e se a produção no ano passado foram bons, a expectativa do produtor será em produzir mais no presente, o que demandará mais insumos.
Sendo assim a equação 13 foi reestimada num primeiro e segundo estágio, onde:
1 º Estágio:
= � + � − + � − + � (15) 2º Estágio:
= � + � � + � + � � + � � + � − +
� + � � � + � (16) 3.3. Eficiência do Uso do Nitrogênio (EUN)
O indicador de EUN considerado nesta pesquisa, proposto por Oenema et al. (2015), baseia-se no princípio do balanço de nutrientes, isto é, utiliza dados de entrada e saída de nitrogênio para definir a eficiência. Sendo assim, a EUN foi calculada como:
=��
� (17) em que se refere às saídas de nitrogênio e às entradas.
Considerando um sistema de produção de cereais, o total de entrada correspondeu ao total de fertilizantes sintéticos aplicado na produção de cereais, e o total de saída correspondeu
ao total de nitrogênio presente no produto colhido, menos o nitrogênio proveniente de outras fontes naturais.
O indicador de EUN então foi adaptado de acordo com a metodologia proposta por Raun e Johnson (1999):
= [���− ��
� ] × (18) em que é aplicação de fertilizantes nitrogenados para a produção de cereais, é a remoção de nitrogênio do grão de cereal e � é o nitrogênio removida por cereais provenientes da fertilização natural do solo.
A aplicação de fertilizantes nitrogenados ( correspondeu à quantidade aplicada em toneladas para cada cultura de cereais em cada estado e região. A remoção do nitrogênio do grão ( em g/kg foi calculada pelo produto entre a quantidade produzida de cada cereal com a concentração de nitrogênio na cultura. Os valores de concentração de nitrogênio são diferenciados para cada cultura de cereal. As culturas consideradas neste estudo foram: arroz, aveia, centeio, cevada, milho, sorgo e trigo, e apresentam os seguintes valores de concentração respectivamente: 12,3 g/kg; 19,3 g/kg; 22,1 g/kg; 20,2 g/kg; 12,6 g/kg; 19,2 g/kg; 21,3 g/kg.
(TKACHUK, 1977; PIRES et al., 2015). Já o nitrogênio proveniente da fertilização natural ( � , foi considerado de acordo com a literatura que corresponde em média, a 50% da quantidade de nitrogênio retomado no grão ( (FREEMAN; RAUN, 2005; COELHO et al., 1991; LARA CABEZAS et al., 2005).
A EUN, quando medida pelo balanço de nutrientes, conforme no presente estudo, corresponde a um indicador de eficiência agroambiental, a qual desempenha papel fundamental para análise de gestão de política (OENEMA et al., 2015). Isto porque parte do nitrogênio aplicado e não absorvido pelo grão tenderá a se tornar perda para o ambiente. Segundo Casarin (2015), se: i) EUN>1: N está sendo mais removido que aplicado, com possíveis efeitos ambientais de esgotamento da fertilidade do solo; ii) EUN<1: N está sendo mais aplicado do que removido, indicando que o N não removido pode estar armazenado no solo e, ou, fluindo pelo ambiente; e iii) EUN=1: a quantidade de nutriente aplicada é igual à removida, sendo que em nenhum sistema biológico tal situação ocorrerá. Analisar a EUN por si só para fins conclusivos não seria interessante, visto que os valores podem estar negligenciados (CASARIN, 2015). É necessário assim, cautela, uma vez que análise conjunta com ganhos de produtividade, produção, rotação de cultura, entre outros podem ser mais eficazes (OENEMA et al., 2015).
Considerou-se neste estudo a EUN agroambiental, baseada no balanço de nutrientes de saída/entrada, que para sistemas de produção agrícola, depende do tipo de cultura, capacidade de remoção do N no grão e a fertilização nitrogenada no solo. Este índice agroambiental fornece informações úteis sobre a utilização relativa do fertilizante nitrogenado sintético adicional aplicado, ou seja, se a aplicação excessiva está se transformando em perdas para o meio ambiente (OENEMA, et al., 2015).
3.4 Emissão de Gases de Efeito Estufa
O uso inadequado e, ou, excessivo de nitrogênio pode gerar impactos adversos ao meio ambiente, entre os quais destaca-se a liberação de óxido nitroso (N2O), que é um dos gases de efeito estufa (GEE) (DE KLEIN et al., 2006)12. Em se tratando de cereais, as emissões de N2O resultantes do uso de fertilizantes nitrogenados foram calculadas seguindo a metodologia proposta por De Klein et al. (2006), na qual as emissões de N2O ocorrem de modo direto e indireto como mostra a equação (19):
� ��= ��+ �� (19) As emissões por via direta são aquelas resultantes das entradas de nitrogênio
antropogênicas e, ou, mineralização do nitrogênio (DE KLEIN et al., 2006). O excesso de N aumenta as taxas de nitrificação e desnitrificação, contribuindo com a produção de N2O.
Constituem-se como fontes de nitrogênio os fertilizantes sintéticos nitrogenados, os fertilizantes orgânicos aplicados, os resíduos de outras culturas, a matéria orgânica perdida no solo devido à mudança de uso da terra, drenagem e manejo de solos orgânicos. Já as emissões indiretas são aquelas resultantes da volatização de nitrogênio com o NH3 e óxidos de nitrogênio (NOx) e via lixiviação, ou seja, deposição destes gases e seus produtos de NH4+ e NO3- nos solos e na água.
As principais fontes de nitrogênio com NH3 e NOx incluem combustão de combustíveis fosseis, queima de biomassa e processos na indústria química. Já o processo de lixiviação e escoamento ocorre devido aos resíduos de colheita e de fertilizantes inorgânicos e orgânicos (DE KLEIN et al., 2006).
A equação 19 foi então adaptada, seguindo a metodologia publicada pelo Programa Brasileiro GHG Protocol (2010), com base na sugestão do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) e Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTI):
12 O N2O é produzido naturalmente nos solos por meio dos processos de nitrificação e desnitrificação. A nitrificação ocorre com a oxidação microbiana aeróbica de amônia a nitrato. Já a desnitrificação é um processo em que há redução microbiana anaeróbica de nitrato para o nitrogênio gasoso (N2) (DE KLEIN et al., 2006).
�2O = �� × (20) em que �2O são as emissões de N2O resultantes da utilização do fertilizante nitrogenado sintéticos, �� é a quantidade de nitrogênio aplicado como fertilizante sintético, é o fator de emissão. O fator de emissão levou em consideração as emissões direta e indireta das aplicações de fertilizantes sintéticos nitrogenados na produção de cereais.
Remanejando a equação 20, as emissões via direta e indireta de N2O foram calculadas como:
= �� × × ,57 × 3 (21)
� = �� × × ,57 × 3 (22) em que é o fator de emissão direta de N2O, que correspondeu a 1% do total de fertilizante nitrogenado aplicado na produção de cereais (DE KLEIN et al., 2006). refere-se ao fator de emissão indireta de N2O, constituindo cerca de 0,4% do fertilizante nitrogenado aplicado (CRUTZEN et al., 2008). Os valores de 1,571 e 310 adicionados referem-se ao fator de conversão de N2O-N para N2O e de N2O em CO2, respectivamente, analisando o potencial de aquecimento global do N2O ao longo do tempo (DE KLEIN et al., 2006; FORSTER et al., 2007; PIRES et al., 2015).
A variável quantidade de fertilizantes nitrogenados sintéticos utilizado na produção de cereais presente tanto na estimação da demanda quanto no cálculo de eficiência de uso de nitrogênio e emissão de gases de efeito estufa foi estimada por meio de pesos. Estes pesos representam a parcela da área plantada de cada cereal em relação à área plantada com todas as culturas temporárias em cada ano e em cada estado. Posteriormente, cada peso foi multiplicado pela quantidade de nitrogênio entregue ao produtor (variável disponibilizada). Julgou-se necessário este cálculo como forma de estimação mais próxima ao verdadeiro valor de nutriente adicionado em cada cultura, a qual é desconhecida no período. Além disso, tal estimação é importante, visto que muitos estados podem demandar mais ou menos fertilizantes mediante à área destinada a cada cultura produzida. A equação (23) demonstra como os pesos foram estimados.
, = ∑ �����, ,�
= ,� × (23) em que p corresponde ao peso do estado no ano . se refere à área planta de cada cereal � no estado no ano . se refere a área total plantada com toda lavoura temporária.
A quantidade de fertilizante utilizado na produção de cereais (Nc) foi então obtida pelo produto entre cada peso pela quantidade de fertilizantes entregue ao produtor (QN)13.
, = , × � , (24)
3.5. Fonte de Dados
Os dados utilizados neste estudo foram provenientes de diferentes bases de dados secundários, conforme descrição a seguir:
i. Sistema IBGE de Recuperação Automática (SIDRA): Quantidade produzida de cereais, área produzida de cereais e PIB Agrícola estadual.
ii. Anuário Estatístico do Setor de fertilizantes 1994 – 2018, da Associação Nacional para difusão de Adubos – ANDA: Quantidade de fertilizantes N, P, K entregues ao consumidor.
iii. Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB): Preços dos insumos N, P e K e dos cereais14;
13 A variável referente à quantidade de fertilizantes entregue ao produtor (QN) está disponível no Anuário Estatístico do Setor de fertilizantes 1994 – 2018, da Associação Nacional para difusão de Adubos – ANDA.
14 Os preços dos cereais disponibilizados pela CONAB foram utilizados para criar um índice agregado (PC na equação 13).
4. RESULTADOS
Nessa seção é apresentada, inicialmente, análise exploratória com levantamento de dados secundários sobre o consumo dos fertilizantes nitrogenados e sua relação com área e produção de cereais no Brasil e nas principais regiões geográficas. Posteriormente são apresentados os resultados referentes às estimações da demanda por nitrogênio, bem como a eficiência do uso de nitrogênio (EUN) e às emissões de Óxido Nitroso (N2O) relacionadas ao uso dos fertilizantes nitrogenados.15
4.1 Consumo de Fertilizantes Nitrogenados e Produção de Cereais
No período avaliado, de 1994 a 2018, o consumo de fertilizantes nitrogenados na produção de cereais foi crescente, com aumento de 59% no Brasil. O detalhamento por regiões aponta crescimento de 92% para o Norte e 56% no Nordeste. Em se tratando do Sudeste, o aumento foi de 16% no consumo e para o Sul e o Centro-Oeste foi de 52% e 88%, respectivamente (Figura 2).
Figura 2 - Evolução do consumo de fertilizantes nitrogenados aplicados na produção de cereais no Brasil e nas cinco macrorregiões.
15 Mais detalhes a nível regional e estadual estão contidos na seção Apêndice A e B, ao final da dissertação.
0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 1.2 1.4
1994 2000 2006 2012 2018
Brasil Centro-Oeste Norte
Nordeste Sudeste Sul
Ano
Consumo de fertilizantes N (Milhão de Tonelada)
Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), com dados trabalhados pela autora.
Com relação à área cultivada com os principais cereais16, para o Brasil a expansão foi de 4% no período 1994 - 2018. Por outro lado, para as regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul houve redução na área plantada correspondendo a 24%, 59%, 50% e 22%, respectivamente. A região Centro-Oeste foi a única que apresentou ganhos de área cultivada, equivalente a 66%
(Figura 3).
Figura 3- Evolução da área cultivada com os principais cereais no Brasil e nas cinco macrorregiões.
Fonte: IBGE
Ao mesmo tempo, a dose anual de nitrogênio (Kg/ha) aplicada à estas culturas no Brasil aumentou em 57% para o mesmo período. Para a região Norte, o aumento do uso de fertilizantes por área plantada foi de 93% e para o Nordeste foi de 73%. No que tange ao Sudeste, Sul e Centro-Oeste, estes aumentos foram de 73%, 44% e 61%, respectivamente (Figura 4).
16 Arroz, aveia, centeio, cevada, milho, sorgo e trigo.
0 4 8 12 16 20 24
1994 2000 2006 2012 2018
Brasil Norte Nordeste
Sudeste Sul Centro-Oeste
Área (Milhão de Hectare)
Ano
Figura 4 - Evolução da dose anual de N aplicada em áreas agrícolas de cereais das cinco macrorregiões brasileiras e no Brasil.
Fonte: IBGE e ANDA, com dados trabalhados pela autora.
A produção dos cereais no Brasil respondeu a esse aumento no uso de fertilizantes, contudo, não ultrapassou 56% de aumento no mesmo período. Na região Norte, houve aumento de 47%, 29% para o Nordeste e 34% para o Sudeste. Para o Sul e Centro-Oeste os aumentos foram, respectivamente, de 33% e 84% (Figura 5). A evolução da produção de cereais de 1994 a 2018 aponta a região Norte como a que menos produziu em 201817.
17 A economia dessa região baseia-se no extrativismo vegetal e mineral, além da soja como principal cultura agrícola, e pecuária (FERREIRA; BOTELHO, 2014).
0 20 40 60 80 100 120
1994 2000 2006 2012 2018
Brasil Centro-Oeste Nordeste
Norte Sudeste Sul
Ano
Dose Anual de N (Kg/Ha)
Figura 5 - Evolução da Produção de Cereais no Brasil e nas grandes regiões em toneladas.
0 20 40 60 80 100 120
1994 2000 2006 2012 2018
Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul
Centro-Oeste
Ano
Produção Anual de Cereais (Milhão de ton)
Fonte: IBGE e ANDA, com dados trabalhados pela autora.
A Figura 6 apresenta a participação das grandes regiões e unidades da federação na produção de cereais em 2018. Observa-se que em 2018 a contribuição das regiões Centro-Oeste e Sul foi de 44% e 35%, respectivamente, sendo consideradas as maiores produtoras; para o Sudeste e Nordeste, os valores são 12% e 6%, respectivamente. Mesmo com aumento crescente nos últimos anos, a região Norte não apresentou participação expressiva na produção de cereais do país em 2018, correspondendo apenas a 3%. Com relação aos estados, os que tiveram maior participação na produção de cereais do país foram Mato Grosso e Paraná, com valores de 26,07% e 15,73%, respectivamente. Esses valores estão associados à expansão ocorrida de terras agrícolas no Mato Grosso e ganhos de produtividade no Paraná.
Figura 6 - Participação dos estados brasileiros e das regiões na produção nacional de cereais na safra agrícola de 2018 (%).
Fonte: IBGE e ANDA, com dados trabalhados pela autora.
A taxa geométrica de crescimento demonstra o avanço na produtividade em todo o país.
Os valores ao ano foram de 3,27% para o Brasil, 3,58% para o Norte, 3,47% para o Sudeste, 3,44% para o Nordeste, 3,18% para o Centro-Oeste e 2,55% para o Sul. A produtividade média dos cereais no Brasil foi de 3,44 ton/ha e para as regiões Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste esses valores foram de 2,36 ton/ha, 1,35 ton/ha, 4,04 ton/ha, 4,0 ton/ha e 3,89 ton/ha, respectivamente. Mais detalhes podem ser verificados no Apêndice B (Tabela B1 e Figura B1).
4.2 Demanda de Fertilizantes Nitrogenados
Na Tabela 1 são apresentados os resultados referentes à estimação do modelo MQ2E para demanda de fertilizantes. Anterior ao processo de estimação de MQ2E foram realizadas estimações por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO), Efeitos Fixos e Efeitos Aleatórios, tais resultados podem ser observados no Apêndice D (Tabela D1). Adotou-se o Teste de Sargan para validade dos instrumentos, confirmando a hipótese nula. Para a confirmação da não presença da endogeneidade nas variáveis foi utilizado o teste de Hausman, confirmando a hipótese que as variáveis eram exógenas.
Tabela 1 - Estimação demanda de nitrogênio MQ2E.
Variável Coeficiente
LnPn -0,25857
(0.23804)
LnPc 0,26738**
(0.11891)
LnPp -0,15744
(0.13489)
LnPk 0,00780
(0.26087)
lnNt-1 0.93443***
(0.03216)
lnyt 0,08120***
(0.03057)
lnPIBA 0,00546
(0.02974)
Constante 2,37917
(1.91912)
Teste de Sargan: 0,84 Teste de Hausman: 0.19
***p<1%, **p<5% Erros padrão entre parênteses
Fonte: Resultados da pesquisa.
Os resultados indicam que os coeficientes estimados para as variáveis Produção de cereais ( ), Índice de preços de cereais ( ) e Quantidade demandada de nitrogênio defasada em um ano ( − ) foram estatisticamente significativos. Os coeficientes dessas variáveis apresentaram os sinais esperados, indicando efeito positivo sobre a demanda de nitrogênio. Os valores demonstram que o aumento de 1% na quantidade da produção de cereais afetaria a quantidade consumida de fertilizantes em 0,08%; o aumento de 1% no preço esperado dos cereais, por sua vez, levaria à elevação de 0,26% na quantidade demandada do insumo; e para a quantidade defasada de nitrogênio, a variação de 1% varia a quantidade consumida de fertilizantes em 0,93% positivamente. Como as equações foram estimadas como lineares nos logaritmos, os coeficientes podem ser interpretados como elasticidades. Logo, os resultados indicaram que a quantidade demandada de nitrogênio é inelástica a estas variáveis.
4.3 Eficiência do Uso do Nitrogênio (EUN)
A EUN na produção de cereais no Brasil18 atingiu o valor médio de 53% e a TGC da EUN foi de -0,23% ao ano no período de 1994 a 2018 (Figura 7). O Nordeste apresentou valor de EUN média de 38%, com taxa de decrescimento de 2,01% ao ano; o Sudeste atingiu valor de 27% na EUN média, com TGC anual de 1,25%; Sul e Centro-Oeste obtiveram EUN média de 73% e 84% e TGC de -1,20% e -1,25%, respectivamente.
Figura 7 - Evolução da EUN no Brasil e nas principais regiões selecionadas.
Fonte: Resultados da Pesquisa.
A eficiência no uso do nitrogênio (EUN) média variou nos estados selecionados19, com valor mínimo de 24% para Minas Gerais e ao máximo de 94% para o Mato Grosso (Figura 8).
18 Para evolução da EUN os resultados e discussão para a região Norte foram negligenciados no estudo, visto que a participação desta região na produção nacional de cereais é extremamente baixa, o que resultou em outliers, que poderia gerar interpretações inconsistentes e equivocadas. Os resultados referentes a esta região podem ser analisados na seção Apêndice C (Figura C1).
19 Para apresentação dos resultados e discussão referentes a EUN a nível estadual, foram considerados os estados com participação na produção de cereais nacional em 2018 superior a 2%, devido à presença de outliers.
0 20 40 60 80 100 120
1994 2000 2006 2012 2018
Brasil Centro-Oeste Nordeste Sudeste Sul
Ano
EUN (%)
Figura 8 - Eficiência do Uso de Nitrogênio média 1994 - 2018 nos estados selecionados.
Fonte: Resultado da Pesquisa.
4.4 Emissão de Gases de Efeito Estufa
Observou-se crescimento contínuo das emissões provenientes do uso de fertilizantes nitrogenados em todas as regiões do país. De 1994 a 2018, as emissões cresceram, em média, em 59% no país (Figura 9). Para as regiões, esse crescimento foi de 92% no Norte, 88% no Centro-Oeste, 58% no Nordeste, 52% no Sul, 16% no Sudeste. O crescimento geométrico anual foi de 10,9% no Norte, 9,27% para o Centro-Oeste, 3,63% para o Nordeste, 3,09% para o Sul e 0,73% para o Sudeste. Para o Brasil, a TGC foi de 3,74% ao ano.
20 40 60 80 100
Minas Gerais São Paulo Bahia Santa Catarina Rio Grande do Sul Goiás Paraná Mato Grosso do Sul Mato Grosso
EUN Média (%)
Figura 9 - Evolução das emissões de gases de efeito estufa provenientes da fertilização sintética de nitrogênio na produção de cereais no período de 1994 e 2018.
Fonte: Resultados da Pesquisa
Nota: As emissões de N2O foram convertidas para Gg20 CO2eq.
Em termos de participação, a Figura 10 apresenta a contribuição percentual das diferentes regiões e estados do Brasil para a emissão de CO2eq média no período, oriunda da fertilização nitrogenada para a produção de cereais. Nota-se maior contribuição da região Sul, seguida das regiões Sudeste e Centro-Oeste. Os estados que mais emitiram, em média, foram Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná, com contribuição superior a 15% das emissões totais.
20 1 unidade de Gg equivale a 1000 toneladas.
0 2,000 4,000 6,000 8,000 10,000
1994 2000 2006 2012 2018
Brasil Centro-Oeste Nordeste Norte Sudeste Sul
Ano
Emissão de CO2eq. (Gg CO2eq.)
Figura 10 - Contribuição média percentual das regiões e dos estados do Brasil para a emissão de CO2eq oriunda da fertilização nitrogenada para a produção de cereais no período 1994-2018 (%).
Fonte: Resultados da Pesquisa.
5. DISCUSSÃO
5.1 Produção de Cereais e Consumo de fertilizantes nitrogenados
No que tange aos resultados referentes à produção de cereais no Brasil, notou-se que nos últimos 25 anos (1994 a 2018), o aumento guarda relação direta à prática de aplicações crescentes de fertilizantes a base de nitrogênio e, ou, produtividade, visto que área destinada ao plantio destas culturas se manteve constante no período. Esse resultado se traduz em elevada intensificação na produção agrícola de cereais.
A intensificação agrícola pode ser definida tecnicamente como o aumento na produção por unidade de insumos, como mão de obra, terra, tempo, fertilizantes, sementes, alimentos ou dinheiro. A intensificação ocorre quando há aumento no volume total da produção agrícola, que resulta de uma maior produtividade dos insumos, ou a produção agrícola é mantida enquanto certos insumos são diminuídos (FAO, 2004). O aumento da produtividade agrícola por hectare pode levar à redução da demanda por áreas de cultivo, poupando potencialmente essas terras para outros usos (BORLAUG, 2007).
Por outro lado, a intensificação agrícola nem sempre é acompanhada por declínios nas áreas cultiváveis (RUDEL et al., 2009), e isso é definido particularmente pela demanda do bem:
se a produção for relativamente elástica, ou seja, o aumento da oferta não resulte em um grande declínio de preços, permanecerá o incentivo geral para maior produção usando mais terras (ANGELSEN; KAIMOWITZ, 2001). Além disso, a intensificação agrícola sem balanço nutricional21 pode gerar uso ineficiente dos insumos, permitindo a adaptação de hospedeiros e pragas não tradicionais em culturas agrícolas (GAZZONI, 2017), o que gera danos ambientais
se a produção for relativamente elástica, ou seja, o aumento da oferta não resulte em um grande declínio de preços, permanecerá o incentivo geral para maior produção usando mais terras (ANGELSEN; KAIMOWITZ, 2001). Além disso, a intensificação agrícola sem balanço nutricional21 pode gerar uso ineficiente dos insumos, permitindo a adaptação de hospedeiros e pragas não tradicionais em culturas agrícolas (GAZZONI, 2017), o que gera danos ambientais