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3.2 DELINEAMENTO DA PESQUISA

3.2.6 Procedimentos Interventivos

Como já indicamos, os instrumentos de levantamento de dados não guardam caráter interventivo, pois ao iniciarmos a pesquisa, não havia previsão de intervenção no ambiente de pesquisa, razão pela qual este não é considerado um estudo interventivo. Porém, ao longo do período de levantamento de dados, alguns procedimentos interventivos mostraram-se necessários para melhor visualização do fenômeno em foco. Com esses procedimentos, buscamos ofertar aos participantes da pesquisa possibilidades de explicitação de elementos que pudessem disparar o desenvolvimento da competência aplicada dos professores, como teoria formal e informal em espaço de reflexão sistematizada. Assim, dois tipos de procedimentos constituíram o conjunto de procedimentos interventivos na primeira etapa: a) apresentação de palestras dirigidas ao grupo de professores da escola. Temas como Operação Global de Ensino de Línguas, Abordagem de ensinar, competência de professores de línguas, aprendizagem e aquisição (hipóteses de Krashen, 1982) foram abordados nos encontros; e b) visionamentos e reflexões sobre trechos de aulas gravadas e situações observadas em sala com os professores participantes cujas aulas foram registradas.

Foram realizados três encontros com os professores: no primeiro, foram apresentados e discutidos o modelo da Operação Global, o conceito de abordagem de ensinar, abordagem gramatical, abordagem comunicacional e foi aplicado o Mapa de Abordagem. No segundo encontro, foram tratadas as hipóteses de Krashen (1982) – Hipótese do Filtro Afetivo, Aprendizagem, Aquisição, Monitor e Input (I+1). No terceiro encontro, foi feita uma oficina em que se apresentou aos professores o planejamento temático como uma estratégia de materialização da abordagem comunicacional partir de uma experiência concreta de ensino de língua.

O Mapa de Abordagem é um instrumento ainda não usado em outras experiências de formação continuada. Essa ferramenta foi criada partir do conceito de campo de Bourdieu (1996) para auxiliar a sistematização da reflexão dos professores. Para esclarecer o sentido e o uso do instrumento, apresentamos uma breve explicação do conceito que orientou a criação da ferramenta. Para Bourdieu (1996), campo consiste em um sistema de relações no qual os sujeitos ocupam posições simbólicas em um espaço social determinado, estruturado por eixos. O conceito de campo pode ser entendido como um microcosmo social relativamente autônomo com regras específicas dentro de uma sociedade (espaço social, no dizer do autor). Cada campo se estrutura e cria suas dinâmicas de forma autônoma e particular no espaço social.

As posições sociais são definidas relacionalmente, isto é, as posições se definem umas em relação às outras (relação de poder) ou em relação aos eixos que estruturam o campo. Nesse sentido, segundo explica Barros Filho36, as posições no campo são marcadas por critérios que se constituem como eixos em torno dos quais as posições ganham simetria, isto é, os agentes podem ser definidos a partir de sua posição em relação ao eixo. Um exemplo apontado por Bourdieu37 é o eixo direita/esquerda no campo político. Assim, seus agentes são

definidos de acordo com esse eixo: políticos de direita, de esquerda ou de centro. Esses eixos se constituem em estruturas condicionantes e mantenedoras das diferenciações entre os atores sociais. Apesar de haver vários eixos possíveis em um dado campo, cada eixo pode ser examinado independentemente do outro.

A área profissional do ensino de línguas pode ser tomada como um campo, no sentido de Bourdieu. Vários eixos estruturantes podem ser identificados nesse campo: gramatical-comunicativo, implícito-conscientizado, público-privado, escola regular-cursos livres de línguas, entre outros. Cada eixo pode ser identificado por um conjunto próprio de crenças, enunciados, procedimentos e ações relacionados a sua natureza. Neste estudo, destacaremos os eixos gramatical–comunicacional e implícito–conscientizado para análise. Assim, formamos um mapa que localiza as abordagens no campo, por isso chamamos essa ferramenta de análise mapa de abordagem. Consideramos esses eixos estruturantes, pois eles definem posicionamentos dos atores no interior do campo.

Assim, o eixo gramatical-comunicacional define as posições dos agentes relativamente ao tipo de abordagem desses agentes e, portanto, a como deve se dar o ensino de línguas relativamente à concepção de língua e seu ensino – entre gramatical e

comunicativo em um continuum. Já o eixo Informal/implícito-formalizado demarca a

situação em que se encontra a abordagem de cada agente no momento do levantamento dos registros – também em um continuum entre um polo implícito e outro explicitado, passando por várias condições possíveis. Ao cruzarmos os dois eixos, poderemos mapear o conjunto das abordagens dos professores no campo em relação aos eixos.

36 O professor Barros Filho, em aula gravada disponível em www.youtube.com/watch?v=C5QFOq9jS9g, explica

que o conceito de campo, presente em toda obra de Bourdieu, é um espaço de organização dos agentes no campo. O professor dá vários exemplos dessa organização relacional encontrados na obra de Bourdieu.

Quadro 3.3: Mapa de abordagem: Eixos Estruturantes no campo de ensino de línguas Formalizado práxis Princípios Pressupostos/Regras Convicções Gramatical Comunicacional Crenças Memórias Intuições Informal prática Implícito

Fonte: autoria própria com base em Almeida Filho (1993; 2014) e Bourdieu (1996)

Pelo quadro 3.3, representamos o campo do ensino de línguas. O eixo horizontal marca os tipos de abordagem – do gramatical ao comunicacional. Assim, quanto mais próximo da extremidade esquerda, mais gramatical será o ensino orientado por essa abordagem, quanto mais à direita estiver a abordagem analisada, maior representação de um ensino comunicacional. Esse eixo pode ser descrito com diferentes tipos possíveis de abordagem entre os dois polos. Dessa forma, por exemplo, pode-se conceber uma ordem matizada de abordagens partindo-se do gramatical, passando pelo gramatical comunicativizado, chegando a uma abordagem funcional, depois comunicativo temático e comunicacional (ALMEIDA FILHO, 2005).

O outro eixo representa o grau de explicitação da abordagem, que pode marcar o processo de formalização das teorias. Ele pode ser compreendido por diferentes categorias de formalidade (cf. BANDEIRA, 2003). As categorias de informalidade tendem a participar de um conjunto de conhecimentos implícitos. Os conhecimentos formais, tais como as teorias acadêmicas, estão mais associadas a uma condição de explicitação crescente. Observando esse eixo, pode-se notar que categorias de informalidade também podem se manifestar de forma explícita. Nesse caso, uma crença, por exemplo, pode aparecer no discurso explicativo de um professor, ainda que não tenha articulação clara com outros elementos da OGEL.

É possível demarcar uma escala de explicitação, por exemplo, iniciando no polo implícito, indo para o implícito explicitado (concepções que circulam no discurso, mas ainda permanecem implícitas para o professor), passando pela explicitação das concepções de língua, de ensino e de aprendizagem, e explicitação de elementos que compõem atitudes do professor. Por essa representação, é possível observar que o quadrante superior direito indica

um alto grau de conscientização de uma abordagem comunicacional. Essa, ao que parece, tem sido apontada como a condição mais desejável de uma abordagem contemporânea. Esse quadrante guarda potencialmente um alto grau de desenvolvimento da CA, portanto, marca também um forte potencial de configuração da práxis.

O Mapa de Abordagem é uma ferramenta auxiliar de formação reflexiva. Como é uma ferramenta nova, ou seja, ainda não utilizada em pesquisas e carente de revisão, seu uso poderá ser aprimorado e dar indicações sobre as abordagens em tensão no contexto pesquisado (no caso, o CIL) e suas contribuições ainda poderão ser exploradas em novas pesquisas.

Além do Mapa de Abordagem, propomos outro gráfico para auxiliar o processo formativo: o Mapa de Formação. Assim como o Mapa de Abordagem, o Mapa de Formação apresenta dois eixos. O eixo X varia entre o polo da abordagem treinamentista e a reflexiva. Desse modo, quanto mais próxima do polo treinamentista uma dada abordagem de professor for marcada, mais propensa a uso de métodos prontos, boas práticas e aplicações será esse professor. Ao contrário, quanto mais próxima do outro polo se considerar uma abordagem, mais livres de práticas prontas e aplicações e mais próximo de experimentações, reflexão sobre a atividade profissional, sobre a própria abordagem de ensinar e resultados obtidos será o professor. Ele pode ser ferramenta útil para orientar os rumos do desenvolvimento profissional.

Quadro 3.4: Mapa de Formação: Eixos da Formação

Competência Aplicada Competência Teórica

Internalização sintética

Explicitação de teorias e práticas Treinamentista Reflexiva

Crenças Memórias

Intuições Competência Implícita

Fonte: autoria própria com Base em Almeida Filho (2004)

Como se vê no quadro 3.4, o eixo horizontal marca os tipos de abordagem de formação, que se estende desde um tipo treinamentista até outro extremo, reflexivo. O outro eixo aponta o desenvolvimento do conjunto das competências. Esse desenvolvimento pode ser

marcado pelo processo de explicitação e de síntese de teorias e de construção de práxis na atividade profissional. O que se pode ver no eixo vertical é marcado pela crescente formalização da atividade profissional e possível desenvolvimento de competências.