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CAPÍTULO 2 – PROCESSO DE INVESTIGAÇÃO SOCIAL: EM BUSCA DE

2.2 Procedimentos Metodológicos: Caracterização do Estudo

Apresentar o plano de trabalho de uma pesquisa acadêmica é imprescindível, visto que os resultados alcançados só adquirem legitimidade perante os especialistas, conforme expresso acima, mediante os usos de métodos pertinentes ao objeto de estudo e a demonstração da articulação competente entre teoria e realidade empírica. Entretanto, embora indispensável, o espaço destinado a essa finalidade em um trabalho tende a tornar-se um item “burocrático”, técnico, desconectado do todo textual.

O entendimento que tem se apresentado na atualidade é de apontar o percurso empreendido desde a elaboração das categorias conceituais, o contato com o objeto, passando pela organização e classificação dos instrumentais, produção de dados, e, por fim, a análise e discussão dos subsídios levantados. A proposta não é esquivar-se desse modelo, mas, através dele, explicitar as dimensões que uma pesquisa pode alcançar, principalmente, na relação constituída entre investigador, informante e sociedade circundante.

Entendemos metodologia enquanto caminhos possíveis entre o entendimento do objeto, no nível da compreensão abstrata, e a prática desenvolvida para alcançar e/ou aproximar-se das minúcias da realidade. Caminhos múltiplos, portanto, caracterizados por aspectos subjetivos, liminaridades, continuidades e rupturas, que exigem do pesquisador uma postura desenvolta e suscetível a buscar formas alternativas de apreensão da realidade.

Reconhecendo que o método não precede ao objeto, mas ele é condicionado por este, a análise do objeto de estudo sinaliza quais caminhos a investigação percorrerá para responder à sua problematização. O nosso objeto – formas de associativismo na velhice e o (possível) diálogo com o poder público, através das práticas cotidianas dos

sujeitos – por si só, esclarece certa exigência por análise minuciosa. Assim, esclarecemos que esta pesquisa é qualitativa, visto que se propõe a buscar significados, condições objetivas e subjetivas, abrangendo uma pluralidade de possibilidades que medidas quantificáveis não compreenderiam. Embora reconheçamos a relevância de uma pesquisa quantitativa, a utilização de dados oriundos exclusivamente a partir de tal modelo não abarcaria esse “universo de significados” e relações que nos propomos a discutir.

Entende-se que o percurso metodológico traçado para tal pesquisa percorreu etapas que, geralmente, são propostas para um satisfatório aproveitamento, tais como levantamento bibliográfico para traçar o estado da arte do objeto, definição das categorias, aproximação com o campo de estudo, contatos com informantes que estão inseridos nos espaços observados, entre outras. Contudo, esse modelo etapista, que lemos nos manuais e é sustentado por metodólogos, é redimensionado na prática, impedindo essa sucessão de fases, num processo de vaivém contínuo e que alça a pesquisa no dinâmico jogo social. Isso acontece quando o acesso ao campo não acontece da forma prevista, certa fonte teórica encontrada ao longo do período investigativo possibilita novos ares à pesquisa, um informante utiliza categorias nativas que podem ser mais pertinentes e “explicativas” que as teóricas, entre outras situações que não são antecipadas na produção de um cronograma. Na medida em que objeto e sujeito não se encontram cristalizados na realidade social, a atividade de pesquisa deve ser ao mesmo tempo, criativa, ética e flexível. Assim, a presente investigação foi marcada por esse fluxo de adaptações ao inesperado.

Nesse processo, a permanente discussão teórica – e não apenas na fase inicial – desponta como elemento significativo em uma pesquisa, visto que possibilita a atualização constante de informações, além de contribuir para que o investigador desnaturalize a realidade, evitando assimilar em demasia as categorias e análises nativas do campo, bem como evite elevar a um patamar superior as categorias teóricas. Ou seja, colabora para que o pesquisador vivencie cotidianamente a experiência de transformar o exótico em familiar e o familiar em exótico (DA MATTA, 1978), o que ocasiona um encontro e o estranhamento com o outro e com si próprio, em seus saberes e práticas cotidianas.

Produzidas em contextos sociais particulares, as pesquisas e seus desdobramentos teóricos são impregnados por proposições específicas, reflexos de um tempo. Nos dias atuais, um dos critérios de análise adotados e difundidos pela academia

é a constante atualização das fontes utilizadas nos estudos desenvolvidos. Contudo, embora considerando que os discursos são passíveis de sofrerem modificações, tendo em vista a historicidade dos fatos apreendidos, ressaltamos a relevância do reconhecimento das fontes originais. Estas, ainda que desenvolvidas em décadas anteriores, encontram respaldo e validade pela sutileza com que conseguiram refletir realidades específicas de maneira peculiar, além de contribuírem também para o estabelecimento de análises comparativas com questões ainda postas na atualidade. Contribuem ainda para questionar: Os discursos e questões semelhantes permanecem ou foram ressignificados? Através disso, surgem problematizações que a apropriação apenas de textos atuais, elaborados por comentadores, não compreenderia. Permanecem, desta maneira, enquanto mananciais de inspiração da realidade empírica, sinalizando para aspectos ainda não percebidos ou preliminarmente tratados. Através desse entendimento, optamos por priorizar em nosso estudo as fontes originais, distantes ou mais aproximadas do tempo presente, sobre as questões levantadas nesta pesquisa.

A partir da perspectiva de que a bagagem teórica está em constante processo de construção, direcionamos nossa atenção à realidade empírica, de forma prévia, sem a certeza dos instrumentais metodológicos pertinentes ao contexto pesquisado. Esse procedimento aconteceu na tentativa de ter acesso a dados preliminares que corroborassem, ainda de que forma incipiente, hipóteses levantadas na produção do projeto de pesquisa ou que revelassem novas questões a serem discutidas. A partir de então é que o retorno ao campo ocorreu de forma mais focada e as técnicas de pesquisa selecionadas, foram utilizadas na produção de dados.

O campo de pesquisa é um espaço que expõe múltiplas facetas ao longo da investigação. Em cada momento, ele e os sujeitos que o compõem mostram-se peculiarmente. Daí a necessidade de aproximar-se previamente na tentativa de “captá- lo” ao máximo, embora com limitações. Essa aproximação deve acontecer de forma ininterrupta no processo de pesquisa. O “fazer-se” contínuo impede, portanto, que o pesquisador apareça com uma teoria “pronta” para analisar a realidade, bem como com métodos e técnicas “infalíveis” para enquadrá-la, que culminam por rejeitar as possibilidades de observar as nuances e complexidades que se apresentam.

A análise e discussão dos dados é o momento culminante da pesquisa, visto que é a partir dessa análise que os resultados da investigação empreendida são apreciados. Consideramos, contudo, que um dos pressupostos com os quais o pesquisador das Ciências Sociais se depara é com a historicidade do objeto a ser pesquisado. Isso

significa que tais resultados são provisórios, pois são provenientes de um contexto social específico, que sofre alterações constantes, transformando as particularidades, subjetividades e os diversos significados que o associativismo entre idosos, por exemplo, apresenta na sociedade.