SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO
1. INTRODUÇÃO Prelúdio
1.3. Procedimentos metodológicos
Esta pesquisa se baseia em uma metodologia qualitativa e etnográfica, optando por um período longo de relação entre o pesquisador e alguns Guarani-Mbya em suas aldeias. Apesar de fazer aproximadamente oito anos que conheci a maioria das pessoas presentes nesta investigação, o material discutido através destas páginas refere-se principalmente ao período de campo relativo ao mestrado, no qual permaneci durante aproximadamente sete meses no ano de 2016 nas aldeias acima citadas, com momentos pequenos de intervalo entre elas. No texto que segue, há inúmeros diálogos entre o pesquisador e certos Guarani-Mbya que foram gravados na ocasião da pesquisa e transcritos na íntegra para este trabalho. Mantive alguns nomes e outros troquei para manter certa privacidade dos entrevistados.
A falta de um conhecimento profundo da língua mbya me levou a usar o português na maior parte da investigação. Contudo, acredito que se perdi muita precisão em termos de conceitos nativos, ganhei na exploração e na expansão analogista dos termos mbya tendo o português como veículo. Se antes pensava ser isto um grande obstáculo para a pesquisa, ao ver seu resultado, me parece que através do português alguns interlocutores e amigos aqui presentes conseguiram dispender maior tensão nos sentidos restritos a sua própria língua, ou seja, o português possibilitou que conseguissem burlar a "tirania de sua própria linguagem” (OVERING, 1985, p. 10).
O período de etnografia começou e terminou na Tekoa Tamandua, com algumas viagens feitas a outras aldeias da região de Misiones na Argentina – conforme vimos no prelúdio desta introdução –, e períodos longos no interior do Rio Grande do Sul. A aldeia de Tamandua está localizada próxima à cidade de 25 de Mayo na província de Misiones, Argentina, e possui uma área reconhecida de 3.104 hectares, com aproximadamente 20 famílias – território grande se compararmos com os parâmetros sul-brasileiros de demarcação de terras indígenas onde os Guarani sejam os beneficiários.
Assim como em Tamandua, passei alguns meses na aldeia de Ko’ẽju, junto às pessoas centrais a esta dissertação. Localizada na região missioneira brasileira, no município de São Miguel das Missões, a Tekoa Ko’ẽju possui 236 hectares não homologados enquanto Terra Indígena pelo Governo Federal, mas como Reserva Indígena já que foi um processo iniciado pelo governo do Estado do Rio Grande do Sul. Rodeada por assentamentos do MST, a aldeia tornou-se um nicho ecológico de diversas
espécies nativas, já que por sua volta as plantações de grãos (soja e milho, principalmente) predominam.
A região, conhecida como missioneira, é um ponto turístico por abrigar inúmeros sítios arqueológicos e históricos da época das reduções jesuíticas. Dentre elas, a que mais recebe atenção são as reduções de São Miguel Arcanjo, localizadas a 27 Km da aldeia de Ko’ẽju. Em meio a uma composição de paisagem entre o turismo, a história da região e o atual agronegócio, somos chamados à atenção quando as placas da estrada em direção à aldeia nos avisam de que estamos no “Caminho das Origens”. A “origem” é uma referência às reduções jesuíticas que abundam na região, e que hoje servem para a constituição de um passado folclórico dos atuais gaúchos enquanto produto da fusão de indígenas, portugueses e espanhóis. O tal caminho originário, liga-se à chamada “Estrada da Produção”, a BR-386. Cheia de caminhões abarrotados de grãos, ela foi o caminho de entrada da soja transgênica pelo Brasil, fielmente marcando a origem folclórica e o percurso histórico do atual brasileiro/gaúcho exportador de commodities.
A Tekoa Ko’ẽju possui posto de saúde coordenado pela SESAI através do Distrito Sanitário Especial Indígena de abrangência vinculada ao Litoral Sul (RJ/SP/PR/SC/RS). De acordo com dados da FUNASA/SESAI de 2010, a reserva possui 180 pessoas, sendo que no censo anterior, de 2009, havia 140. De acordo com a FUNAI, a aldeia foi homologada oficialmente como Reserva Indígena no ano de 2000. A Coordenação Regional da FUNAI responsável pela aldeia é de Passo Fundo/RS.
Um pouco mais ao sul de Ko’ẽju, seguindo a “Estrada da Produção” (BR-386) que conecta o noroeste gaúcho, grande produtor de grãos, à capital Porto Alegre, cruzamos pelo município de Estrela Velha, onde está localizada a vila de Itaúba e próxima a ela, a Tekoa Ka'aguy Poty. Em conversa com o vice-prefeito da cidade, contou-me que era uma região de agricultores familiares que antes "plantavam fumo e tinham uma vida simples", mas com os benefícios dos governos petistas passaram a ter crédito para carros, tratores, “tudo a base de financiamento do governo federal, que agora estamos pagando o preço”. Se antes plantavam fumo em suas terras diminutas, agora buscam plantar soja em “qualquer cantinho”8 que encontram.
8 Para completar a conversa pouco agradável, o vice-prefeito se disse amigo
pessoal de Luiz Carlos Heinze, o deputado federal do Partido Progressista (PP) que nas últimas eleições foi o mais votado do Rio Grande do Sul, e aquele que ficou famoso por dizer que “quilombolas e indígenas são tudo o que não presta”.
A região específica onde está localizada a vila de Itaúba é considerada estratégica pelo Estado, pois além das vastas plantações de grãos, faz parte da sub-bacia hidrográfica do Jacuí, complexo de rios que desembocam no rio Guaíba e conectam-se ao mar no sul do país, por meio do porto e da cidade de Rio Grande. Por isso há, pelo menos, cinco Usinas Hidrelétricas (UHE) por volta do município e da vila de Itaúba, junto com algumas barragens construídas juntamente a elas que acabam por influenciar direta e indiretamente a Tekoa Ka’aguy Poty.9
Dentro disso, a constituição territorial atual da aldeia é decorrente da cessão de terras da companhia elétrica do Rio Grande do Sul (CEEE), e a área ainda está em processo de homologação e ampliação. Além da Tekoa Ka’aguy Poty, em Estrela Velha, há também a Tekoa Porã em Salto do Jacuí e Pedra Lisa, com constituições fundiárias parecidas: áreas cedidas pelos consórcios elétricos de construção das barragens, totalizando, entre todas, 458 hec. Há ainda a previsão de construção de mais quatro PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) com influência direta nas Terras Indígenas da região (SOARES, 2012, p. 129).
O que me levou a tais aldeias foram as relações. A primeira vez que consegui burlar a invisibilidade dos indígenas por olhos um tanto embaçados à diferença, foi em 2007. Lá conheci Vherá Poty, quem até hoje segue próximo e que acabou por levar-me a muitos destinos importantes a esta dissertação. Desde que o conheci, aquele olhar pouco afeito ao outro passou a buscar no outro entendimentos diferentes sobre o que seria este mundo, antes Uno. Essa busca me levou, nos anos subsequentes, a inúmeras aldeias: do Cantagalo até as aldeias do noroeste do Rio Grande do Sul; ao litoral paulista; ou ainda àquelas que se deve passar a nado a fronteira com a Argentina.
As relações de amizade foram sendo assumidas desde o principio, e esta dissertação é extremamente permeada por elas. Isso não significa uma completa simetria entre o pesquisador/amigo e os Guarani- amigos/interlocutores, pois quanto mais amigo me sentia, mais questionava a diferença nas concepções de amizade entre nós. Afinal, a desconfiança de que falávamos outra língua, mesmo com o português sendo pronunciado perfeitamente entre nós, só cresceu durante os anos. Por isso, o resultado aparente deste texto é também um jogo de distâncias entre o pesquisador e os Guarani, e entre as diferentes relações aqui presentes. Às vezes, a certeza da amizade, às vezes, a incerteza da
9 Dentro da pesquisa que realizei, há a UHE Itaúba (500 MW), UHE Leonel
Brizola (180 MW), UHE Passo Real (158 MW), e principalmente a UHE Dona Francisca (125 MW), e a mais antiga e afastada UHE Ernestina (3,7 MW).
relação10. Produzir um texto nos moldes acadêmicos foi um tanto difícil para este constante vaivém de relações, mas espero que a etnografia tenha me salvado da mudez. Quanto mais o tempo passava, mais acometido ficava pela certeza de que entendia cada vez menos.