6 MÉTODO E PROCEDIMENTOS
6.2 Procedimentos metodológicos
No que se refere a condução metodológica do estudo, o modelo conceitual da pesquisa refletiu a evolução temporal, a criação, o aprimoramento das capacidades em conjunto com o aspecto institucional sobre o sistema de inovação. Nesse sentido, cabe a utilização de uma metodologia de análise, que demonstre a conjugação desses elementos. Uma identificação pontual do que vem a ser capacidade e instituição em um sistema é tarefa bastante complexa, assim entendemos que a metodologia proposta deverá “mapear” esses elementos de uma forma que possibilite enxergar a dinâmica de um determinado sistema de inovação.
Nesse tipo de análise, a difusão de inovações é elemento fundamental para se avaliar a desempenho do sistema e a identificação de suas “funções” permite uma visualização do funcionamento do sistema em comparação com a estrutura que ele apresenta. Contudo, a avaliação do desempenho também vai depender no nível de análise adotado (CARLSSON et al., 2002; MARKARD; TRUFFER, 2008).
Nesse sentido, estudos foram conduzidos para caracterizar os sistemas de inovação dentro de uma abordagem “funcional”, ou seja, sistemas de inovação possuem ou devem possuir um conjunto de funções especificas que são capazes de explicar seu funcionamento e dinâmica (BERGEK et al., 2008; CHEN; GUAN, 2011; DUNHAM; BOMTEMPO, 2009; DUNHAM;
BOMTEMPO; FLECK, 2011; HEKKERT et al., 2007; HEKKERT; NEGRO, 2009; JACOBSSON; JOHNSON, 2000; SUURS, 2009; SUURS et al., 2010).
Dentre esses estudos, a metodologia apresentada por Hekkert et al. (2007), permite visualizar a trajetória tecnológica do sistema histórica e cronologicamente, por meio da análise de suas atividades(ou motores de transformação), processos ou funções do sistema de inovação (FSI), a fim de atingir a finalidade do sistema que é a difusão de inovações. É uma metodologia recente, o que no nosso entender pode ser uma contribuição para a análise de inovação em sistemas(setores) com diferentes contextos e tecnologias. É uma que foi utilizada por Dunham, Bomtempo e Fleck (2011) e Suurs (2009), e assim se enquadra de forma mais adequada no que está proposto neste trabalho.
Dunham, Bomtempo e Fleck(2011) afirmam que a metodologia permite trazer empiricamente ideias de como se formam os motores de transformação e de como influenciar a direção dos Sistemas de Inovação SI em termos nacionais e setoriais. Os autores propuseram a utilização dessa abordagem para explicar a formação do (SI) Sucroalcooleiro no Brasil. Os autores “adaptaram” a metodologia original de Hekkert et al. (2007) nos seguintes termos:
A primeira diferença é incluir a produção industrial como parte integrante do objeto de análise, entendendo que a tecnologia não é o único vetor capaz de transformar o SI. A segunda é diminuir a importância que os autores dão à FSI que determina o ponto de partida dos motores de transformação... A terceira diferença é considerar que a difusão e o uso das tecnologias – e não apenas o desenvolvimento de tecnologias fazem parte do objetivo maior de todo SI (DUNHAM; BOMTEMPO; FLECK,
2011, p. 38).
Hekkert et al. (2007), destacam em sua metodologia que a análise das funções do sistema de inovação é essencial para compreender sua dinâmica e de acordo com Markard e Truffer (2008), são elementos úteis para “medir” o
desempenho do sistema. O conjunto das sete funções básicas e interligadas entre si para a análise de um sistema de conforme Hekkert et al. (2007), são:
a)
Atividades empreendedoras: a presença de empreendedores ativos é um primeiro indicador do desempenho do sistema através do mapeamento dos novos entrantes; a diversificação das atividades das firmas já existentes e o numero de tentativas com novas tecnologias.
b) Desenvolvimento do conhecimento: três indicadores são os maiscomuns para mapear essa função ao longo do tempo – 1) projetos de pesquisa e desenvolvimento 2) patentes 3) investimentos em pesquisa e desenvolvimento.
c) Difusão do conhecimento através das redes: decisões políticas (padrões, metas de longo prazo) devem estar consistentes com os insights tecnológicos existentes. Essa função pode ser mapeada através do tamanho da rede existente sua intensidade ao longo do tempo e o número de conferências e workshops dedicados a uma tecnologia. d) Direção da pesquisa: função mapeada pelos artigos e documentos
existentes sobre novas tecnologias em desenvolvimento, para que se possa avaliar “o debate” estabelecendo elementos positivos e negativos acerca da tecnologia, com a visão de governos indústrias e outros atores. e) Formação do mercado:
essa
função pode ser mapeada analisando osnichos de mercado em que novas tecnologias foram introduzidas com: regimes tributários e ambientais específicos
f) Mobilização dos recursos para inovar:
e
ssa função é mais complexa de ser mapeada, sendo necessária a realização de entrevistas para perceber a mobilização de recursos no sistema a partir de seus atores centrais, essa será a segunda etapa da metodologia a ser detalhada adiante.g) Criação da legitimidade\ resistência á mudança:
a
identificação de grupos de interesse, ações de lobby e podem interromper ou dificultar os processos inovativas a partir de novas tecnologias.Hekkert et al. (2007) apontam que todas essas funções estão inter- relacionadas e podem servir como motores dinamizadores do sistema. Os autores afirmam que essa abordagem, mesmo com um caráter funcionalista, não se utiliza de critérios estatísticos para validação das funções. Assim, esta etapa será de uma pesquisa documental e histórica a respeito das tecnologias de redução de emissão de poluentes e conversão de energias do sistema automotivo. Hekkert et al. (2007) consideram essa fase como o mapeamento dos eventos históricos que permitem “adequar” as funções ao sistema e sequênciá-los historicamente. Em síntese , esse método é conhecido como sequência histórica de eventos (SUURS, 2009).
Ainda acerca das funções apresentadas, Dunham, Bomtempo e Fleck (2011) demonstram que as inovações são elementos impulsionadores do sistema e que é importante identificar quais eventos estão associados a quais funções e se encadeiam numa sequência lógica e temporal.
Suurs (2009), também descreve as funções do sistema de inovação e os passos necessários para a aplicação desse método que foram seguidos no estudo:
a) Coleta de dados da literatura: a coleta de artigos, documentos livros e outros relatórios relacionados as tecnologias emergentes; b) Construção de uma base de dados: a organização dos fatos ou
eventos mais relevantes ligados a determinada tecnologia emergente em ordem cronológica;
c) Mapear eventos a função do sistema: cada evento mapeado está ligado a uma função especifica no sistema de inovação, funcionando
como indicador; os números de eventos são mapeados ao longo do tempo como positivos (+1) negativos (-1) ou neutros (-) em relação á tecnologia analisada e separados dentro das sete funções do sistema; d) Reconhecimento de padrões: identifica-se padrões e tendências das
funções ao longo do tempo, a partir daí o impacto de cada função e suas interações pode ser observado;
e) Episódios: com o reconhecimento de padrões, o sistema pode ser dividido em episódios, para facilitar a analise e a leitura da trajetória do sistema; como por exemplo: ‟A crise do petróleo nos anos 70”; f) Estruturas e funções do sistema: compreende identificar o
relacionamento entre instituições e as tecnologias etapa realizada por meio de entrevistas.
Nas palavras de Dunham, Bomtempo e Fleck(2011, p. 44):
A pesquisa resulta num banco de dados históricos, construído com todos os eventos relevantes associados a uma tecnologia específica. Os eventos podem ser seminários sobre a tecnologia, início de projetos de P&D, opiniões de especialistas sobre a tecnologia, anúncio de recursos para projetos, etc.
Essa metodologia analisa o sistema como um todo. Como complemento á pesquisa documental a segunda parte desse trabalho propõe a realização de entrevistas o que é condizente com a abordagem de Hekkert et al. (2007) que defendem a adoção das mesmas principalmente no mapeamento dos recursos. Para Negro, Hekkert e Smits (2007), durante a utilização deste método, a construção de sequências de evento e narrativas deve ser feita da forma mais objetiva possível, baseada nas fontes empíricas, sendo necessária a realização de entrevistas para minimizar interpretações pessoais do pesquisador .
Nesta tese, o roteiro de entrevistas também buscou identificar as funções propostas pelos autores complementando a pesquisa documental. O método também deixa em “aberto” a possibilidade de se encontrar empiricamente alguma função extra não presente no modelo proposto por Hekkert et al. (2007) isso porque esta metodologia, pode ser adaptada para incluir outros componentes que se demonstraram importantes e pode ser aplicada a outras indústrias, desde que exista uma base prévia de dados históricos e novas FSI podem ser identificadas em função dos trabalhos empíricos (DUNHAM; BOMTEMPO; FLECK, 2011). Espera se ao final verificar a influência de capacidades e instituições nas tecnologias de redução de emissão de poluentes.
Dessa maneira, foram realizadas entrevistas, a partir de um roteiro semiestruturado que englobou as funções do sistema proposto por Hekkert et al. (2007), em termos dos seguintes tópicos:
a) Atividades empreendedoras; b) Desenvolvimento de conhecimento; c) Difusão de conhecimento através de redes;
d) Direcionamento da pesquisa e do desenvolvimento tecnológico; e) Formação de mercado;
f) Mobilização de recursos para a inovação; g) Criação de legitimidade/resistência à mudança; h) Função extra não presente no modelo.
Como exemplo, destacamos no estudo de Dunham, Bomtempo e Fleck (2011) as funções do sistema de inovação sucroalcooleiro -FSI- (direcionamento da pesquisa e do desenvolvimento tecnológico, mobilização de recursos para a inovação, atividades empreendedoras e descrição de legitimidade e resistência à mudança) em uma das etapas relativas ao seu processo de modernização com o
devido resultado. A obtenção dos dados foi realizada por meio da pesquisa documental dos relatórios do Ministério da Agricultura e de diversas outras publicações e teses sobre o setor.
O resultado da pesquisa desses autores destaca o mapeamento dos motores que influenciaram esse sistema, entre 1875 e 1975, baseado na metodologia as funções do sistema proposta por Hekkert et al. (2007). O artigo identifica seis motores que transformaram o sistema, no período anterior a 1975 (DUNHAM; BOMTEMPO; FLECK, 2011). Na presente pesquisa, pretende-se fazer o recorte temporal, a partir de 2000,para as tecnologias de redução na indústria automobilística e estabelecer a linha do tempo dessas tecnologias. Dunham, Bomtempo e Fleck (2011) asseveram que em períodos curtos de tempo podem empobrecer o processo de identificação das FSI que explicam determinada transformação do sistema.
Abaixo se apresenta um quadro síntese com os elementos investigados na metodologia utilizada:
Objetivos Foco teórico Autores Método de coleta Identificar as principais capacidades organizacionais do sistema de inovação setorial automotivo com o foco nas
tecnologias de redução de emissão
de poluentes
Capacidades dinâmicas (produção e P e D)
Alves, Zen e Pádua (2011) e Teece (2007) entrevistas Identificar os mecanismos institucionais principais sistema de inovação setorial automotivo com o foco nas tecnologias
de redução de emissão de poluentes Aspectos institucionais Normas valores (NORTH, 2010, 2013; WAARDEN, 2001) Pesquisa documental entrevistas Estabelecer a inter relação entre as capacidades e os mecanismos institucionais do sistema e sua influência na geração de inovações com o foco nas tecnologias
de redução de emissão de poluentes Funções do sistema Abordagem de Dunham, Bomtempo e Fleck (2011), Hekkert et al. (2007) e Suurs (2009) entrevistas
Quadro 8 Elementos investigados na metodologia
Esse trabalho se apoiou na delimitação de análise de Carlsson et al. (2002), definindo em um contexto setorial os níveis mais apropriados para o alcance do objetivo geral proposto,. Portanto, o recorte estabelecido foi no setor automotivo com a realização de estudo de caso em uma organização em que a dinâmica da inovação se fez mais presente a partir de organização foco.
Foram realizadas onze entrevistas gravadas e transcritas no período de abril a outubro de 2013, com duração aproximada de uma hora feitas pelo
telefone e internet. A organização escolhida foi uma montadora e o mecanismo institucional selecionado foi o Inovar-Auto, política governamental direcionada à geração de conhecimentos inovadores que se iniciou em 2013 e vai até 2017.
De acordo com Godoi e Matos (2006), por esse método garante-se a flexibilidade para ordenar e formular perguntas durante a entrevista. Segundo Alencar (2007), o roteiro constitui uma relação de tópicos a serem cobertos durante a entrevista. O momento e o modo como os tópicos são transformados em questões decorrerão do desenrolar da entrevista. Não há nenhuma restrição ao aprofundamento dos tópicos por meio de questões que emergem durante a conversa entre o pesquisador e o entrevistado
Para a análise das entrevistas, foi utilizado o método da análise de conteúdo. Para Bardin (1979), a análise de conteúdo representa técnicas de análise de comunicação que, por meio de descrição do conteúdo das mensagens, permitem a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção dessas mensagens.
A análise de conteúdo é considerada uma técnica para o tratamento de dados que visa a identificar o que está sendo dito a respeito de terminado tema.
As características principais deste método são: presta-se tanto aos fins exploratórios quanto aos de verificação; exige categorias exaustivas, mutuamente exclusivas, objetivas e pertinentes e gera grande quantidade de dados que podem ser tratados com o auxílio de programas de computador (VERGARA, 2006).
A análise de conteúdo teve como foco a análise temática ou categorial que funciona pela divisão do texto em unidades (frases, parágrafos). A escolha se justificou, principalmente, pela facilidade de sua aplicação nos discursos diretos, favorecendo a compreensão dos textos (BARDIN, 1979). De acordo com Triviños (1987), na análise de conteúdo podem surgir premissas que se levantam como resultado do estudo de dados da comunicação.
Essa técnica compreende três fases: pré-análise, descrição analítica e interpretação referencial. De acordo com Bardin (1979), elas podem ser descritas da seguinte maneira:
a) pré-análise: é quando acontece a organização do material a ser analisado (entrevistas, documentos). É nessa fase que ocorre a formulação de hipóteses e estabelecimento do corpus de investigação analítico;
b) descrição analítica: o material que constitui o corpus é analisado a partir das hipóteses formuladas e do referencial teórico utilizado. Nesta fase, a classificação e a categorização são fundamentais para estabelecer a relação com os pressupostos teóricos;
c) interpretação referencial: a fase se caracteriza por um aprofundamento da investigação e na interação de todos os dados obtidos e busca-se extrair o conteúdo latente das mensagens, e não somente o conteúdo manifesto das comunicações, num processo dinâmico e histórico.