3. Metodologia da Investigação
3.5 Procedimentos metodológicos quantitativos
A adaptação cultural tenta assegurar a validade de conteúdo entre a versão original e a versão para a população alvo. No entanto, dadas as diferenças culturais e hábitos de vida distintos entre as duas populações, é necessária a avaliação das propriedades psicométricas do novo instrumento. Desta forma, assegura-se que a nova versão revela as propriedades de medição necessárias para a sua aplicação (Beaton et al., 2000).
3.5.1 Procedimentos de avaliação das propriedades psicométricas do instrumento
Complementarmente às etapas de tradução e adaptação cultural do instrumento, é necessária a realização de análise estatística para avaliar em que medida o instrumento pode ser considerado
válido para o contexto para o qual foi adaptado (Borsa, Damásio, & Bandeira, 2012). Para isso foram estudadas a fidelidade e a validade do novo instrumento.
Fidelidade
A fidelidade refere-se ao facto de as indicações dadas pelo instrumento de medida serem sempre concordantes. Prende-se com a capacidade do instrumento medir de forma fiel, ou seja, permitir resultados comparáveis em situações comparáveis. O grau de fidelidade exprime-se através de um coeficiente de correlação, que varia entre 0 e 1, em que 0 significa ausência de correlação e 1 uma correlação perfeita (Fortin, 2009) .
Existem vários critérios para avaliar a fidelidade dos instrumentos de medida tendo sido eleito para este estudo a consistência interna. Esta permite verificar homogeneidade de um conjunto de enunciados que medem diferentes aspetos do mesmo conceito. Quanto maior for a correlação entre os enunciados maior será a consistência interna do instrumento que assenta no principio de que o instrumento mede um só conceito. O coeficiente Alfa de Cronbach é a técnica habitualmente utilizada para verificar a consistência interna de um instrumento de medida. O valor deste varia entre 0 e 1 sendo que um valor elevado indica uma grande consistência interna, ou seja, correlações mais elevadas entre as questões. Este valor é também influenciado positivamente pelo número de questões do questionário (Fortin, 2009; Hill & Hill, 2005).
Outro critério comummente utilizado é a estabilidade ou fidelidade temporal, que se refere ao grau de concordância entre duas medidas recolhidas em dois momentos diferentes. Para isso aplica-se o mesmo questionário aos mesmos indivíduos em 2 momentos diferentes, com um intervalo de duas a quatro semanas, denominando-se de “teste-reteste” (Fortin, 2009; Hill & Hill, 2005). Dado que o questionário em processo de validação tem várias questões que se referem às últimas 4 semanas, qualquer acontecimento entre a primeira fase de respostas e a segunda podia enviesar os resultados pondo em causa a reprodutibilidade do mesmo uma vez que as condições poderiam ser diferentes. Quando os instrumentos medem estados passageiros, é desaconselhado analisar a estabilidade dos mesmos (Fortin, 2009).
A equivalência sendo uma avaliação feita por vários observadores independentes e posteriormente avaliada a concordância entre eles, foi dispensada dada a impossibilidade de recursos para haver mais do que um observador a utilizar o mesmo instrumento de medida junto dos participantes (Fortin, 2009).
Validade
A validade de um instrumento de medida é conseguida se este medir efetivamente o que é suposto medir. Esta corresponde ao grau de precisão com que um conceito é medido e reflete a capacidade de o novo instrumento medir o constructo para o qual foi inicialmente construído (Fortin, 2009; Hill & Hill, 2005). Com os testes de validação pretende-se verificar se os indicadores medem, de facto, os atributos que lhes estão subjacentes (Cardoso, 2006).
A validade de contudo, a validade de critério e a validade conceptual são os três tipos de validade mais frequentemente utilizadas no processo de validação (Cardoso, 2006; Fortin, 2009). A validade de conteúdo diz respeito ao caracter representativo dos enunciados utilizados num instrumento para medir o conceito ou o domínio em estudo, ou seja, avalia se os termos utilizados em cada item representam aquilo que realmente se pretende medir (Fortin, 2009). É importante verificar se o conteúdo de cada questão se mantem na nova versão. Para atestar a validade de conteúdo de um instrumento de medida, é frequentemente solicitada a apreciação a uma comissão de especialistas. Esta verifica a pertinência dos enunciados como parte importante do fenómeno que se quer medir assim como se cada domínio traduz aquilo que se pretende estudar (Fortin, 2009). Esta análise, descrita atrás, foi feita por um grupo de especialistas na área da saúde, mais concretamente na área da epilepsia, tendo analisado a clareza e a pertinência das questões, confirmando assim a validade de conteúdo.
A validade de critério obtém-se quando é possível correlacionar um instrumento de medida com outro instrumento (critério) que meça o mesmo fenómeno. Desta forma o primeiro pode predizer um resultado que o segundo poderá medir, considerando o mesmo conceito e o mesmo momento (Fortin, 2009). Uma vez que não há nenhum questionário de qualidade de vida específico para doentes com epilepsia para a população portuguesa, que pudesse ser utilizado para comparação, não foi possível concretizar a validade de critério.
A validade conceptual ou de constructo refere-se à capacidade que um instrumento tem para medir o constructo ou conceito definido teoricamente (Fortin, 2009). Esta baseia-se em pressupostos teóricos associados às construções, isto é, ao paradigma teórico (Cardoso, 2006). Segundo Ferreira & Marques (1998) este é o tipo de validação que deve ser estudada sempre que não exista critério ou conteúdo aceite como sendo totalmente adequado à definição do conceito que se pretende medir.
A análise fatorial é o método utilizado para o cálculo deste tipo de validade, uma vez que permite avaliar a validade das variáveis que constituem os fatores, dando a informação se medem ou não os mesmos conceitos (Pestana & Gageiro, 2005). Ou seja, permite avaliar o número de dimensões que estão subjacentes a um conjunto de variáveis (Cardoso, 2006).
Pestana & Gageiro (2005, pág. 487) definem análise fatorial como um “conjunto de técnicas estatísticas que procura explicar a correlação entre as variáveis observáveis, simplificando os dados através da redução do número de variáveis necessárias para os descrever”. Assim, averiguar se as questões se agrupam em torno de um ou mais fatores, permite a confirmação dos constructos teóricos (Fortin, 2009).