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1.2 DA APREENSÃO DOS DADOS AO CONCRETO PENSADO: O CONTEXTO DA

1.2.2 Procedimentos metodológicos utilizados durante a pesquisa de campo

Uma pesquisa requer um longo processo desde a formulação do problema, a coleta de dados, leituras e reflexões inerentes ao processo de análise. Algumas ações são desenvolvidas conforme planejamos inicialmente, mas há momentos em que somos surpreendidos por imprevistos provocados pelo contexto de coleta de dados que nos fazem repensar desde o foco da pesquisa às ações a serem realizadas.

Além disso, como lembra Duarte (2002, p. 86), realizar uma pesquisa é, de alguma forma, “um relato de longa viagem empreendida por um sujeito cujo olhar vasculha lugares muitas vezes já visitados”. As palavras do autor colaboram neste momento de reflexão sobre os procedimentos utilizados durante a ida a campo, pois esta “viagem” foi a um lugar por nós muito visitado: a sala de aula, porém vista com um novo olhar, o olhar de pesquisadora, de

8 Apesar da longa permanência em sala, utilizamos uma estimativa de estudantes que participavam do programa,

quem está ali para conhecer e apropriar-se de uma realidade vivida por outras pessoas, com suas histórias e singularidades.

Duarte (2002, p. 140) afirma ainda que a pesquisa tem sempre “um modo diferente de olhar e pensar determinada realidade a partir de uma experiência e de uma apropriação do conhecimento que são, aí sim, bastante pessoais”. Nessa direção, constituir-se como pesquisadora significa uma tentativa de compreender a realidade investigada, na especificidade da pesquisa ora relatada, a partir do que vivenciamos em sala de aula e, também, das leituras realizadas. Estas constituíram um alicerce profícuo para que pudéssemos esboçar algumas reflexões com vistas à elaboração de um projeto de transformação desta realidade.

Ao pesquisarmos, em uma abordagem dialética, entendemos que o objeto de estudo não é algo pronto e acabado que está à espera do pesquisador para que este “colete dados e analise-os”. Quando entramos em contato com a escola, contexto do estudo, pretendíamos pesquisar como as crianças pensam a Matemática e como a organização do ensino desta disciplina influencia na operacionalização dos conceitos por parte dos estudantes.

Os primeiros dias de observação em sala foram essenciais para que pudéssemos conquistar a confiança e abertura dos estudantes e desenvolvêssemos uma postura investigativa, diferente da docência, até então desempenhada. Procurávamos observar tudo o que ocorria, interpretar as falas daqueles estudantes que foram receptivos e, até mesmo, os olhares daqueles que estranharam a nossa presença. Estes, acostumados com a presença das estagiárias em sala, nos perguntavam quando iríamos “dar aula”.

Apesar de estarmos com o projeto de pesquisa bem delimitado, o contexto da pesquisa nos trouxe inúmeras possibilidades de investigação. A organização do ensino nos provocou muitos questionamentos sobre os rumos da pesquisa para que os objetivos fossem alcançados. Neste momento, muitas idas e vindas foram necessárias. As conversas com a orientadora e com o grupo de orientandas9 foram essenciais para que não perdêssemos de vista o foco da pesquisa.

Ao focarmos no conhecimento matemático dos estudantes, consideramos, com base em Davýdov (1982), que este é composto por abstrações, generalizações e conceitos. Assim, investigamos o conhecimento matemático dos estudantes no contexto em que este é predominantemente formado no processo de ensino e aprendizagem da Matemática a partir do conceito de multiplicação. Embora o foco incida no conceito de multiplicação, na primeira etapa de apreensão dos dados registramos todas as ações, tarefas, exercícios, jogos e outros

aspectos ocorridos durante o semestre, referentes aos diferentes conceitos abordados. Para a coleta de dados utilizamos o registro escrito (diário de campo), fotográfico e, em momentos em que se fez necessária, a gravação de áudio e vídeo.

Ainda durante a elaboração do projeto de pesquisa, alguns questionamentos nos faziam pensar sobre esta etapa de apreensão dos dados: como compreender o conhecimento matemático dos estudantes? Como captar os dados que não estão prontos à espera do pesquisador?

Quando nos propusemos a pesquisar o conhecimento matemático dos estudantes, outro aspecto também nos intrigava: o pensamento. O que as crianças de oito ou nove pensam sobre a Matemática? E, junto a isso, quais conceitos elas elaboram a partir das aulas realizadas por sua professora? Vale esclarecer que não é nossa pretensão criar uma “solução mágica” que acabe com os problemas inerentes ao processo de ensino e aprendizagem de Matemática no país. Mas apontar indícios que nos façam refletir sobre possibilidades de superação.

Na busca por encontrarmos respostas para as perguntas anteriores, durante o período de coleta de dados nos deparamos com um registro escrito considerado como fundamental no sistema de ensino adotado no Brasil: a avaliação/prova. Este momento constituiu-se na segunda etapa de coleta de dados. Registramos, por meio de fotocópias, as avaliações propostas pela professora regente com as respostas desenvolvidas pelos estudantes e os rascunhos utilizados por eles durante a resolução. De acordo com Moraes (2008),

[...] a atividade humana é intencional e consciente, seja na consciência em si ou na consciência para si, significa que ambas são determinadas histórica e socialmente. Na relação entre a intenção e objetivação, sempre estará presente a avaliação com o objetivo de verificar se os caminhos escolhidos levam à objetivação desejada ou necessária (MORAES, 2008, p. 23).

Não pretendemos aprofundar tal discussão, todavia cabe salientar que nossa compreensão de avaliação está fundamentada na perspectiva da referida autora. Nesse sentido, Moraes (2008) afirma que:

A avaliação escolar tem como questão de fundo o ideal de homem que deseja

formar, qual o papel da escola na formação dos indivíduos. Desse modo, as

práticas avaliativas da aprendizagem escolar não podem ser compreendidas por si mesmas, mas estão inseridas num contexto maior (MORAES, 2008, p. 26, grifos da autora).

Assim, a avaliação tem seu papel no processo de ensino e aprendizagem. No âmbito desta investigação ela será vista, também, como uma manifestação do pensamento, já que na

avaliação o estudante encontra-se sozinho com seus próprios pensamentos. Com isso, alguns conhecimentos referentes aos conceitos matemáticos, estarão ali materializados e foram considerados como fonte documental.

Para Vygotski (2001, p. 313):

[...] a linguagem escrita requer para o seu transcurso pelo menos um alto grau de abstração. Trata-se de uma linguagem sem o seu aspecto musical, entonacional, expresso, em suma, sonoro. É uma linguagem do pensamento, de representação, mas uma linguagem desprovida do traço mais substancial da fala – o som material.

Conforme Vygotski (2001), a escrita é a expressão do pensamento, porém ela necessita de um grau de abstração alto para que a criança consiga expressar aquilo que pensou. Por isso, a terceira etapa da coleta de dados foi uma conversa com cada estudante, após a realização das provas, para compreendermos, minuciosamente, o conhecimento adotado.

Ao pesquisar em uma abordagem dialética, entendemos que as etapas descritas não necessitam de uma lógica linear. Durante a pesquisa, idas e vindas foram necessárias, pois o movimento de investigação é um processo dinâmico que envolve dados em interação constante. Assim, pois, trata-se de investigar a especificidade do conhecimento de cada estudante, porém, não isoladamente, mas no seu contexto de origem e inter-relações: o processo de ensino e aprendizagem. Não é nossa pretensão “enquadrar” cada um deles em padrões socialmente estabelecidos. Os dados coletados são considerados “apenas” para fomentar as reflexões científicas, sem julgamentos do professor ou dos estudantes.