Capítulo III: Método
3.4 Procedimentos: os momentos percorridos no Cerrado
Foram feitas visitas ao Jardim de Infância durante o ano de 2008 para levantamento de interesse sobre o tema e as atividades que poderiam ser propostas nas oficinas. Nesse momento ocorreu um reencontro da pesquisadora com o grupo de direção, professores e funcionários.
Realizaram-se observações para exploração do ambiente escolar e identificação das características da escola. Também investiguei o PPP/2008 para diagnosticar elementos sobre a estrutura de projetos e ações pedagógicas construídas.
Formalizamos um documento com a direção autorizando a realização da pesquisa, e foi destinado o horário da coordenação pedagógica das educadoras em um dia da semana, nos dois turnos. Estabelecemos ainda temas relevantes que poderiam integrar as oficinas de interesse da escola.
Iniciamos o estudo por meio da sistematização de oficinas. A primeira foi em março e a última em dezembro. Os encontros tiveram como foco a ecoformação docente, que busca estabelecer um equilíbrio harmônico entre os homens e o meio ambiente.
Com base nas ideias de Medeiros (1995), as oficinas ganharam uma estrutura dividida em três estágios para melhor desenvolvimento das atividades ambientais propostas em cada encontro:
1º momento - Sensibilização e Corporeidade: foi pensado como um espaço acolhedor: acolher o grupo; cada um acolher o outro; cada um acolher a si próprio. Para isso, estabeleceu-se um ambiente favorável à percepção e à concentração, por meio de atividades corporais, tais como respiração, relaxamento, meditação, alongamento, massagens.
Corporeidade foi um termo utilizado pelo filósofo Merleau-Ponty com o objetivo de expressar um conceito que tenta superar as polarizações semânticas: corpo/alma; matéria/espírito; cérebro/mente. Essa unidade entre corpo e psique, denominada autopoiésis pelos biólogos Maturana e Varela (2001), que pode manifestar-se nas memórias guardadas pelo corpo das experiências vividas e aprendidas. Ela representa a unidade indissociável entre as dimensões biológicas e psicológicas do ser humano (Catalão, 2002).
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Gutierrez (2008) afirma que nós nos educamos à medida que abrimos espaços: de confiança, como a atitude básica de relação; de aceitação mútua, como o jogo essencial das relações; de harmonia comigo mesmo, como condição para ser harmônico com os outros; de autorrelação, pela própria aceitação e pela aceitação dos outros; de construção criativa, pela ruptura das aparências, e pela autenticidade em tudo que façamos; que preencham os vazios existenciais, que, mais que econômicos, são de natureza espiritual; que permitam encontrar sentido e congruência a cada instante de nossa existência.
Segundo Medeiros (1995), a sensibilização consiste no que denominamos aproximação/entrosamento, o que se dá por intermédio de atividades de aquecimento e de desenvolvimento da autopercepção, nas quais ocorre um afastamento da vivência cotidiana pela condução a um estado psíquico de interiorização da consciência (introversão). Tal prática é uma tentativa de possibilitar e gerar o centramento e maior concentração para os momentos seguintes.
2º momento - Criação: momento de imaginação e criatividade a partir da troca de saberes entre os educadores e os materiais que serão transformados. Ocasião em que se dialogou sobre os temas afetos ao meio ambiente e à educação ambiental, enfatizando no currículo da educação infantil qual brinquedo ou material pedagógico seria mais apropriado criar, sua funcionalidade, sua ligação com os eixos de aprendizagem, além dos conceitos de valores, cultura e educação. Representou o estágio da criação dos brinquedos e outros materiais pedagógicos.
Gutierrez (2008) alerta que criar oportunidades para desenvolver tais relações humanas é o mesmo que procurar oferecer um espaço que envolva o respeito e a cooperação; a harmonia biológica e cultural; a confiança e o prazer da convivência; o afeto, a doçura e o amor; a participação, a flexibilidade e a solidariedade; a admiração pela beleza e o mistério da vida, a união e a veneração pela natureza; a criatividade, o conhecimento intuitivo e a dimensão espiritual do ser humano.
Os princípios que norteiam a educação integral abordam o fortalecimento da força intelectual pela vivência pessoal, para que o aprendizado aconteça de modo efetivo e multidimensional, superando o ultrapassado método de memorização e teste, além de criar condições para o conhecimento contextualizado.
3º momento -Reflexão: na última etapa, procurou-se aprofundar o diálogo sobre os saberes gerados e construir coletivamente propostas de novas atividades. Foram realizados registros individuais sobre cada encontro.
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A ecobrinquedoteca foi construída a partir de 15 oficinas vivenciais que buscaram sensibilizar e envolver professores a respeito da proposta. Cada encontro teve duração de aproximadamente três horas, acontecendo no horário da coordenação pedagógica dos turnos vespertino e matutino.
Como sugere Gutiérrez (2008), mediar espaços para promover a aprendizagem significa “envolver-nos no processo de compreensão, apropriação e expressão do mundo através daquelas práticas cotidianas que, de forma permanente e intencionada, tornem possível o desenvolvimento de nossas próprias capacidades” (p. 94). Trata-se de tornar possível o ato educativo sempre e em todo o lugar no horizonte da participação, da criatividade, da expressividade e das relações pessoais. As atividades propostas foram constituídas com o intuito de tentar resgatar e valorizar a nossa base cultural, fazer aflorar os conhecimentos, os costumes que dão sentido e significado à vida coletiva. Essa prática, segundo Zaneti (2006, p. 82), “fortalece a organização, a solidariedade e a confiança, colocando em contato permanente todos os atores envolvidos, favorecendo a criação de rede solidária”.
As oficinas basearam-se na práxis pedagógica. Sato e Carvalho (2005) observam que essa aprendizagem se dá na ação, pela ação e para a melhora da própria ação. Não se trata de desenvolver os conhecimentos e as habilidades com vistas a eventuais ações, mas em pôr-se imediatamente em situação de agir e de aprender em cada projeto, pelo projeto e para esse projeto.
A aprendizagem convida a uma reflexão no agir, no que está em curso. Lembremos que a práxis consiste essencialmente em integrar reflexão e ação, que assim se alimentam mutuamente.
Uma forma de construir esse ambiente educativo de conscientização, causador de rupturas na ordem estabelecida, é promover a reflexão crítica que se dá pela práxis, no sentido freireano. (Guimarães, 2005).
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