3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
3.2. Procedimentos
As informações dessa pesquisa foram constituídas a partir de dois instrumentos: um roteiro da entrevista estruturada e um roteiro da entrevista semiestruturada.
O primeiro foi um instrumento utilizado na pesquisa mais ampla,
Homens, Gênero e Práticas de Saúde, pelo grupo Diálogos Homens, composto
por 85 questões, sendo a maioria questões fechadas, e em menor quantidade, questões abertas e de opinião (para responder se concorda, discorda ou talvez), organizadas em um bloco geral, com informações sociodemográficas, e seis blocos temáticos: 1) práticas de saúde e autocuidado; 2) álcool e outras drogas; 3) paternidade: acompanhante; 4) paternidade: licença; 5) violência; 6) vida sexual e reprodutiva.
Para o desenvolvimento dessa dissertação, focamos apenas nas questões referentes aos blocos com questões sociodemográficos; paternidade: acompanhante; paternidade: licença; e algumas questões específicas de vida reprodutiva (Apêndice B).
Foram realizadas entrevistas estruturadas com 432 homens trabalhadores das empresas terceirizadas, contudo foram validadas 421 entrevistas, 13 não foram validadas por apresentar falhas no processo de condução, tais como informações incompletas ou inexistentes e ausência do TCLE. Para essa pesquisa sobre licença-paternidade, trabalhamos apenas com
65 271 entrevistas, visto que é este o quantitativo de trabalhadores entrevistados que têm filhos ou filhas, ou seja, fizemos um recorte com trabalhadores que são pais, pois em diversas questões específicas sobre a experiência da paternidade, o quantitativo maior era representado por “não respondeu”, então optamos por eliminarmos os trabalhos que não são pais e assim tirarmos as respostas “não respondeu”, possibilitando ter um quantitativo mais exato referente às respostas dos trabalhadores-pais.
O processo de condução das entrevistas desenvolveu-se no interior da refinaria, em 11 empresas, especificamente nas áreas de lazer dos trabalhadores, no período de 13, 14, 18 e 19 de dezembro de 2012, durante o horário destinado ao almoço. Participaram do processo 24 pesquisadores e pesquisadoras previamente selecionados(as) e capacitados(as). Os entrevistados foram informados sobre os objetivos da pesquisa e assinaram TCLE. As questões contidas no instrumento foram lidas pelos pesquisadores e pelas pesquisadoras, assinalando a opção correspondente às respostas dadas, no caso das questões abertas foi anotada a fala proferida pelo entrevistado em sua íntegra.
As respostas produzidas foram tabuladas em Programa Estatístico específico para pesquisas em Ciências Sociais, o software SPSS for Windows (versão 18). As questões abertas foram compiladas tais como apresentadas nos questionários e, posteriormente, alocadas em categorias formuladas a partir da discussão coletiva entre os pesquisadores e as pesquisadoras envolvidos(as). Foi empreendido, então, um exaustivo processo de correção de erros tais como equívocos de digitação e alteração no sistema de codificação de respostas. Posteriormente, foram geradas frequências simples e alguns cruzamentos.
Quanto à entrevista semiestruturada, foi do tipo episódica, tendo como referencial Uwe Flick (2007), que compreende como episódico o conhecimento e experiências de circunstâncias concretas e específicas, cujo material é um convite para narrar acontecimentos concretos, com perguntas mais gerais, que possibilitem respostas mais amplas de relevância pontual.
66 Seguindo a orientação de Benedito, não segui um roteiro, tinha em mente alguns pontos que queria conversar e deixei os participantes mais a vontade para narrar suas trajetórias, primeiro conversávamos sobre paternidade e depois sobre a licença-paternidade. No total conversei com dez trabalhadores-pais, além do primeiro entrevistado para o estudo piloto, que não faz parte desses dez. Fui três vezes a Gaibu – detalharei essas idas no próximo tópico –, sempre acompanhada, na primeira vez realizamos duas entrevistas (João e Paulo), na segunda vez, fizemos quatro (Henrique, Pedro, José e Tiago), e no último dia entrevistamos mais quatro trabalhadores-pais (Fábio, Rodrigo, Gabriel e Lucas).
Os participantes aceitaram participar e assinaram o TCLE (Apêndice A), permitindo a gravação do áudio. Posteriormente, as entrevistas semiestruturadas foram transcritas, a fim de facilitar a análise. Esta foi realizada a partir de inúmeras leituras das transcrições, que num primeiro momento fui destacando em cada entrevista o que me chamava a atenção e o que vinha se repetindo nos diálogos.
Num determinado momento, estava com vários papéis na minha frente, com as mais diversas marcações e me senti perdida, tive a sensação que eram muitas informações e não sabia como organizá-las para iniciar meu capítulo analítico (capítulo a partir do qual iniciei a escrita dessa dissertação). Então, percebemos que as conversas estruturavam-se a partir de três eixos temáticos: 1) informações sobre condições de vida, estado conjugal e filiação; 2) repertórios linguísticos sobre paternidade e 3) produção de sentidos sobre licença-paternidade.
Iniciei minha análise, a partir de cada eixo temático. Assim, ao retornar as entrevistas, realizava novas leituras buscando permanências e controvérsias entre as informações referentes ao eixo temático que estava trabalhando naquele momento, o que não me fez sentir tão perdida no meio de tanta informação, pois já lia as entrevistas com um olhar mais direcionado. Para facilitar a minha escrita, visto que para começar a escrever preciso de algum material visual que guie a minha produção, construí quadros com as
67 narrativas dos trabalhadores-pais, a partir da identificação dos repertórios linguísticos, para cada eixo temático tinha ao menos um quadro construído.
Dessa forma, os procedimentos da análise foram convergentes com os argumentos de Margareth Wetherell e Jonathan Potter (1996) sobre o estudo de repertórios linguísticos42, por realizar codificações preliminares, para criar subgrupos manejáveis de informações, começando de leituras cuidadosas dos materiais, em busca de padrões e de organizações recorrentes. Segundo Wetherell e Potter (1996), na análise com repertórios linguísticos precisamos conhecer as situações em que as formas de linguagem são utilizadas e que funções e efeitos exercem no diálogo, além de identificar as diferenças envolvidas, sendo assim a função, a variação e construção três conceitos que são ferramentas para análise dos repertórios.