Em relação a investimentos na formação e capacitação dos funcionários e professores, o município oferece anualmente cursos, encontros e Seminário de Educação Infantil (2004) e Abertura de Ano Letivo (2005). Na última sexta-feira de cada mês, os profissionais reúnem-se, no período da tarde, em suas respectivas escolas para participar de reuniões pedagógicas mensais. As férias de 30 dias consecutivos são coletivas para todos os profissionais da educação infantil, que antes tinham de tirar férias em duas etapas de 15 dias.
Para a coordenação geral e pedagógica das EMEIs, essas ações têm apresentado excelentes resultados, pois em 2004 uma escola foi premiada dentro e fora do Estado no Prêmio Qualidade na Educação Infantil com o Projeto “Uma Mangueira em Apuros”, da EMEI Estrelinha Azul. Atualmente, um número significativo de escolas vem participando com seus projetos em prêmios de âmbito nacional e no Seminário Municipal de Educação Infantil com o intuito de compartilhar suas práticas e vivências.
Para socializar tais conquistas e mudanças, foi criado o Jornal Infantil, distribuído a cada três meses para toda a comunidade, o qual desempenha o papel de estreitar a relação com o poder público/escola/pais e comunidade e oferecer a oportunidade de acompanhar e participar do trabalho realizado nas EMEIs.
Quanto à oferta de vagas na educação infantil, Campo Bom foi destaque no atendimento de crianças de 0 a 3 anos, ocupando o 38º lugar no ranking do Estado do Rio Grande do Sul. Hoje, o município atende cerca de 81% da demanda que procura por vaga na faixa etária de 4 meses a 3 anos e 95% no atendimento de 4 a 5 anos. E tem como meta, até o final do ano de 2008, atender toda a demanda ainda existente, através de ampliações e reestruturação de espaços.
de 2006, foi encaminhado para a apreciação da Secretaria de Educação do Município de Campo Bom.
Obtendo um retorno positivo, no mês de agosto de 2006 foram agendadas duas reuniões para a reestruturação e a viabilização das ações previstas no projeto, que pautaram: local físico, duração das oficinas, número de oficinas, horários, formulação de calendário para os encontros, escolas participantes, número de vagas, material (fotocópias, papel, lápis, etc.) e equipamentos (projetor, som, DVD e TV, etc.).
Na tentativa de abranger todas as escolas, e futuramente todos os profissionais, foi decidido que o curso de canto seria oferecido para uma profissional de cada EMEI, totalizando 19 profissionais da educação infantil. Essa foi uma forma de adaptar o que estava previsto no projeto de pesquisa: número máximo de 20 professoras. Mas como seria feita essa escolha? Acatando a idéia da coordenação pedagógica das EMEIs, combinamos que seria oferecida uma vaga para cada escola. O convite ou a indicação de uma profissional caberia à direção da respectiva EMEI.
5.2.1 O Grupo
O grupo da pesquisa era formado por 19 professoras de educação infantil da rede municipal de Campo Bom/RS (uma professora por escola). Durante o desenvolvimento do curso, houve algumas trocas de profissionais, pois no trabalho em grupo e na entrevista inicial foi verificado que três professoras apresentavam alterações na emissão vocal (rouquidão, extensão vocal curta, não-sustentação do som), assinalando possíveis disfunções no aparelho fonador ou presença de alguma alteração. Por isso, a pesquisadora salientou que essas profissionais fizessem uma avaliação com otorrinolaringologista. A participação dessas professoras estava condicionada à permissão e à indicação pelo profissional da saúde no curso, como uma alternativa de conhecimento vocal e aprimoramento na emissão vocal, sem correr o risco de prejudicar ou provocar mais alterações vocais. Reforço que a clientela do professor de canto é formada por sujeitos cantantes vocalmente saudáveis; logo, se é observada qualquer
alteração na emissão vocal que caracterize disfunção, deve ser feito o encaminhamento para profissionais que tratam da saúde vocal.
Apenas uma professora buscou orientação desses profissionais; as demais solicitaram troca de professor na própria escola para que todas tivessem uma representante. Perante laudo do otorrino a professora continuou o curso, sempre observando seus limites vocais e as orientações médicas.
Embora sendo um grupo formado por professoras da mesma rede de ensino, do mesmo município, as integrantes não se conheciam. Assim, o grupo se constituiu no primeiro encontro do curso (01/09/06).
5.2.2 Local
A escola-sede do curso foi a EMEI Guilhermina Bloss, situada no centro do município, facilitando o acesso para as representantes das demais escolas. A sala multiuso – equipada com áudio, vídeo e DVD – era o QG do curso, mas com as propostas de divisão de grupo e trabalhos grupais, acabávamos ocupando várias salas, o pátio coberto, nos dias mais quentes as sombras das árvores. Antes de iniciar o curso, no corredor de acesso à sala, um lanche “surpresa” e um café ou suco. Às vezes, a aula já começava no corredor, pois o assunto sobre os alimentos que não eram aconselháveis comer antes de cantar, segundo as normas de higiene vocal, eram comentados, porém difíceis de serem respeitados.
O curso foi estruturado sobre dez encontros quinzenais, que aconteceram entre os meses de setembro de 2006 a dezembro de 2006. Cada encontro tinha três horas de duração, totalizando 30 horas de curso. Aconteciam durante a jornada de trabalho das profissionais, pois as mesmas foram liberadas de suas funções na escola pela direção e pela secretaria de educação para participarem. Isso significou um investimento da administração municipal, bem como uma organização interna, de distribuição de turmas e/ou substituição do profissional nas EMEIs. Também é importante salientar que, em quase todos os encontros, a coordenação geral e/ou pedagógica das EMEIs acompanhou pelo menos uma parte deles e sempre estiveram muito solícitas para qualquer
necessidade de material, ou alterações de encontros que coincidiram com outros compromissos da escola, das professoras ou da pesquisadora.
5.2.3 Encontros
Os três primeiros encontros já estavam planejados e constavam no projeto de pesquisa. Os encontros, que denominei oficinas, tiveram um “tema específico”. Esse nome refere-se ao objetivo geral da oficina. A partir desse tema, os objetivos específicos da oficina eram vislumbrados e as atividades planejadas.
Já no primeiro encontro o protocolo das atividades previstas para primeira oficina foi alterado, pois era preciso conhecer o grupo, conhecer cada participante e voltar para casa com um perfil esboçado do grupo. Voltei do encontro com mais dúvidas do que quando fui. Mas tinha uma certeza: o grupo construiria o seu processo.
Era preciso observar, ter clareza do meu papel de professora-pesquisadora. Após cada oficina tudo era repensado, projetado e analisado.
Concomitantemente aos dois primeiros encontros, foram agendadas as entrevistas iniciais, que aconteceram em horários que antecediam as oficinas. Esses horários também eram cedidos pelas respectivas escolas.
Na tabela abaixo, apresentarei um esquema das oficinas que integraram o curso:
CURSO ENSINO DO CANTO
OFICINA TEMA CONTEÚDOS OBJETIVOS
OFICINA
1 A voz individual e o som do grupo
- Timbre vocal (voz falada e cantada) e sonoridade grupal (canto em grupo).
- Canto: uníssono e cânone.
- Proporcionar a escuta da própria voz e do grupo.
- Promover a exploração de sonoridades da voz cantada individual e em grupo nas atividades de apresentação e integração.
- Investigar músicas conhecidas, gostos e estilos musicais.
- Promover atividades cantadas em diferentes modalidades: uníssono e cânone.
OFICINA
2 Como a voz é produzida
- Técnica vocal: conhecimentos teóricos e práticos sobre respiração, fonação e ressonância.
- Canto: roda cantada, canto em uníssono e cânone.
- Compreender o mecanismo de fonação quanto a sua anatomia e fisiologia.
- Promover, através de exercícios vocais e do canto, a relação entre os mecanismos de fonação e os sons produzidos.
- Trabalhar a postura, o relaxamento, a respiração e a ressonância.
- Promover atividades cantadas em diferentes modalidades: uníssono e cânone.
OFICINA
3 Eu instrumento:
som e corpo
- Propriedades dos sons na música e elementos musicais.
- Canto: roda cantada, uníssono e cânone.
- Técnica vocal: (postura, relaxamento, respiração, ressonância e vocalises).
- Promover a percepção das qualidades sonoras da voz cantada, relacionando-as com os elementos musicais.
- Verificar e identificar os elementos musicais na execução do canto.
- Trabalhar a técnica vocal: postura, relaxamento, respiração, ressonância e vocalises.
- Promover atividades cantadas em diferentes modalidades: uníssono, cânone e duas vozes.
OFICINA
4 O meu som e o som da escola
- Paisagem sonora da escola e percepção auditiva da própria voz.
- Saúde vocal.
- Técnica vocal: postura, relaxamento, respiração, ressonância e vocalises.
- Canto: roda cantada, uníssono e cânone.
- Proporcionar uma apreciação do ambiente sonoro da escola, promovendo uma escuta da própria voz dentro e fora desse ambiente.
- Introduzir noções de higiene vocal e cuidados com a voz.
- Trabalhar a técnica vocal: postura, relaxamento, respiração, ressonância e vocalises.
- Promover atividades cantadas em diferentes modalidades: uníssono, cânone e duas vozes.
OFICINA
5 Os cuidados com a voz
- Saúde vocal.
- Técnica vocal: postura e relaxamento, respiração, ressonância e vocalises.
- Canto: roda cantada, uníssono, cânone e duas vozes.
- Promover a compreensão dos aspectos referentes à saúde vocal e a reflexão sobre hábitos vocais diários e periódicos.
- Trabalhar a postura, o relaxamento, a respiração, a ressonância e os vocalises.
- Promover atividades cantadas em diferentes modalidades: uníssono, cânone e duas vozes.
OFICINA
6 A auto-apreciação na construção vocal
- Elementos musicais no canto.
- Aspectos de técnica vocal.
- Performance vocal e corporal individual e grupal.
- Promover atividades de apreciação do som do grupo e do som individual.
- Visualizar, através das filmagens, a postura e o funcionamento corporal individual e do grupo.
- Trabalhar a técnica vocal: postura, relaxamento, respiração, ressonância e vocalises.
- Promover atividades cantadas em diferentes modalidades: uníssono, cânone e duas vozes.
OFICINA
7 Aquecimento vocal:
rotina e roteiro
- Elementos de técnica vocal e aquecimento vocal.
- Elementos musicais no canto.
- Classificação vocal.
- Canto: roda cantada, uníssono, cânone e duas vozes.
- Sistematizar e viabilizar um roteiro de aquecimento vocal de simples compreensão e aplicação.
- Exercitar a identificação dos elementos musicais na melodia para introduzir noções de classificação vocal e tipos de emissão vocal.
- Promover atividades cantadas em diferentes modalidades: uníssono, cânone e duas vozes.
OFICINA 8
Criar sons com o corpo e fora do
corpo
- Elementos musicais e parâmetros do som.
- Repertório desenvolvido e músicas que as participantes conhecem.
- Elementos de técnica e aquecimento vocal e dinâmica de ensaio para músicas novas.
- Experimentação de pequenas improvisações com a voz e instrumentos alternativos (material utilizado: garrafas pet).
- Promover atividades de criação para facilitar o exercício de registro não- convencional dos parâmetros e elementos musicais utilizados nas composições.
- Executar o roteiro de aquecimento vocal.
- Promover atividades cantadas em diferentes modalidades: uníssono, cânone e duas vozes.
OFICINA 9
Como sistematizar e registrar a construção vocal
- Técnica vocal.
- Repertório.
- Coletar idéias e sistematizar as atividades desenvolvidas durante o curso.
- Registrar (filmagem e escrita) as atividades apontadas pelo grupo.
- Executar roteiro de aquecimento vocal.
- Promover atividades cantadas em diferentes modalidades: uníssono, cânone e duas vozes.
OFICINA 10
Ensaio, confraternização e
apresentação
- Repertório.
- Técnica vocal.
- Confraternizar entre colegas, diretores das escolas envolvidas, alunos da escola sede do curso e SMEC.
- Apresentar o repertório e trabalho desenvolvido no curso.
- Executar o roteiro de aquecimento vocal.
6 OFICINAS DE CANTO E ENTREVISTAS: APRESENTAÇÃO E ANÁLISE
As oficinas de canto foram o principal instrumento de investigação desta pesquisa, juntamente com as entrevistas realizadas. Dessa forma, após a apresentação das atividades de cada oficina, segue a análise sobre aspectos de técnica vocal, higiene vocal, canto e estratégias pedagógicas, a fim de facilitar a leitura das reflexões feitas pela pesquisadora. Da mesma maneira, a fim de aprofundar a análise das entrevistas realizadas e estabelecer uma relação com a proposta desenvolvida, optei em apresentar e analisar os dados de cinco integrantes, apresentando os dados individuais em tabelas, para melhor visualização das respostas, seguidas de uma análise sobre o desenvolvimento do próprio cantar.