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Procedimentos

No documento Apadrinhamento afetivo (páginas 37-44)

3.2 TIPOS DE ACOLHIMENTO

3.2.2 Procedimentos

Diante de todo o revelado, acerca do acolhimento institucional, imperativo se faz entender como esta medida acontece e qual seu procedimento, até que seja aplicada. Este procedimento é divido entre o procedimento judicial e o excepcional de urgência.

As instruções para os Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes (aprovadas em 2009 pelo Conselho Nacional de Assistência Social e Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente) apresentam o intuito de designar diretrizes metodológicas e preceitos para as entidades que ensejam o acolhimento dos menores, de modo a efetivar os objetivos apresentados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Buscam fortalecer a referência familiar e social, com vistas a atingir o desenvolvimento dos menores acolhidos e alcançar ampla autonomia individual destas, da mesma maneira que é necessário enaltecer e auxiliar as famílias envolvidas (MACHADO, 2011, p. 162).

De forma genérica, assim que existir a precisão do acolhimento, o Conselho Tutelar deve ser informado para que adote as providências cabíveis, sendo indispensável a avaliação deste órgão, competente para ponderar quanto à necessidade de cada caso, devendo haver a assinatura de três conselheiros, como determina o parágrafo único do art. 136 do ECA, exceto quando o caso for de urgência, quando essa condução deverá ser feita pelo plantonista do Conselho. No dia subsequente, necessário se faz informar ao colegiado do ocorrido, para ratificação ou retificação conforme o art. 21, § 1º da Resolução nº 70 do Conanda (DISTRITO FEDERAL, 2015, p. 14-15).

Logo depois, aplica- se o art. 101, § 8º do Estatuto da Criança e do Adolescente, tramitando como medida de urgência as propostas de reintegração familiar, a fim de que o Ministério Público se manifeste, in verbis:

Art. 101. Verificada qualquer das hipóteses previstas no art. 98, a autoridade competente poderá determinar, dentre outras, as seguintes medidas:

[...]

§ 8º Verificada a possibilidade de reintegração familiar, o responsável pelo programa de acolhimento familiar ou institucional fará imediata comunicação à autoridade judiciária, que dará vista ao Ministério Público, pelo prazo de 5 (cinco) dias, decidindo em igual prazo.

[...]. (BRASIL, ECA, 2019).

Assim que identificados e localizados os pais ou responsáveis, sendo eles apropriados a tomarem conta dos menores, estes devem ser ouvidos e, na sequência, conduzidos ao órgão que está atendendo a situação, porém, quando existir violação de direitos é necessário que sejam acompanhados até o Conselho Tutelar para serem assistidos. Não havendo a possibilidade de reintegração ao núcleo familiar natural da criança ou adolescente atendido, por conta de não existir acesso ao serviço local, diante da segurança do menor, é determinada a hipótese de acolhimento pelo procedimento excepcional e de urgência, sendo anotado em um relatório. Neste caso, o responsável do órgão que estava auxiliando os envolvidos tem a obrigação de entregar essas crianças ou adolescente até 24 horas após findada a complicação do acesso ao local (DISTRITO FEDERAL, 2015, p. 15- 16).

O Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP, 2014, p. 27) pondera que “[...] recebido o relatório circunstanciado, o Ministério Público deverá ajuizar ação, cuja natureza se entende cautelar, no prazo de cinco dias (artigo 101, § 2º do ECA, com alteração da Lei n° 12.010/09)”.

Segundo Gulassa (2010, p. 32), “o acolhimento só ocorrerá se houver necessidade absoluta, mas no caso de permanência na família, a observação e o acompanhamento

cuidadosos na própria residência e, em rede, serão absolutamente necessários, porque a situação de risco não desaparece facilmente”.

O serviço de acolhimento será prestado na Central de Acolhimento, havendo algumas circunstâncias diferentes:

No caso de adolescentes com vivência consolidada nas ruas e histórico de inadaptação ao acolhimento institucional, um procedimento a ser avaliado pela Central de Acolhimento, em parceria com o Conselho Tutelar, é o encaminhamento para a Unidade de Acolhimento para Crianças e Adolescentes em Situação de Rua – Unacas, com aplicação da medida de proteção prevista no Art. 101, inciso II, do Estatuto da Criança e do Adolescente, ou seja, “orientação, apoio e acompanhamento temporários” (DISTRITO FEDERAL, 2015, p. 16).

A aplicação da medida está sujeita decisão judicial, através de ajuizamento por parte da Promotoria de Justiça ou outro interessado legítimo para impetrar, observando o § 2º do art. 101 do ECA, de modo que o acolhimento institucional deve ser empregado em último caso, de maneira urgente e provisória, conforme determina o art. 93 do Estatuto da Criança e do Adolescente (DISTRITO FEDERAL, 2015, p. 20).

Gulassa (2010, p. 32) complementa:

[...] as demandas de proteção chegam diretamente ao Poder Judiciário, o juiz pode determinar a proteção especial em instituições de acolhimento. Tendo em vista a priorização da convivência familiar e comunitária, deve-se acionar uma equipe multiprofissional para um estudo cuidadoso da situação e do contexto.

Explicita o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP, 2014, p. 26) quanto à importância da demanda judicial:

Somente após o esgotamento de todas as medidas protetivas cabíveis e acionamento de todos os serviços existentes e necessários para solução do caso – caso ainda perdure a situação de violação de direitos – é que deverá o Conselho Tutelar acionar o Ministério Público para que promova, conforme suas atribuições, a medida administrativa ou judicial necessária para o afastamento da criança e/ou adolescente do convívio familiar, sob 27 pena de – ao invés de ser órgão de defesa dos direitos das crianças e adolescentes – ser o primeiro órgão público violador de tais direitos. Não obstante, o acolhimento institucional deve ser aplicado somente após esgotadas todas as oportunidades de reinserção familiar, devido ao seu caráter transitório e excepcional, devendo – em regra –, ser aplicado após uma decisão judicial, mas, quando for imprescindível para o bem estar e melhor interesse do menor que vivencia uma situação de risco, deve ser empregado com urgência e após noticiado à autoridade judicial. Enquanto o processo prossegue na Vara da Infância e Juventude, os pais ou responsáveis serão ouvidos e acompanhados por uma equipe técnica, e as crianças e adolescentes ficarão abrigados, com o

intuito de conseguirem serem reintegradas à família natural. Porém, quando restar impossível, o menor poderá ser colocado em família extensa ou substituta.

Por conta da demora do processo e até mesmo dos procedimentos, estas crianças e adolescentes permanecem muito tempo institucionalizados e acabam se afastando de uma referência familiar. Mirando esta problemática, o apadrinhamento afetivo surgiu para efetivar a garantia fundamental do direito a convivência em família, que é tão importante no desenvolvimento destes indivíduos que estão em uma condição peculiar de vulnerabilidade, como será explanado no próximo capítulo.

4 APADRINHAMENTO AFETIVO

Um programa estabelecido no Estatuto da Criança e do Adolescente, que visa suprir o direito basilar da convivência em família e comunitária como uma alternativa aos menores amparados institucionalmente e que possuem remotas chances de adoção, denomina- se apadrinhamento afetivo.

O Estatuto da Criança e do Adolescente dispõe sobre essa alternativa em seu art. 19-B, que foi incluso devido a edição da Lei nº 13.509/2017: “Art. 19-B. A criança e o adolescente em programa de acolhimento institucional ou familiar poderão participar de programa de apadrinhamento” (BRASIL, Lei nº 13.509, 2019).

O Provimento nº 36/2014 da Corregedoria Geral do Tribunal de Justiça de São Paulo, conceitua esse programa em seu art. 2º:

Artigo 2º - Apadrinhamento afetivo é um programa para crianças e adolescentes acolhidos institucionalmente, com poucas possibilidades de serem adotados, que tem por objetivo criar e estimular a manutenção de vínculos afetivos, ampliando, assim, as oportunidades de convivência familiar e comunitária (SÃO PAULO, CGTJSP, 2019).

Conforme compreendem Baptista et al. (2006, p. 105) “o apadrinhamento é uma solução provisória para uma situação criada pelos efeitos da institucionalização prolongada, que acaba por contribuir para o afastamento entre os abrigados e suas famílias”.

De acordo com Ortega (2017, p. 1):

O apadrinhamento consiste, portanto, em proporcionar (estimular) que a criança e o adolescente que estejam em “abrigos” (acolhimento institucional) ou em acolhimento familiar possam formar vínculos afetivos com pessoas de fora da instituição ou da família acolhedora onde vivem e que se dispõem a ser “padrinhos”. O Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito das Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária (BRASIL, MDS, 2019, p. 126) explica o propósito do programa:

[...] Os programas de apadrinhamento afetivo têm como objetivo desenvolver estratégias e ações que possibilitem e estimulem a construção e manutenção de vínculos afetivos individualizados e duradouros entre crianças e/ou adolescentes abrigados e padrinhos/madrinhas voluntários, previamente selecionados e preparados, ampliando, assim, a rede de apoio afetivo, social e comunitário para além do abrigo [...].

Gobbo e Arcaro (2016, p. 6) definem a competência de padrinhos e madrinhas ao tomarem atitudes que efetivam e satisfazem o direito ao convívio familiar propiciando às

crianças e aos adolescentes passeios nos feriados, férias e fins de semana, bem como lhes auxiliam com trabalhos escolares cobrando-os de seus deveres, devendo oferece-lhes carinho, cuidado, atenção, criando uma conexão de afeto. Contudo, também devem expor ao afilhado o principal objetivo deste programa para que o mesmo não tenha esperança sobre uma futura chance de adoção, visto que nesse programa não é admitido o padrinho adotar.

Em relação à conduta dos menores abrigados, descrevem Teixeira e Marcomim (2019, p. 6):

O comportamento que as crianças e adolescentes apresentam, dependem em parte da faixa etária, do sexo ou da circunstância em que foram acolhidos. Em geral são crianças que desenvolvem sentimento de solidão e de exclusão e por esses motivos é que se faz necessário tal projeto de intervenção. Para que tais figuras tenham consciência de que são cidadãos portadores de direitos de uma vida saudável, tanto física quanto psicológica.

Diante do objetivo que busca essa alternativa, entende Pinheiro (2012, p. 1) que essa é

[...] uma forma de romper com o ciclo de fragilidade afetiva a que está exposto a criança e o adolescente, possibilitando a quebra do sentimento de abandono e recuperação da autoestima, em razão de ter sido eleito por um adulto como depositário de investimentos de afeito e cuidados.

Porém, segundo Baptista et al. (2006, p. 104) “os programas de apadrinhamento afetivo necessariamente precisam de mecanismos de seleção, capacitação, supervisão e monitoramento dos padrinhos, sempre visando o que for melhor para as crianças atendidas”.

Para Gobbo e Arcaro (2014, p. 7) “[...] é possível sustentar que o apadrinhamento afetivo constitui um mecanismo capaz de efetivar o direito fundamental a convivência familiar de crianças e adolescentes acolhidos institucionalmente”, e ainda complementam:

[...] por meio do apadrinhamento, o afilhado não só passa a criar laços de afeto e a conviver com sujeitos de bem, vivenciando experiencias em um ambiente familiar apropriado como passa a contar com o amparo de pessoas idôneas quando tiver que deixar, definitivamente, instituição de acolhimento (GOBBO; ARCARO, 2014, p. 9).

Ressalta-se a importância deste tipo de projeto para os acolhidos institucionalmente, pois eles não se encontram mais no seu núcleo familiar, sendo que “é no ambiente familiar que se constroem os vínculos afetivos, experimentam emoções, desenvolvem autonomia, as tomadas de decisões a controlar impulsos, frustrações, cuidam-se um do outro e passam por conflitos” (TEIXEIRA; MARCOMIM, 2019, p. 10)

Nascimento e Malveira (2017, p. 47) versam sobre as características dos menores abrigados:

Comumente, os que passam mais tempo no serviço de acolhimento são as crianças deficientes, as que têm idade superior a 7 anos e os adolescentes, haja vista a maioridade do infante e a majoração da responsabilidade que a família natural, extensa ou substituta deverá ter. Sucede que a autonomia desse infante dificilmente se desenvolve, aumentando a resistência a novos vínculos.

Por conta da lentidão durante o procedimento da adoção e sua burocracia, a alocação de crianças e adolescentes em fila de adoção gera uma demora na inserção destes menores em famílias substitutas devido à incompatibilidade das características esperadas pelos adotantes, o que gera um enorme número de abrigados nas instituições (MERQUIDES, 2018, p. 1).

Destarte, essa opção nada mais é que uma forma de efetivar o direito basal da convivência familiar e em comunidade de crianças e adolescentes acometidos por abusos e omissões em seu núcleo familiar e, por isso, encontram-se em casas de acolhimento, – geralmente, por muito tempo – e este grupo de menores são, na sua maioria, aqueles que possuem algum tipo de deficiência, negros, soropositivos, por terem mais irmãos ou, ainda, por obterem uma idade acima do que muitos adotantes desejam, possuindo mínimas chances de adoção (BITTENCOURT, 2014, p. 107).

Complementa o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (BRASIL, 2009, p. 52) a respeito da elaboração deste programa:

[...] devem ser incluídos, prioritariamente, crianças e adolescentes com previsão de longa permanência no serviço de acolhimento, com remotas perspectivas de retorno ao convívio familiar ou adoção, para os quais os vínculos significativos com pessoas da comunidade serão essenciais, sobretudo, no desligamento do serviço de acolhimento. Para estes casos, a construção de vínculos afetivos significativos na comunidade pode ser particularmente favorecedora, devendo ser estimulada.

O Conselho Nacional de Justiça (BRASIL, 2019, p. 1) também salienta que “o apadrinhamento de crianças em situação de acolhimento ou em famílias acolhedoras pode ser afetivo ou financeiro, sendo este último caracterizado por uma contribuição financeira à criança institucionalizada, de acordo com suas necessidades [...]”.

O apadrinhamento financeiro também existe e consiste em um aporte mensal, que é destinado a apoiar a instituição nos cuidados com a criança ou adolescente em sua alimentação, vestuário, medicação, material escolar etc. Após contribuir financeiramente, este padrinho ou madrinha poderá acessar relatórios onde obterá informações sobre o desenvolvimento do afilhado que está auxiliando, sendo concedido, também, o benefício de se comunicar com esta criança ou adolescente e até mesmo visitá-lo (PADRINHO NOTA 10, 2019ª, p. 1).

O entendimento do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, de acordo com a ANOREG (2018, p. 1), é de que existem três modalidades de apadrinhamento:

[...] o padrinho afetivo, que faz visitas aos abrigos e leva as crianças para passear nos fins de semana e feriados, possibilitando convivência familiar e social; padrinho provedor, que dá suporte material e financeiro ao afilhado; e o padrinho prestador de serviços, que atende às necessidades institucionais dos abrigos de acordo com sua especialidade de trabalho.

Contudo, seja apadrinhamento afetivo ou financeiro, ambos cooperam e ajudam para o progresso na vida das crianças e adolescentes que vivem nas instituições, contemplando o direito básico de parâmetro familiar e em comunidade, sendo uma oportunidade de oferecer uma compreensão melhor de vida aos menores.

No documento Apadrinhamento afetivo (páginas 37-44)

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