CAPÍTULO VI MÉTODO DE PESQUISA
6.3 PROCEDIMENTOS UTILIZADOS NA COLETA DE DADOS
6.3.1 Participantes
As pessoas entrevistadas são Giulia, Jairo, Luciano e Isadora1 que fizeram parte do grupo de enlutados devido a acidente aéreo com aeronave comercial, a qual decolou do Aeroporto de Congonhas em São Paulo, no ano de 1996. Estes participantes, com idade acima de 18 anos na época, perderam um ente querido por morte ou tiveram sua propriedade destruída devido esse mesmo acidente e se dispuseram, voluntariamente, a falar sobre o seu processo de luto.
Quadro 1
Nome Idade Perda
Giulia 50 anos Esposo
Jairo 46 anos Residência própria
Residência dos pais
Luciano 63 anos Filho
Isadora 60 anos Esposo
6.3.2 Critérios para participação na pesquisa
Fizeram parte do grupo de participantes pessoas enlutadas por perda de pessoa da sua família não sendo estabelecida precondição de relação com o falecido e pessoas que perderam sua propriedade no acidente aéreo mencionado.
6.3.3 Critérios de inclusão
a) Pessoas enlutadas em decorrência de uma perda significativa no acidente referido; b) Pessoas enlutadas em decorrência da perda de propriedade no acidente;
c) Idade superior a 18 anos na época do acidente;
d) Diversidade de casos: tipos de perdas, idade do participante, relação com o falecido, classe social;
e) Concordância com o objetivo do estudo: somente puderam participar da pesquisa pessoas indicadas pela presidente da associação das famílias atingidas pelo acidente, com a qual estabelecemos o primeiro contato para obtermos a concordância com o objetivo apresentado e a indicação dos nomes para contato;
f) Psicoterapia: considerando a condição do enlutamento de característica traumática, apesar do tempo decorrido, embora não seja possível determinar com precisão quanto tempo dura o processo de elaboração do luto (Mazorra, 2009), fizemos a entrevista com as pessoas que, no momento do contato inicial, conheceram o objetivo do estudo e concordaram com ele. Além disso, ficou claro, durante o processo de pesquisa, que, após o término da entrevista, se a mobilização dos conteúdos tivesse atualizado o sofrimento a tal ponto que fosse considerado necessário o atendimento psicoterapêutico, que este poderia ser realizado conosco, sem custo, ou com outro profissional de sua preferência. Tal procedimento procurou garantir que o participante tivesse um suporte psicológico se o presente estudo mobilizasse sentimentos dolorosos em relação à perda. Vale destacar que os entrevistados nunca tiveram qualquer contato com a pesquisadora.
6.3.4 Critérios de exclusão
Foram excluídas da lista de possíveis participantes aquelas pessoas que apresentaram reações negativas ao fato de retomar as lembranças ou falar sobre o ocorrido.
a) Menores de 18 anos na época do acidente ou na época da entrevista; b) Pessoas que aparentaram condições frágeis de saúde;
c) Pessoas que demonstraram resistência, desconforto ou mal estar com a exposição ou retomada das lembranças.
O número de participantes pesquisados deveu-se ao fato de que, entre as pessoas contatadas, dois dos endereços de contatos não coincidiram com a pessoa indicada, quatro pessoas não foram localizadas no período das entrevistas e duas demonstraram desconforto em retomar as lembranças, apesar de estarem disponíveis para contribuir com a pesquisadora. Muito embora saibamos que, por se tratar de aspectos subjetivos seja impossível saturarmos todos os elementos possíveis, o material coletado apresentou riqueza de dados e foi considerado suficiente para os objetivos do presente estudo.
6.3.5 Recrutamento dos participantes
O contato com os participantes desta pesquisa foi feito a partir da indicação de pessoas pela presidente da associação das famílias do referido acidente e, após obtermos os dados dessa presidente, foi feito um contato telefônico para lhe propor a apresentação do objetivo e procedimentos que seriam adotados. No encontro presencial apresentamos o conteúdo da pesquisa, o objetivo que seria buscado e as questões éticas envolvidas. Nesta oportunidade tivemos ciência da possível dificuldade que poderíamos encontrar em conseguir pessoas para as entrevistas, devido o extenso tempo decorrido desde o acidente até o momento da pesquisa (13 anos) e, ainda, pelo fato destas pessoas terem sofrido diversas abordagens da mídia, anterior ao nosso contato.
Telefonamos a fim de nos apresentarmos, de obtermos a confirmação da relação com o acidente, oferecermos informações sobre a fonte de indicação e o objetivo do trabalho. Nesta ocasião, verificamos a disponibilidade para a participação, deixando claro que a pessoa poderia interromper o telefonema no momento que sentisse essa necessidade ou desejo. Além disso, explicamos como seria o procedimento (uma entrevista de aproximadamente duas horas) e, caso fosse necessário, mais um contato para esclarecer dúvidas posteriores ao relato.
6.3.6 Local
Foi proposto que as entrevistas fossem realizadas em uma sala de consultório de atendimento psicológico, com isolamento acústico, alugada pela pesquisadora para esse fim. No entanto, foi dada a alternativa para o participante de que o procedimento fosse realizado em local de sua preferência, desde que fossem garantidas as condições de sigilo e segurança.
6.3.7 Instrumento utilizado: Entrevistas
A entrevista é um instrumento rico para a investigação psicológica, na medida em que é possível ao observador obter dados comportamentais da pessoa entrevistada e de seus conteúdos latentes re-significados nessa narrativa, a partir de uma escuta ativa e plena, seguida da observação verbal e não-verbal (Bleger, 1987).
Foi realizada uma entrevista semidirigida com cada um dos quatro participantes sendo que, nesse modelo de entrevista, o campo psicológico do encontro entre pesquisador e pesquisado é delineado pelo entrevistado, o qual determina a sequência, conteúdo e sentido da história lembrada e narrada. Neste contato o entrevistador se coloca de maneira ativa pela escuta, fazendo perguntas para auxiliar no prosseguimento da entrevista ou esclarecer dúvidas (Ocampo e Arzeno, 1995).
As entrevistas foram iniciadas a partir da questão disparadora: “Você perdeu (identificação: esposo, filho, casa) no acidente do vôo n˚ XXX, como foi esse processo?” A partir desta questão os entrevistados narraram os fatos que antecederam o acidente, a maneira como tiveram contato com a notícia e os rumos que os acontecimentos tomaram a partir de então. Deixamos que os participantes seguissem o caminho do modo que melhor lhe convinha, interrompendo quando se fazia necessário o esclarecimento de alguma dúvida. Próximo do final da entrevista, retomamos pontos do roteiro de nossa entrevista que não havia surgido espontaneamente, principalmente no que se referia aos rituais e aspectos que pudessem ter atuado como fatores de proteção. Contudo, na maior parte dos casos, esses aspectos surgiram espontaneamente e as perguntas feitas tiveram o caráter de maior detalhamento dos elementos de relevância ao estudo.
Examinamos as circunstâncias em que estas pessoas receberam algum tipo de suporte social, se ocorreram rituais públicos e privados e, em caso positivo, se estes foram eficientes ou não e, por fim, como elas se encontravam na atualidade. Os principais fatores investigados durante as entrevistas foram:
1. Suporte social (cuidados às necessidades objetivas e subjetivas, se houve cerimônias ritualísticas ou rituais; em caso afirmativo, em quais esferas, pública ou privada; e, em caso negativo ou da falta de ocorrência em uma das esferas, como foi sentida essa falta; se o processo foi sentido como o de um luto não- reconhecido, se houve a percepção de abandono e a perda percebida como algo interminável e irreparável).
2. Suporte familiar (momentos de fragilidade, datas significativas, situações, etc.); e 3. Suporte autopromovido (cuidados com os relicários, busca de processo
terapêutico, etc).
Os seguintes aspectos foram importantes na pesquisa uma vez que são fundamentais para a análise das circunstâncias vivenciadas por cada enlutado:
a) Relação com o falecido (afetiva, ou de dependência); b) Circunstâncias com que tomou conhecimento do ocorrido; c) Dinâmica familiar e suporte social;
d) Processo de luto desenvolvido e impacto dessa morte na vida do enlutado.
Além da coleta das declarações verbais, foram observados e registrados os múltiplos elementos não-verbais, tais como: apresentação pessoal, comportamento global, mudanças na postura corporal, gesticulações, mímica facial, riso, sorriso, choro entre outros. As mudanças no volume, intensidade, tom, duração e ritmo da fala foram pontos também importantes, pois a comunicação não-verbal traz informações adicionais relevantes e cruciais para a interpretação, as quais foram usadas para confirmar, complementar ou mesmo contradizer o que foi falado acerca de pontos do tema tratado ou a respeito de assuntos gerais. Neste sentido, o que cada entrevistado não pode trazer como informação explícita, foi capaz de deixar emergir por meio de outras manifestações do comportamento global.
As entrevistas foram gravadas em áudio e digitalizadas imediatamente após sua execução. Os nomes reais foram substituídos por nomes fictícios. Nomes de instituições ou cidades que não identificam o entrevistado foram mantidos. Finalmente, um quadro com as seguintes informações básicas precede cada transcrição: identificação demográfica, contextualização quanto ao tipo e tempo de vínculo com o morto, situação atual, circunstâncias ambientais relevantes e outras.
6.4 PROCEDIMENTOS UTILIZADOS NA ANÁLISE DOS CONTEÚDOS
Desde o primeiro contato telefônico procuramos compreender o que nos era dito de forma verbal e não-verbal e observamos todos os detalhes que pudemos captar como possibilidade de apreender dados importantes para nosso estudo. Procuramos não estabelecer nenhuma conclusão precipitada sendo que aquelas apresentadas neste trabalho foram alcançadas por meio de uma construção gradativa baseada em repetidas leituras e reflexões do mesmo material. Apesar disso, entendemos que as conclusões apresentadas não são definitivas e poderiam ter tomado outro rumo dependendo do enfoque dado.