O pesquisador Noah Wardrip-Fruin tem um estudo sobre o emprego expressivo dos processos compu- tacionais, com ênfase na área da literatura digital, mais especificamente no gênero da ficção. Porém, suas investigações não se limitam a estas práticas, sendo que grande parte das suas elaborações se dá a partir da análise de jogos digitais. Sua intenção é de contribuir na compreensão e reflexão sobre os diferentes tipos de produção criativa e expressiva em meio digital.51
É possível identificar intersecções entre aspectos e elementos dos estudos de Wardrip-Fruin, e a nossa própria pesquisa. Ao mesmo tempo, existem divergências fundamentais entre as duas abordagens. Como veremos a seguir, o processo de examinar estas similaridades e diferenças permite reforçar e enriquecer a definição do nosso próprio objeto de pequisa.
Abordagem Metodológica
A pesquisa de Wardrip-Fruin se dá sobre um universo de análise relativamente amplo, englobando produções artísticas e acadêmicas, além de diferentes técnicas e ferramentas de criação. Sua proposta é de desenvolver uma tipologia sobre as práticas criativas em mídias digitais, através da definição e identificação de conceitos, terminologias, e categorizações.
Por exemplo, o autor define categorias de forma a distinguir entre obras que são unicamente auto- radas digitalmente (ou “digitally-authored”) e aquelas nas quais o suporte computacional também é necessário para a sua exibição e recepção (denominadas como “digital media literature”, ou “lite- ratura de mídia digital”, por conta do seu foco de estudo na literatura).
Outra distinção importante feita em sua pesquisa é entre as produções nas quais os processos levam a variações comportamentais dentro de um determinado sistema, e aquelas em que isso não ocorre (relacionada ao conceito de agência).
Wardrip-Fruin também utiliza diagramas de forma a ilustrar alguns dos conceitos tratados no seu estudo, e para tornar mais claras as intersecções e o relacionamento entre os diferentes elementos e aspectos envolvidos.
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A literatura digital (ou eletrônica) é uma área relativamente ampla, englobando produções literárias baseadas em computadores tanto na etapa da criação quanto da exibição. Assim, inclui desde produções que empregam pouco ou nenhum elemento ou estratégia procedural (como hyperlinks ou animações simples), até variadas formas de obras generativas. Temas na área da Inteligência Artificial também são presentes na pesquisa de Wardrip-Fruin, principalmente a partir do seu emprego na modelagem e simulação de personagens virtuais.
Por exemplo, na figura abaixo (fig. 9) o gradiente vertical no círculo representa o equivalente ao conceito do nível de intensidade procedural, mencionado anteriormente (p. 56), e as duas metades na horizontal indicam o tipo de mídia - à esquerda, as produções em suporte digital, e à direita aquelas autoradas digitalmente (WARDRIP-FRUIN, 2006:15).
Figura 9 – Diagrama: tipos de mídia (WARDRIP-FRUIN, 2006)
O processo de localizar uma determinada produção digital na superfície do diagrama permite iden- tificar e evidenciar de maneira clara e objetiva seus aspectos e características, bem como traçar comparações e relacionamentos com outras produções. Para Wardrip-Fruin, o estudo das mídias digitais se beneficia desta abordagem de natureza metódica e sistemática.
Expressividade Procedural / Processamento Expressivo
Apesar da similaridade entre a terminologia empregada por Wardrip-Fruin para denominar o seu objeto de estudo - processamento expressivo (ou "expressive processing") - , e aquela utilizada nesta pesquisa - expressividade procedural -, existem diferenças fundamentais no significado de cada um destes conceitos.
A primeira distinção, e a mais evidente, é a inversão do papel que o conceito da expressividade tem em cada um dos termos. Enquanto na denominação empregada nesta pesquisa a expressividade é o substantivo e representa o elemento central, no termo de Wardrip-Fruin ela é secundária, sendo atribuída como qualidade ao “processamento” (ela é o adjetivo).52
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Esta diferença terminológica é sutil, e não implica necessariamente em uma divergência fundamental entre os conceitos. Note que no idioma Inglês as palavras que compõem os termos se invertem (“expressive processing” e “procedural expressivity”), pois neste caso o adjetivo precede o substantivo. Isso não muda, entretanto, o sentido e a função gramatical dos termos.
Esta diferença na ênfase dada em cada um dos termos reflete perspectivas distintas de análise entre as duas pesquisas. As investigações de Wardrip-Fruin tomam como ponto de partida o meio digital, examinando como a computação pode ser empregada de maneira expressiva. A nossa pesquisa, por sua vez, toma como base o conceito de uma forma expressiva, e investiga como ela pode se realizar no contexto das mídias digitais, através das estratégias procedurais de criação.
Outra diferença entre o nosso recorte e aquele adotado por Wardrip-Fruin é a palavra escolhida para representar o elemento computacional em cada caso. No estudo de Wardrip-Fruin, esta palavra é “processamento” (ou “processing”), enquanto que nesta pesquisa usamos o termo “procedural” (relativo a “procedimento”). Esta diferença terminológica reflete algumas distinções adicionais entre os dois conceitos.
A primeira refere-se à etimologia das palavras. De um lado, a palavra “procedural” está associada ao conceito objetivo de “procedimento”, que significa uma maneira específica de fazer alguma coisa. Este é um termo familiar na área da computação, denominando uma função ou determinada série de instruções.
A palavra “processamento”, por sua vez, tem um escopo mais amplo, pois pode se referir tanto ao processamento de uma função ou algoritmo no contexto da computação (isto é, de um “procedi- mento”), quanto a um “processo” (de natureza “processual”), em uma perspectiva mais geral.
Outra distinção está no fato de que, no termo empregado por Wardrip-Fruin, há um foco explícito no momento da execução do algoritmo ou programa, isto é, no “processamento”. No termo empregado na nossa pesquisa, esta ênfase não é sugerida, refletindo a intenção de investigar a autoria procedural da perspectiva do artista ou criativo, sem focar no momento da exibição ou recepção da obra (ou mesmo do momento da geração, no caso do produto final ser de natureza estática).53
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Há ainda outra interpretação possível sobre o termo escolhido por Wardrip-Fruin, que é considerar a “expressividade” como uma característica do processamento computacional em si, ao invés de se referir à intenção do criador. Este não é, entretanto, o sentido pretendido pelo autor (e tampouco em nossa pesquisa, como vimos).
Terminologia e Conceitos
As mídias digitais ainda são uma tecnologia relativamente nova, em comparação com outros meios tradicionais. Embora exista uma terminologia comum sendo estabelecida entre os autores da área, e naquelas relacionadas, ainda existem muitas discrepâncias e lacunas. Estas divergências são parte integrante do processo científico, que geralmente se beneficia da existência de diferentes perspectivas, bem como dos debates e diálogos entre elas.
Wardrip-Fruin emprega em sua pesquisa uma série de conceitos e termos que possuem uma definição relativamente bem estabelecida. Entretanto, ele também constrói uma terminologia parcial própria. O autor introduz determinados conceitos e palavras que lhe permitem descrever e representar com precisão as suas proposições e investigações. Alguns destes termos tratam-se de novas interpretações ou mesmo redefinições de conceitos já existentes.
Um destes termos é a noção de uma “mídia fixa” (ou “fixed media”), usado em referência a suportes como o filme ou o livro, que a princípio é o equivalente ao que é denominado nesta pesquisa como um meio de natureza “estática”. Wardrip-Fruin contrapõe este conceito ao de mídia digital (ou “digital
media”), uma comparação compreensível e justificada no contexto em que é apresentada.
Em nossa pesquisa, entretanto, consideramos que a diferença entre estes dois conceitos não é tão clara ou rígida. Como vimos, na sua qualidade de metamídia, o computador tem a capacidade de emular (ou simular) formas tradicionais, incluindo a exibição de conteúdo de natureza fundamental- mente estática - isto é, a princípio um livro, fotografia ou filme podem ser exibidos através de um computador, de maneira análoga aos seus respectivos suportes nativos.
Neste sentido, o conteúdo estático que reside na memória de um computador pode ser considerado como “mídia fixa”, uma vez que sua natureza - isto é, sua composição - é de fato fixa. Wardrip-Fruin reconhece esta questão, apontando que um filme (estático, linear e fixo) exibido em um computador não pode ser considerado como “mídia digital” só por conta do suporte ser de natureza digital.
Wardrip-Fruin também propõe um modelo para descrever o meio digital, que ele representa no diagrama reproduzido abaixo (fig. 10). O modelo inclui a entidade do(s) autor(es), e o meio digital representado pelos seus dois aspectos, os dados e o processo, além de uma camada denominada "superfície", através da qual se dá a Interação com o público e com os processos e fontes de dados externas (WARDRIP-FRUIN, 2006:12).54
Figura 10 – Diagrama: modelo do meio digital (WARDRIP-FRUIN, 2006)
O autor toma este modelo como base para ilustrar o foco da sua investigação, que se dá sobre os processos computacionais, em oposição à “superfície”. Entretanto, no contexto deste modelo, o conceito de superfície engloba não apenas a interatividade (ou os estímulos e dados externos), mas também todo tipo de processamento computacional que se dá no momento da recepção. A princípio, isso implica que o universo de análise da pesquisa de Wardrip-Fruin se limita a produções cuja forma final é de natureza estática, como o meio impresso, por exemplo.
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Tradução nossa a partir do texto na figura: Autor (Author); Dados (Data); Processo (Process); Superfície (Surface); Interação (Interaction); Público (Audience) e Processos e fontes de dados externas (Outside processes & data sources).