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Processamento mnésico consciente de palavras emocionais

SEGUNDA PARTE: ESTUDO EMPÍRICO

CAPÍTULO 6: DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

6.1 Discussão dos resultados

6.1.2 Processamento mnésico consciente de palavras emocionais

Em todos os processos mentais estão presentes, em maior ou menor medida, os processos de memória. Este sistema cognitivo humano tem que reduzir a complexidade e variabilidade do universo a uma estrutura de conceitos limitada, dada a sua capacidade. O Ser Humano, para não se perder num caos de estímulos, deve categorizar o mundo. Necessita de um mundo coerente e consistente e é necessário dispor de um conhecimento do mesmo, armazenado na memória. Mas, a memória não é uma entidade única e unitária, visto que existem vários tipos de memória mediados por distintas estruturas e subsistemas neuronais. Por isso, é importante perceber se o envelhecimento afecta todos por igual ou se os efeitos são selectivos, com distinto grau de afectação em uns e outros sistemas.

Nesta investigação avaliamos dois sistemas da MLP, a memória explícita nomeadamente, a memória semântica, e a memória implícita. A memória explícita (declarativa) permite recordar um evento passado, ao qual o indivíduo tem um acesso consciente (directo), ao passo que a memória implícita (não declarativa) permite que um grande número de informações/conhecimentos sejam adquiridos e recordados sem que destes se tenha consciência (acesso indirecto).

Também nos processos de memória os conteúdos emocionais têm influência, sendo que na fase de recordação, a emoção (positiva ou negativa) pode exercer um efeito de facilitação na recuperação da informação anteriormente armazenada, independentemente do tipo de material/estímulos utilizados, tais como, fotos, palavras, frases, eventos autobiográficos e histórias. O peso dos factores emocionais na memorização e recordação de informação é uma das áreas de grande interesse na investigação actual sobre o envelhecimento. Apesar da inconsistência dos resultados, alguns estudos têm mostrado que as pessoas idosas apresentam melhores resultados mnésicos quando são apresentados estímulos negativos (Comblain et al., 2004; Denburg et al., 2003; Grady et al., 2007; Grühn et al., 2005;

Grühn et al., 2007; Kensinger & Corkin, 2004; Kensinger & Schacter, 2005; Maratos, Allen & Rugg, 2000).

No presente estudo verificámos que as palavras-envelhecimento que constavam da lâmina 3 da tarefa stroop emocional quando apresentadas na prova de memória explícita não foram melhor reconhecidas comparativamente com as palavras-emoções da lâmina 2. Verificámos um melhor reconhecimento das palavras-emoções do que das palavras- envelhecimento, o que faz com que a nossa hipótese seja infirmada. Contudo, dado o reconhecimento de um maior número de palavras-emoções da lâmina 2 podemos afirmar que a presença de material afectivo negativo, independentemente do conteúdo da informação exerceu um efeito de facilitação na recuperação da informação anteriormente armazenada. Para além disso, também podemos referir que a tarefa stroop emocional constitui-se como uma tarefa de priming, facilitando a recuperação, nomeadamente de alguma da informação que consta da lâmina 2, na prova de reconhecimento de palavras, que nos permite a avaliação da memória emocional explícita.

É de referir ainda que a presença de conteúdo emocional requer maiores recursos atencionais como forma de inibir o significado da palavra e para nomear a cor. A velocidade de nomeação da cor registada seria mais lenta e, por isso seria esperado um melhor desempenho nas tarefas de memória explícita (Burton et al., 2004), existindo para alguns autores uma correlação positiva entre os vieses atencionais e mnésicos (Ellis et al., 2011; Koster et al., 2010; LeMoult & Joormann, 2012; Wells et al., 2010). Nesta investigação no geral não verificámos viés atencional e consequentemente o desempenho na prova de memória explícita ficou comprometido. A possível automaticidade que a tarefa stroop emocional gerou, contribuiu para uma fraca retenção das palavras-emoções e das palavras- envelhecimento pois os recursos atencionais utilizados foram reduzidos. Uma outra possível explicação para este resultado, prende-se com a baixa escolaridade da amostra, pois 35.5% dos participantes possuía apenas o 1º ciclo de escolaridade. Estes dados permitem-nos hipotetizar que os participantes centraram-se sobretudo nas cores das palavras e não no seu conteúdo semântico, o que contribuiu para um baixo desempenho nas provas mnésicas.

Outro factor que pode ter contribuído para um fraco desempenho nesta prova de avaliação dos processos mnésicos consciente pode estar relacionado com as restantes palavras da prova, as designadas palavras distractoras, com as quais os participantes não tiveram qualquer contacto, que levaram a falsos reconhecimentos, o que contribuiu para um baixo reconhecimento das palavras-emoções e palavras-envelhecimento e um elevado número de omissões dessas mesmas palavras.

Por outro lado, apesar de se ter verificado o efeito de interferência stroop emocional quando comparados o grupo dos participantes deprimidos e o dos não deprimidos, quando utilizada a prova directa de memória, os idosos deprimidos não recordaram mais palavras- envelhecimento e palavras–emoções do que os não deprimidos, o que contribui para que a

nossa hipótese seja infirmada. Verificou-se melhores resultados mnésicos no grupo dos idosos não deprimidos, embora a diferença encontrada entre os grupos não seja estatisticamente significativa. Estes resultados mostram que embora exista um viés atencional, quando avaliado o grupo dos participantes deprimidos e não deprimidos, não se verifica uma melhor retenção mnésica, tal como nos estudos de Gilboa e Gotlib (1997) e Hill e Dutton (1989) que descrevem a ausência dessa correlação entre os vieses atencionais e mnésicos.

Estes resultados também contrastam com os resultados obtidos por Dozois e Dobson (2001). Nesta pesquisa o grupo dos deprimidos experienciou interferência atencional face aos estímulos negativos, o que contribui para uma melhor memorização desses estímulos. Neste sentido, vários autores referem que a informação afectivamente congruente com o estado de ânimo/humor dos indivíduos é melhor recordada que a informação afectivamente incongruente em provas explícitas (Beato & Fernández, 1995, 1998; Ellwart et al., 2003).

Procurámos ainda determinar se com o avançar da idade há uma diminuição dos processos mnésicos conscientes, ou seja, na memória explícita. Na realidade, atendendo aos resultados obtidos verificámos que com o avançar da idade existe uma ligeira diminuição dos acertos das palavras-envelhecimento e das palavras-emoções anteriormente observadas. Contudo, essa diferença encontrada não é estatisticamente significativa, logo a nossa hipótese é infirmada, o que nos permite dizer que na nossa amostra não existe declínio ao nível da memória explícita (semântica) à medida que avançamos na idade, informação coerente com os dados da literatura. De facto, a memória explícita, nomeadamente, a memória semântica, mantém-se estável geralmente com a idade, pelo menos até aos 80 anos (Balota et al., 2000; Mayr & Kliegl, 2000; Nessler et al., 2006; Rönnlund et al., 2005; Spaniol et al., 2006; Zacks & Hasher, 2006). A percentagem de participantes pertencentes ao grupo dos “velhos-velhos” é apenas de 7%, o que não interferiu negativamente nos nossos resultados, o que vai de encontro às evidências científicas. O mesmo não se verifica em relação à memória episódica pois à medida que se envelhece esta sofre deterioração (Allen et al., 2002; Balota et al., 2000; Piolino et al., 2002; Nilsson, 2003; Park & Schwarz, 2002 cit. in Ventura, 2004; Spencer & Raz, 1995; Rönnlund et al., 2005; Spaniol et al., 2006). Este tipo de memória explícita não foi alvo de estudo na presente investigação.