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2 LEI ORGÂNICA DA POLÍCIA CIVIL DO ESTADO DE SÃO

2.3 Procedimentos Administrativos

2.3.3 Processo Administrativo Disciplinar

Na Lei Orgânica da Polícia do Estado de São Paulo, o processo administrativo disciplinar é o devido procedimento legal para a aplicação das penalidades de demissão simples, demissão qualificada (a bem do serviço público) e cassação de aposentadoria.

Como salienta Barros Filho (2007, p. 167), é relevante diferenciar o processo administrativo do processo administrativo disciplinar. O primeiro tem a finalidade de equacionar uma solução para um conflito de interesses entre a Administração e o administrado, no âmbito administrativo, enquanto o segundo visa apurar a responsabilidade funcional do servidor e, se demonstrada a sua culpabilidade, aplicar a penalidade descrita em lei.

É este procedimento – administrativo disciplinar – que está sujeito ao sobrestamento, presente o pressuposto legal da existência de procedimento correlato no juízo criminal, e desde que a autoridade com atribuição para aplicar a penalidade o promova motivadamente.

A Lei no 10.177, de 30 de dezembro de 1998, regulamenta o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Estadual paulista, e é aplicada subsidiariamente à Lei Orgânica da Polícia Civil, no que couber. Esse diploma regula atos e procedimentos administrativos da Administração Pública centralizada e descentralizada do Estado de São Paulo. Com efeito, o artigo 2o determina a aplicação subsidiária da lei aos atos e procedimentos administrativos com disciplina específica. Por sua vez, o artigo 4o arrola os princípios da legalidade, impessoalidade, publicidade, razoabilidade, finalidade, interesse público e motivação dos atos administrativos, como diretrizes obrigatórias a serem obedecidas pela Administração Pública. Importa verificar que a motivação, nos termos do parágrafo único do artigo 9o “poderá consistir na remissão a pareceres ou manifestações nele proferidos”. É evidente que o documento para o qual é feita a remissão deverá conter, de modo expresso, a motivação.

Como já assinalado neste estudo, o princípio da motivação decorre e se articula com o princípio da legalidade no gerenciamento do processo administrativo disciplinar. Teixeira Ferreira (2004, p. 26) considera o princípio da motivação no processo administrativo como corolário do princípio da legalidade:

“Tal princípio impõe limites claros à arbitrariedade, pois exige que todos os atos administrativos sejam acompanhados de justificativa prévia, clara e lógica. A decisão que for tomada sem motivação, ou com motivação insuficiente, será nula.

Tendo em vista que a motivação se respalda na necessidade de se verificar a conformidade da atuação administrativa com os ditames legais, não é demasiado afirmar que este princípio também figura como verdadeiro corolário do princípio da legalidade, sendo exigência do Estado Democrático de Direito.”

O processo administrativo, com efeito, não se limita aos dispositivos legais que o regulamentam, pois está sujeito, primordialmente, a uma base

explícita e implícita de princípios. A propósito, Moreira Pires (2004, p. 171), acentua:

“A exemplo, temos os princípios constitucionais da igualdade, impessoalidade e publicidade, isto sem falar daqueles típicos do processo administrativo, dentre os quais a obediência à forma, a impulsão de ofício, a gratuidade e a verdade material.

De se ver, existe uma diversidade de princípios vetores do processo administrativo que, em última análise, devem ser considerados como condicionantes do modo de agir da Administração. Sustentamos, sem medo de errar, que as atividades desenvolvidas pela Administração não podem se exaurir na norma positiva, mas antes, se completam por uma base principiológica que as envolve.

Deveras, a questão principiológica assume relevante importância quando se deseja conhecer e examinar com mais atenção determinado instituto. O princípio, cremos nós, deve ser concebido como uma luz a iluminar o caminho do intérprete.”

Importa ressaltar que o processo administrativo é o procedimento obrigatório, nos termos do artigo 41 da Constituição Federal de 1988, para a aplicação da penalidade de demissão. O referido dispositivo ainda estabelece que ao servidor se deve assegurar a ampla defesa.

Convém destacar, ainda, na seara do processo administrativo disciplinar, a disposição do artigo 116 da Lei Orgânica da Polícia Civil paulista, segundo a qual “Não será declarada a nulidade de nenhum ato processual que não houver influído na apuração da verdade substancial ou diretamente na decisão do processo ou sindicância.” Barros Filho (2007, p. 201) pondera que o dispositivo veicula o formalismo moderado, o qual dispensa “ritos sacramentais e formais rígidos para os procedimentos administrativos”.

O formalismo moderado é dogmaticamente identificado como um princípio, mas isso não quer dizer que inexistam ritos e formas (MEDAUAR, 2008, p. 131-132). O princípio implica a simplicidade dos ritos e formas, bastantes para conferir segurança e certeza; também implica a interpretação caracterizada pela flexibilidade e razoabilidade, com o escopo de se evitar que as formas sejam um fim em si mesmas.

A denominada Reforma de 2002, por meio da Lei Complementar Estadual no 922, consoante já consignado, buscou operar adequações urgentes, uma vez que o sistema legal anterior mostrava, nos aspectos apontados, graves dissonâncias com a Constituição Federal de 1988.

O processo administrativo deve desenvolver-se em consonância com a fórmula do Estado de Direito (MEDAUAR, 2008, p. 89-90), ou seja, é uma fórmula da qual decorrem várias vertentes que irão produzir efeitos no procedimento administrativo. O Estado de Direito é uma limitação do poder pelo direito, que é refletida no processo administrativo, pois o submete a regramentos, conferindo às partes posições jurídicas que devem ser respeitadas. Implica a estrita observância da legalidade, processualizada, pois não é permitida uma atividade livre. Por um lado, o princípio da igualdade, como um dos fundamentos do Estado de Direito, manifesta-se de modo contundente no processo, já que às partes devem ser conferidas as mesmas oportunidades na instrução probatória e demais atos processuais. Por outro lado, o contraditório e a ampla defesa conferem ao processo administrativo caráter instrumental para a consecução e garantia de direitos fundamentais.

Portanto, como já se sublinhou no decorrer deste estudo, o requisito da motivação constitui uma obrigatoriedade para a viabilização do sobrestamento, sendo sua ausência causa de nulidade. O sobrestamento sem motivação é, pois, ilegal e inconstitucional, pelos motivos apontados no Capítulo 1.

3 EFEITOS JURÍDICOS DA DECISÃO DO JUÍZO CRIMINAL NA INSTÂNCIA