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PARTE II – JUSTIÇA PARTILHADA ENTRE PARTES

2.   Confronto de processo: a primazia das partes nos Julgados de Paz e nos tribunais

2.2.   Processo ao serviço das partes: As partes

Constituem traves mestras do processo civil, no que respeita às partes, o princípio do dispositivo, no art. 5º CPC,100 o qual é a tradução processual do princípio constitucional da propriedade privada e autonomia da vontade, que em nada se relaciona com uma visão clássica do processo civil, traduzindo-se na liberdade de decisão sobre a instauração do processo, sobre a conformação do seu objecto e das partes na causa e sobre o seu termo, suspensão, confissão e transacção. Todavia, embora as partes conservem naturalmente a mesma liberdade de decisão, assumem um papel diferente nas diferentes jurisdições.

                                                                                                                         

crescente uso de conceitos indeterminados, cuja concretização é implicitamente diferida para a esfera jurisdicional; deficiências na preparação técnica dos profissionais foresns. É certo que algumas destas causas tendem a ser corrigidas senão mesmo com o novo processo de 2013 foram mesmo superadas. No entanto, o Sistema ainda sofre resquícios do passado, pelo que algumas causas ainda são as do presente.

99 Não deve ser confundido com os processos de jurisdição voluntária (art.987º), em que as decisões podem ser tomadas segundo critérios de conveniência e de oportunidade, o que significa que nesses processos as decisões podem ser fundamentadas num critério normativo, o qual assenta na discricionariedade judiciária.

As partes conduzem o processo a seu próprio risco, vinculados pelo princípio de autorresponsabilidade, deduzindo e fazendo valer os meios de ataque a defesa, cuja negligência redunda em prejuízo para elas próprias uma vez que tal iniciativa não pode ser suprida pela actividade do juiz.

Não obstante este princípio enformador, que conduz a actuação das partes, é um principio com limitações - por contraposição ao que acontece nos Julgados de Paz e cujo reaparecimento veio reforçar este princípio para prosseguir as finalidades da participação cívica e do estímulo ao acordo – na medida em que o juíz é, em regra, chamado a decidir, mas também em boa parte decorrentes do objecto do processo, onde a forma, demasiado ritualista, prevalece sobre a substância da causa, impedindo as partes de intervirem na plenitude, de forma participada, tendo a pacificação como fim secundário e não imediato. É uma “actuação” simplista, por meio de representação, que confere uma postura processual pouco activa, embora subjectiva consoante o caso.

A par do princípio do dispositivo, o principio da cooperação, no art.7º CPC,101 pautado pelo limite da boa-fé, é também uma válvula de intervenção, mas que pressupõe um juntar de mãos ou, como refere Lebre de Freitas “uma comunidade de trabalho”,102 quer entre partes, quer entre partes e juiz. Para Mariana França Gouveia, este principio é corolário de uma Justiça próxima e pedagógica, de uma Justiça democratizada ao serviço do cidadão, em que explica às pessoas a razão de ser dos seus actos e das suas decisões, impondo ao juíz uma igualdade com as partes e uma preocupação com o litígio em discussão.103 Todavia na prática judicial é expressão de uma participação mitigada das partes, uma vez que a sua participação é indirecta, podendo fazerem-se ouvir em qualquer altura do processo apenas a convite do juiz.

Actualmente o sistema veio dar um sinal da inversão deste paradigma, salientando a importância da intervenção partes, refiro-me à figura das declarações de parte introduzida com a recente alteração legislativa ao processo civil. As declarações de parte (art.466º nº1 CPC), diferentes de depoimento de parte (art.552º nº1 CPC) - em que a parte é sujeita à

                                                                                                                         

101 Há que ter em linha de conta o princípio 11 em conexão com o princípio 17 dos Princípio do Processo Civil Transnacional.

102 Cfr. FREITAS, Introdução...2013, p.190

prestações de esclarecimentos sobre a matéria de facto, os quais não podiam valorar por si como meios probatórios por estar-lhe vedado ser testemunha em causa própria - vem trazer ao processo uma nova posição da parte, de caracter voluntário, ou seja, apenas pela própria ou pelo juiz,104 nos termos do art.411º CPC; bem como um novo meio de prova em que: «prevê-se a possibilidade de prestarem declarações em audiência as próprias partes, quando face à natureza pessoal dos factos – que a parte tenha conhecimento - a averiguar tal diligência se justifique, as quais são livremente valoradas pelo juiz, na parte em que não representem confissão».

Parece que as razões do surgimento deste instituto vão de encontro às necessidades abordadas, uma vez que prendem-se com as assimetrias no exercício do direito à prova dificilmente compagináveis com o principio da igualdade de armas.105

As partes são soberanas para apresentarem as provas que bem entenderem, tendo como contrapeso o escrutínio do juiz, o qual não pode rejeitar as declarações com fundamento em razões de economia processual, mas apenas quando os factos que a parte pretende declarar já tenham sido provados por documentos ou outro meio com força probatória plena (art.393º nº2 CPC) ou beneficiem de prova pleníssima, nomeadamente nos casos de presunções inilidíveis.

Por outro lado, é de referir que as declarações de parte foram desenhadas para o tribunal judicial, já que não fará sentido declarações de parte no âmbito dos Julgados de Paz. Não faz sentido porque nos Julgados de Paz as partes são sempre ouvidas, independentemente de requerimento nesse sentido e são elas que, em geral, expõem as suas posições processuais, as razões que as levaram a recorrer ao tribunal e os sentimentos que as animaram a tal decisão.

Em suma, as declarações das partes são um bom indício ainda que débil, uma vez que, é de rejeitar a ideia de serem tidas como declarações interessadas na ideia de que “não acredito

                                                                                                                          104

Contrariamente Lebre de Freitas e Paulo Pimenta em como não podem ser determinadas oficiosamente pelo juiz. Cfr. SOUSA, Luis Filipe Pires de, “As malquistas declarações de parte”, 2015, p.4.

105 FREITAS, “Introdução ...”,p.139, chama a atenção para o facto das declarações de parte poderem propiciar a violação do principio da igualdade na medida em que uma parte possa não ter conhecimento da pretensão da contraparte, a fim de também se oferecer, se quiser, para prestar declarações, uma vez que não há o dever nem o ónus de estar presente e não é uma hipotética iniciativa da parte contrária que lhe pode criar esse ónus.

na parte porque é parte”,106 sob pena de esvaziar sua a utilidade e potencial. As declarações de parte são tendencialmente semelhantes ao fim do Depoimento de parte, na medida em que integram um testemunho de parte, ainda que diferentes no grau107 e não na hierarquia, mas sujeitas à livre apreciação de prova. As declarações de parte são um indício de mudança comprometida, na medida em que fazem apenas prova mas (ainda) não uma participação activa plena.

Já nos Julgados de Paz são uma prática constante e são elas que permitem criar o espaço de diálogo tão útil e imprescindível à resolução pacifica de litígios. Daí que uma parte dos processos, tendencialmente crescente, terminam por acordo, seja obtido em Mediação seja em Conciliação.108 E, as declarações de parte, têm papel fundamental no desfecho do processo porque as partes falam uma com a outra sem prejuízo, naturalmente, daquilo que deve ser a defesa dos seus interesses. Ao terem oportunidade de verbalizarem as suas certezas, as suas dúvidas e bem assim as suas convicções, têm as partes também a oportunidade de se irem apercebendo da justeza (ou não) das suas posições; de se esclarecerem mutuamente e de participarem civicamente, como diz a lei, na justa composição do litigio.

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