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O protótipo de um processo dinâmico com um estado absorvente é o processo de con- tato(PC) [48,57]: um sistema de partículas interagentes, em que sua dinâmica evolui a partir de uma fração de partículas depositadas nos vértices de uma rede. Um conjunto de regras mi- croscópicas determina sua evolução temporal e consiste na aniquilação espontânea de partículas em vértices ocupados, com taxa unitária, e na criação de novas partículas geradas por vizinhos ocupados, com taxa λni/ki, em que nié o número de partículas na vizinhança de um vértice i, λ

um parâmetro positivo e kio número de ligações do vértice i.

Em simulações numéricas, uma fração inicial de partículas é depositada em vértices escolhidos ao acaso. A cada passo de tempo t, um vértice i ocupado é aleatoriamente escolhido e com probabilidade p = 1/(1 + λ) sua partícula é destruída. Por outro lado, com probabilidade (1 − p) = λ/(1 + λ), é criada uma nova partícula em um de seus primeiros vizinhos escolhido ao acaso e que esteja vazio. Se o vizinho escolhido estiver ocupado, nada ocorre. Qualquer que seja o evento, a contagem do tempo é atualizada segundo t → t + 1/n(t), em que n é o número de partículas presentes no sistema no início do passo t. A dinâmica do PC pode levá-lo para uma fase ativa em que a criação de partículas persiste ou a uma fase sem partículas, na qual a dinâmica atinge o estado absorvente: uma vez atingindo esse estado, o processo permanece nessa configuração para qualquer tempo posterior.

A descrição da transição para o estado absorvente do PC pode ser feita por uma equação da taxa de evolução temporal da densidade ρ de partículas. Se ρ > 0, o processo encontra-se na fase ativa, sendo a fase absorvente caracterizada por ρ = 0. Essa equação deverá levar em conta características estruturais do substrato pois apesar do evento de aniquilação acontecer a uma taxa unitária, o evento de criação depende tanto do parâmetro λ quanto da distribuição de graus P(k) e da vizinhança por ser contabilizado o número de vizinhos de um vértice. Isso se torna

complicado para um número grande de vértices, que a princípio, deveríamos levar em conta a influência que cada um deles exerce sobre todos os demais. Neste ponto, podemos trabalhar com uma teoria de campo médio que substitui a interação de cada vértice por um campo efetivo.

5.1.1

Campo médio heterogêneo

A teoria de campo médio tradicional assume que todos os vértices tem o mesmo grau [49]. Aqui desenvolveremos uma teoria de campo médio heterogênea (HMF) [36] que tem como caso particular a teoria homogênea quando P(k) = δk,m. Para a HMF, a densidade ρk de partículas

em vértices de grau k (ou dentro do compartimento k) pode diminuir, devido a aniquilação de partículas, com taxa unitária ou aumentar em um evento de criação de partículas com taxa (λ/k) pela replicação de uma partícula em um vértice de grau k′ conectado a k. Portanto, a taxa de

evolução temporal de ρkem uma rede caracterizada por uma distribuição de conectividade P(k)

e correlações entre graus dada pela probabilidade condicional P(k′|k) pode ser dada por [54]:

d dtρk(t) = −ρk(t) + λk 1 − ρk(t) X k′ P(k′|k)ρk(t) k′ . (5.1)

O primeiro termo do lado direito representa o evento de aniquilação de partículas e é proporci- onal à densidade de partículas no compartimento k e ocorre a uma taxa unitária. Já o segundo termo descreve o evento de criação de partículas sendo proporcional à taxa λ, à probabilidade de um vértice de grau k estar vazio, dada pelo termo [1 − ρk(t)]. Além disso, esse termo de

criação também leva em conta a probabilidade do vértice vazio de grau k esteja conectado à um vértice de grau k′ que esteja ocupado por uma partícula. O fator 1/kdeve-se ao fato de que a

partícula no vértice de grau k′é replicada para apenas um dos seus kvizinhos.

O estado absorvente ρk=0 é sempre solução da equação (5.1). Para uma solução es-

tacionária ativa, podemos fazer uma análise de estabilidade [12] da equação (5.1). Para isso, iremos reescrever essa equação descartando termos de ordem O(ρ2

k): d dtρk(t) ≈ X k′ Lkk′ρk′(t) ≡ X k′ −δkk′+λkP(k ′|k) k′ ! ρk′(t). (5.2)

A matriz jacobiana Lkk′ possui um único autovetor υk = k e autovalor Λ = λ − 1. Usando o

teorema de Perron-Frobenius [37], podemos mostrar que Λ é o maior autovalor de Lkk′. Para um

estado estacionário ativo devemos ter Λ > 0, implicando em um limiar de criação de partículas igual a λc=1.

a forma

d

dtρk(t) = −ρk(t) + λ k

hki[1 − ρk(t)]ρ(t), (5.3)

que impondo a condição estacionária dρk(t)/dt = 0, temos que

ρk= λkρ/hki

1 + λkρ/hki. (5.4)

Levando esse resultado na definição de ρ, obtemos também uma equação de autoconscistência para a densidade total de partículas:

ρ = λρ hki X k kP(k) 1 + λkρ/hki, (5.5)

que depende da natureza da distribuição de graus P(k). Para uma rede heterogênea, sua distribui- ção de graus em uma aproximação contínua pode ser escrita como sendo P(k) = (γ −1)mγ−1k−γ,

em que m é o menor grau encontrado e a solução da equação (5.5) dependerá do expoente de conectividade γ. No limite de uma rede infinita, com a substituição da soma por uma integração sobre o limite de k = m → ∞, obtemos a expressão:

ρ = F "

1, γ − 1,γ,−λρmhki #

, (5.6)

em que F[a, b, c, z] é a função hipergeométrica de Gauss [80]. É possível obter o comportamento de ρ no regime crítico d e baixas densidades com a inversão dos termos obtidos da expansão assintótica da função hipergeométrica [80]. Com isso, obtemos ρ(λ) ∼ (λ−λc)β, com β = 1/(γ −

2) para 2 < γ < 3 e β = 1 para γ > 3 com correções logarítmicas em γ = 3 em que ocorre a mudança abrupta do padrão heterogêneo para o homogêneo. Note que essa análise foi feita para o limite de redes infinitas. Para valores de N finitos é necessária uma teoria de escala de tamanho finito(ETF) [49].

5.1.2

Escala de tamanho finito

O comportamento do PC previsto pela teoria de campo médio para redes infinitas, pode ser testado em sistemas finitos por meio de uma teoria de ETF. A hipótese usual dessa teoria diz que na transição de fase, tanto a densidade ρ de partículas do PC como sua escala de tempo (de vida) característico τ dependem do tamanho N do sistema, assumindo uma dependência de Nda forma

ρ ∼ N−ˆν (5.7)

e

em que os expoentes críticos de escala ˆν e ˆα caracterizam essa transição [50, 51]. Essa hipótese é verificada, validando a teoria de campo médio, para o processo de contato e redes regula- res [49]. Castellano e Pastor-Satorras relataram na referência [54] um comportamento do PC na criticalidade diferente do esperado pela teoria de campo médio em redes sem escala sem correlação entre graus. Para essas redes, em que P(k′|k) = kP(k)/hki, a densidade total ρ de

partículas obedece a equação d dtρ(t) = −ρ(t) + λρ        1 − 1 hki X k kP(k)ρk(t)         . (5.9)

que pode ser verificada diretamente da equação (5.3). Próximo à criticalidade, o processo se encontra em um regime de baixas densidades. Com isso, foi proposto na referência [61] o mapeamento do PC em um processo de difusão, no qual o estado do processo é determinado apenas pela variável n(t) = 0, 1, 2, ..., N, uma vez que ρ(t) = n(t)/N, e com taxas de transições entre estados dadas por:

wn−1,n = n wn+1,n = λn        1 − 1 hki X k kP(k)ρk(t)         (5.10) em que wm,ncorresponde à taxa de transição do estado com n partículas para o estado com m

partículas. Além disso, no regime estacionário dρk/dt =0 a densidade de partículas no compar-

timento k é dada por

ρk= λkρ/hki

1 + λkρ/hki (5.11)

que, no regime de baixa densidades ρk≈ λkρ/hki. Com isso, as taxas de transições podem ser

reescritas na forma:

wn−1,n = n

wn+1,n = λn(1 − λgn/N), (5.12)

em que g = hk2i/hki2. Baseado nas taxas (5.12) e simulações numéricas, Castellano e Pastor-

Satorras [61] relataram que, na na transição do PC em redes sem escala, existe uma dependência adicional do grau de corte kc (marcada pelo fator g) para as quantidades (5.7) e (5.8). Na

criticalidade, essas quantidades estacionárias tomariam as escalas segundo

ρ ∼ (Ng)−1/2 (5.13)

e

A consequência disso é que para análises no limite em que N → ∞, precisamos levar em conta também o limite em que kc(N) → ∞, pois g ∼ kc3−γpara γ < 3 (g ∼ constante se γ > 3). Além

disso, para garantir redes não correlacionadas [61] é preciso que kc divirja com N mais lenta-

mente do que o corte estrutural kc(N) ∼ N1/2(Apêndice A.2). De forma geral, essa divergência

de kc(N) deve assumir a forma kc∼ N1/ω, em que ω é um expoente de corte positivo e arbitrá-

rio [61, 76, 81]. Com isso, os expoentes críticos das equações (5.7) e (5.8) previstos pela teoria de campo médio heterogêneo (HMF) [54] são:

ˆα =1 2 −max 3 − γ 2ω ,0 ! (5.15) e ˆν =1 2+max 3 − γ 2ω ,0 ! . (5.16) no ponto crítico ∆ = (λ − 1) = 0.

Para conectar o comportamento do PC na fase supercrítica em que a densidade de par- tículas vai a zero segundo ρ ∼ ∆β e β = 1/(γ − 2), com a fase absorvente, a ETF para o PC foi

estudada segundo uma abordagem via equação de Langevin [62]. Dessa abordagem, entretanto, foi verificado que o PC assume comportamentos diferentes na fase supercrítica que depende da relação entre densidade de partícula e o corte superior da distribuição de graus P(k) dados por diferentes regimes do termo de arraste (também chamado termo macroscópico) [59] na equação de Langevin. As passagens analíticas desse estudo [62] serão omitidas por brevidade mas, sem perdas, podemos ter uma ideia desses comportamentos analisando a relação entre a densidade total de partículas no regime estacionário e a estrutura da rede: isso pode ser feito por meio do funcional Θ[ρ(t)] =X k kP(k) hki λkρ(t) hki + λkρ(t) (5.17)

obtido pela combinação das equações (5.11) e (5.9). Esse é exatamente o funcional que aparece no termo de arraste da equação de Langevin na referência [62] e determina as propriedades dinâmicas do PC. Em redes finitas, existem duas formas diferentes para Θ correspondendo aos regimes ρ(t) ≪ hki/λkc (regime I) e hki/λkc ≪ ρ(t) ≪ 1 (regime II). Para o regime I, teremos que Θ[ρ] = gλρ e para o regime II, Θ[ρ] precisa ser estimado pela aproximação contínua

Θ[ρ] = Z kc m dkkP(k) hki λkρ hki + λkρ, (5.18)

que a solução leva a

Θ[ρ] ≈ Γ(γ − 1)Γ(γ − 3) λρ hki

!γ−2

. (5.19)

a densidade supercrítica de partículas em um sistema finito assume um comportamento anômalo possuindo além da dependência em ∆ (seção anterior), uma dependência do tamanho N do sistema marcada pelo fator g:

ρ(∆, N) = 1 gNf         ∆ s N g        , para ∆ ≪ λghki kc