As narrativas tratam-se de histórias, relatos, contos ou descrições narradas em uma ordem específica, isto é, com começo, meio e fim (SHANKAR; ELLIOTT; GOULDING, 2010). Desse modo, as histórias contadas sobre a própria vida e a vida de outras pessoas são difundidas como forma de texto tornando-se possível construir, interpretar e compartilhar experiências vividas. Diante disso, as narrativas têm sido cada vez mais utilizadas nos estudos organizacionais (SHANKAR; ELLIOTT; GOULDING, 2010), tendo em vista que por meio destas é possível dar voz aos atores de uma organização, de modo a desvelar as interpretações acerca da realidade organizacional (CORREA et al., 2014).
A narrativa surge não como o espelho exato da experiência, mas como o produto de uma construção de significados, culturalmente enquadrada, por parte do narrador (GONÇALVES, 2000). Nesse estudo utilizou-se de entrevistas de natureza narrativa, caderno de campo, bem como documentos, sendo estes compostos por narrativas, que contam a história do passado, narram o presente e projetam o futuro (CZARNIAWSKA, 1997; RESE et al., 2010). Assim, compreende-se como fundamental utilizar tal análise para os dados coletados durante a investigação.
A pesquisa narrativa constitui-se em um campo multifacetado e multidisciplinar, composto de diversas abordagens possíveis, para o trabalho analítico (ZACARELLI; GODOY, 2013). Todavia, nesta pesquisa, privilegia-se a abordagem metodológica (ZACARELLI; GODOY, 2013).
Pentland (1999) e Rese et al. (2010) consideram as seguintes características como típicas do texto narrativo: (1) Sequência temporal – as narrativas devem apresentar um começo, meio e fim, cuja sequência evidencia o aspecto temporal e a localiza em um determinado espaço; (2)
Ator (es) focal (is) - a narrativa é sempre sobre alguém ou sobre algo, logo, torna-se possível identificar protagonistas e antagonistas em uma dada história; (3) Voz Narrativa Identificável – a narrativa é sempre contata por alguém e por isso consta os pontos de vista de quem narra uma determinada história. Assim, sempre terá uma voz identificável a partir da história contata. (4) Quadro Avaliativo de Referência - as narrativas carregam significado e valor cultural porque codificam, implicitamente ou explicitamente, padrões contra os quais as ações dos personagens podem ser julgadas. Por isso, mesmo sem nenhuma moral explícita, as narrativas incorporam um sentido do que é certo e errado, apropriado ou inadequado, e assim por diante; (5) Outros Indicadores de Conteúdo e Contexto - os textos narrativos possuem diversos dispositivos que indicam tempo, lugar, atributos dos atores, atributos do contexto, etc. Diante disso, é válido ressaltar que esses indicadores são essenciais para a interpretação dos eventos narrados (PENTLAND, 1999; RESE et al., 2010).
Inicialmente, todas as narrativas gravadas foram ouvidas na íntegra. Isto feito, foram realizadas as transcrições literais das entrevistas, respeitando a espontaneidade da narrativa. Nesse momento de transcrever foram destacadas nuances das falas e apontamentos relevantes. Posteriormente, desenvolveu-se uma análise individual de cada uma destas histórias, de acordo com as propriedades apresentadas por Pentland (1999) e Rese et al. (2010), bem como com os objetivos de pesquisa. Assim, as narrativas individuais foram construídas evidenciando a sequência temporal dos fatos, ator focal, voz, quadro avaliativo de referência, indicadores de conteúdo e contexto, e por fim, os princípios e valores, práticas de consumo, sentidos e emoções decorrentes do consumo.
Desse modo, bem como enfatizado por Freitas (2019) em seu trabalho, as narrativas foram utilizadas nesse contexto como uma perspectiva que nos permite compreender os aspectos contextuais de espaço e tempo que influenciaram na elaboração e justificação de determinadas práticas adotadas pelos apreciadores. Nesse sentido, foram usadas como uma ferramenta interpretativa para ajudar a entender como os consumidores estruturam suas experiências de consumo e, assim, entendem esse aspecto particular de suas vidas (SHANKAR; ELLIOTT; GOULDING, 2010).
Na última parte da análise foram utilizados todos os dados obtidos a partir da pesquisa documental, observação não-participante e participante, bem como as entrevistas em profundidade. Por meio da compilação de todos estes dados, buscou-se cumprir com os objetivos específicos da pesquisa, apresentando o perfil sociodemográfico dos apreciadores,
relacionando as práticas de consumo ao modelo teórico de Holt (1995) e por fim enfatizando os sentidos e emoções decorrentes do consumo de cachaça artesanal de alambique.
Baseado em Morais et al. (2020) buscou-se organizar os procedimentos metodológicos em cinco etapas, de acordo com os esforços de coleta e análise dos dados durante toda a pesquisa. Assim, as etapas foram sistematizadas com o intuito de visualizar os procedimentos metodológicos e evidenciar a relação estabelecida entre as perspectivas teóricas e empíricas.
Na primeira fase buscou-se estabelecer contato com o campo e com os entrevistados, a fim de conhecer o setor conquanto fosse possível. Para isso, destaca-se a visita à 28ª Expocachaça, presença em um dos eventos realizados pelas Confrarias Convida e Confala, leituras iniciais em sites especializados, pesquisas científicas e livros sobre a temática, notícias sobre o mercado e suas tendências, dentre outras fontes. Em seguida, foi realizada uma seleção e organização prévia dos dados, com o intuito de entender o campo da pesquisa, compreender o contexto histórico, cultural e econômico do destilado, além de identificar nuances desse mercado.
Reestruturada a proposta deste estudo, na segunda fase houve um envolvimento mais direto com o campo, uma vez que almejava-se compreender em maior profundidade as dinâmicas relacionais existentes, o processo produtivo na prática, as práticas de consumo narradas pelos consumidores, os sentidos e significados decorrentes destas, além de outros aspectos complementares. Para isso, houve a visitação a um alambique de cachaça, as conversas com os produtores, a pesquisa documental, o curso de Análise Sensorial e Classificação de Cachaças, e por fim, as entrevistas com consumidores.
Na etapa três, todos esses dados foram analisados sob a perspectiva das narrativas. Conciliando a teoria e os resultados empíricos foram identificadas práticas as quais foram categorizadas, para que na fase posterior pudessem ser caracterizadas. Considera-se importante enfatizar que as categorizações seguiram a proposição de Holt (1995), cujas metáforas de consumo foram adaptadas e discutidas baseadas no consumo de cachaça artesanal de alambique. Destaca-se que além das metáforas de Holt a partir dos dados revelou-se uma nova dimensão: Consumo como Moralidade. Portanto, M1 corresponde ao consumo como experiência, M2 ao consumo como integração, M3 ao consumo como classificação, M4 ao consumo como jogo, e por fim, M5 ao consumo como Moralidade. Este estágio corroborou com o próximo, uma vez que a partir da categorização elucidaram-se quais os aspectos que estão relacionados às práticas, direta ou indiretamente.
Na quarta fase, os estudos de Holt (1995) foram fundamentais. Atentou-se, sobretudo a forma como autor apresenta especificidades sobre cada uma das metáforas, para que as práticas dos consumidores pudessem ser adequadamente categorizadas. Assim, notou-se práticas de apreciação, personalização, classificação por objetos, socialização, dentre outras, as quais nortearam esta etapa e elucidaram alguns traços do consumo. Neste momento da análise, com as dezessete narrativas individuais em mãos foi possível observar não só as práticas, mas como estas corroboraram com a descoberta dos sentidos os quais as permeiam e as emoções decorrentes destas.
Por fim, a quinta fase baseou-se principalmente em fundamentos morais, simbólicos, crenças, sensações e emoções os quais foram apresentados em cada uma das narrativas. Embora a etapa anterior tenha sido fundamental para o desvelar dos sentidos em relação ao consumo do destilado, as narrativas como um todo foram utilizadas como um recurso para compreender as práticas em si e o que há por trás destas. Ao que tange esse momento da pesquisa, evidencia-se que mais do que prover uma descrição das descobertas, buscou-se relacionar as práticas com os sentidos encontrados, tendo em vista que estes implicam-se significativamente. Abaixo, segue um quadro analítico (FIGURA 3) fundamentado nas etapas descritas anteriormente.
Figura 3 - Modelo metodológico de categorização e análise dos dados.
5 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Neste capítulo apresentam-se os resultados obtidos a partir dos estudos em campo. Por meio desta pesquisa foram obtidos dados os quais serão apresentados em sessões temáticas. Em um primeiro momento fora apresentada a evolução histórica do destilado no Brasil. Posteriormente, os apreciadores da cachaça de alambique descritos e caracterizados, com ênfase nos aspectos sociodemográficos destes.
Adiante, as práticas de consumo foram identificadas e categorizadas conforme a proposição de Holt (1995). Isto é, a partir das metáforas de consumo discutidas pelo autor, as práticas de consumo foram discutidas e caracterizadas. Diante dos resultados obtidos surge uma nova categoria: Consumo como Moralidade. Neste tópico são apresentadas evidências as quais revelaram os aspectos morais, orientados especialmente pelas crenças religiosas e a relação das mulheres com a cachaça.
Por fim, na última sessão revelam-se os sentidos atribuídos e as emoções decorrentes das práticas de consumo de cachaça artesanal. Inicialmente são apresentadas as motivações apontadas pelos consumidores como constituintes dos sentidos que permeiam o consumo de cachaça. Assim, à posteriori foram identificados sentidos relevantes nas narrativas dos apreciadores, os quais se relacionam com a cultura nacional, socialização, afetividade, prazer, dentre outros. Isto posto, discussões importantes são feitas neste sentido.
5.1 Evolução histórica do campo da cachaça no Brasil
Com o passar dos anos após o descobrimento do Brasil, vários produtos foram sendo extraídos e explorados com o intuito de gerar uma rentabilidade significativa para a Coroa Portuguesa. O pau-brasil foi um dos recursos os quais após muitos anos de extração sistemática mostrou-se, entre outras coisas, pouco rentável. Logo, um conjunto de fatores particularmente favoráveis tornou possível, então, o êxito da primeira grande empresa colonial agrícola europeia nas Américas: o cultivo da cana-de-açúcar (SANDRE, 2004).
De acordo com a história, a cana-de-açúcar (FIGURA 4), uma espécie vegetal originária da Ásia e da Oceania, foi inicialmente utilizada no Brasil Colônia para a produção de rapadura nos engenhos.