1.2 LETRAMENTO LITERÁRIO
1.3.3 Processo de Aprendizagem em Comunidades Virtuais
Ao falarmos de processos de ensino aprendizagem, Mussoi, Flores e Behar (2007) nos lembram a concepção interacionista de conhecimento, em que a aprendizagem acontece por meio da interação, resultado da ação do sujeito, uma vez que o mesmo está em processo, construindo e reconstruindo o conhecimento. Sob essa visão, o professor é instigador e mediador que orienta o processo, e não o portador do conhecimento, professor e aluno dialogam durante o percurso. A aprendizagem pode resultar a partir das interações entre os sujeitos em meio físico e social. (Cf. MUSSOI, FLORES E BEHAR, 2007)
A atualização constante dos dados na rede e a facilidade de acesso fazem com que o papel do professor não seja mais o mesmo. Os dispositivos informatizados de aprendizagem em grupo, os correios eletrônicos entre outros, possibilitam uma ˝aprendizagem cooperativa assistida por computador˝ (cf. LÉVY, 2010)
Em novos ˝campus virtuais˝, os professores e os estudantes partilham os recursos materiais e informacionais de que dispõem. Os professores aprendem ao mesmo tempo que os estudantes e atualizam continuamente tanto seus saberes disciplinares como suas competências pedagógicas. [...] A partir daí, a principal função do professor não pode mais ser uma difusão de conhecimentos, que agora é feita de forma mais eficaz por outros meios. Sua competência deve desloca-se no sentido de incentivar a aprendizagem e o pensamento. (LÉVY, 2010, p. 173)
Nessa perspectiva, o autor afirma que o professor passa a ser um animador da inteligência coletiva dos grupos que estão a seu cargo. Nessa nova função, deverá acompanhar e direcionar a aprendizagem, em vez de fornecer diretamente os conhecimentos. Deverá, assim, estimular a troca de saberes pela mediação e direcionar os percursos da aprendizagem. Esse direcionamento é essencial para favorecer aprendizagens personalizadas (individuais) e a aprendizagem coletiva em rede. As pessoas aprendem nas atividades sociais e profissionais, o sistema
educacional deverá tomar para si o papel de orientar os percursos individuais e coletivos do saber.
No campo do saber coletivo, Sartori e Roesler (2003) nos apontam para as comunidades virtuais de aprendizagem, que representam a possibilidade de uma aprendizagem baseada na interatividade, agrupando e oferecendo dispositivos de informação e comunicação para seus integrantes. Tais comunidades procuram promover educação e cultura, oportunizar a socialidade, em que seus usuários encontram apoio de compartilhamento tanto de paixões como de projetos de vida.
Ribeiro (2011) afirma que a centralização do processo educacional envolvendo as mídias digitais está nos sujeitos e na sua relação com o conhecimento, pensando- o enquanto ser crítico, reflexivo, consciente e competente, vendo, dessa forma, a escola como célula da comunidade que mantém vínculo entre realidade e sociedade com todos os seus anseios e necessidades.
Tal interpretação pode ser confirmada pelas palavras de Gomes no que se refere às tecnologias da informação e comunicação que têm se revelado como ferramentas importantes na formação de leitores críticos, por promoverem o maior contato com textos literários tradicionais quanto com os textos inovadores numa busca de diferentes interpretações e, com isso, desperta a autonomia do leitor, este ˝que não depende mais somente do contato com textos promovidos pela escola˝ (GOMES, 2011, p. 78).
Os modos de produzir e consumir textos literários mudaram e os suportes de leitura também, por isso é preciso desenvolver ações que cultivem leitores, através de atividades de letramento que possam envolver o aluno no mundo de conhecimento cultural trazido pelo texto literário, desenvolvendo habilidades de interpretação, de inferências, de associação e de dedução, não só no ambiente tradicional escolar, mas também em ambientes virtuais que, embora sejam familiares para a grande maioria dos alunos, ainda necessitam do estímulo para o uso das mídias digitais como forma de adquirir competências que possam ser associadas à aquisição de cultura.
Carlson, citado por Prado (2015), nos aponta que a juventude da era digital tem facilidade no uso de novidades tecnológicas, habilidades de fazer várias coisas ao mesmo tempo, e por isso tem dificuldade em manter atenção em algo, as informações, para eles, parecem saturadas pois tem a crença de que sabem tudo. Isso influencia a maneira como veem os estudos e o trabalho, buscando frequentemente formas de misturá-los com lazer e rejeitando modelos de rotinas engessados. “Por outro lado,
eles têm sido notados como mais aptos a controlar o próprio aprendizado e escolher métodos tecnológicos e não convencionais para aprender melhor. O crescimento do ensino a distância, com o uso de vídeos em vez de aulas presenciais, é um ótimo exemplo dessa característica”. (CARLSON apud PRADO, 2015, p. 5). Diante disso acreditamos que o letramento literário e o letramento digital podem caminhar juntos.
Duarte (2010) nos lembra que o homem é um ser em constante processo de transformação e construção e que por isso deve-se ver a tecnologia como aliada nesse processo. Veja-se que não se pode desconsiderar o modo como o texto digital tem influenciado as práticas de leitura do homem contemporâneo e as novas possibilidades de criações literárias que contribuem para formação do leitor, com perfil diferente do tradicional do texto impresso.
Para Soares (2002), esse leitor contemporâneo está mais próximo dos textos manuscritos à época dos copistas, considerando que, assim como diante do manuscrito, o texto eletrônico não é estável nem controlado. Não é estável porque tal como os copistas os leitores de hipertextos podem interferir neles, acrescentar, alterar e definir seus caminhos de leitura; mutável por ser pouco controlado, dada a grande quantidade de textos na tela e que quase totalmente não há controle de qualidade e conveniência do que é produzido e difundido. Mas a autora ainda destaca que, no texto eletrônico, a distância entre autor e leitor se reduz, porque o leitor se torna também, autor para construir, ativa e independente, a estrutura e o sentido do texto.
Lúcia Santaella (2004) destaca vários de tipos de leitores, porém dá destaque especial para três tipos. O primeiro é o leitor contemplativo, meditativo da idade pré- industrial, o leitor da era livro impresso e da imagem expositiva, fixa. É aquele que tem diante de si objetos e signos duráveis, imóveis, localizáveis, manuseáveis: livros, pinturas, gravuras, mapas, partituras. Tende a ter uma leitura individual, solitária, de foro privado, silenciosa. Nesse tipo de leitura, o leitor se concentra na sua atividade interior, separando-se do ambiente circundante.
O segundo é o leitor movente, dinâmico, que surge na era da imagem e da propaganda consumista, um leitor que é filho da Revolução Industrial, dos grandes centros urbanos. Esse leitor, que nasce com a explosão do jornal e como universo reprodutivo da fotografia, do cinema, o apogeu da televisão e com surgimento da publicidade, se caracteriza por ser treinado nas distrações fugazes e sensações evanescentes cuja percepção se tornou atividade instável. É o leitor apressado de
linguagens efêmeras, fugaz, novidadeiro, de memória curta, mas ágil. Um leitor que começa a esquecer, pelo excesso de estímulos, e na falta de tempo para retê-los.
O terceiro tipo é aquele que começa a emergir nos novos espaços incorpóreos da virtualidade, o leitor imersivo, virtual, que navega numa tela, programando leituras, num universo de signos evanescentes e eternamente disponíveis, contanto que não se perca a rota que leva a eles. Leitor em um estado de prontidão, conecta-se entre nós e nexos, num roteiro multilinear, multissequencial e labiríntico que ele próprio ajudou a construir ao interagir com os nós entre palavras, imagens, documentação, músicas e vídeos.
Deparamo-nos na contemporaneidade com os três tipos de leitores, um não excluindo o outro, porém é o terceiro tipo que emerge em maior quantidade no ambiente escolar. Nossos alunos utilizam as mídias digitais com muita facilidade e frequência, têm acesso a um vasto número de informações e podem criar seus próprios caminhos para o conhecimento, porém é necessário que haja estímulos e orientações para o tipo de saberes que interessam à escola. Desse modo, devemos levar em conta possibilidades de práticas pedagógicas em ambientes virtuais, contemplando assim um leitor com experiências de leitura e interesses específicos.
A necessidade de aliar os hábitos, dos alunos, advindos das experiências no ambiente virtual às atividades de leitura e escrita desenvolvidas em sala de aula, nos motivou a propor um projeto de pesquisa que integra a leitura do texto literário em formato tradicional (impresso) e em ambiente virtual, sua interpretação e apreciação em meio digital. Para isso, elegemos o Fandom que prioriza a interatividade, geradora, não só, de troca de percepções e compartilhamento dos sentidos do texto literário, como também, a capacidade criadora que os fazem refletir, tecer comentários e recriar o próprio texto lido, conforme discutiremos na seção seguinte.