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2.3 Saberes pedagógicos dos docentes do ensino superior

2.3.2 Processo de ensino e aprendizagem de adultos

A preocupação do docente do lato sensu com o ensino não se pode restringir à transmissão de informações e experiências, mas deve estender-se ao processo de ensino e aprendizagem dos alunos. É importante compreender que esse é um processo integrado, em que ensino e aprendizagem são complementares.

Para Masetto (2003, p. 20), a missão do docente com o aluno também é a “de aperfeiçoar sua capacidade de pensar; de dar um significado para aquilo que era estudado, de perceber a relação entre o que o professor tratava em aula e sua atividade profissional”. Assim, a ênfase passa à aprendizagem ativa dos alunos, que, em geral, se deve à motivação e ao interesse pelo tema, incentivados pelo professor. É preciso compreender como aprende o aluno adulto, diferentemente do modo de aprendizagem das crianças.

Na pesquisa de Chamlian (2006, p. 87), encontramos uma proposta dos princípios da aprendizagem do adulto:

1) O adulto aprende quando: a identidade é reforçada; busca a alteridade (definição na posição familiar ou em relação ao parceiro); encontra prazer no aprender; tem demandas internas que são satisfeitas.

2) Fatores internos e externos aos sujeitos influenciam a aprendizagem, tais como: a experiência de vida; o projeto de vida; o reconhecimento de suas qualidades e competências; o gerenciamento do tempo e da energia; as condições mínimas de estabilidade econômica, emocional e física; as condições institucionais de exercício do trabalho.

3) A concepção sobre o conhecimento e sua aquisição influenciam a aprendizagem: processos que criam espaços para a construção de conhecimento compartilhado são facilitadores da aprendizagem; avaliação resultante do processo de autorreflexão é componente importante da aprendizagem.

4) A humanização, as possibilidades de trocas afetivas e espaços de escuta facilitam a aprendizagem. Desse modo: processos que facilitam a apropriação da própria experiência e da experiência dos outros são implicadores e provocam mudanças; a criação de vínculos aluno-aluno e aluno-professor são componentes importantes da aprendizagem do adulto.

5) A figura do professor continua a desempenhar papel importante para o adulto.

De maneira complementar, Aquino (2007) afirma que a aprendizagem se refere à aquisição cognitiva, física e emocional e ao processamento de habilidades e conhecimentos em variadas profundidades. A aprendizagem, portanto, está relacionada ao nível de engajamento com que refletimos sobre o que estamos aprendendo. O autor destaca que, na aprendizagem reflexiva, procuramos entender os porquês e a aplicabilidade de determinado conhecimento para lhe acrescentarmos um significado pessoal.

Assim como Aquino (2007), muitos autores e educadores do ensino superior usam hoje o termo andragogia para designar o estudo da educação voltada para adultos. É uma discussão recente sobre a terminologia, que requer uma análise de conceituação. Nesse sentido, Knowles (1980) foi um dos primeiros a definir a andragogia como a educação centrada no aprendiz, com a responsabilidade da aprendizagem compartilhada entre o professor e o aluno, dando mais independência ao adulto, capaz de julgar o que é importante ou não aprender.

Ainda segundo esse autor, o modelo andragógico estaria fundamentado em suposições básicas ligadas ao modo de aprendizagem de um adulto.

O primeiro princípio é a necessidade de saber do aprendiz. O adulto precisa entender o porquê do aprendizado e seu ganho no processo. Por isso, é essencial que ele entenda a ação educacional e a aplicabilidade do conhecimento adquirido.

O autoconceito do aprendiz é o segundo princípio afirmado por Knowles (1980). O posicionamento do aluno perante a aprendizagem é de independência ou de autodirecionamento. Isto é, os adultos são responsáveis pelas próprias ações e querem ser vistos dessa forma. Portanto, uma relação professor-aluno que os coloque numa posição passiva pode criar um desconforto. O educador deve criar experiências que ajudem o adulto a passar de aluno dependente a auto-orientado.

O terceiro princípio é considerar a experiência anterior do aprendiz. Os adultos partem de um repertório de experiências mais amplo como base para construir sua aprendizagem. Necessariamente, chegam à aula com muito mais experiência do que uma criança. O aprendizado será muito mais rico e intenso se cada participante sentir a oportunidade de contribuir na condução do processo.

É importante considerar que a diversidade de experiências enriquece as discussões, mas pode dificultar o planejamento da ação educacional, por se tratar de grupos mais heterogêneos. Também se deve ter em conta que pessoas mais experientes tendem a ser mais fechadas ao novo e mais resistentes a mudanças.

O quarto princípio é a prontidão para aprender. O adulto é mais disposto a aprender o que for necessário para alcançar resultados positivos em situações reais do cotidiano, ou seja, a necessidade engendra prontidão.

A orientação da aprendizagem é o quinto princípio da andragogia. As expectativas do aluno adulto em relação a tempo e currículo são de aplicação imediata, e a orientação deve privilegiar seu desempenho. Diferentemente da criança, que é orientada para o processo de aprendizado em si, o adulto tem o foco na vida, em suas tarefas e em seus problemas. Ele tem disposição para aprender o que dá resultado, preferivelmente imediato. Assim, é fundamental mostrar a aplicação e a utilidade de cada conceito apresentado.

E o sexto princípio é a motivação do adulto para aprender. Ele responde a estímulos externos, mas são os aspectos internos que geram uma maior motivação.

A verdadeira energia mobilizadora está em fatores subjetivos como satisfação própria, reconhecimento ou autorrealização.

Para Knowles (1980), esses são os elementos constituintes do aprendizado dos adultos, conceitos coerentes com a proposta de Chamlian (2006).

Não discutiremos aqui a terminologia do estudo da aprendizagem dos alunos de cursos lato sensu, mas adotamos a nomenclatura da maior parte das publicações científicas sobre o ensino superior: pedagogia universitária e saberes pedagógicos. Esses conceitos confirmam que a ênfase no processo de aprendizagem do aluno é mais eficaz do que o foco apenas no ensino. Mas precisamos saber que existem consequências desse modelo.

Masetto (2003) afirma que, nesse processo, a organização curricular requer flexibilidade e constante atualização com a interdisciplinaridade e o estudo de temas transversais. Portanto, a contratação dos docentes deve exigir competência pedagógica, para que adotem a metodologia participativa de aula, ensejando uma aprendizagem significativa.6

E, principalmente, esse modelo exige um planejamento pedagógico completo e assertivo do docente da disciplina a lecionar.