A atividade de escuta terapêutica, no contexto da pandemia de coro-navírus, sendo uma ação on-line, em que o contato com o usuário do Canal Conta Comigo é limitado no espaço virtual, se demonstra complexa pela gravidade das situações abordadas. Assim, constituir uma equipe de supervisão, de suporte e apoio técnico, compôs a estratégia para qualificar o serviço prestado, criando-se, assim, um espaço para a escuta do cuidador. O profissional envolvido direta-mente na escuta, aquele que acolhe o sofrimento e outras vivências do período pandêmico, também se afeta de diversos modos com
essa experiência. Enfim, ao organizar essa ação de suporte e apoio, passou-se a discutir como operacionalizar a atividade de forma reso-lutiva e eficaz, com a fundamentação necessária à ação em curso.
Desse modo, revisando os conceitos de supervisão técnica na área de saúde mental, encontra-se, em Saraiva Nunes (2007), a afir-mação de que essa atividade é uma das mais reconhecidas formas de aprender e ensinar uma técnica ou uma profissão, em diferentes campos de atuação profissional. Por tratar-se de um conceito que se aplica de forma diferente a várias áreas, descreve-se, aqui, algumas formas de utilização da supervisão visando a enquadrar a atuação no contexto realizado pelo grupo.
A supervisão é conceituada como uma atitude de estímulo e apoio para que o sujeito-alvo da supervisão desenvolva suas próprias habilidades profissionais e a capacidade de perceber suas próprias dificuldades, por meio de um processo de autocrítica, de aprendi-zagem e de feedback sobre sua atuação, corrigindo e aperfeiçoando sua técnica e propondo novos rumos aos processos desencadeados (ZASLAVSKY; NUNES; EIZIRIK, 2003).
Na área de saúde mental, a supervisão torna-se consolidada especialmente na prática psicanalítica. Segundo Brauer (2001), a supervisão é parte do tripé básico da formação e da atuação profis-sional, juntamente com o processo analítico e a formação teórica.
A supervisão passa a constituir-se também como um referencial técnico importante para as áreas da medicina, psicologia e outras no campo da saúde.
Na área de ensino das ciências da saúde, a supervisão cons-titui-se como uma situação de aprendizagem e troca de saberes e experiências, em que se processa de forma concreta a experimen-tação e a operacionalização dos conteúdos teóricos adquiridos na formação profissional.
No período de formação acadêmica, as práticas de supervisão tornam-se comuns e estão no cotidiano e no currículo dos cursos de graduação em diferentes áreas da saúde. Segundo Silva Neto (2014), é durante a prática e através do trabalho supervisionado dos acadêmicos nas áreas da saúde que se desenvolvem as tarefas e observam-se as habilidades e competências profissionais, as quais envolvem as dimensões teóricas, metodológicas, éticas e políticas das diferentes ações em saúde.
Na área de saúde pública, a prática da supervisão está pre-vista como uma forma de sustentar o trabalho compartilhado entre vários campos de saber, de forma a garantir uma ação integrada e respeitosa entre os diferentes profissionais no enfrentamento de impasses institucionais que se revelam no cotidiano coletivo dos serviços de saúde.
As características da supervisão no âmbito da saúde pública no Brasil pressupõem que ela seja clínica e institucional, priorizando a integração da equipe de cuidado com o objetivo de construir projetos terapêuticos que articulem os conceitos que balizam a atenção em saúde de forma integral, equânime, com foco no sujeito, no trabalho em rede, na perspectiva de seu território de vida, garantindo direitos e autonomia (BRASIL, 2007).
Os supervisores no cenário da saúde pública podem ter dife-rentes formações teóricas e práticas, considerando que abordam questões que compreendem a saúde em sua integralidade. Exige-se, no entanto, uma postura que favoreça a articulação dos conhecimen-tos e das ações que, guardando as especificidades de cada espe-cialidade, sejam capazes de construir soluções coletivas para os problemas diários presentes nos serviços de saúde, sejam clínicos, técnicos, institucionais ou outros (SILVA et al., 2012).
Nessa perspectiva e entendendo a supervisão como uma ação complexa que está presente em diversos espaços nas áreas de edu-cação e saúde, desenvolveu-se, no projeto, essa atividade, tendo como principal foco a troca interpessoal, a orientação, a discussão e a aprendizagem conjunta, entre supervisores e supervisionados, com o propósito de desenvolvimento mútuo no aspecto educacional, pessoal e profissional, conforme as diretrizes apontadas por Fernan-des et al. (2015). Nesse cenário, todos os participantes se colocam em processo de construção e aprendizagem em uma proposta inovadora e pensada de forma a responder a uma demanda social e emergente, no contexto inesperado de uma pandemia mundial de grande impacto na saúde da população e na sociedade de modo geral.
Fizeram-se necessários também, por parte dos supervisores, a administração e o acolhimento das ansiedades despertadas nos profissionais a partir da escuta de sofrimentos, queixas, silêncios e ausências. Em muitos momentos, a ambivalência demonstrada pelas pessoas que buscaram ajuda em dar continuidade ao atendi-mento com interrupções de chamada, ausências ou cancelaatendi-mentos foram de alguma forma sentida pelos operadores. Esses vivenciaram preocupações, ansiedade e questionamentos sobre sua ação. Alguns aspectos denotaram a mobilização dos operadores frente às dificul-dades do usuário em dar continuidade, aprofundamento ou mesmo concluir sua busca por ajuda, foram presentes nas discussões de supervisão e demonstraram a importância de trabalhar com o cui-dado do cuicui-dador. Outro ponto que precisou de atenção foi o equilíbrio nas discussões de casos, para que todos tivessem espaço e acolhida das mais diferentes experiências vivenciadas nos atendimentos.
A proposta de supervisão construída no âmbito dessa expe-riência de escuta terapêutica se desenvolve a partir do Grupo de Pesquisa em Enfermagem, Saúde Mental e Saúde Coletiva CNPq em uma universidade pública, localizada na cidade de Pelotas/RS.
Desse modo, a proposta está marcada por seu objetivo educacional e amplia, entretanto, seu escopo para a área de atenção à saúde da população, em consonância com o compromisso da extensão universitária e da integração de uma instituição formadora com a realidade da saúde pública. Desse modo, a principal característica da supervisão proposta pressupõe a aprendizagem conjunta, a dis-cussão permanente de casos e das ações desenvolvidas, conforme os princípios da supervisão acadêmica com o foco nas situações de cuidados em saúde mental, agregando, assim, conceitos da super-visão clínica em saúde mental.