Esquema 4: macroestrutura do espaço semântico das relações interssentenciais
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.3. Processo de formação de uma TD e o advento da notícia
O surgimento do jornal está diretamente ligado aos hábitos de correspondência do passado. Durante os séculos XIV e XV, muitas cartas traziam uma rubrica que continha informações sobre a situação política e comercial do local de origem. Com o passar do tempo, a rubrica dá origem a uma carta inteira dedicada a essas informações e que é anexada à carta de conteúdo privado. Algo essencial para o processo de transformação do gênero que origina a notícia de jornal é a divulgação das notícias recebidas. Era comum divulgá-las entre amigos e familiares, uma honra recebê-las em primeira mão. Para alguns especialistas, como Steinhausen-Kassel (1928 apud CASTILHO DA COSTA, 2011), esse é um momento de transição da carta privada para o jornal, mas precisamos entender melhor como se deu essa transformação.
Os gêneros textuais são compostos por formas mais ou menos prototípicas. O conceito de prototipicidade, adotado da linguística cognitiva, admite que ―não existem formas sem variantes e de que todo modelo textual é composto por uma classe de variantes com aspectos formais semelhantes‖ (CASTILHO DA COSTA, 2011, p.38). Diacronicamente, a variedade prototípica pode mudar, sendo, com a passar do tempo, totalmente diferente da variedade dominante que lhe deu origem.
Segundo Koch (1997 apud CASTILHO DA COSTA, 2011), novas TD surgem como soluções por meio do ―afrouxamento‖ do já existente. Em outras palavras, uma TD nunca surge ex nihilo, mas, sim, a partir de modificações nos traços de outra TD já existente, como pode ser visto na figura 3:
Figura 3: variantes de gêneros textuais
Fonte: Koch (1997, p.60)
Essa afirmação implica que sempre algo anterior/tradicional é levado adiante enquanto que novos traços surgem. O processo de inovação em tradições culturais, assim como em TD, é comumente feito através da diferenciação de tradições. Wilhelm (1996 apud CASTILHO DA COSTA, 2011) apresenta um estudo no qual analisa a evolução textual dos panfletos, na Itália a partir de 1471, através do processo de diferenciação. Segundo o autor, apesar de serem inovadores, os panfletos se apoiam em TDs já existentes. A ―história‖ em oitava e o ―avviso‖ em prosa são percebidas do ponto de vista das TDs como uma mudança funcional da cantare (balada declamada de memória). A partir da impressão e comercialização, a história torna-se uma fonte de renda para os que cantavam as baladas. O aviso, por sua vez, surge da impressão de cartas de notícias escritas a mão. A figura 4 ilustra a influência de outras TD na composição do panfleto e a origem de notícia de jornal a partir do avviso:
Figura 4: tradições discursivas em panfletos italianos 1500-1550 (segundo Wilhelm 1996)
Fonte: Castilho da Costa (2011, p. 40)
Segundo Wilhelm (1996 apud CASTILHO DA COSTA, 2011), o gênero ―notícia de jornal‖ tem sua origem na impressão de cartas e de relatos enviados por correspondência ao jornal e, portanto, o gênero avviso pode ser considerado um pai da notícia.
No que se refere à sua linguagem, Wilhelm (1996, apud CASTILHO DA COSTA, 2011) relata críticas destinadas à mudança da norma a partir do surgimento de uma linguagem própria do jornalismo, afastando-se da linguagem literária, com estilo simples e caráter referencial. Desse modo, os panfletos italianos do século XVI passam a utilizar uma norma autônoma de gêneros textuais informativos, caracterizada por simplicidade, compreensibilidade, adequação ao público popular e ausência de ―enfeites‖ literários.
Tais características são recomendadas até hoje na escrita das notícias. Sobre o estilo, o manual de redação e estilo de O Globo recomenda ―fidelidade a três requisitos: exatidão (para não enganar o leitor), clareza (para que ele entenda o que lê) e concisão (para não desperdiçar nem o tempo dele nem o espaço do jornal).‖ (GARCIA, 2001, p. 19). Em termos mais linguísticos, o mesmo manual afirma que a frase ―deve ser curta.
[...] permitindo ao leitor assimilar uma ideia ou um fato de cada vez. Mais de uma frase intercalada no mesmo período dificulta o entendimento‖ (GARCIA, 2001, p.29). Na mesma direção vai o manual da redação da Folha de São Paulo. Segundo esse outro manual, é aconselhável evitar o excesso de ques, para tornar o texto mais elegante e a leitura mais ágil. ―Muitas vezes, é melhor usar ponto e dividir o período em dois.‖ (FOLHA DE S. PAULO, 2001, p. 96). De modo geral, os jornais presam por um estilo próximo da linguagem cotidiana, sem deixar de ser fiel à norma culta, com frases curtas e pouco incentivo às orações subordinadas.
Nos jornais paulistas do século XIX analisados por Castilho da Costa (2011), a pesquisadora constata o uso de ―técnicas linguísticas próprias da linguagem publicitária e da linguagem jornalística‖ que pode ter seguido os princípios dos panfletos italianos (CASTILHO DA COSTA, 2011, p. 246). Essa influência se dá, devido à ascensão do capitalismo europeu e ao desenvolvimento da imprensa e ampliação desse modelo para novos mercados.
Segundo Sodré (1999, p. 28), apenas países em que o capitalismo se desenvolveu, a imprensa também se desenvolveu. No Brasil, a ausência de capitalismo e burguesia, atrelada à censura administrativa e religiosa em uma país predominantemente analfabeto, auxiliou para que o Brasil não tivesse uma indústria tipográfica e jornalística consolidada antes do século XIX, diferentemente de outros países da América Latina (SODRÉ, 1999, p. 28). Somente em 1808, com a vinda da família real portuguesa e a abertura dos portos foi criado o primeiro jornal oficial, a Gazeta do Rio de Janeiro.
Ao analisar TDs em jornais paulistanos de 1854 a 1901, Castilho da Costa (2011) atenta para dois aspectos oriundos das cartas presentes no corpus: a organização segundo proveniência e segundo ordem de chegada das informações, dois princípios que, segundo a autora, orientam os jornais paulistas da 1ª metade do século XIX.
É possível dizer que até os dias atuais esses dois traços ainda guiam a publicação das notícias, principalmente nos jornais online:
Figura 5: plantão de notícias do Tribuna do Norte e do Agora RN
Fonte: Tribuna do Norte e Agora RN
Tanto no caso do Tribuna do Norte (à esquerda), quanto no caso do Agora RN (à direita), a seção de plantão fica na tela inicial e expõe as notícias por ordem de chegada, de modo que as últimas publicações aparecem no topo, reforçando o aspecto cronológico proveniente das cartas observado por Castilho da Costa (2011) nos jornais paulistanos. Quanto ao aspecto de proveniência, observa-se uma nova tendência: a catalogação das notícias online na maioria das vezes se dá por abas temáticas, das quais o leitor pode escolher seu ponto de interesse. A figura 6 ilustra melhor:
Figura 6: abas temáticas dos jornais
Embora os jornais utilizem nomenclaturas diferentes, todos apresentam uma aba com as notícias provenientes da própria cidade. No caso do Novo e do Portal no Ar temos a aba ―cotidiano‖, no Tribuna do Norte, a aba se chama ―natal‖; e no Agora RN, ―cidades‖.
Com exceção da própria cidade de Natal, todas as notícias provenientes de outras origens parecem ter que se encaixar em uma aba temática, sendo a localização da fonte muitas vezes explicitada dentro do próprio corpo da notícia.
Em uma perspectiva mais atual, o gênero textual notícia apresenta em sua macroestrutura, o lead e o corpo do texto (body). Nesse modelo, as informações mais relevantes são apresentadas no início e são detalhadas no texto (body). Esse tipo de construção textual foi adotado somente a partir de 1950 no Brasil (VIZEU & MAZZAROLO, 1999 apud CASTILHO DA COSTA, 2011).
No que se refere à linguagem jornalística presente nas notícias do corpus, constata-se o caráter altamente informativo, com adequação ao público e sem ―enfeites literários‖, contribuindo para a crença de que suas raízes se encontram inicialmente nos panfletos italianos, mas também nos grandes jornais de circulação nacional, como os analisados por Castilho da Costa (2011). Muitas notícias veiculadas pelos jornais do corpus são recortes de jornais maiores, como visto nas figuras 7 e 8:
Figura 7: notícia do Agora RN de 07 de janeiro de 2016
Figura 8: notícia do Folha de São Paulo de 07 de janeiro de 2016
Fonte: Folha de S. Paulo
Na figura 7 temos uma notícia do Agora RN de quatro parágrafos. Na figura 8 temos uma notícia da Folha de S. Paulo de oito parágrafos. O Agora RN não faz
referência a fontes externas e atribui sua publicação à ―redação‖, adicionando um subtítulo, característico desse jornal, recortado do terceiro parágrafo da publicação. Contudo, encerra a notícia sem publicar na íntegra a notícia da Folha de S. Paulo, que atribui sua fonte Marcelo Toledo.
Comportamento semelhante pode ser visto em outros jornais analisados. Vejamos um exemplo do Tribuna do Norte:
Figura 9: notícia do Tribuna do Norte de 15 de abril de 2016
Figura 10: notícia do Estadão de 14 de abril de 2016
Fonte: Estadão
Na figura 9, temos uma notícia do Tribuna do Norte extraída do Estadão (figura 10). Mais uma vez o jornal em questão não faz referência a fontes externas, retirando, inclusive, a referência geográfica a Brasília do início da notícia. Outra pequena mudança feita pelo jornal é a retirada do subtítulo e também do título do subtópico ―abaixo-assinado‖ em negrito, no quarto parágrafo.
Essas constatações, se por um lado contribuem para a crença de que os jornais do estado do Rio Grande do Norte são influenciados pelos jornais de grande circulação nacional, por outro evidenciam a falta de autonomia do jornal em relação a temas nacionais e de elevado conhecimento específico, como no caso do impeachment.
Na seção seguinte relacionamos a noção de TD à proposta de juntores de Raible (1992) e apresentamos a hipótese de que o modo como os juntores se distribuem em um texto pode ser sintomático para a descoberta de novas TD.