ALUNOS: Áurea Lúcia Siqueira Perrucho Mittaraquis Cleide Bispo Santos
3 REVISÃO DE LITERATURA
3.3 PROCESSO DE FORMAÇÃO DO ENFERMEIRO
Desde a antiguidade há a preocupação com o processo saúde-doença. Hipócrates, pai da medicina, dizia que a saúde dependia do perfeito equilíbrio entre corpo, mente e meio-ambiente. Com a chegada da Idade Média, a Igreja Católica, com os seus dogmas, começa a dominar o pensamento, a vida política, religiosa e a econômica da época com isso ela começa a colocar a culpa desse processo saúde-doença no próprio homem, como um castigo de Deus pelos pecados cometidos (TROVO; SILVA; LEÃO, 2003).
Na Era Moderna, começa o processo de Revolução Científica, marcado pelo grande desenvolvimento da ciência, e surge um novo paradigma que tenta explicar o processo saúde- doença, o paradigma mecanicista cartesiano, estabelecido pelo francês René Descartes, que favorece o modo de produção capitalista. Esse paradigma vê o homem como uma máquina em que à doença representa um defeito nesta “máquina humana” (ALVIM et al, 2006; TROVO; SILVA; LEÃO, 2003).
O paradigma cartesiano mostrou-se viável quando se constrói e se trata de objetos simples, o que permitiria uma perfeita integração entre ciência e técnica, isso que dizer, um modelo propício para atender as demanda da industrialização, nascente nesta época com advento da Revolução industrial“ (ALVIM et al; 2006; TROVO; SILVA; LEÃO, 2003).
Diante dessas transformações no mundo da ciência e economia e da necessidade de as indústrias aumentarem a sua eficácia/eficiência, surgem teóricos que propõem a fragmentação do trabalho como uma maneira de elevar a produtividade, surge nesta época as Teorias da administração de Taylor e Fayol. É diante deste processo que aflora as propostas de superespecialização e fragmentação do trabalho. A saúde não está desvinculada do contexto sócio-cultural da época e por essa razão adota essas propostas, sendo influenciada pela alopatia e pelo desenvolvimento cientifico (ALVIM et al, 2006; TROVO; SILVA; LEÃO, 2003).
Diante da hegemonia do modo de produção capitalista, a formação e a atuação profissional da área da saúde, desde o início do século XX, começam a centrar-se no modelo biomédico de assistência e na utilização de práticas alopáticas em detrimento da medicina tradicional (plantas medicinais) até então vigente, que em função disso começou a ser desvalorizada. É nessa época que começa a valorização social do saber e da atuação médica como cerne do processo saúde-doença (ALVIM et al, 2006).
Foi diante desse contexto que surgiu a Enfermagem como profissão nos moldes do sistema Nigthingaliano, em uma época em que o modelo biomédico estava ganhando contornos mais nítidos, e a eficiência da medicina encontrava respaldo no desenvolvimento tecnológico e na medicalização (ALVIM et al, 2006).
Essa situação encontra-se vigente até os dias atuais, embora, a partir do final da década de 70, começam a tornarem-se evidentes as inadequações desse modelo na área da saúde, e
consequentemente, as instituições de ensino, que trabalhavam com esse paradigma cartesiano, começaram a receber duras críticas.
Começa então a aflorar a necessidade de mudança de paradigma em que a assistência seja prestada levando em conta a integralidade do paciente, com esse objetivo, tem voltado à voga as terapias alternativas complementares como uma opção bem aceita no tratamento, cura e prevenção da saúde da população, e a proposta da interdisciplinaridade.
Esta última pode ser entendida como uma tentativa de superação da disciplinaridade, ou seja, uma integração das diversas áreas de especialização visando um objetivo em comum, a saúde do paciente, ou também como um diálogo que possibilite o enriquecimento das disciplinas em nível de método e perspectiva.
Foi nesse contexto que, um grupo de enfermeiras, em Sergipe, preocupadas com a alta taxa de mortalidade infantil, com o déficit de profissionais qualificados nos serviços de saúde e com a grande movimentação de estudantes para fora do estado para poder estudar, lançaram inicialmente uma proposta de criação de um curso de enfermagem na Universidade Federal de Sergipe. **
Várias discussões e movimentos nortearam a criação deste curso, até que em 23 de outubro de 1975, de acordo com a Resolução n.º 18/75 do Conselho Universitário da Universidade Federal de Sergipe foi criado o curso de Enfermagem , com implantação prevista para o primeiro semestre do ano seguinte. Em 07 de maio de 1979, mediante parecer 623/79, do Ministério da Educação e Cultura o curso teve o seu reconhecimento. ***
Como resultado do contexto socioeconômico e cultural em que o curso de Enfermagem foi criado em Sergipe, a nossa formação é voltada para um modelo “medicocentrado”, com a utilização de medicamentos alopáticos e equipamentos sofisticados além de uma assistência fragmentada.
Entretanto, apesar desse modelo de formação ter peso no nosso exercício profissional, a enfermagem vem a se preocupar com uma assistência integral para com o paciente e em função disso tem um olhar voltado para o holismo e para o emprego de práticas naturais no cuidado, a exemplo da fitoterapia.
Por outro lado, percebe-se que os estudantes acabam por incorporar gradualmente aspectos culturais da profissão escolhida (HELMAN, 1994). Dessa forma, a cultura da enfermagem forma-se no contexto do trabalho com base na concepção de mundo elaborada a partir da formação (NASCIMENTO, 2007). Por esse motivo, torna-se necessário incluir na formação aspectos referentes à assistência integral do individuo, ao passo que a mesma precisa estar presente no cotidiano profissional do enfermeiro.
Aliado a isso, as instituições formadoras têm perpetuado modelos essencialmente conservadores, dependente de procedimentos e equipamentos de apoio diagnóstico e terapêutico (FEUERWERKER, 2002; FEUERWERKER; LLANOS; ALMEIDA, 1999). Na enfermagem, esse fato justifica o entendimento do cuidado centrado nas bases fisiopatológicas, o que desconsidera aspectos sócio-culturais, determinantes no contexto de ter ou não saúde. O redirecionamento dessa prática se encontra ancorado no parágrafo único da Resolução CNE/CES Nº 3, de 07 de novembro de 2001 “Formação do enfermeiro deve atender as necessidades sociais da saúde, com ênfase no SUS e assegurar a integralidade da atenção e a qualidade e humanização do atendimento”.
As disciplinas ofertadas hoje para os estudantes de Enfermagem da UFS refletem essa linha biologicista, justificando o cuidado baseado na fisiopatologia. De certo modo, alguma referência é feita sobre questões sócio-culturais que podem influenciar no processo saúde-doença do indivíduo. No entanto, faz-se necessário uma maior aproximação dessas questões com o processo educativo, que poderia se tornar mais dinâmico caso se aproximasse da população, por meio do método da Educação Popular.
No entanto, a atual situação da formação do enfermeiro leva o profissional sentir a necessidade de se aprofundar sobre as práticas populares de promoção da saúde com o uso de ervas e se especializar para melhor atender sua clientela. Podemos através do conhecimento científico e especializado, formalizar o uso de plantas medicinais com segurança, higiene e com bons resultados (ROCHA SILVA; LIMA DA SILVA; ANDRADE, 2007).
Na atualidade, o enfermeiro encontra respaldo na Resolução 197/97 do COFEN para atuar nessa área de terapias alternativas de cuidado e o melhor é que é uma especialização reconhecida pelo conselho de enfermagem e que tem atuação em todo o país e não, apenas, em cidades isoladas como vem ocorrendo.
Neste clima de transformações, um novo currículo proposto para o curso de Enfermagem da UFS, ainda em processo de discussão e aprovação, inclui as disciplinas de Saúde coletiva I e II e de Educação em Saúde. Essas disciplinas abordariam temas como a integralidade na saúde, com enfoque principal no SUS e Educação popular em saúde. A sua implementação torna-se urgente visto que é de muita importância formar enfermeiros comprometidos com a qualidade da saúde pública e com uma visão política mais abrangente.
As dificuldades para que a educação no nível acadêmico dos profissionais de saúde caminhe nessa direção encontra-se em fatores como: a rotina dos docentes, suas experiências anteriores e sua formação, a tendência à privatização, fazendo com que os planos de formação profissional, com uma clara responsabilidade social, não consigam o apoio docente.
Diante do exposto, entendemos ser importante a integração dessas práticas de saúde, na formação em enfermagem, da UFS, por intermédio da educação popular, o que possibilita a aproximação entre a instituição e a comunidade permitindo o diálogo do saber científico com o popular.
Essa aproximação faria com que demandas sociais fossem evidenciadas, bem como propiciaria a disponibilização de bases científicas para aquelas práticas de saúde da população que permanecem independentes dos sistemas oficiais de saúde, de forma a constituir uma via de mão dupla entre a ciência e o conhecimento popular, o que favorece a formação de profissionais/cidadãos mais comprometidos com a realidade social.