4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
4.3 O PROCESSO DE IMPLEMENTAÇÃO DE UMA SEQUÊNCIA DE ENSINO
Antes de implementar a etapa de problematização inicial, é possível que o professor precise desconstruir alguns paradigmas e rever algumas posturas fortemente arraigadas na cultura profissional do ensino de Física. Aprender a problematizar é um passo crucial quando se pretende implementar uma abordagem investigativa em sala de aula. E não é uma tarefa fácil! A etapa de problematização tem uma importância fundamental no processo de implementação de uma sequência de ensino investigativa. A proposição do problema não é algo tão trivial, especialmente para um professor habituado a desenvolver listas de exercícios, que, na maioria das vezes, requerem apenas a aplicação de fórmulas.
Compartilhar o processo de construção desses saberes talvez seja útil não apenas para contextualizar o trabalho realizado no âmbito deste estudo, mas também para encorajar outros professores que porventura se interessem por esta abordagem didática.
Quando iniciamos o ano letivo de 2016, buscamos implementar inicialmente uma experiência piloto: uma SEI sobre a primeira lei da termodinâmica, aplicada a uma turma de segunda série do Ensino Médio. A sistematização das reflexões acerca dos resultados desta intervenção pedagógica se consolidou num trabalho apresentado no XXII Simpósio Nacional de Ensino de Física, que aconteceu entre os dias 23 e 27 de janeiro de 2017.8
Inicialmente, o pouco contato com o ensino por investigação, nos levou a elaborar um problema sobre energia interna que tinha o objetivo de levar os alunos a levantarem hipóteses e testá-las por meio do uso de um simulador computacional. Porém, do modo como foi proposto, o problema não passou de um enunciado fechado, que acabou por induzir os estudantes a buscarem a solução por meio da aplicação mecânica de formulações matemáticas e equações, exatamente como acontece em uma prática de ensino tradicional de ciências. O simulador sequer foi considerado pelos estudantes como uma ferramenta útil na busca de possíveis soluções.
Esta experiência foi, em princípio, frustrante e angustiante. A sensação de que seríamos incapazes de implementar uma sequência de ensino investigativa a partir da proposição de um problema instigante e motivador nos fez sentir a necessidade de aprofundar as leituras e reflexões teóricas.
Essa reflexão sobre o processo de problematização inicial e seu impacto nos objetivos da sequência didática suscitou uma reformulação do problema proposto para investigar a primeira lei da termodinâmica, de tal forma que o problema se
tornasse mais aberto e, consequentemente, mais desafiador para os alunos, gerando assim alguma discussão na turma.
Ao propor problemas com maior grau de abertura, proporcionamos uma participação mais ativa dos estudantes em sala de aula. Essa experiência oportunizou, sobretudo, a vivência de repensar a própria prática docente. Entendemos que a abertura dos enunciados fechados usualmente trabalhados em sala de aula, se constituiu um marco no processo de implementação do ensino de ciências por investigação por parte do professor/pesquisador.
Uma das características elencadas pelo ensino de ciências por investigação é proporcionar a participação ativa dos estudantes, por intermédio da mediação do professor (SÁ, LIMA e AGUIAR JR, 2011). Dessa forma ao analisarmos o processo de construção e implementação das SEI’s, convém destacar também as dificuldades enfrentadas pelo professor/pesquisador na condução das atividades, tendo em vista uma postura mais mediadora para com os estudantes. Dentre os desafios enfrentados podemos enumerar ainda: (i) dificuldades em desenvolver uma escuta atenta e sensível às ideias expressas nas respostas dos alunos; (ii) dificuldades por desconhecer as ideias trazidas pelos estudantes; (iii) angústia por não poder antever o que eles iriam apresentar como hipóteses de soluções para os possíveis problemas apresentados; (iv) dificuldades na condução das etapas de sistematização dos métodos utilizados pelos alunos durante a resolução do problema (“Como?”) e das explicações dos resultados alcançado (“Por quê?).
Os estudantes não estavam, em princípio familiarizados com a proposta de uma atividade investigativa, seja ela, experimental, não experimental ou demonstrativa (CARVALHO, 2013). Em diversos momentos isso representou um obstáculo à implementação das atividades, pois em várias situações eles quase que nos obrigavam a dar a solução do problema ou a resposta à pergunta que pretendia disparar um momento de discussão em círculos. Em diversas oportunidades também, eles insistiam para saber se a ideia deles estava correta. Nestes momentos
iniciais tínhamos a sensação de insegurança, por antever uma certa resistência dos alunos nas etapas seguintes.
As leituras e a reflexão contínua durante a implementação das SEI’s, foram nos oportunizando aprendizado e segurança na condução das etapas, procurando ouvir os alunos e questionando mais suas repostas, em vez de simplesmente dizer se elas estavam corretas ou não.
Nesta perspectiva, analisamos que o processo de implementação de uma sequência de ensino investigativa nos permitiu observar que nossos alunos passaram a se respeitam mais, ouvindo os demais colegas nos momentos de discussão e socialização. A experiência nos permitiu inferir que eles, quando em pequenos grupos tendem a ficar mais dispersos em virtude das conversas paralelas, demandando a mediação constante do professor para que permaneçam concentrados e motivados na solução dos problemas propostos.
Apesar das dificuldades iniciais encontradas, as atividades investigativas desenvolvidas, bem como o produto educacional produzido em nossa pesquisa, permitiram ao professor/pesquisador refletir sobre a sua postura pedagógica em sala de aula, buscando assumir-se mediador da aprendizagem, entendendo que, para isso ocorra de maneira efetiva, têm-se um longo caminho pela frente. Concordamos dessa maneira que as atividades seguintes nos permitirão adotar novas formas de ensinar, levando nossos alunos a perceberem também uma nova forma de aprender, cada vez mais dialógica e participativa.