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O PROCESSO DE INTERDIÇÃO APÓS O ESTATUTO DA PESSOA COM

Com a entrada em vigor do Código de Processo Civil, Lei 13.105 de 16 de março de 2016, com vigência a partir de 16 de março de 2016, o processo de interdição passou a ser regido pelos artigos 747 a 763 do referido Código, tendo-se revogado os artigos 1.768 a 1.773 do Código Civil, o que estabeleceu novas regras para a interdição.

Para mais, a Lei de Inclusão da Pessoa com Deficiência alterou o Código Civil, inclusive os artigos 1.768; 1.769; 1.771, 1.772; 1775-A e 1.777, que disciplinam a curatela e o processo de interdição, tendo revogado ainda os artigos 1.776, 1780 e os incisos II e IV do artigo 1.767 por trazem disposições contrárias àquelas previstas no Estatuto da Pessoa com Deficiência.

De início, importante ressaltar o aparente conflito existente na disciplina do artigo 1.768 que foi revogado pelo Código de Processo Civil e posteriormente modificado pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência, que em tese, alterou um artigo inexistente, diante da revogação trazida pelo Novel Processual. (BRASIL, 2018).

O Artigo 1.768 com a alteração trazida pelo Estatuto da Pessoa como Deficiência dispunha: O processo que define os termos da curatela deve ser promovido: I - pelos pais ou tutores; II - pelo cônjuge, ou por qualquer parente; III - pelo Ministério Público; IV - pela própria pessoa.

Contudo, a Lei 13.105/2015 revogou a referido artigo tornando necessário um verdadeiro exercício de hermenêutica dos intérpretes e aplicadores do direito a fim de solucionar a antinomia criada pela entrada em vigor do CPC.

De acordo com o artigo 2º, parágrafo primeiro da Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro, a lei posterior revoga a anterior quando expressamente o declare, quando for com ela incompatível ou quando regule inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior. (BRASIL, 2018).

Todavia, paragrafo seguinte do referido artigo traz uma exceção a regra geral, qual seja: “A lei nova, que estabeleça disposições gerais ou especiais a par das já existentes, não revoga nem modifica a lei anterior.” (BRASIL, 2018).

Assim, havendo uma antinomia jurídica aparente entre uma lei nova e uma lei especial, deve-se solucionar o conflito conforme os princípios doutrinários de validade normativa.

A este respeito, válido destacar os ensinamentos de Bobbio (2003, p. 17) que traz três critérios para verificar se uma norma é válida, são eles:

1) averiguar se a autoridade de quem ela emanou tinha o poder legítimo para emanar normas jurídicas, isto é, normas vinculantes naquele determinado ordenamento jurídico (esta investigação conduz inevitavelmente a remontar até a norma fundamental, que é o fundamento de validade de todas as normas de um determinado sistema); 2) averiguar se não foi ab-rogada, já que uma norma pode ter sido válida, no sentido de que foi emanada de um poder autorizado para isto, mas não quer dizer que ainda o seja, o que acontece quando uma outra norma sucessiva no tempo a tenha expressamente ab-rogado ou tenha regulado a mesma matéria; 3) averiguar se não é incompatível com outras normas do sistema (o que também se chama ab-rogação implícita), particularmente com uma norma hierarquicamente superior (uma lei constitucional é superior a uma lei ordinária em uma Constituição rígida) ou com uma norma posterior, visto que em todo ordenamento jurídico vigora o princípio de que duas normas incompatíveis não podem ser ambas válidas (assim como em um sistema científico duas proposições contraditórias não podem ser ambas verdadeiras). (grifo posto)

Neste contexto, válido lembrar que o Estatuto da Pessoa com Deficiência possui status constitucional, visto que advém da ratificação da Convenção Internacional sobre o Direito das Pessoas com Deficiência e o seu protocolo facultativo pelo Congresso Nacional.

na verdade, devem prevalecer as disposições previstas no Estatuto da Pessoa com Deficiência, já que ele é hierarquicamente superior ao Código de Processo Civil, visto que o regramento processual trata-se de norma infraconstitucional.

Por outro lado, Cristiano Chaves de Farias (2017, p. 1550) defende que a melhor interpretação é a que visa harmonizar os dois regramentos normativos, de modo que se deve retirar de cada lei aquilo que melhor se mostrar para a proteção avançada da pessoa com deficiência. No caso, mantem-se a possibilidade de autocuratela, bem como a legitimidade mais ampla do Ministério Público para a curatela.

A partir desta ideia, observou-se que é possível harmonizar as alterações trazidas tanto pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência quanto pelo Código de Processo Civil no que diz respeito aos artigos 1769, 1.771 e 1.772 do Código civil, de modo que para os referidos artigos é mais benéfico para aqueles que possuam alguma incapacidade que a antinomia seja resolvida pelo critério cronológico, valendo assim o disposto na codificação processual.

Todavia, em relação ao artigo 1768 do CC-2002 a melhor solução é a utilização do critério hierárquico para resolver o conflito trazido pelo CPC em relação ao EPD, valendo-se as alterações deste último, já que assegura uma maior variedade de legitimados para promover o processo de interdição, dentre eles o próprio interdito.

Assim, em relação ao artigo 1.7699 do Código Civil mantem-se a sua revogação, já que a sua disciplina normativa com as alterações do Estatuto da Pessoa com Deficiência foi contemplada pelo artigo 74810 do Código de Processo Civil, garantindo assim ao Ministério Público a legitimidade para promover a ação de interdição nos casos de doença mental grave se os legitimados previstos no artigo 74711 não o fizerem ou não existirem.

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Originalmente o artigo 1769 dispunha:

O Ministério Público só promoverá interdição: I - em caso de doença mental grave; II - se não existir ou não promover a interdição alguma das pessoas designadas nos incisos I e II do artigo antecedente; III - se, existindo, forem incapazes as pessoas mencionadas no inciso antecedente.

Contudo, o Estatuto da Pessoa com Deficiência alterou o presente artigo que passou possuir a seguinte redação: O Ministério Público somente promoverá o processo que define os termos da curatela: I - nos casos de deficiência mental ou intelectual; II - se não existir ou não promover a interdição alguma das pessoas designadas nos incisos I e II do artigo antecedente; III - se, existindo, forem menores ou incapazes as pessoas mencionadas no inciso II. (BRASIL, 2015).

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Art. 748. O Ministério Público só promoverá interdição em caso de doença mental grave:

I - se as pessoas designadas nos incisos I, II e III do art. 747 não existirem ou não promoverem a interdição; II - se, existindo, forem incapazes as pessoas mencionadas nos incisos I e II do art. 747.

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Art. 747. A interdição pode ser promovida: I - pelo cônjuge ou companheiro;

Em relação ao artigo 1.77112 do Código Civil, este foi substituído pelos artigos 75113 e 75314, sem prejuízo as alterações previstas na Lei de Inclusão da Pessoa com Deficiência, já que a entrevista ao interditando está disciplinada no artigo 751, enquanto que a perícia com equipe multidisciplinar esta normatizada no artigo 753, ambos do código de Processo Civil.

O mesmo ocorre com o artigo 1.77215 do código Civil, já que as alterações do Estatuto da Pessoa com Deficiência neste artigo foram preservadas e disciplinadas nos artigos 75516 e

III - pelo representante da entidade em que se encontra abrigado o interditando; IV - pelo Ministério Público.

Parágrafo único. A legitimidade deverá ser comprovada por documentação que acompanhe a petição inicial. (BRASIL, 2002).

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Art. 1.771. Antes de se pronunciar acerca dos termos da curatela, o juiz, que deverá ser assistido por equipe multidisciplinar, entrevistará pessoalmente o interditando. (BRASIL, 2002)

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Art. 751. O interditando será citado para, em dia designado, comparecer perante o juiz, que o entrevistará minuciosamente acerca de sua vida, negócios, bens, vontades, preferências e laços familiares e afetivos e sobre o que mais lhe parecer necessário para convencimento quanto à sua capacidade para praticar atos da vida civil, devendo ser reduzidas a termo as perguntas e respostas.

§ 1º Não podendo o interditando deslocar-se, o juiz o ouvirá no local onde estiver. § 2º A entrevista poderá ser acompanhada por especialista.

§ 3º Durante a entrevista, é assegurado o emprego de recursos tecnológicos capazes de permitir ou de auxiliar o interditando a expressar suas vontades e preferências e a responder às perguntas formuladas.

§ 4º A critério do juiz, poderá ser requisitada a oitiva de parentes e de pessoas próximas. (BRASIL, 2002)

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Art. 753. Decorrido o prazo previsto no art. 752, o juiz determinará a produção de prova pericial para avaliação da capacidade do interditando para praticar atos da vida civil.

§ 1º A perícia pode ser realizada por equipe composta por expertos com formação multidisciplinar.

§ 2º O laudo pericial indicará especificadamente, se for o caso, os atos para os quais haverá necessidade de curatela. (BRASIL, 2002)

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Art. 1.772. O juiz determinará, segundo as potencialidades da pessoa, os limites da curatela, circunscritos às restrições constantes do art. 1.782, e indicará curador. (BRASIL, 2002)

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Art. 755. Na sentença que decretar a interdição, o juiz:

I - nomeará curador, que poderá ser o requerente da interdição, e fixará os limites da curatela, segundo o estado e o desenvolvimento mental do interdito;

II - considerará as características pessoais do interdito, observando suas potencialidades, habilidades, vontades e preferências.

§ 1º A curatela deve ser atribuída a quem melhor possa atender aos interesses do curatelado.

§ 2º Havendo, ao tempo da interdição, pessoa incapaz sob a guarda e a responsabilidade do interdito, o juiz atribuirá a curatela a quem melhor puder atender aos interesses do interdito e do incapaz.

§ 3º A sentença de interdição será inscrita no registro de pessoas naturais e imediatamente publicada na rede mundial de computadores, no sítio do tribunal a que estiver vinculado o juízo e na plataforma de editais do Conselho Nacional de Justiça, onde permanecerá por 6 (seis) meses, na imprensa local, 1 (uma) vez, e no órgão oficial, por 3 (três) vezes, com intervalo de 10 (dez) dias, constando do edital os nomes do interdito e do curador, a causa da interdição, os limites da curatela e, não sendo total a interdição, os atos que o interdito poderá praticar autonomamente. (BRASIL, 2002)

75817 do Código de Processo Civil, ressaltando-se assim a necessidade de flexibilização da curatela, em conformidade com as mudanças trazidas pela Lei de Inclusão da Pessoa com Deficiência, em especial no que se refere à preservação da autonomia do curatelado.

A este respeito, Maurício Requião destaca que é fundamental ter em mente, ao se analisar as questões relativas à interdição e a curatela que, tão ou mais importante do que garantir ao sujeito a proteção patrimonial é fazê-lo no que diz respeito as questões existências, já que não se pode restringir a autonomia existencial do sujeito em beneficia da proteção de interesses patrimoniais, muitas vezes de terceiro.18

Por fim, no que se refere ao processo de interdição, o Código de Processo Civil revogou ainda o artigo 177319 do Código Civil, que foi substituído pelo artigo 1.012, §1º, inciso VI20 do referido novel processual.

Ademais, no que diz respeito à curatela, os artigos 1.776, 1780 e 1767, incisos II e IV do Código Civil, foram revogados pela Lei de Inclusão da Pessoa com Deficiência por ser incompatíveis com a referida Lei, em especial com os artigos 11, 84 e 85 do Estatuto.

Superada a questão acerca das revogações trazidas pelo Código de Processo Civil e pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência aos artigos do Código Civil que tratavam sobre o processo de interdição e sobre a curatela, destaca-se os principais aspectos do processo de interdição no que diz respeito ao papel do curador e a limitação da capacidade do curatelado.

Maurício Requião Sant‟Ana (2016, p. 150) define a interdição como o processo pelo qual se estabelece a curatela do incapaz.

Maria Helena Diniz (2018, p. 731) afirma que o processo de interdição visa a apurar os fatos que justificam a nomeação de curador, verificando, não só se é necessária a interdição e se ela aproveita ao arguido da incapacidade.

Fato é que o processo de interdição é a via judicial pela qual é atribuído a alguém poderes para representar uma pessoa que se encaixe na definição de incapaz, nos termos do artigo 4º do Código Civil.

Importante frisar que o artigo 1.676 do CC-2002 trazem as hipóteses de sujeição à curatela, que correspondem às teses de incapacidade.

Contudo, a interdição é instituto processual, não se confundindo com a curatela,

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Art. 758. O curador deverá buscar tratamento e apoio apropriados à conquista da autonomia pelo interdito. (BRASIL, 2002)

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Maurício Requião, p. 155, (BRASIL, 2002)

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Art. 1.773. A sentença que declara a interdição produz efeitos desde logo, embora sujeita a recurso. (BRASIL, 2002).

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Art. 1.012. A apelação terá efeito suspensivo.

§ 1º Além de outras hipóteses previstas em lei, começa a produzir efeitos imediatamente após a sua publicação a sentença que: (...) VI - decreta a interdição (BRASIL, 2002).

instituto de direito material definido como múnus público que visa a proteção do incapaz, sendo, portanto, institutos distintos.

Para Maria Helena Diniz (2018, p. 731) “a curatela é, salvo casos excepcionais, sempre deferida pelo juiz em processo de interdição que visa a apurar os dados que justifiquem a nomeação de curador, verificando, sempre tendo em vista os fins do instituto, não só se é necessária a interdição e se ela aproveitaria ao arguido da incapacidade, bem como a razão legal da curatela, ou seja, se o individuo é, ou não, incapaz de dirigir a sua pessoa e seu patrimônio”.

Célia Abreu (2015, p, 39) afirma que no processo de interdição, “o interditando será avaliado por profissionais, a fim de que se descubra a proporção da incapacidade, de modo que se defira a medida protetiva adequada ao futuro curatelado”.

Sant‟Ana (2016, p. 151) ressalta que a correta condução do processo de interdição é extremamente importante, já que é a partir da sua sentença que se determinará o limite da autonomia do interdito, isto significa que é no processo de interdição que se definirá qual grau de autonomia se manterá e qual será retirada do incapaz, no caso de procedência da ação.

Assim, tanto o artigo 1.767 quando o artigo 4º do Código civil trazem as mesmas hipóteses porque a curatela destina-se aos incapazes, diferindo da interdição que é o processo pelo qual se declara uma pessoa incapaz e traz como consequência a nomeação de curador.

Feita tal ressalva, destaca-se que a legitimidade para propor o processo de interdição encontra-se disciplinada no artigo 747 do Código de Processo Civil, bem como no artigo 1.768 do Código civil, não obstante a aparente revogação do mesmo pela codificação processual civil.

Destarte, estão legitimados para iniciar o processo de interdição os pais ou tutores, o cônjuge ou companheiro, qualquer parente, o representante da entidade em que se encontra abrigado o interditando e supletivamente, o Ministério Público, caso os antecessores não existam, sejam incapazes ou não queiram promover a interdição.

Ato contínuo deverá o autor, na petição inicial, especificar os fatos que demonstram a incapacidade do interditando para administrar seus bens e, se for o caso, para praticar atos da vida civil, bem como o momento em que a incapacidade se revelou, sendo necessário instruir a petição inicial com laudo médico que ateste a incapacidade, bem como documento que comprove a legitimidade para promover a ação de interdição, conforme os artigos 747, paragrafo único, 749 e 750 todos os código de processo civil.

Recebida a petição inicial, o juiz citará o interditando para comparecer em entrevista onde será averiguado minuciosamente a sua vida, negócios, bens, vontades, preferências e

laços familiares e afetivos e sobre o que mais o que parecer necessário para convencimento do juízo quanto à sua capacidade para praticar atos da vida civil, devendo ser reduzidas a termo as perguntas e respostas. Após a entrevista, começa a fluir o prazo de 15 dias para o interditando impugnar o pedido de declaração de sua incapacidade, conforme determinam os artigos 751 e 752 do CPC.

Destaque-se ainda que não é o interditando que deve fazer prova de que possui a autonomia para gerir sua vida e seus negócios, já que ele possuir autonomia é o padrão, conforme observa Sant‟Ana (2016, p.162) em consonância com o disposto no artigo 84 da Lei 13.146/2015.

Além da entrevista, é indispensável à realização de perícia por equipe multidisciplinar que deverá avaliar a capacidade do interditando para praticar atos da vida civil, devendo o laudo indicar especificadamente, se for o caso, os atos para os quais haverá necessidade de curatela, consoante o artigo 753 do CPC.

Assim, percebe-se que a fase de instrução dos processos de interdição visa produzir provas que possibilitem ao juízo, ao proferir a sentença, averiguar o grau de incapacidade do requerido, fixando os limites da curatela, segundo o estado de desenvolvimento mental do interdito, devendo, para tanto, considerar as características pessoais do mesmo, observando as suas potencialidades, vontades, preferencias e habilidades, atribuindo a curatela a quem melhor possa atender aos interesses do curatelado, como determina o artigo 755 do CPC.

A redação do artigo 755 do Código de Processo Civil relativiza o disposto no artigo 85 da Lei 13.146/2015, já que determina que o juiz fixe os limites da curatela, contrapondo-se ao já estabelecido limite do papel do curador à administração dos bens patrimoniais e negociais do curatelado pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência.

Aqui, não obstante a superioridade hierárquica da Lei de Inclusão da pessoa com Deficiência defende-se a aplicação e validade do artigo 755 do CPC, tendo em vista que para determinar o papel do curador, para além da administração dos bens patrimoniais do curatelado, ao juiz sopesará as circunstâncias reais e concretas que impossibilitam a autodeterminação ou expressão da vontade da pessoa com deficiência, sendo, portanto, mais humano do que a letra fria da lei, que estabelece de maneira uniforme a limitação do papel do curador às questões patrimoniais do curatelado, desprezando assim a hipótese de impossibilidade física por motivo de saúde, de se autodeterminar ou expressar a vontade e garantir por si mesmo a efetivação do principio da dignidade da pessoa humana.

O artigo 755 permite ao juízo, após analisar as circunstancias de fato, elaborar a sentença em conformidade com o princípio da igualdade, na medida em que tratará

desigualmente os desiguais na proporção das suas necessidades, que foram oportunamente expostas na entrevista e na elaboração do laudo pericial por equipe multidisciplinar.

Ainda no âmbito processual, cumpre destacar a inovação trazida pelo estatuto da Pessoa com Deficiência ao acrescer o artigo 1775-A ao Código Civil, trazendo a possibilidade de estabelecer a curatela compartilhada para a pessoa com deficiência, o que deverá ocorrer, preferencialmente, quando da prolação da sentença de interdição.

Glagliano e Pamplona Filho (2017, p. 1426) destacam que o referido dispositivo oficializará situações fáticas comuns, visto que, em muitas famílias, é comum mais de um parente dispensar, ao mesmo tempo, cuidado, atenção e auxilio em favor do beneficiário da curatela.

Por todo o exposto, verifica-se a incorporação das alterações trazidas pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência ao Código de Processo Civil de 2015, ressaltadas as antinomias aparentes, em especial o artigo 1.768, que continua vigente, existindo, por conseguinte, um esforço do legislador para alterar a regra, até então existente, de curatela total e indeterminada.

Ademais, registra-se o entendimento de Célia Abreu (2017, p. 37) ao afirmar que “a tendência será a curatela passar a figurar como medida excepcional, restrita para os casos de incapacidade civil e, ainda assim, devendo estar adequada e proporcional às nuances do caso concreto” entendimento que se coaduna com as alterações trazidas pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência.

Por fim, ressalta-se mais uma vez a diferença entre interdição e curatela, já que o primeiro trata-se de instituto processual que visa determinar o grau de incapacidade de uma pessoa, destacando-se que com a entrada em vigor o Estatuto da pessoa com deficiência, a capacidade passou a ser a regra, o que torna a incapacidade exceção, enquanto que a curatela é instituto protetivo que visa assegurar àqueles que possuem algum grau de incapacidade a efetivação dos seus direitos fundamentais, enfatizando-se ainda o compromisso do curador em buscar meios para garantir e autonomia do curatelado, nos ternos do artigo 758 do CPC.

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