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2. REVISÃO DA LITERATURA

2.6 Processo de projeto

Considerando o contexto em que este trabalho se inseriu fez-se pertinente discutir sobre a atividade de desenvolvimento de produtos, a fim de buscar um modelo teórico que mais se aproxime da realidade encontrada atualmente nas empresas e que melhor reflita as questões, processos, restrições e contradições encontradas na prática.

Há uma ampla literatura no campo da engenharia relacionada ao desenvolvimento de produto, com contribuições de diferentes disciplinas como marketing, administração, qualidade, dentre outras. E no campo das teorias de projeto na engenharia há uma convergência em focar a atividade do projetista, ainda que essas teorias se enquadrem em abordagens diferentes.

Pahl et al. (2005) se aproximam da psicologia cognitiva para desenvolverem uma metodologia de projeto. Para esses autores, a atividade fundamental no desenvolvimento de um produto está no processo de análise e síntese que passa por etapas de trabalho e de tomada de decisão na solução de tarefas.

Bucciarelli (1994) em seu livro Designing Engineers apresenta as discrepâncias entre a imagem ideal do projeto como um processo instrumental e a realidade do projeto como um processo social e historicamente situado, que é cheio de incertezas e ambiguidades. Segundo Bucciarelli (1994a) todo processo de projeto requer que os envolvidos estejam unidos para planejar, decidir, criticar e integrar seus esforços. Em uma tentativa de tornar racional o que a experiência mostra como um grande e ambíguo encadeamento de eventos.

Pugh (1991) apresenta um modelo de desenvolvimento de produto baseado na abordagem denominada Total Design. Segundo Greghi et al. (2010) o modelo proposto por Pugh se aproxima da psicologia social dos grupos e busca integrá-la com trabalhos nos campos do projeto em engenharia. A abordagem apresentada por Pugh (1991) traz uma representação para o processo de projeto que possibilita identificar as diferentes áreas atuantes, suas entregas específicas e parciais que se integram em um todo que representa o fluxo de projeto que pode ser aplicado a qualquer atividade de projetar.

A abordagem do Total Design (PUGH, 1991) contrapõe as visões parciais de processo de projeto focadas nos aspectos de engenharia, como: física e matemática aplicada. Pugh (1991) defende um modelo que engloba produto, processos, pessoas e organização, por meio da participação de diferentes disciplinas no processo de projeto. O essencial é que os

participantes do projeto devem ter habilidade de compreender como suas contribuições parciais se encaixam em toda cena.

Total Design pode ser definido como uma atividade sistemática necessária para

a identificação das necessidades do mercado e do usuário até a etapa de venda de um produto de sucesso que satisfaça a essas necessidades. Este modelo é composto de um núcleo central de atividades que são fundamentais a qualquer projeto independente do campo. Esse núcleo de projeto integra as necessidades de mercado e do usuário, as especificações do projeto do produto (PDS – product design specification), do conceito, dos detalhes de projeto, de manufatura e de vendas (figura 7) (PUGH, 1991).

Figura 7– Padrão de projeto (PUGH, 1991)

Fonte: Pugh (1991, p.6)

Todo projeto se inicia (ou deveria iniciar) de uma necessidade e a partir dela é formulada uma especificação do produto (PDS) a ser projetado. Uma vez definida a PDS, esta irá guiar todas as etapas, atuando como um manto entorno de todo núcleo de atividades controlando e definindo limites em todas atividades de projeto em etapas subsequentes (PUGH, 1991). Conforme figura 8.

mercado especificação Conceito do projeto Detalhes de projeto manufatura vendas iterações

Figura 8 – O padrão de design envolvido pela especificação do produto (PDS) (PUGH, 1991).

Fonte: Pugh (1991, p. 7).

Segundo Pugh (1991) o fluxo de projeto apresentado em seu modelo é por si mesmo iterativo. O que significa que os projetistas podem chegar à etapa de detalhamento do produto quando um novo conceito emerge e se mostra como uma solução altamente atrativa aos requisitos da PDS e aos prazos do projeto, desta forma, cabe aos projetistas voltarem à etapa de conceitual e reprojetar a solução. O fluxo do projeto, portanto, deve ser revertido em qualquer ponto da atividade de projetar e mesmo que isso traga inevitavelmente algumas repetições na atividade (figura 7).

A contribuição deste modelo é que ele permite assimilar diversas abordagens a uma teoria geral de projeto. Parte da atividade no âmbito dos negócios e absorve as questões relacionadas com o projeto de produto e a estratégia industrial, de forma a apontar a importância dos aspectos gerenciais e de gestão do processo de projeto com foco na atividade dos projetistas.

Para Bucciarelli (1994b) projetar é um processo social, os projetistas dentro de uma empresa podem ser chamados de membros de uma “subcultura” (BUCCIARELLI, 1994b, p.23), pois são pessoas envolvidas em um trabalho com um objetivo comum, que

mercado especificação Conceito do projeto Detalhes de projeto manufatura vendas Formulação da especificação

Projeto conceitual seguindo a especificação

Detalhes do projeto seguindo especificação

Projeto em completo equilíbrio com a especificação

compartilham de determinadas crenças e valores, utilizando uma linguagem própria e afinada com a especialidade da empresa e que ao mesmo tempo têm diferentes responsabilidades e interesses.

A atividade de projetar está relacionada a um complexo processo de tomada de decisão e planejamento. Os projetistas tomam decisões em vários momentos do projeto e para tanto precisam gerenciar um conjunto de informações de diferentes naturezas (técnica, temporal, financeira). E, realizam isso, diante de um grande número de limitações, como os prazos, custos, confidencialidade, informações de validade variável, etc. Portanto, projetistas são operadores que assumem um compromisso (ao desempenharem sua atividade) diante de uma série de constrangimentos impostos pelo processo de projeto. (GARRIGOU et al., 1995).

Por fim, é importante ressaltar que, independente do sistema a ser projetado (situação de trabalho ou produto), a atividade de conceber é um trabalho em grupo, que considera a diferenciação dos papéis e dos saberes de acordo com as especialidades de cada membro do grupo, ou atores da concepção. Tais atores devem se coordenar para que o resultado da concepção seja um sistema integrado e não somente uma justaposição de sistemas técnicos. Para que isso ocorra, a discordância entre os pontos de vista e entre as soluções propostas é parte deste processo (BÉGUIN, 2007b).