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O processo de recuperação judicial especial e o processo de recuperação extrajudicial, previstos na legislação falimentar (arts. 71 e 72; e arts. 161 a 167, LF, respectivamente) apresentam algumas particularidades em relação ao processo de recuperação judicial, como se passa a expor, segundo as explicações de Damian (2015) e da legislação falimentar (BRASIL, 2005).

O processo de recuperação especial é aplicável às microempresas e as empresas de pequeno porte, desde que afirmem sua intenção de fazê-lo na petição inicial. Nesse caso, o plano especial de recuperação judicial será apresentado no prazo improrrogável de 60 (sessenta) dias da publicação da decisão que deferir o processamento da recuperação judicial, sob pena de convolação em falência. Abrangerá todos os créditos existentes na data do pedido, ainda que não vencidos, excetuados os decorrentes de repasse de recursos oficiais; os créditos tributários; os adiantamentos de contrato de câmbio; e os créditos de: proprietário fiduciário de bens móveis ou imóveis, arrendador mercantil, proprietário ou promitente vendedor de imóvel cujos respectivos contratos contenham cláusula de irrevogabilidade ou irretratabilidade, inclusive em incorporações imobiliárias, proprietário em contrato de venda com reserva de domínio. Os credores não atingidos pelo plano especial não têm seus créditos habilitados nesse tipo de recuperação.

O plano preverá o parcelamento em até 36 (trinta e seis) parcelas mensais, iguais e sucessivas, acrescidas de juros equivalentes à taxa Sistema Especial de Liquidação e de Custódia - SELIC, podendo conter ainda a proposta de abatimento do valor das dívidas; e o pagamento da 1ª (primeira) parcela no prazo máximo de 180 (cento e oitenta) dias, contado da

distribuição do pedido de recuperação judicial. Ademais, o plano estabelecerá a necessidade de autorização do juiz, após ouvido o administrador judicial e o Comitê de Credores, para o devedor aumentar despesas ou contratar empregados. O pedido de recuperação judicial com base em plano especial não acarreta a suspensão do curso da prescrição nem das ações e execuções por créditos não abrangidos pelo plano. Caso o devedor opte pelo pedido de recuperação judicial com base no plano especial não será convocada assembleia geral de credores para deliberar sobre o plano, pois o juiz concede a recuperação judicial se atendidas as exigências legais. Entretanto, o juiz julgará improcedente o pedido e decretará a falência, se houver objeções de credores titulares de mais da metade dos créditos.

Por sua vez, a recuperação extrajudicial está prevista na legislação falimentar (arts. 161 a 167, LF) e consiste em uma proposta de negociação estabelecida entre o devedor e os credores. Contudo, o devedor não pode pedir a homologação do plano de recuperação extrajudicial, se estiver pendente pedido de recuperação judicial ou se houver obtido recuperação judicial ou homologação de outro plano de recuperação extrajudicial há menos de dois anos.

São admitidas as seguintes classes de credores no plano de recuperação extrajudicial: créditos com garantia real até o limite do valor do bem gravado; créditos com privilégio especial; créditos com privilégio geral; créditos quirografários; multas contratuais e penas pecuniárias por infração das leis penais ou administrativas, inclusive as multas tributárias; créditos subordinados. Por outro lado, não podem ser incluídos os créditos de natureza tributária, os créditos derivados da legislação do trabalho ou decorrentes de acidente de trabalho, assim como os adiantamentos de contrato de câmbio; e os créditos de: proprietário fiduciário de bens móveis ou imóveis, arrendador mercantil, proprietário ou promitente vendedor de imóvel cujos respectivos contratos contenham cláusula de irrevogabilidade ou irretratabilidade, inclusive em incorporações imobiliárias, proprietário em contrato de venda com reserva de domínio.

O plano extrajudicial não pode contemplar o pagamento antecipado de dívidas nem o tratamento desfavorável aos credores que a ele não estejam sujeitos. Ademais, pode abranger a totalidade de uma ou mais espécies/grupos de créditos admitidos, sujeito a semelhantes condições de pagamento, obrigando a todos a partir da homologação. Não serão considerados para fins de apuração desse percentual os credores não incluídos no plano de recuperação extrajudicial, os quais não terão seu valor/condições originais de pagamento alteradas.

Há dois tipos de plano de recuperação extrajudicial: o plano extrajudicial individualizado (art. 162, LF) e o plano extrajudicial por classes de credores. O plano individualizado é estrito à negociações com certos credores em particular, podendo ser levado

de modo facultativo à homologação judicial, pois nesse caso, houve anuência total do credor ou dos credores submetidos ao plano (100% de adesão). Por isso, se o devedor requerer a homologação em juízo do plano de recuperação extrajudicial com 100% de adesão, deverá juntar justificativa e o documento que contenha seus termos e condições, com as assinaturas dos credores que a ele aderiram. Nessa situação a homologação é facultativa. Por sua vez, o plano extrajudicial por classe de credores (art. 163, LF) requer a assinatura de credores que representam mais de 3/5 de todos os créditos de cada espécie por ele abrangidos. Nesse caso, a homologação obrigatória, para que os efeitos do plano se estendam aos credores que se opuseram às negociações.

O pedido de homologação não implica em suspensão de direitos, ações ou execuções, nem a impossibilidade do pedido de decretação de falência pelos credores não sujeitos ao plano de recuperação extrajudicial. Após a distribuição do pedido de homologação, os credores não podem desistir da adesão ao plano, salvo com a anuência expressa dos demais signatários. Para a homologação do plano, além dos documentos previstos para a recuperação judicial, o devedor deve juntar: exposição da situação patrimonial do devedor; demonstrações contábeis relativas ao último exercício social e as levantadas especialmente para instruir o pedido; e os documentos que comprovem os poderes dos subscritores para novar ou transigir, relação nominal completa dos credores, com a indicação do endereço de cada um, a natureza, a classificação e o valor atualizado do crédito, discriminando sua origem, o regime dos respectivos vencimentos e a indicação dos registros contábeis de cada transação pendente.

Recebido o pedido de homologação do plano de recuperação extrajudicial, o juiz ordena a publicação de edital no órgão oficial e em jornal de grande circulação nacional ou das localidades da sede e das filiais do devedor, convocando todos os credores do devedor para apresentação de suas impugnações, no prazo de trinta dias. No prazo do edital, o devedor deve comprovar o envio de carta a todos os credores sujeitos ao plano, domiciliados ou sediados no país, informando a distribuição do pedido, as condições do plano e prazo para impugnação. Decorrido o prazo legal, os autos são conclusos ao juiz para apreciação das impugnações e decisão em cinco dias, sobre o plano de recuperação extrajudicial, homologando-o por sentença se entender que não implica prática de atos com a intenção de prejudicar credores, e que não há outras irregularidades.

A sentença de homologação do plano de recuperação extrajudicial constitui título executivo judicial. Contudo, havendo prova de simulação de créditos ou vício de representação dos credores que subscreverem o plano, a homologação será indeferida. Da sentença cabe apelação sem efeito suspensivo. Se o plano não for homologado, o devedor pode apresentar

novo pedido de homologação. O plano de recuperação extrajudicial produz efeitos após sua homologação judicial.

4 ANÁLISE DAS PALESTRAS PROFERIDAS PELOS MINISTROS DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA NO EVENTO “VISÃO DO STJ SOBRE RECUPERAÇÃO JUDICIAL” REALIZADO EM 11/10/2019

Conforme discorrido nos capítulos anteriores, a Lei 11.101/2005 inovou no ordenamento jurídico brasileiro ao excluir o instituto da concordata e criar o instituto da recuperação de empresa, considerado como um instrumento importante para superar a crise econômico-financeira, promovendo a sua preservação no mercado e assegurando o cumprimento da sua função social (SANTOS, 2016). Para tanto, oferece a elas a oportunidade de operar enquanto negociam com os credores sem o risco de terem suas dívidas executadas. Todavia, mesmo com tal avanço, a realidade mostra que uma quantidade relevante de empresas ainda não consegue evitar a falência, demonstrando que a legislação ainda é insuficiente para atingir sua finalidade, isto é, garantir a preservação da empresa. Em pesquisas recentes, constatou-se que dentre os pedidos de recuperação judicial realizados entre os anos de 2010 e 2018 no Estado de São Paulo, cerca de 60% (sessenta por cento) das empresas não conseguiram sair da recuperação depois dos anos de monitoramento fixados por lei (CORRÊA, 2018). Outra pesquisa, realizada por empresas de consultoria e escritórios de advocacia do país observou que desde o advento da Lei de Falência e Recuperação Judicial até o ano de 2013, apenas 1% das empresas que pediu recuperação judicial saiu do processo recuperada, voltando a operar regularmente. No estudo, foram analisados 4 (quatro) mil pedidos judiciais de recuperação, sendo que apenas 23% tiveram seus planos de recuperação aprovados pelos credores, enquanto as demais se arrastavam no Judiciário sem definição final (GAZZONI, 2013).

Diante desse cenário, a Trevisan Escola de Negócios e o Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE) organizaram um evento com o Superior Tribunal de Justiça denominado: “Visão do STJ sobre temas societários e recuperação judicial”, em 11/10/2019, tendo como finalidade a compreensão, de forma aprofundada, do processo de recuperação de empresas, com o intuito de pensar em caminhos para aperfeiçoar os resultados. Na oportunidade, realizou-se a apresentação de projetos de leis que visam alterar a Lei falimentar, além da realização de debates que visam, por exemplo, ampliar o rol de empresas que atualmente não se encontram amparadas pela lei, como ocorre com os produtores rurais que não são inscritos na Junta Comercial, como se passa a explicar.

4.1 APRESENTAÇÃO DAS PALESTRAS PROFERIDAS PELOS MINISTROS DO