• Nenhum resultado encontrado

2.1. Processo de Trabalho

2.1.1 Processo de Trabalho em Saúde

Na saúde, o processo de trabalho sofreu influência das organizações produtivas hegemônicas da área industrial, como, por exemplo, o taylorismo, o uso intensivo de equipamentos de tecnologia de ponta e a terceirização de parte de seus trabalhadores (Pires, 1998). Possui pontos comuns aos processos desenvolvidos em outros setores, como a existência de uma direcionalidade técnica, que, como referido anteriormente, destina-se a cumprir uma determinada finalidade, com antevisão dos resultados e ser dependente dos instrumentos e da força de trabalho (Nogueira, 1995).

Porém, o trabalho em saúde possui várias especificidades. A primeira é sua inserção no setor terciário de produção em serviço. O setor de serviços ganhou expressão especialmente com a urbanização e a industrialização, sendo caracterizado pela produção de bens e serviços que possibilitam o funcionamento da sociedade. Há uma pluralidade de visões e interpretações sobre a conceituação e classificação das atividades de serviço, no entanto, para Meireles (2006),

É o entendimento de ser trabalho em processo, ou fluxo de trabalho, que permite tornar inteligíveis os atributos

reconhecidos pelos autores clássicos e contemporâneos nas atividades de serviço, como a intangibilidade, a simultaneidade e a inestocabilidade. [...] Sendo fluxo de trabalho os serviços apresentam também como atributo característico a interatividade [...] entre prestadores e usuários de serviço. [...] A natureza do fluxo revela ainda outro atributo dos serviços que é a irreversibilidade. [...] É possível interrompê-lo, mas não revertê-lo, [...] (Meireles, 2006, p.133).

O trabalho em serviços distingue-se dos demais processos produtivos por três características: fluxo, variedade e uso intensivo de recursos humanos. A característica fluxo reflete que o processo de trabalho é desencadeado por solicitação do usuário e se dá sob a forma de um fluxo de trabalho contínuo, nem sempre controlado e previsível, sendo a produção e o consumo instantâneos no tempo e no espaço. Esta característica não permite que o produto seja estocado porque ele é consumido simultaneamente à sua produção e, não sendo possível estocá-lo, torna-se difícil de ser mensurado. A variedade refere-se principalmente à diversidade de técnicas de produção considerando as inúmeras áreas de atuação neste setor. E a característica uso intensivo refere-se à presença intensiva dos recursos humanos, pois, apesar da crescente incorporação da tecnologia, através de máquinas e equipamentos, os trabalhadores continuam a representar o fator produtivo predominante no processo de prestação de serviço, porque se trata de uma atividade de natureza relacional e profundamente interativa (Meireles, 2006).

No início do século XXI, observa-se um maior desenvolvimento das relações de serviço, com aumento dos empregos de front-office, ou seja, daqueles que se relacionam diretamente com os clientes, havendo uma integração cada vez maior da relação entre produção e consumo, o que se aplica especialmente ao setor saúde. Isto traz como consequência uma tendência de superação da organização taylorista de produção nos serviços, porque coloca em discussão, seja o conteúdo, seja a divisão do trabalho, em que a relação concepção/execução perde o seu caráter unilateral, pois há necessidade de maior integração entre

os agentes e entre estes e os usuários, com uma ativa intervenção destes últimos (Lazzarato, Negri, 2001).

Entre outras especificidades do trabalho em saúde podem ser citadas: seu produto não se refere a um bem material, mas a uma determinada transformação em seres humanos, ou seja, um produto imaterial indissociável do processo que o produziu e que se consome ao mesmo tempo em que é executado. Trata-se, portanto, de um trabalho imaterial, mediado pela relação social e pela comunicação, uma atividade abstrata ligada à subjetividade (Lazzarato, Negri, 2001). Seu processo de trabalho é condicionado pelo estágio de conhecimento e percepção das necessidades, que se dá de acordo com as concepções e valores morais, éticos e ideológicos de seus agentes, pois envolve interpretação e decisão pessoal na aplicação do conhecimento científico; um processo de natureza coletiva e parcelar, em que vários profissionais procuram agir coerentemente, compartilhando saberes. Estes agentes desenvolvem processos de trabalho próprios e são valorizados diferentemente segundo os vários fazeres. Possui intensa inter- relação entre agentes e usuários, ou seja, o consumidor participa, faz parte e precisa contribuir com o processo de trabalho em saúde para que sua finalidade seja alcançada (Nogueira, 1995; Pires, 1998).

Também na saúde, o trabalho tem sempre uma finalidade para que se realize, a qual está ligada ao atendimento de determinadas necessidades, desde aquelas circunscritas ao corpo biológico até as de ordem social e subjetiva, assim “as necessidades humanas não só abrangem as dimensões física, psíquica, afetiva, sociocultural, mas também a dimensão política da vida” (Mandu, Almeida, 1999, p.57).

Segundo Mendes Gonçalves (1992), as necessidades são sempre conscientes, objetualizadas e sócio-históricas, e devem

estar presentes para a reprodução do homem em certo período e em certa sociedade. Estão ligadas, portanto, aos processos de reprodução social.

Visando a uma melhor compreensão do que seriam as necessidades de saúde, Cecílio (2001) sistematiza uma taxionomia em quatro grandes conjuntos. O primeiro diz respeito a se ter “boas condições de vida”, considerando que a maneira como se vive se “traduz” em diferentes necessidades de saúde. O segundo conjunto fala da necessidade de se ter acesso e se poder consumir toda tecnologia de saúde capaz de melhorar e prolongar a vida. O terceiro conjunto diz respeito à insubstituível criação de vínculos “(a) efetivos” entre cada usuário e uma equipe e/ou um profissional. E o quarto e último conjunto de necessidades de saúde refere-se à necessidade de cada pessoa ter graus crescentes de autonomia no seu modo de levar a vida.

As necessidades de saúde referidas acima devem ser compreendidas como um carecimento, e se manifestam na área da saúde em grande parte pela procura aos serviços. Ocorre, porém, que o modo como estão organizados os serviços passa a ser não somente uma resposta às necessidades, mas também um “contexto instaurador de novas necessidades”. Há desta forma uma conexão circular entre a organização da produção, a oferta e distribuição dos serviços e o consumo destes, um induzindo o outro (Schraiber, Mendes Gonçalves, 2000, p. 30). Isso nos leva a refletir em que medida no trabalho em saúde, um típico trabalho imaterial, produtor de subjetividades, não estamos ampliando o desejo/necessidade dos usuários mais pelo consumo de procedimentos (consultas, exames, medicamentos) e menos pela promoção da saúde, pela autonomia e autocuidado, pela criação de vínculos.

Em relação às tecnologias utilizadas nos processos de trabalho em saúde, Mendes Gonçalves (1994) formula os conceitos

fundamentais em seu trabalho “Tecnologia e organização social das práticas de saúde”, que serão utilizados como referência para aprofundamento deste aspecto, juntamente com as contribuições posteriores de Merhy (2003, 2007) sobre as tecnologias em saúde.

Antes de expor as contribuições de Mendes Gonçalves, vale explicitar que tecnologia, segundo o conceito clássico, refere-se ao “estudo dos procedimentos técnicos, naquilo que eles têm de geral e nas suas relações com o desenvolvimento da civilização” (Lalande, 1999, p.1.111). Porém, este conceito não é único, possui diferentes mediações e significados. O mais geral é seu sentido etimológico: tecnologia como o “logos” ou o tratado da técnica, estando englobadas a teoria, a ciência, a discussão da técnica (Pinto, 2005, apud Frigotto, 2006)1.

Mendes Gonçalves (1994) vai além desta definição ao apontar que os instrumentos ditos tecnológicos só ganham existência concreta no trabalho enquanto expressão das relações provisoriamente adequadas, estabelecidas entre os homens e os objetos sobre os quais trabalham. O autor defende a existência de uma dimensão não material da tecnologia, constituída pelo saber e por seus desdobramentos materiais e não materiais na produção de serviços de saúde. Compreende o saber como a mediação entre os resultados do processo de conhecimento (as ciências) e as determinações de todas as outras ordens advindas à prática de sua articulação social, ou seja, a forma como o fazer acontece na prática dos serviços. Para este autor, a tecnologia só “adquire sentido enquanto expressão conjunta das determinações internas e externas dos processos de trabalho” (p.126).

Desta forma, Mendes Gonçalves (1994, p.32) adota como concepção de tecnologia “o conjunto de saberes e instrumentos que

1

PINTO, A. V. O Conceito de Tecnologia.Rio de Janeiro: Editora Contraponto, 2005. v I e II..

expressa, nos processos de produção de serviços, a rede de relações sociais em que seus agentes articulam sua prática em uma totalidade social”. Esta abordagem leva-o à concepção de “saber operante”, tal como a clínica e a epidemiologia, que são saberes pautados no conhecimento científico, mas de caráter tecnológico pois fundamentam imediatamente a ação ou intervenção do profissional de saúde no trabalho.

No processo de trabalho em saúde, o trabalhador desempenha um papel de fundamental importância, pois sua história, suas habilidades, sua capacidade inventiva atuam no sentido de organizar o processo e de compor os saberes tecnológicos. Utilizando de sua capacidade de autogoverno, o trabalhador da saúde tem a possibilidade de, a partir de processos intersubjetivos, imprimir mudanças nos processos de trabalho (Merhy, 2002).

Partindo destas reflexões e utilizando-se do referencial da micropolítica do trabalho em saúde, Merhy (2002, 2007) amplia as contribuições teóricas sobre a organização tecnológica do trabalho estabelecidas por Mendes Gonçalves (1994), em especial retomando de Marx o conceito de trabalho morto e trabalho vivo e introduzindo uma tipologia de tecnologias em saúde: tecnologias leve, leve-dura e dura.

Os saberes sistematizados, os produtos ou resultados de trabalhos humanos anteriores, ao entrarem em novos processos de trabalho como meios de produção, constituem o trabalho morto. E são “chamados de trabalho morto neste processo porque, apesar de ser produto de um trabalho vivo, agora ele é incorporado como uma „cristalização‟ deste trabalho vivo” (Merhy, 2007, p.83). Por trabalho vivo é compreendido o trabalho em ato, a atividade produtiva e criativa do trabalhador.

O que faz com que o trabalho morto prevaleça sobre o trabalho vivo, ou vice-versa, é o “exercício do protagonismo/liberdade ou do protagonismo/reprodução que esteja ocorrendo no mundo geral da produção, tanto na conformação tecnológica dos atos produtivos quanto nos modos de atendê-los” (Merhy, 2002, p.46), e isso ocorre em todos os setores produtivos.

Porém, segundo este autor, o trabalho em saúde não pode ser totalmente capturado pela lógica do trabalho morto, pois as especificidades desse processo de trabalho referidas anteriormente (objeto de trabalho pouco estruturado, marcante processo relacional) comportam um grau significativo de autonomia na escolha do modo de produzir.

Assim, há nos processos de trabalho uma combinação de trabalho vivo e trabalho morto, simultaneamente. Este encontro no interior do processo de trabalho reflete certa correlação entre ambos, no núcleo tecnológico do cuidado. Esta correlação, isto é, a razão trabalho vivo/trabalho morto é chamada de composição técnica do trabalho (Merhy, Franco, 2003).

As tecnologias relacionais envolvidas no trabalho em saúde – produção de vínculo, acolhimento, autonomização, gestão como forma de governar processos – Merhy (2002) as denomina de tecnologias leves. Os saberes estruturados que operam o processo de trabalho em saúde – a clínica, a epidemiologia, o taylorismo, o fayolismo – de tecnologias leve-duras; e os equipamentos tecnológicos – máquinas, estruturas organizacionais – de tecnologias duras.

Merhy e Franco (2003) inferem que a composição técnica do trabalho quando favorável ao trabalho morto reflete um processo de trabalho mais dependente das tecnologias duras, voltado à produção de procedimentos. E quando, ao contrário, houver predominância do

trabalho vivo em ato, haverá uma produção do cuidado centrado no usuário, com predominância das tecnologias leves.

Dessa forma, no cotidiano dos serviços, os trabalhadores de saúde, da prestação direta da assistência e do cuidado e os que realizam a gerência desses serviços

[...] podem tanto reproduzir as necessidades de saúde e os modos como os serviços se organizam para atendê- las como buscar criar espaços de mudança em que se possam engendrar novas necessidades e suas correspondentes intervenções e modos de trabalhar e organizar os serviços de saúde, na perspectiva da integralidade e da intersubjetividade da saúde. Assim, embora a normatividade do trabalho sempre imponha um conjunto de constrangimentos e limites, os trabalhadores de saúde [...] não estão inevitavelmente fadados à configuração dominante do projeto e do processo de trabalho, mas podem imprimir-lhe mudanças, com base na sua atuação, que envolve tanto a dimensão tecnológica e técnica como a dimensão interativa e intersubjetiva do processo de trabalho (Peduzzi, 2007, p. 24).