Capítulo 2: A gênese do humor
2.7 Processo de triangulação
Holmes (2000, apud Attardo, 2012) define o humor como o conteúdo de enunciados que são identificados pelo analista a partir da identificação de pistas paralinguísticas, prosódicas e discursivas que os enunciadores pretendem que sejam divertidas. Existe, nesse contexto, a necessidade de considerar a intenção enunciativa e essa deve ser, segundo Holmes, percebida por pelo menos um interlocutor para que o humor seja validado.
A partir dos recursos referidos nas sessões anteriores, a identificação do humor passa, portanto, a ser possível a partir de um processo de triangulação, proposto por Attardo (2012). A triangulação é construída pela identificação e relação entre três referências representadas em vértices da figura triangular para compreensão do sentido de humor: (1) informações contextuais, (2) informações semânticas ou pragmáticas (contribuição da SSTH) e (3) pistas metalinguísticas (contribuição da GTVH). O processo de triangulação foi desenvolvido para permitir a identificação, em um dos vértices, da incongruência resultante de gatilho(s) que explicitam a quebra de expectativa identificada pelo interlocutor. O esquema da proposta da triangulação pode ser representado como a ilustração a seguir:
Informações contextuais (HOLMES, 2000)
Informações semânticas ou pragmáticas referentes à GTVH
(ATTARDO e RASKIN, 1991) Pistas metalinguísticas
(ATTARDO, 2012)
A figura do triângulo representa a ligação entre partes fundamentais das informações que articulam as relações cognitivas de compreensão do humor, reforçando sua dependência e também sua constituição como evolução de estudos anteriores.
A proposta do processo de triangulação para que seja possível esclarecer a construção do humor em textos é a escolha metodológica desta pesquisa, uma vez que reúne elementos do processo histórico evolutivo de teorias sobre o tema. Faz-se, portanto, necessário apresentar detalhes de cada um dos vértices que integram essa triangulação, o que é apresentado a seguir.
2.7.1 Informações contextuais
As informações contextuais englobam referências históricas, fatos, referências intertextuais e relações nominativas que levam o interlocutor a reconhecer pontos de aproximação entre os scripts envolvidos no texto com humor.
A análise dos contextos recebeu abordagens que os conceituavam como propriedades objetivas de situações sociais, culturais e políticas. No entanto, são considerados por van Dijk (2012) como “construtos dos participantes, ou definições subjetivas das situações internacionais ou comunicativas” (p. 34). Segundo o autor, são experiências únicas, modelos mentais e experiências que representam situações comunicativas construídos passo a passo das situações cotidianas. Esses modelos resultam em “esquemas de categorias compartilhadas, convencionais e dotadas de uma base cultural, que facultam uma interpretação rápida de eventos comunicativos únicos em curso” (p. 35). Assim, os contextos têm, segundo van Dijk (2012), o poder de controlar a produção e a compreensão de discursos, sendo uma importante ferramenta intersubjetiva para a comunicação.
Pela perspectiva sociocognitiva de van Dijk (2012), a intertextualidade é “condição importante para que o discurso seja significativo e apropriado. A relação intertextual mostra-se fundamental para compreender a relevância dos contextos na composição do humor, uma vez que textos anteriores servem como inspiração para criações seguintes, como as do Sensacionalista, criações essas compostas por novos recursos e informações (verosímeis ou não) que integram o processo de construção do humor. Em sua obra, esse autor define os contextos como
Construtos dinâmicos dos participantes (por exemplo, modelos mentais) que vão sendo sucessivamente formados, ativados, atualizados e
desativados pelos usuários da língua (...). Se os contextos são dinâmicos, eles precisam sê-lo porque os usuários da língua fazem alguma coisa estrategicamente, quer com suas ações quer com seus “pensamentos”.
(van Dijk, 2012, p. 74)
No caso das publicações do Sensacionalista, há articulação entre as notícias do cenário político brasileiro e seus personagens, referências a elementos culturais e comportamentais da sociedade brasileira, relações entre fatos noticiados no Brasil e em outros países envolvendo também personagens políticos, menção de diferentes variações e usos da Língua Portuguesa, caracterização de personagens do cenário político e midiático, além de referências a elementos do contexto artístico como letras de canções, provérbios. Esses tópicos contextuais circunstanciam os textos de humor no âmbito cultural em que estão inseridos e são extremamente relevantes, uma vez que os traços composicionais do humor têm laços fortes com questões culturais que envolvem indivíduos em uma mesma situação discursiva.
Sobre essa relação entre o humor e a cultura, Possenti (2013) ressalta essa condição inerente ao afirmar que “o humor é cultural, mas o é apenas no sentido de que tudo o é.” (p. 139). Em sua obra, Possenti (2013) relaciona a subjetividade das informações contextuais e suas relações cognitivas ao riso, ao apontar que
Os textos humorísticos como outros textos, exploram certos fatos e outros textos, próximos e distantes, e seguem outros procedimentos característicos desse gênero (criam surpresas, mudam de direção etc.) como o fazem também outros gêneros em relação a seus procedimentos característicos.
O que nos faz pensar que o humor é cultural, ou mais dependente de fatores culturais do que outros fenômenos – textuais ou não - é, mas frequentemente, o desconhecimento dos dados e talvez, o fato de que, no caso do humor, há uma manifestação clara de seu funcionamento, o riso.
Quando ele não ocorre, atribuímos esse fato a uma diferença de cultura.
Mas pode ocorrer que confundamos o que é apenas uma manifestação mais ou menos lateral com aquilo que seria uma característica definidora de um conjunto heterogêneo de textos (comédias, piadas, charges) ou, talvez mesmo, de um tipo de discurso. (p. 146)
Possenti (2013), em seguida, apoia sua análise dos chistes e do humor por aspectos culturais, os quais configuram, segundo ele, memórias e conhecimento. Assim, conclui que
o discurso humorístico, nos diversos gêneros textuais em que se materializa, faz apelo a um saber, a uma memória - mas não necessariamente a uma cultura específica. E o que faz um texto “falhar” é fundamentalmente a ausência dessa memória ou desse saber (exceto quando o que falha é um jogo ou uma associação verbal). (p. 148)
Possenti (2013) faz também uma referência à publicação de Freud (1969 [1905]), em que se avalia o riso como um mecanismo de prazer de um indivíduo diante do humor, o que não está relacionado ao objetivo desta pesquisa diretamente, mas não deixa de compor a proposta da triangulação de Attardo (2012).
2.7.2 Informações semânticas ou pragmáticas
As informações semânticas ou pragmáticas que integram o segundo vértice do triângulo no qual pauta-se a análise do humor nesta pesquisa deve ser compreendida a partir da relação feita entre o Princípio da Cooperação de Grice e as quatro máximas já mencionadas anteriormente nesta pesquisa: Quantidade, Qualidade, Relação e Modo.
Attardo (2017) relaciona as máximas de Grice com as instâncias do Princípio de Cooperação, afirmando ser “logicamente impossível entretanto violar uma máxima sem não violar o Princípio de Cooperação” 9(p.176). O autor apresenta a ideia de que as máximas e o Princípio de Cooperação originam implicaturas, assim como a não-observação de alguns fenômenos textuais. Seria, para ele, essa não-observação o que se tratou até então como violação, porque “Grice simplesmente usa ‘violação’ com o mesmo sentido de não-observação”10 (p. 178). A não-observação de um evento é relacionada por Attardo ao que Thomas (1995) denomina, dentre outras condições11, “violating, ou a violação de um dos princípios de Grice
Em certos contextos, as máximas, segundo Thomas (1995), podem ser suspensas (e não violadas):
há ocasiões em que não é necessário abandonar a observação das Máximas porque há certos eventos nos quais não há expectativas por parte de qualquer um dos participantes que devam cumprí-las (portanto, o não cumprimento não gera nenhuma implicatura). (Thomas, 1995, p. 76, apud Attardo, 2017)
Fica evidente, portanto, que, para Attardo (2017), a ideia de suspensão seria um obstáculo para a realização do humor, o qual resulta da incongruência de expectativas, uma vez que, se elas forem suspensas, a incongruência deixaria de existir.
9Tradução livre de “logically impossible therefore to violate a maxim while not violating the CP”
(p. 176).
10Tradução livre de “Grice is simply using ‘violation’ in the sense of non-observance” (p. 178).
11Thomas (1995) indica como condições, além da ideia de violação, o que se pode traduzir como:
zombaria, desprezo, infração e suspensão. Entretanto, tais conceitos não estão adequadamente alinhados ao foco desta pesquisa.
Attardo (2017) então reforça que Grice aponta para a explicitude dos escárnios, ao passo que entende as violações como recursos implícitos, o que vincula a compreensão desses elementos implícitos ao conhecimento mútuo das partes envolvidas no processo de comunicação para que uma das partes identifique a violação. Tal implicitude e compreensão mútua ainda corresponde à realização da violação já mencionada, mas gera uma situação em que essa não é evidenciada, declarada ou demonstrada explicitamente.
Há um contexto responsivo em que a intenção comunicativa ocorre no plano implícito do discurso e é essencial para que se compreenda o humor.
No mesmo âmbito de análise do humor e dos aspectos pragmáticos, Attardo (2017) retoma Raskin (1985), em que o humor é considerado oposto à ideia de mentira, por meio dos conceitos de “bona-fide” e “non-bona-fide” já mencionados anteriormente. Para esse autor, para que o humor ocorra, deve haver disposição e engajamento de todas as partes envolvidas na interlocução, tornando essencial que haja cooperação para a realização do humor e, com isso, apresentando a oposição genuína entre esse e a mentira, para a qual não se pressupõe a cooperação entre as partes. Raskin concluiu que todas as circunstânicas em que ocorre comunicação, exceto a mentira, deveriam ser consideradas
“bona-fide”. Seria inadequado enquadrar o humor em uma discussão entre o que é verdade e o que é mentira, uma vez que ele não tem por objetivo informar fatos.
As discussões sobre o humor foram direcionadas para as tentativas de negar o fato de que textos com humor e piadas são construídos para levar o ouvinte ou o leitor a acreditar em algo, somente para que essa interpretação seja alterada no momento certo.
2.7.3 Pistas metalinguísticas
O terceiro vértice da proposta de triangulação corresponde à análise de aspectos textuais que constituem os gatilhos das incongruências que o texto apresenta ao leitor e resultam no humor. É nesse âmbito de análise que esta pesquisa está pautada, uma vez que a Análise do discurso oferece ferramentas para que os recursos textuais sejam observados como chaves cognitivas dos sentidos do texto.
A metalinguagem é considerada um recurso expressivo em que a própria linguagem é usada como tema e conteúdo do que está em um texto, ocorre em situações em que algo trata de si mesmo. A origem do termo está em contribuições de Roman Jakobson, o qual definiu as seis funções da linguagem (conativa, emotiva, poética, fática, referencial e metalinguística), dentre as quais a metalinguística apresenta um discurso com foco em aspectos lexicais do idioma.
A função metalinguística de Jakobson aponta a situação em que o texto construído com palavras tem como foco as próprias palavras, ou o texto trata do próprio texto. Todavia, ao analisar o humor, pode-se estender esse conceito de função à ideia de metadiscursividade para relacionar o âmbito discursivo à expressão de informações por meio do humor. Tal contexto permite compreender o fato de o jornal Sensacionalista, autodenominado “isento de verdade”, apresentar notícias que, por não noticiarem fatos relacionados ao que se entende por verdade genuína, não poderiam ser caracterizados como tal. Pode-se considerar a existência do Sensacionalista como uma incoerência existencial, uma ambiguidade essencial e uma incongruência original e esse já é um indício do humor que resulta em todos os planos discursivos.
É nesse contexto que os aspectos textuais da composição do humor devem ser considerados como foco desta pesquisa, uma vez que eventos linguísticos como uso de ambiguidades, jogo de sentido, implícitos, quebras sintáticas marcadas (ou não) por pontuação, e uso de modalizadores são alguns exemplos de recursos textuais presentes em textos que apresentam humor.
Esses recursos textuais serão apresentados mais adiante, uma vez que a análise do humor nos textos do Sensacionalista foi direcionada a essa metodologia pelo alinhamento à Análise do Discurso.