• Nenhum resultado encontrado

4.2 ASPECTOS GERAIS DA FERRAMENTA

4.2.1 Processo de decisão dos profissionais

profissional relatou suas atividades com foco no paciente, da escolha e aplicação de um tratamento, de acordo com um diagnóstico prévio. Assim, foi possível construir o processo de decisão do HCDM. De maneira geral, observou-se nas falas dos oncologistas a atuação no diagnóstico e tratamento dos pacientes, que pode ocorrer por um encaminhamento de um caso, ou do cirurgião ou de um clínico, desde estágios mais iniciais até estágios mais avançados.

De maneira complementar, os oncologistas destacaram que no HCMD, apesar de serem habilitados para atuar no diagnóstico e tratamento, atuam mais no tratamento, porque os pacientes chegam já com diagnóstico e às vezes até já com parte do tratamento, por meio de encaminhamentos. Nesses casos que os SE, primeiros sistemas de apoio e tomada de decisão na saúde atuavam (LOPES et al., 2009). Uma parte do processo citada por todos os oncologistas foi que normalmente o paciente que chega no oncologista já tem diagnóstico de câncer e a equipe se dedica mais ao planejamento e acompanhamento do tratamento, de recidivas e do acompanhamento clínico. “A gente não se dedica tanto ainda ao diagnóstico e também não tanto ao acompanhamento” (ONC4). “Ainda acho que a oncologia se dedica mais ao tratamento mesmo” (ONC5).

Destacados pelos oncologistas, os fatores externos do paciente, ou de ambiente, são fundamentais para tomar uma decisão em relação a um caso de câncer, elementos que estão “[...] na maneira com que o paciente se comunica contigo, no que o paciente te diz, se o paciente chora ou não, se ele vem sozinho ou não , no que o paciente fez em relação a informações prévias que ele recebeu” ONC5. “Todas essas coisas que se consegue em 10, 15 minutos, quando está conversando com ele” ONC1. A computação cognitiva é capaz de processar dados estruturados até dados não estruturados, em forma de texto, imagens, voz, sensores e vídeo (KUMAR, 2017), ou seja, o Watson for Oncology como uma ferramenta cognitiva, deveria ser capaz também e processar e considerar essas informações que o paciente carrega.

Para definir um tratamento, os oncologistas relatam que consideram as informações de ambiente/contexto dos pacientes. A importância dessas informações ficou evidente na descrição do processo de um tratamento: ver o paciente, examinar o paciente, revisar o que ele tem de histórico, de prévia, os exames que ele tem, avaliar se esses exames tem que ser renovados ou não, se vai ter que fazer outros exames além dos que o paciente tem. Com todas as informações disponíveis, eles pensam nas alternativas: “[...] a gente tem pacientes que tem uma série de problemas de saúde, que chegam muito fragilizados, então isso já está sendo monitorado pra ver qual é o impacto dessas recomendações” ONC2. “O Watson não recebe nada dessas informações e não valoriza nada dessas informações” ONC5. “Mas eu uso essas informações e aplico na situação do paciente” (ONC1).

Os oncologistas também reconhecem que o processo de decisão com o Watson for Oncology fica mais rápido, o que confirma a ideia de que com o avanço da tecnologia, estágios do processo de decisão são automatizados para ficarem mais rápidos (STAIR; REYNOLDS, 2011; LAUDON; LAUDON, 2015). Uma das coisas que agiliza o processo de decisão no Watson for Oncology é que ele não pergunta informações que não vão ser úteis, então não perde tempo com uma coisa que não vai impactar no tratamento, segundo o ONC2 “a mesma coisa a gente pode pensar na vida real: será que o médico precisa pedir o exame Y que ele pediu e que não vai servir pra nada?”. Sistemas cognitivos podem solicitar dados adicionais para melhorar a confiança nas decisões (HURWITZ; KAUFMAN; BOWLES, 2015), conforme destacado no processo do Watson for Oncology, que ele “não deixa avançar para uma tomada de decisão sem que as informações relevantes e acessórias para o tratamento sejam inseridas no sistema” (ONC2).

Em outra linha, o ONC3 destacou o que pode ser entendido como uma fragilidade ou segurança do Watson for Oncology, que o sistema só apresenta alternativas de tratamento com evidências sólidas, “[...] a gente viu que na verdade o Watson ajuda pouco a decidir porque nessas situações que ele está com as informações de MBE para decidir, são as que a gente tem menos problema, porque se tu tá atualizado, tu também já interpretou isso [...]”.

Já a equipe multidisciplinar revelou que o processo deles é todo a partir do ambulatório de oncologia com todos os pacientes de quimioterapia e radioterapia, a partir do tratamento definido pelos oncologistas, com quem mantem um contato constante, o que pôde ser observado nos dias da coleta de dados no HCMD (OBSERVAÇÃO NÃO PARTICIPANTE – SEC, NUT, PSI, ENF, TENF, FAR). Além disso, elas destacaram o trato humanizado com os pacientes, que segundo elas, é uma marca do Sistema de Saúde Mãe de Deus. Na análise a seguir são detalhadas as funções específicas de cada entrevistada da equipe multidisciplinar. A ENF e a TENF revelaram que, além do tratamento em si, elas precisam empregar no trato com os pacientes um atendimento humanizado, pois tem impacto no tratamento: “[...] ter empatia com o paciente, isso a gente sabe que influencia no tratamento do paciente”.

Além disso, a ENF destacou nas suas atividades a importância da “educação” dos pacientes, no sentido de repassar todas as informações para que ele possa cumprir com as suas responsabilidades no tratamento: “a educação desse paciente, o que vai acontecer durante o tratamento, os principais efeitos colaterais, os cuidados que ele tem que ter em casa, os principais sinais de alerta que ele tem que comunicar, que ele tem que procurar uma emergência e fica disponível sempre para ele”. Ainda, como parte do processo, a ENF destacou mais

algumas atribuições da sua função: “[...] toda assistência durante aplicação da quimioterapia, toda avaliação da rede venosa, punciona, avalia se a necessidade de colocar um cateter ou não e acompanha ele durante todo o período que ele fica aqui, atende às intercorrências que acontecem”. E também, a ENF destaca que trabalha a partir da definição do tratamento do paciente, passando orientações, porque cada medicação tem um efeito colateral. A TENF complementou que auxilia as atividades das enfermeiras.

No processo da FAR, ela destaca que faz a manipulação de quimioterápicos, de imunobiológicos, imunoterapia, gestão de estoque, questões administrativas do setor, atendimento e assistência farmacêutica ao paciente. Ela prepara o tratamento para a equipe de enfermagem aplicar: “[...] nosso foco é mais produção, então é a manipulação, é o preparo do tratamento do paciente, a gente avalia o protocolo para ver se está com as doses corretas, se está de acordo com a superfície corpórea do paciente”. Ela ainda complementa que recebe a prescrição eletrônica dos oncologistas e faz buscas de interação medicamental.

A NUT em sua entrevista ressaltou que é feita uma avaliação para ver se o paciente tem risco nutricional ou não. Também é realizado acompanhamento e são passadas orientações para questão de sintomas, realiza contato com os médicos quando necessário quando constata que o paciente tem muito risco. Todos os pacientes são avaliados, os que vão iniciar o tratamento, aqueles que estão em tratamento, até finalizar o tratamento e não apresentar mais nenhum risco nutricional: “depois que finaliza o tratamento e não apresenta mais nenhum risco nutricional, a gente encaminha para um colega da área, para poder fazer acompanhamento, mas depois que ele já não tem risco nutricional”.

Na entrevista da PSI ela comenta que acompanha todo e qualquer paciente que esteja em tratamento quimioterápico ou de radioterapia, principalmente analisar a demanda emocional que tem a partir do diagnóstico e da vivência da patologia e de todas as limitações, as mudanças corporais, de identidade, perda do cabelo, entre outros fatores que impactam no tratamento de um paciente. Na entrevista da SEC, que é responsável pelo encaminho dos pacientes e outras funções burocráticas, fica evidente o diferencial citado pela ENF e a TENF, o da humanização no processo de tratamento, pela fragilidade que esses pacientes geralmente apresentam: “[...] um tratamento humanizado, as pessoas chegam aqui e nós tratamos como se fossem pessoas próximas, a gente tenta passar todo esse carinho para o paciente, que a gente sabe que está chegando aqui debilitado, a gente procura ter carinho e atenção com eles”. Ela ainda destaca que o apoio da equipe multidisciplinar é um complemento do tratamento, oferecido gratuitamente para o paciente. Todo processo descrito acima, com o foco no paciente, com a participação de cada profissional, está ilustrado na Figura 24.

Figura 24 – Processo de decisão dos profissionais entrevistados

Fonte: elaborado pelo autor (2019).

Observou-se que no processo descrito pelos oncologistas, o Watson for Oncology passou a fazer parte do processo de tratamento, ele passou a ser um integrante acessório aos oncologistas, uma espécie de segunda opinião (OBSERVAÇÃO NÃO PARTICIPANTE – ONC1, ONC2, ONC3, ONC4, ONC5). Esse é o objetivo de ferramentas cognitivas como o Watson for Oncology, atuar no apoio aos especialistas e trabalhar coletivamente como um “amigo” de pensamento cognitivo avançado/desenvolvido (HURWITZ; KAUFMAN; BOWLES, 2015). Na seção a seguir (4.2.2), os entrevistados relataram sobre o seu envolvimento com tecnologias.