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9. DIREITOS HUMANOS: O PROCESSO, OS DELITOS E AS PENAS

9.1. O processo

Passa-se, neste momento, a examinar o processo inquisitorial fazendo-se um paralelo com os mais importantes princípios processuais penais modernos, para que se tenha uma noção da arbitrariedade do processo penal do Santo Ofício, bem como sua qualificação como tribunal de exceção, instituto patentemente execrado pelo atual Estado Democrático de Direito que predomina nos países ocidentais.

Inicialmente, já se podem vislumbrar um pouco as características do processo inquisitorial através das palavras de Voltaire, em “Dicionário Filosófico”:

[...] conhecem-se bem todas as regras processuais deste tribunal e sabe-se como são opostas à falsa eqüidade e à cega razão de todos os outros tribunais do universo. A pessoa é aprisionada por simples denúncia das pessoas mais infames. Um filho pode denunciar o pai, uma mulher, o marido, nunca se é acareado com os acusadores. Obviamente os bens são confiscados em proveito dos juízes. Pelo menos é assim que a Inquisição se tem conduzido até aos nossos dias. Aí há algo de divino! Já que, efetivamente, é incompreensível que os homens tenham suportado pacientemente este jugo... (12)

Atualmente, o processo penal tem de ser conduzido pelo princípio da busca pela verdade real. Afinal, deve-se averiguar minuciosamente um crime e aplicar uma punição para o responsável, de modo que é imprescindível que se conheçam todas as circunstâncias do delito, bem como a sua autoria. No processo inquisitorial, a verdade dos fatos tinha relativa importância, o problema era a sua verificação, que jamais foi levada a cabo com afinco. Muitas vezes, baseava-se apenas na aparência física das pessoas para julgar se as mesmas praticaram ou não certos delitos. Cita-se como exemplo uma inquietante passagem do “Manual da Inquisição”, de Nicolau Eymerich: “É fato comum que se conhece com muita facilidade os que invocam o demônio pelo seu olhar horroroso e sua fachada espantosa, provenientes do seu contínuo trato com o diabo”. (13)

Em seguida, tem-se o princípio da legalidade. Este, por sua vez, era razoavelmente observado pela Inquisição. Os regulamentos e as instruções da época dispunham acerca do processo estipulando determinações que se coadunavam com a ação dos tribunais, ou seja, as disposições eram tão arbitrárias quanto esta. Neste contexto, Montesquieu criticou a legislação emanada das autoridades eclesiásticas que ditavam as regras da Inquisição, afirmando que “é preciso que se evitem as leis penais em matéria de religião” (14). Além disso, defendia o mesmo filósofo:

As leis humanas, feitas para falar ao espírito, devem apresentar preceitos e nunca conselhos: a religião, feita para falar ao coração, deve dar muitos conselhos e poucos preceitos. [...]. (15)

Quanto ao princípio da publicidade, a questão é bem mais complexa. Em verdade, o processo inquisitorial na Península Ibérica era totalmente secreto, constituindo crime da alçada do Santo Ofício violar esse segredo de qualquer forma. Apenas as autoridades do tribunal tinham acesso aos autos dos processos. Os acusados de crimes heréticos eram presos e interrogados sem ter conhecimento, por um longo período, do teor da acusação que pesava sobre si. Conforme será adiante exposto, os interrogatórios eram feitos de maneira a não permitir que se conhecesse a prática delituosa em questão. Como se pode perceber, tal situação dificultava ou, até mesmo, suprimia a defesa, pois é impossível se defender de uma denúncia cujo conteúdo nem se conhece ao certo.

Por sua vez, o princípio do contraditório era totalmente desacatado por ser considerado mera formalidade que poderia acarretar atraso no trâmite do processo. Esse princípio já era praticado, na época, em quase todas as monarquias absolutistas da Europa, porém a sua inobservância era, na verdade, determinada expressamente pelos manuais de inquisidores, como o de Nicolau Eymerich:

Ainda que no foro ordinário as leis não permitam ouvir testemunhas e nem falar de sentença definitiva, sem que se debata o ponto por ambas as partes, ouvindo-se o réu, sendo o fundamento da determinação, segundo os jurisconsultores, a alegação e réplicas respectivas de ambas as partes, não se segue esta máxima em matéria de heresia, estando autorizados os inquisidores à omissão de formalidades, procedendo simpliciter et de plano, em benefício da fé. De sorte que a declaração de testemunhas, ainda que ausente o réu ou seu procurador, faz fé, posto que não é assim em causa de outra natureza. (16)

Não devemos olvidar que, no Estado Democrático de Direito, o contraditório e a ampla defesa são meios eficazes à implantação prática dos direitos e garantias fundamentais. A este respeito, preleciona o Professor Willis Santiago Guerra Filho:

A ‘procedimentalização’ (Prozeduralisierung) do Direito, se mostra como a resposta adequada ao desafio principal do Estado Democrático de Direito, de atender as exigências sociais garantindo a participação e liberdade dos indivíduos, pois não se impõem medidas sem antes estabelecer um espaço público para sua discussão, pela qual os interessados deverão ser convencidos da conveniência de se perseguir certo objetivo e da adequação dos meios a serem empregados para atingir essa finalidade. (17)

Da mesma maneira, o princípio do devido processo legal era integralmente desconsiderado. Determinava-se que os juízes não tinham a obrigação de observar as regras forenses pertinentes aos processos da jurisdição civil, sendo a ação inquisitorial peculiar nesse aspecto. Dessa forma, situações que tornariam outros processos nulos, não acarretavam nenhuma irregularidade no processo inquisitorial. O que interessava mesmo era a demanda

terminar com uma sentença de condenação. Observa-se facilmente que tal aspecto caracteriza bem o Santo Ofício como tribunal de exceção.

O princípio da inadmissibilidade das provas produzidas por meios ilícitos era desrespeitado expressamente em instruções e regulamentos que autorizavam prisões arbitrárias e a prática de tortura. Nesta ocasião, é importante destacar que a própria Inquisição fez surgir muitas declarações falsas de heresia com o emprego de cruéis tormentos.

Quanto ao princípio da presunção de inocência, a questão é muito delicada. De fato, tal preceito era inexistente na Inquisição, pois uma simples acusação era o suficiente para configurar a culpabilidade, de modo que o suspeito deveria provar sua inocência, o que era praticamente impossível. Como foi acima exposto, o processo era secreto e o acusado era detido sem sequer conhecer nenhuma circunstância acerca do delito que supostamente cometeu, desse modo, sua defesa restava gravemente comprometida, especialmente pelo fato de apenas as autoridades do tribunal terem acesso aos autos do processo.

Além dos princípios peculiares ao processo penal, deve-se apreciar também um dos princípios gerais do processo: a imparcialidade do juiz. Esse princípio era seriamente vilipendiado. Primeiramente, os inquisidores eram, concomitantemente, policiais, delegados e juízes, situação que, por si só, já afetava sua imparcialidade. Além disso, uma das penas mais aplicadas era o confisco de todos os bens do condenado, o que levava a família deste à total ruína. Alguns juízes, ao aplicar tal punição, apossavam-se de vários bens apreendidos.

Outra questão importante sobre o processo criminal da Inquisição era a impossibilidade de se responder um processo em liberdade. Havendo denúncia, o acusado era sempre preso, sem se averiguar se representava perigo à sociedade, nem se iria atrapalhar as investigações ou fugir.

Por fim, os recursos quase não acarretavam benefícios aos condenados. Os relaxados à Justiça secular, por exemplo, só conheciam sua sentença três dias antes da execução, de modo que nem sequer havia tempo para interpor apelação. Além disso, quando ao condenado era permitido, já no auto da fé, que fosse ouvido pelos inquisidores para confessar seus delitos e pedir a revisão da sentença, tal situação geralmente não produzia grandes alterações, permanecendo o acusado condenado à pena capital.

9.1.1 A instauração do processo

Havia três maneiras de instaurar um processo: por acusação, por delação e por pesquisa. Na acusação, uma pessoa acusava outra de práticas heréticas, mas deveria apresentar provas verossímeis que fundamentassem suas declarações. Averiguadas as

acusações, caso o inquisidor constatasse a plausibilidade do seu conteúdo, instaurava o processo assistido por um escrivão e por outros dois religiosos, ou, no mínimo, por duas pessoas de reputação comprovadamente ilibada.

O processo se iniciava por delação quando alguém declarava que certa pessoa tinha conduta herética ou protegia hereges, neste caso, o delator não se comprometia a apresentar quaisquer provas. Quem delatava narrava que estava agindo assim devido ao fato de ter ciência de que sua omissão poderia acarretar excomunhão, pois esta atingia também os que se calavam. O processo, então, tinha início, e o delator jurava sobre os quatro Evangelhos antes de prestar depoimento, no qual, deveria dizer onde teve conhecimento dos fatos, se soube em primeira mão ou através de outra pessoa, quem seria esta etc. Enfim, fazia-se um interrogatório e, ao final, o delator jurava guardar segredo sobre todas as informações fornecidas ao inquisidor e sobre tudo o que este havia lhe dito.

Não havendo acusação nem delação, mas apenas boatos e rumores, o inquisidor,

sponte sua, deveria iniciar as investigações. Se estas fossem plausíveis, o processo era instaurado.

No que concerne às denúncias, é importante perceber que “ouvir dizer”, “saber”, ou seja, tomar conhecimento vagamente através de outras pessoas acerca de um provável mau comportamento de alguém já bastava para iniciar uma demanda. Ademais, a obrigação de denunciar não dispensava ninguém, independentemente de idade, sexo ou status social. 9.1.2 Confissões

A confissão era um dos principais objetivos do processo inquisitorial, por representar uma vitória do tribunal. As confissões podiam ser feitas no já mencionado “tempo de graça”, o que conferia ao penitente um tratamento especial, como a não aplicação da pena de confisco de bens.

O que se exigia do confitente era simplicidade; se ele se expressasse de maneira exagerada, chorando, hesitando ou sendo prolixo, isso poderia lhe prejudicar. Durante o depoimento, a mesa inquisitorial analisava detalhadamente se a pessoa estava sendo sincera, se estava omitindo fatos e se seu arrependimento era fidedigno.

Quando a confissão não era satisfatória, o penitente podia ser ouvido pelo tribunal até três vezes antes de ser acusado formalmente, e o processo continuava até a sentença, que poderia condená-lo à pena capital. Desse modo, observa-se que a confissão era um procedimento muito delicado. Quem decidia se submeter ao mesmo, deveria agir com bastante prudência, visto que muitos confitentes acabavam sendo condenados à morte.

9.1.3 Torturas

Atualmente, a tortura é considerada crime hediondo na maioria das nações ocidentais, porém, nos tribunais da Inquisição, constituía procedimento fundamental no trâmite dos processos.

Conhecidas também como tormento, as torturas eram utilizadas para apressar o fornecimento de informações por parte dos acusados. Eram aplicadas: ao réu que negava as acusações; ao herege cujas práticas heréticas eram de conhecimento público e, além disso, tinha contra si pelo menos uma testemunha que dissesse tê-lo visto ou ouvido fazer ou dizer algo contra a fé cristã; ao acusado cuja conduta apresentava indícios fortes de heresia, mesmo que não houvesse nenhuma testemunha; ao acusado que, mesmo não tendo comportamento herético, tivesse contra si um testemunho de quem o tenha visto ou ouvido fazendo ou dizendo algo contra a fé cristã.

A tortura era decidida em sentença (com caráter de decisão interlocutória, porém irrecorrível), no decorrer do processo. Enquanto o verdugo se preparava para a execução do seu trabalho, o inquisidor e alguns funcionários tentavam mais uma vez fazer com que o réu falasse a verdade. Em tal momento, o algoz manifestava inquietação e pressa, para provocar- lhe medo. Quanto tudo isso era inútil, iniciava-se a tortura, que era acompanhada por um interrogatório. Na medida em que as perguntas continuavam sendo mal respondidas, suplícios mais dolorosos eram utilizados. Todo esse tormento podia continuar por até três dias.

Quando, apesar disso tudo, o acusado não confessava nada, o inquisidor deveria colocá-lo em liberdade através de uma sentença cujo conteúdo relatava que, após um exame atento da causa, não se produziu prova legítima do delito que lhe havia sido imputado.

Os meios de tortura mais comuns eram o tormento da água, a polé e o potro. Na primeira situação, o acusado era amarrado de forma que ficasse deitado e com a cabeça voltada para cima, mantendo-se a boca aberta através de panos, para que bebesse litros de água até ser afogado.

A polé consistia em atar de forma bem apertada os pulsos do réu atrás de suas costas, levantando-se a pessoa quase até o teto do recinto, de onde era lançada até bem próximo do chão, momento em que sofria um solavanco forte, que, dolorosamente, deslocava-lhe as articulações. Tal procedimento era repetido por três vezes.

O potro era aplicado a mulheres, crianças, deficientes físicos e idosos. Deitava-se o acusado em um tipo de catre de madeira, sendo amarrados os braços e as pernas. De acordo

com a gravidade do delito, os carrascos iam apertando o torniquete gradativamente de um quarto de volta até três voltas completas.

9.1.4 Testemunhas

Nos tribunais da Inquisição, tudo o que pudesse prejudicar o acusado era utilizado para esse fim. Nos processos de heresia, portanto, eram admitidos testemunhos dos mais diversos tipos de pessoas, tais como excomungados, os cúmplices do próprio investigado e réus de delitos quaisquer. Entretanto, tais testemunhos apenas tinham validade se fossem contra o acusado, jamais valiam a seu favor.

Também contra o acusado admitiam-se as testemunhas domésticas, tais como seu cônjuge, seus filhos, seus irmãos, seus pais, outros parentes a até mesmo seus criados. Esse grupo de pessoas apenas podia prestar declarações contra o acusado, nunca em sua defesa.

Rigorosamente, para que fosse proferida uma sentença definitiva contra o herege, eram suficientes duas testemunhas. Situação absolutamente contrária ao que se aplica hoje no processo penal moderno, segundo o qual o número das testemunhas jamais será levado em consideração como critério de eqüidade para a elaboração da sentença.

Outro aspecto que destaca a natureza dos tribunais da Inquisição como de exceção é a acareação. Naquele período, o instituto da acareação era praticado em outros tribunais, mas nunca nas causas do Santo Ofício, onde não havia nenhum tipo de acareação, nem entre as testemunhas, nem entre estas e o acusado. Tal situação dificultava ou, até mesmo, impedia a defesa do réu, pois este não tinha condições de saber o que as testemunhas declararam a seu respeito, conseqüentemente não podia contra-argumentar com as mesmas.

No processo inquisitorial, o acusado nem sequer conhecia a identidade das testemunhas. A acusação era apresentada ao suspeito com a omissão de todas as circunstâncias de tempo, lugar e pessoas, especialmente quando se suspeitava que o réu pudesse adivinhar quem seriam seus delatores.

Também é interessante notar a aferição do valor do relato das testemunhas. Em verdade, a credibilidade das denúncias dependia da “qualidade” das testemunhas e de sua reputação na comunidade, bem como da sua conduta enquanto depunham no tribunal.

9.1.5 Interrogatório do réu

Após a prisão do acusado, situação em que este apenas sabia que o delito supostamente cometido por ele tinha alguma relação com heresia, fazia-se um interrogatório acerca de sua identidade, no intuito de verificar a sua genealogia. Perguntava-se se o acusado

sabia por qual motivo estava sendo preso. Qualquer que fosse a resposta, o acusado recebia uma explanação minuciosa esclarecendo que o Santo Ofício não prendia ninguém sem fortes razões para tanto. Em seguida, eram realizadas várias audiências com extensos intervalos entre uma e outra, nas quais o acusado narrava toda a sua vida, sendo-lhe perguntado especialmente a que pessoas tinha o hábito de visitar; porém, as questões eram sempre vagas e em termos gerais. Em tal momento, o réu se transformava, sem perceber, em delator, e o tribunal lhe pedia que especificasse todos os nomes que constavam de seus relatos. Até então, o acusado ainda não sabia por que motivo estava sendo processado.

Depois de uma vasta série de interrogatórios é que se dava ciência ao acusado sobre o crime pelo qual estava sendo julgado, no entanto, a identidade dos seus delatores ainda permanecia secreta. Em seguida, buscava-se que o réu confessasse suas culpas. Caso a confissão não acontecesse espontaneamente, aplicavam-se as torturas.

Havendo ou não tortura, com ou sem confissão, o lento processo terminava com uma sentença elaborada por uma comissão de inquisidores. Todavia, enquanto os outros tribunais da época informavam aos condenados sobre a sentença a eles imposta, o Santo Ofício mantinha as suas em segredo, à exceção dos crimes de inexpressiva gravidade. Conforme já foi supra mencionado, os réus só tinham ciência do teor da sua condenação na data da celebração do auto da fé, momento muito tardio para se fazer uma apelação, recurso este que, muitas vezes, não era sequer apreciado.

No tocante à conduta dos inquisidores nos interrogatórios, devem-se analisar alguns aspectos interessantes. Primeiramente, os inquisidores sempre pressupunham que os acusados agiam no intuito de lhes enganar, desse modo, os tribunais criaram várias técnicas para se conseguir chegar mais rápido à confissão.

Quando os depoimentos das testemunhas não estavam embasados em provas, mas continham fortes indícios acerca do delito, e o réu continuava negando, o inquisidor lhe fazia perguntas vagas. Depois disso, se o acusado ainda resistisse, o juiz folheava os autos e dizia algo como “está claro que você não está dizendo a verdade, não minta mais”. Outra medida tomada pelo inquisidor era folhear quaisquer papéis e, quando o réu negava alguma coisa, o inquisidor fingia estar espantado e dizia “como pode negar tal coisa, sendo tão evidente?”. Desse modo, o réu, caindo na armadilha do inquisidor, acreditava que existiam provas contra ele nos autos e, por fim, acabava confessando.

Outro ardil empregado pelos inquisidores consistia no seguinte. Quando o réu persistia em negar as culpas que lhe foram imputadas, o inquisidor lhe dizia que iria fazer uma longa viagem e não sabia quando retornaria. Lamentava o fato de ser obrigado a deixá-lo

preso, sendo sua maior vontade que confessasse suas faltas, para que se desse um fim mais rápido à demanda. Por fim, o inquisidor dizia que, já que não queria confessar, o acusado teria de lhe esperar, fato que o inquisidor lastimava, visto que o réu tinha compleição física frágil e, com certeza, ficaria enfermo.

9.2 Os delitos

O crime, de acordo com Magalhães Noronha, é “a conduta humana que lesa ou expõe a perigo um bem jurídico protegido pela lei penal. Sua essência é a ofensa ao bem

jurídico, pois toda norma penal tem por finalidade sua tutela” (18). Modernamente, consoante prelecionado por Rogério Greco, existe uma tríplice conceituação para o crime sob três vertentes, quais sejam, os pontos de vista formal, material e analítico, senão vejamos:

Sob o aspecto formal, crime seria toda conduta que atentasse, que colidisse frontalmente com a lei penal editada pelo Estado. Considerando-se o seu aspecto material, conceituamos o crime como aquela conduta que viola os bens jurídicos mais importantes. Na verdade, os conceitos material e formal não traduzem com precisão o que seja crime. Se há uma lei penal editada pelo Estado, proibindo determinada conduta e o agente a viola, se ausente qualquer causa de exclusão de ilicitude ou dirimente de culpabilidade, haverá crime. Já o conceito material sobreleva a importância do princípio da intervenção mínima quando aduz que somente haverá crime quando a conduta do agente atentar contra os bens mais importantes. Contudo, mesmo sendo importante e necessário o bem para a manutenção e subsistência da sociedade, se não houver uma lei penal protegendo- o, por mais relevante que seja, não haverá crime se o agente vier a atacá-lo, em face do princípio da legalidade . Como se percebe, os conceitos formal e material não traduzem o crime com precisão, pois que não conseguem defini-lo. Surge, assim, outro conceito, chamado analítico, porque realmente analisa as características ou elementos que compõem a infração penal. [...] Alguns autores, a exemplo de Assis Toledo e Luiz Regis Prado, aduzem que o crime é composto pela

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