• Nenhum resultado encontrado

2.2 FUNDOS DE INVESTIMENTO DE IMPACTO

2.2.3 Processo e fundos de investimento de impacto

O processo desenvolvido para a realização de um investimento de impacto pode ser dividido em fases a serem realizadas até a efetivação do processo. Para Allman e Nogales (2016) a divisão pode ocorrer em cinco fases. A primeira fase seria a busca e triagem por empresas potenciais. É relevante notar que as teses entre a organização investida e o investidor devem estar alinhadas. Quanto mais delongar essa triagem, mais tardará o retorno do investimento. Após escolhidas às organizações, serão analisados e avaliados os investimentos.

A análise e avaliação, segunda fase, podem ser realizadas de diversas formas, devendo ser contínuas e orientadas para avaliação dos planos de negócios e demonstrações financeiras.

É necessário revisar todos os aspectos operacionais, gerenciamento, análises competitivas e planejamento da missão social. Na terceira fase, deve-se inserir a estrutura de investimento negociada entre as partes, preferências e direitos específicos na documentação, o que é substancial para se ter uma transação sucedida.

Essa documentação será transformada em contrato, quarta fase. Antes da saída, existe uma fase de construção do valor, no qual serão ajustadas as estratégias das empresas. As saídas, última fase, devem ocorrer adequadamente para devolver capital aos fundos e investidores, alinhadas às expectativas (ALLMAN; NOGALES, 2016). A partir dessas atividades, é importante enfatizar que a construção de valor envolve a assistência técnica e de governança às empresas para ajudá-las a estabelecer relações estratégicas (BREST; BORN, 2013).

O processo de investimentos de impacto pode ser operacionalizado por meio de fundos de investimento de impacto, que surgem com o propósito de prover apoio financeiro a organizações que geram impacto social integrado ao retorno econômico (CREMONEZZI, et al., 2013). Dito de outro modo é um meio para canalizar capital em investimentos diretos que

têm um alto grau de impacto social (ALLMAN; NOGALES, 2015). É uma relação entre investidor e organização investida a longo prazo que regularmente varia entre três a sete anos (FORÇA-TAREFA BRASIL, 2015).

Ressalta-se que os fundos de IImp são um meio para angariar capital em investimentos diretos, tendo potencial em influenciar organizações a gerarem impacto social (GLANZEL;

SCHEUERLE, 2016). Assim, tais fundos compreendem a mesma dinâmica que os fundos de investimentos tradicionais, ou seja, recebem recursos financeiros de investidores e repassam para as empresas, ou seja, é uma gestora de fundos formada pela união de vários investidores que se reúnem para um investimento financeiro, visando influenciar organizações a gerarem impacto social e/ou ambiental integrado ao retorno econômico (CREMONEZZI, et al., 2013;

GLANZEL; SCHEUERLE, 2016).

No caso específico dos fundos em questão, é impreterível que essas empresas tenham missão social e/ou ambiental e detenham todos os requisitos necessários que se enquadrem na tese de investimento do fundo, para assim, obterem o investimento (CREMONEZZI, et al., 2013).

Como todo investimento de impacto, os fundos têm o papel de combinar retornos sociais e/ou ambientais e financeiros e mensurar o impacto social gerado pelas organizações. Allman e Nogalles (2015) relatam a dificuldade enfrentada por essa indústria ao medir o impacto social, pois ainda não se tem uma mensuração que assista a todos os tipos de organizações, causando, deste modo, um descontentamento, dificultando a escolha da empresa adequada a receber o investimento, já que esses fundos, geralmente, possuem como principal critério de decisão o impacto social.

Os fundos são relevantes devido à carência de recursos dos negócios de impacto, posto que grande parte deles não conseguem se estabelecer no mercado, justamente, por não terem um apoio financeiro (O’DONOHOE et al., 2010). Essa limitação quanto aos recursos financeiros, dificulta o objetivo no negócio de gerar impacto social e/ou ambiental, crescimento organizacional (O’DONOHOE et al., 2010) e inovação social (CETINDAMAR;

KOZANOGLU, 2014).

Além disso, os fundos também enfrentam dificuldades na valorização e equilíbrio dos retornos sociais e financeiros, falta de eficiência, complexidades, ausência de percepção de risco (GLANZEL; SCHEWRLE, 2016), custo elevado, menor retorno que o esperado e falta de investimentos de qualidade (ALLMAN; NOGALES, 2015). Com isso, nota-se também que as organizações investidas possuem diversas limitações e deficiências que mesmo com o capital, não é suficiente para o seu desenvolvimento (ALLMAN; NOGALES, 2015; GLANZEL;

SCHEUERLE, 2016), percebendo, portanto, que as habilidades, o conhecimento e capacidade dos empreendedores, são aspectos essenciais para alcançar os retornos esperados (ANDE, 2016).

Na literatura ainda foram encontradas barreiras que dificultam o desenvolvimento dos fundos de IImp, conforme expostas no Quadro 4.

QUADRO 4 - BARREIRAS ENFRENTADAS NOS FUNDOS DE INVESTIMENTO DE IMPACTO

Atritos Explicação

Informação Imperfeita Os investidores não têm informações confiáveis sobre os riscos e o retorno desse tipo de investimento.

O ceticismo sobre a realização de ambos os retornos financeiros e impacto social

São incrédulos quando a combinação do retorno financeiro e o impacto social

Práticas institucionais inflexível Os fundos não possuem práticas que realmente possam os ajudar de maneira segura a escolher os investimentos em potencial.

O tamanho do pequeno negócio Geralmente os empreendimentos sociais, são pequenas empresas, comparada a outras organizações.

Estratégias de saída limitadas Nesse tipo de investimento não há muitas opções para os investidores saírem do fundo, o que de certa forma os deixam preso a esse tipo de investimento.

Os problemas de governança Geralmente possuem uma governança e regimes legais inadequados, o que não dá segurança para os investidores.

FONTE: Elaborado pela autora com base em BREST E BORN (2013)

Mesmo com esses fatores, os fundos podem melhorar o ambiente, ajudando os negócios de impacto a construir relacionamentos estratégicos, ganhar investidores socialmente neutros e garantir a proteção à missão social da empresa (BREST; BORN, 2013).

Quanto às taxas estabelecidas para manutenção, Glanzel e Schewrle (2016) salientam que os fundos de impacto, geralmente, possuem percentuais mais elevados que os fundos convencionais, devido incluírem uma bolsa patrocinada para assistência técnica e para os custos fixos do próprio fundo.

Quanto à relação entre os fundos e as empresas, a confiança está entre os fatores substanciais, especialmente, nas tomadas de decisões do investimento (GLANZEL;

SCHEUERLE, 2016). Destaca-se que nem sempre a relação entre os dois é harmônica, uma vez que pode ocorrer conflitos de interesses. Contudo, o fundo pode promover elementos satisfatórios para as empresas, como escalabilidade, validação do modelo de negócio, know how e aumento da rede de relacionamentos (CREMONEZZI et al., 2013).

No entanto, mesmo diante dos benefícios, o que impedem as empresas a procurarem os fundos de investimento de impacto são as altas taxas administrativas e o fato de já iniciarem seu empreendimento com uma dívida, dessa forma, alguns preferem não dispor da participação dos fundos e crescer a passos lentos (GLANZEL; SCHEUERLE, 2016).

Cabe ressaltar que os principais investidores desses fundos são pessoas de alto patrimônio, escritórios, investidores institucionais, fundações e governos (O’DONOHOE et al., 2010), que investem principalmente em organizações que estão na fase de crescimento e expansão (FORÇA-TAREFA BRASIL, 2015).

Quanto ao cenário desse investimento no Brasil, sabe-se que os precursores dos fundos de IImp foram famílias ricas, que acreditavam na filantropia, mas estavam cansadas do modo de investimento de filantropias tradicionais, sendo assim, perceberam a oportunidade de mudar a maneira de investir, trazendo o enfoque do lucro, até como uma forma de despertar interesse dos investidores (ANDE, 2014).

Em um mapeamento do setor de investimento de impacto no Brasil, foram levantados fundos sediados no contexto brasileiro, que atuariam em áreas socialmente impactantes, como as identificadas no mapa de IImp (ANDE, 2014), ou seja, a educação, saúde, finanças e serviços.

Conforme o mesmo relatório, 82% dos negócios sociais ainda estão em fase inicial de investimento e isso se reflete no desafio colocado pelos gestores dos fundos, encontrar negócios que obedecem aos critérios exigidos por seus investidores. Além disso, esses critérios são pautados, primeiramente, pelo impacto social, em seguida pela gestão, depois pela sustentabilidade financeira, em quarto pelos ganhos de potência de escala, em quinto pela inovação e, por último a replicabilidade, conforme apresentado na Figura 5 (ANDE, 2014).

FIGURA 5 - PRINCIPAIS CRITÉRIOS CONSIDERADOS NA SELEÇÃO DE INVESTIMENTOS

FONTE: ANDE (2014, p.22)

Ao analisar a Figura 5, nota-se que a pesquisa da Ande (2014) revela que a inovação é considerada como critério de seleção apenas por 30% dos respondentes, sendo a primeira opção o impacto social, o que permite agregar valor e gerar impacto sem ser inovador. No

100%

60%

55% 47%

30%

10%

Impacto Social

Qualidade da gestão

Sustentabilidade Financeira

Potencial de ganho de escala Inovação

Replicabilidade

entanto, Centidamar e Kosanoglu (2014) sinalizam que a inovação social é o meio pelo qual os negócios de impacto social podem atingir o impacto positivo de um modo sistêmico.

Sobre o futuro dos fundos de IImp, evidências apontam para seu desenvolvimento de forma constante em todo o mundo, em termos de tamanho e maturação (GIIN, 2017), sendo que no Brasil esse cenário se perpetua, havendo um consenso entre os investidores que o setor continuará crescendo. Além disso, esse desenvolvimento também depende muito do governo, uma vez que o investimento governamental em tecnologias e soluções inovadoras poderá atrair e oferecer maiores oportunidades para a entrada de empreendedores e negócios sociais. Outra razão levantada é o aumento crescente do interesse de investidores tradicionais. Neste sentido, isso revela que o mercado neste segmento tende a crescer (ANDE, 2014).