4. TRIBUNAL DE SEGURANÇA NACIONAL
4.2 PROCESSO E JULGAMENTO DOS CRIMES CONTRA A ECONOMIA POPULAR
Regulando especificadamente a configuração e o julgamento dos Crimes Contra a Economia Popular, foi elaborado o Decreto-lei n. 1.716, de 28 de outubro de 1939. Expressava o decreto que, diante do atual estado de guerra entre os diversos Estados europeus, era suscetível a geração de profunda repercussão na economia brasileira, sendo importante, então, que competisse privativamente à União o poder de legislar sobre o bem estar público, considerando como primeira necessidade, ou necessários ao consumo do povo, os gêneros, artigos, mercadorias e qualquer outra espécie de coisas ou bens indispensáveis à subsistência do indivíduo em condições higiênicas e no exercício normal de suas atividades – enquadrando-se aí quaisquer crimes ou infrações contra a economia popular.
E, assim, continuava o referido dispositivo legislativo mencionando que o Ministro da Justiça poderia, por portaria, declarar incluídas na definição as utilidades acerca de cuja caracterização se suscitasse dúvida. Bem como que as infrações do disposto anteriormente, seriam punidas com as penas cominadas nas leis nele referidas para a alta de preços ou a especulação contrária à economia popular.
Nesta linha, a Comissão de Abastecimento, regulada pelo Decreto-lei n. 1067, não prejudicando as autoridades policiais para a repressão dos Crimes Contra a Economia Popular, poderia nas apurações das infrações por ela feita suscitar o inquérito policial para o
efeito de processo no Tribunal de Segurança Nacional. O inquérito deveria ser remetido ao TSN no prazo improrrogável de oito dias, houvesse ou não flagrante.
Seguindo a linha do Decreto-lei n. 88, nos crimes em referência, os juízes de primeira instância e o Tribunal poderiam julgar por livre convicção e, conforme o decreto 869 de 1938, art. 6º, eram eles “inafiançáveis e serão processados e julgados pelo Tribunal de Segurança Nacional. Neles não haverá suspensão da pena nem livramento condicional”. Sendo punido com um terço da pena do crime, o funcionário que omitisse as providências que lhe cabiam para reprimir os Crimes Contra a Economia Popular.
Sobre a aplicação rápida e segura da lei, o Ministro Francisco Campos407, em entrevista à imprensa, explicava que a rapidez da forma processual, em primeira instância e apelação, atestava um índice bem expressivo, qual seja: desde que fora assinado o decreto n. 869, havia mais ou menos seis meses, ainda existiam processos pendentes de julgamento da revolta comunista de 1935 (com três anos de andamento), ao ponto que, do movimento integralista de 1938, já haviam sido julgados em definitivo (primeira instância e recursos) todos os processos principais e vários outros de menor importância. Tudo pelo motivo de serem julgados em rito sumaríssimo, definido pelo decreto-lei n. 474, de 1938, em que o presidente do Tribunal, recebido o inquérito relativo ao crime, daria imediata vista ao procurador ou a um dos adjuntos do procurador, que teria o prazo de 48 horas para proceder à classificação do crime, indicando autores, cúmplices e penas aplicáveis. A audiência de instrução e julgamento deveria ser marcada para o prazo máximo de três dias, a acusação e a defesa se pronunciariam por trinta minutos, sendo a sentença proferida imediatamente pelo juiz. Interposta apelação, deveria ser julgada no prazo máximo de cinco dias.
Com essa forma processual célere passava-se a ideia de que a justiça penal iria examinar as novas manifestações da vida econômica e financeira, intervindo diretamente nos domínios que antes eram privativos das ações e dos interesses individuais, colocando em prática a celebre frase de Francisco Campos no que se referia à Constituição de 1937: “pôs em pé de igualdade, irmanando-os e confundindo-os, o Estado e o povo”. E, explicando os princípios econômicos do Estado
407
CAMPOS, Francisco In LYRA, Roberto. Crimes contra a economia popular; doutrina, legislação e jurisprudência.. Rio de Janeiro: Jacinto, 1940, p. 88.
Novo e essa prevalência do coletivo sobre os interesses individuais, Hungria408 afirmava:
O Estado Novo, em matéria econômica, não se resigna a uma atitude muçulmana de não resistência: intervém, com a sua autoridade coercitiva, para reprimir o desenfreio das ambições, controlando e orientando as atividades individuais no sentido do bem comum. A iniciativa privada e a concorrência continuam a se permitidas como forças propulsivas ou instrumentos eficazes da vida econômica, mas dentro dos limites do interesse geral ou do benefício do povo, isto é, não podem agir sozinhas, como elementos incondicionalmente úteis por si mesmos. (...) Intervindo direta e militantemente na vida econômica, o Estado Novo não se limita a medidas de direito civil ou puramente administrativas: recorre, também, ao expediente das sanções penais, que são a ultima
ratio contra as vontades recalcitrantes. Nas palavras de Francisco Campos409:
Ao Estado cumpre cuidar do bem-estar da coletividade, fomentando e defendendo a pequena economia contra os trusts, carteis e anéis de produção, tão comuns, na época do grande capitalismo, que terminam colocando o povo na sua inteira dependência econômica e por fim submetendo o próprio Estado e pondo-o a serviço dos seus interesses particulares.
Todavia, a partir desse momento, não seriam eles, o povo e a economia, controlados, senão ocupados, pelo Estado em defesa de seus próprios interesses econômicos? E, assim, a competência para o TSN não estaria vinculada ao nítido fato de ser aquele Tribunal um órgão ligado estritamente ao governo? Tido como instituição fiel para a
408
HUNGRIA, Nelson. Dos Crimes contra a Economia Popular e das Vendas a Prestação com Reserva de Domínio. Rio de Janeiro: Editora Jacintho, 1939, p.7.
409
CAMPOS, Francisco. A lei de proteção à economia popular. Revista Forense: Rio de Janeiro, 1938, p. 589.
solução de problemas incômodos ao Estado. Conforme Ferreira: “Tribunal político, na essência e na forma, bem assim na finalidade, cujos juízes podem julgar por livre convicção, mais do que pelas circunstâncias do fato, preceitos da lei e princípios de direito410”.
Como explica ChristianoCelmerBalz411:
Além do receio de que pudessem ficar apenas no papel as intenções intervencionistas do Governo, possivelmente contribuíram para a transferência dos “Crimes Contra a Economia Popular” da justiça comum o “tribunal especial” do Estado Novo as mesmas razões que teriam motivado a sua permanência como órgão autônomo: a eficácia e a confiança do Governo no Tribunal, tido como um instrumento de solução rápida de casos incômodos ao regime – e como órgão capaz tanto de amenizar os “clamores” da opinião pública quanto de enfraquecer a oposição política.
Na mesma linha, Nunes412 afirma:
A atribuição para julgamento de crimes econômicos para um tribunal político suscita, ao menos, dupla interpretação: 1) entender os Crimes Contra a Economia Popular como condutas que afetam a segurança nacional; ou 2) utilizar-se de um aparelho estatal de repressão eficiente, por conta das leis que regulamentavam a tramitação processual, e de confiança do governo, que detinha a livre-nomeação dos juízes e procuradores.
410
FERREIRA, Waldemar Martins. História do Direito Consitutcional brasileiro. Brasília: Senado Federal, 2003, p. 152.
411
BALZ, Christiano Celmer. O Tribunal de Segurança Nacional: aspectos legais e doutrinários de um tribunal de Era Vargas (1936-1945). 225 p. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências Jurídicas, Programa de Pós-Graduação em Direito, Florianópolis, 2009. Disponível em: <http://www.tede.ufsc.b
412
NUNES, Diego. O Percurso dos crimes políticos durante a Era Vargas (1935- 1945): do direito penal político italiano ao direito da segurança nacional brasileiro. 1 v. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências Jurídicas, Programa de Pós-Graduação em Direito, Florianópolis, 2010, p. 150.
Com a finalidade de se verificar essas intenções demonstradas, de que a defesa da ordem econômica foi uma forma de garantir os anseios governamentais, e de forma a conferir a legitimação da atuação repressora do TSN, analisar-se-á a jurisprudência da época.
O presente trabalho selecionou as jurisprudências publicadas na Revista Forense, revista jurídica da época, dos anos de 1939 até 1943, os casos colocados no livro de Roberto Lyra (Crimes Contra a Economia Popular; doutrina, legislação e jurisprudência. Rio de Janeiro: Jacinto, 1940) e de Castello Branco (Anotações às Leis de Segurança e Economia Popular. Rio de Janeiro: Editora Jacintho, 1940). Sendo que ao todo foram analisados 86 casos. Tendo-se em vista também o estudo de Campos413, que diante de sua pesquisa sobre os julgados do TSN, averiguou que foram 1.283 processos contra a economia popular, dos quais 673 foram arquivados. Dos 610 que foram a julgamento, 180 receberam sanções leves, muitas vezes somente multas, e outros 430 receberam sentenças absolutórias.
Antes de se passar aos julgados em si, com a análise da tipificação penal, o julgamento em regime de exceção e o discurso político ali envolvido –– importante se faz demonstrar a similitude entre os Tribunais de Exceção do Brasil e da Itália, ressaltando como era a composição daquela Corte e quais eram suas competências.