• Nenhum resultado encontrado

2.4 Processo enigmático: texto dissimulado

O discurso da comunicação corporativa é elaborado e produzido de forma velada e enigmática. Ele se revela simples para a percepção, porém trata de questões complexas. Quando analisado, transparece o reflexo da fragmentação com que a corporação trata o ser humano: a individualidade é negada e só aparece o coletivo. Nele, como já observamos, os indivíduos são vistos como agentes investidos de poder enquanto representam papéis predeterminados. São signatários de um contrato de trabalho, mas lhes são atribuídas um grande número de obrigações e poucos são os seus direitos. No espaço corporativo os homens tratam o impossível como se fosse possível. Vivem uma utopia de mundo ideal em

47 Esse sentimento de “vestir a camisa” desperta o instinto da convivência gregária que remonta ao instinto animal de sobrevivência da

espécie através da união e do agir em comum. Esse instinto é dicotômico e apresenta a possibilidade do surgimento de outros vieses. Que a partir da obra de Eibesfeldt, El Hombre Pré Programado, será tratado posteriormente.

que, segundo CASSIRER (1994:114) “a ética está sempre em processo de ser feito”. Eles são atores transformadores de um texto, mas não há espaço para viverem esse papel de forma criativa. Na prática, não são reconhecidos como sujeitos criativos e esse impedimento é visto como algo natural na hierarquia dos vínculos comunicacionais. Cassirer é assertivo quando aborda esse aspecto:

A linguagem, o mito e a religião não são criações isoladas e aleatórias. Estão unidas por um vínculo comum. Mas este vínculo não é um vinculum substantiale, como foi imaginado e descrito pelo pensamento escolástico; é antes um vinculum functionale. É a função básica da fala, do mito, da arte e da religião que devemos buscar por trás de suas inumeráveis formas e expressões, e para a qual em ultima instância devemos tentar encontrar uma origem comum. É obvio que no desempenho desta tarefa não devemos tentar menosprezar nenhuma possível fonte de informação. Devemos examinar todas as evidências empíricas disponíveis, e utilizar todos os métodos de introspecção, observação biológica e indagação histórica (CASSIRER, 1994:115).

A indagação histórica esbarra em uma questão fundamental. Porque as estruturas e o ambiente corporativo deixam pouco espaço para a expressão criativa dos sujeitos ou atores?

Ao que tudo indica, a criatividade é cerceada e falta autonomia para que o funcionário possa se considerar um ator que produz, reproduz e transforma tanto a corporação como a si próprio por meio dos jogos dos diferentes grupos que compõem a hierarquia. O modelo ideal foi planejado pela empresa e não por ele, funcionário. Ambos possuem objetivos diferentes e as pessoas não se tornam atores verdadeiros se não são consideradas sujeitos que expressam aquilo que são ou quando não estão engajadas naquilo que fazem. O fazer autêntico é acompanhado do poder de dizer “eu”, mas para isso o sujeito precisa estar do lado da imaginação, da criação, da crítica e da reflexão sobre seu agir. É necessário, lembrando PROSS (1980:30) que “o sujeito sinta a pertença ao simbolismo que constitui o seu mundo”, o ambiente no qual pode se mover, se desenvolver e se renovar.

A comunicação normativa se dirige aos funcionários como se esses fossem recipientes vazios que, diante de estímulos ambientais, mudam seu comportamento de acordo com o interesse daquele que as comunica. Ao adotar essa perspectiva a empresa ignora a existência do seu mundo interior ao mesmo tempo em que cria para eles um mundo rico de expectativas, desejos e fantasias. Ignora os seus processos culturais

internalizados, responsáveis pelas alterações não desejadas pela corporação.

É importante ressaltar que essa situação de coerção e imposição não acontece da mesma forma em todo o processo civilizatório e, consequentemente, em todas as organizações. O caráter dominador da corporação tem pesos diferentes e interpretações distintas para as pessoas das diversas culturas presentes na mesma organização. As formas de adaptação das pessoas nas corporações - brasileiras ou transnacionais - acontecem de acordo com a pluralidade de expressões culturais.

No decorrer das relações entre empresas e funcionários surgem situações tensas de natureza contraditória no universo das representações de quem trabalha. Elas ocorrem entre as emoções individuais ignoradas tanto por eles mesmos quanto pela norma corporativa. Eles as negam porque, conscientemente ou não, desejam acreditar no discurso proposto pela empresa ou se esforçam para cumpri-lo, calando as suas representações da relidade. Essa situação ilustra a concepção de PROSS (1980:48) quando afirma que “na realidade social não contam somente coisas, pessoas e relações, mas ideologias e representações”. Assim, quanto mais os indivíduos tentam, racionalmente, ocultar as contradições das representações e negá-las, mais mergulhados nelas ficam. A partir dessa racionalidade são construídas e significadas as identidades corporativas. Essa significação é orquestrada pela comunicação corporativa responsável pela interação dos indivíduos com os seus processos.Nessa interação os próprios indivíduos procuram negar a dicotomia do impulso amistoso/agressivo apontado por EIBESFELDT (1973:179) como parte das raízes ontogênicas e filogênicas dos instintos.

Esses funcionários são submetidos a outros rituais como o uso de um uniforme e de um crachá. Segundo PROSS (1980:35) “o uniforme promove a apropriação psíquica, indica uma submissão despersonalizante e remete à dependência”. Possuídos pela identidade corporativa, os funcionários perdem a competência crítica e o reconhecimento de si mesmos como indivíduos quando se entregam ao trabalho mecanicamente.

Na ausência do reconhecimento de si e assimilando o que constitui a identidade corporativa os funcionários têm dificuldades para interpretar os eventos nos quais se encontram envolvidos. Dessa maneira fica difícil reconstruir seus próprios significados e o poder da comunicação corporativa predomina sobre as suas identidades individuais. Dominados pela distorção que reina sobre o conceito de si próprios, perdem a noção de corpo e de corporação. Assim, desorientados, os homens representam os seus papéis e executam o trabalho corporativo confundindo-se com ele e nessa representação não se distinguem do próprio trabalho. Isso leva a lembrar que (PROSS, 1980:35) alerta para o fato que “os indivíduos encarnam o coletivo pela apropriação psíquica do seu sistema de signos”.

2.5 - O conflito comunicativo as variantes psicopatológicas e sua função