3. PROCESSO ADMINISTRATIVO SANCIONADOR NA AVIAÇÃO CIVIL BRASI-
3.3. Estudos de caso processos administrativos sancionadores da ANAC
3.3.2 Processo 00066.052932/2012-15
Trata-se de processo administrativo sancionador na qual se encontram apensados outros 176 processos, relacionados a 176 Autos de Infração lavrados em face de empresa de táxi aéreo que efetuou diversos voos em aeronave com requisitos de manutenção venci- dos.
Considerando-se que os autos dos processos são bastante extensos, de forma a simplificar a descrição se pode afirmar que as tarefas de manutenção que foram encontra- das vencidas pela fiscalização afetavam de forma considerável a segurança de voo da aero- nave. Dentre os 176 Autos de Infração se observam algumas diferenças de capitulação no que diz respeito à norma complementar infringida, no entanto todos têm em comum a mes- ma capitulação legal no CBA, qual seja, a alínea “e” do inciso III do art. 302, que assim dispõe:
CBA
Art. 302. A multa será aplicada pela prática das seguintes infrações: (...)
III - infrações imputáveis à concessionária ou permissionária de serviços aéreos: (...)
e) não observar as normas e regulamentos relativos à manutenção e operação das ae- ronaves;
Após análise da defesa apresentada pela autuada, o setor competente de primeira instância considerou configuradas 114 infrações, tendo aplicado desta maneira 114 multas no valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais) – o valor máximo referente ao tipo infracional -, totalizando desta maneira multa no valor de R$ 1.140.000,00 (um milhão cento e quarenta mil reais).
Notificado da decisão de primeira instância, a empresa autuada reiterou suas ale- gações apresentadas em defesa, dentre as quais a alegação de continuidade infracional.
Dentre as alegações apresentadas em defesa e recurso relacionadas à continuida- de infracional, cabe citar trechos do voto proferido na decisão de segunda instância, que descreve os argumentos apresentados pela defesa:
O Interessado manifesta entendimento de que é aplicável ao caso a vertente da conti- nuidade delitiva, por considerar que se trata de diversas infrações administrativas da mesma espécie e apuradas em um mesmo momento; e que, portanto, deveria ser aplicada apenas uma multa para as diversas infrações em pauta, de acordo com a do- simetria e valoração definida pela Autoridade de Aviação Civil. Complementa seu posicionamento, afirmando que o Auto de Infração em questão seria parte de uma série de Autos lavrados pelo mesmo fato gerador, “em tríplice identidade entre sujei- to, fato e fundamento”, aplicando-se, portanto, o princípio do direito do non bis in
idem, que vedaria a incidência de mais de uma punição individual por um mesmo
fato.
Ao julgar o recurso em segunda instância, a turma recursal da Assessoria de Jul- gamentos de Autos em Segunda Instância (Asjin) do Rio de Janeiro, por unanimidade, ne- gou-lhe provimento. Neste ponto, cabe apresentar o disposto no voto da relatora do proces- so na segunda instância, que ao enfrentar as alegações relacionadas à incidência da conti- nuidade delitiva assim se manifestou:
Diante da alegação do Interessado quanto à continuidade do delito infracional, em concordância com o setor de primeira instância, no presente caso, evidenciam-se 114 infrações autônomas descritas nos autos de infração listados nos processos nº 37 a 150 da Tabela 1.
Cabe dizer que, cada operação da aeronave em situação irregular, pelo descumpri- mento de qualquer regulamento, dá ensejo a infrações distintas. Assim, verifica-se que cada irregularidade constatada nos referidos autos de infração são todas autôno- mas passíveis, portanto, de aplicação de penalidades de forma independente, pelo fato de se referirem a operações distintas ocorridas em datas, horários e etapas de voo distintos.
Ainda, cabe ressaltar que, no caso concreto, não se pretende aplicar múltiplas puni- ções para uma mesma conduta, pois tratam-se de 114 diferentes condutas, devendo ser analisado cada ato infracional imputado que resulta, se confirmado na aplicação da penalidade.
Dessa maneira, afasta-se também a alegação da Recorrente quanto à aplicação do princípio non bis in idem, conforme já mencionado, verifica-se que as irregularida- des descritas nos referidos autos de infração não representam o mesmo fato gerador, ou seja, verifica-se que ocorreram operações distintas da aeronave em situação irre- gular quanto às inspeções e/ou DA vencidas.
Conforme citado pelo setor de primeira instância, “também não se pode admitir que, como defende a autuada, diversas condutas infracionais de natureza similar, ou “de mesma espécie” sejam punidas em conjunto, com uma única multa. Entender dessa forma seria admitir que aquele já que efetuou uma operação em situação irregular continuasse a fazê-lo impunemente – afinal, como consequência de tal entendimen- to, a autuada seria penalizada na mesma medida por operar uma ou dezenas de vezes a aeronave em descumprimento à legislação aeronáutica. É necessário, portanto, com vistas a preservar a efetividade da ação punitiva por parte da Administração, que um infrator seja penalizado de maneira proporcional ao número de violações por ele praticadas.”
Importante ressaltar que a Resolução ANAC nº 13/2007, já revogada, e a atual Reso- lução ANAC nº 25/2008, que dispõem sobre o processo administrativo para a apura- ção de infrações e aplicação de penalidades, no âmbito da competência da Agência Nacional de Aviação Civil – ANAC, azem qualquer menção sobre tratamento de in- frações permanentes ou continuadas.
Portanto, evidenciam-se infrações autônomas descritas nos referidos autos de infra- ção, não podendo, portanto, ser acostada a alegação da continuidade do delito infra- cional e aplicação do princípio non bis in idem.
Do exposto, verifica-se que as 114 operações realizadas com a aeronave em situa- ção irregular de manutenção foram consideradas autônomas, sendo destacado que cada opera- ção em situação irregular, pelo descumprimento de qualquer regulamento, dá ensejo a infra- ções distintas, ou seja, “são todas autônomas passíveis, portanto, de aplicação de penalida-
des de forma independente, pelo fato de se referirem a operações distintas ocorridas em da- tas, horários e etapas de voo distintos”.
É importante também frisar o entendimento que já havia sido exposado pelo setor competente de primeira instância e com o qual a relatora em segunda instância dispõe concor- dar: entender que diversas condutas infracionais de natureza similar, ou “de mesma espécie” sejam punidas em conjunto com uma única multa, seria admitir que aquele já que efetuou uma operação em situação irregular continuasse a fazê-lo impunemente, sendo portanto, com vistas a preservar a efetividade da ação punitiva por parte da Administração, que um infrator seja pe- nalizado de maneira proporcional ao número de violações por ele praticadas.
Outro ponto importante disposto pela relatora diz respeito à inexistência à época dos fatos e do julgamento de qualquer menção sobre tratamento de infrações permanentes ou continuadas no âmbito de atuação da ANAC, o que infere-se, está relacionado com o princípio da legalidade.