Capítulo 2 : ADOÇÃO DE DADOS PATENTÁRIOS NO ESTUDO DOS PROCESSOS DE SELEÇÃO E APROPRIAÇÃO DE TECNOLOGIAS
2.1 Direitos de propriedade intelectual
2.1.2 O processo de harmonização dos DPI em biotecnologia vis-à-vis os acordos TRIPS.
O desenvolvimento de um OGM integra múltiplos conhecimentos de origem científica e diversas tecnologias complexas. Dessa maneira, os blocos científico-tecnológicos constitutivos da indústria de biotecnologia vegetal conciliam protocolos de engenharia genética associados à manipulação do DNA com práticas científicas em genômica, proteômica, metabolômica, biologia molecular, bioquímica, bioinformática e nanotecnologia (FONSECA, SILVEIRA e DAL POZ, 2003; SILVEIRA e BORGES, 2004).
39 Os documentos de propriedade intelectual que compartilham o mesmo número prioritário pertencem à mesma família de
patentes.
40 De acordo com Miranda (2014) a análise dos três critérios também tem por objetivo definir a parcela das reivindicações
postuladas pelo inventor passíveis de serem atendidas pela autoridade patentária. À luz deste intuito, o examinador desenvolverá um relatório técnico destinado a descrever o estado da arte. Esta caracterização - feita por meio de citações de patentes anteriormente concedidas e de artigos científicos que já foram publicados – visa revelar o avanço do novo invento frente aos conhecimentos já existentes. Essa descrição técnica também possibilitará a categorização de cada patente em campos tecnológicos específicos que seguem um sistema padronizado. “Embora muitos escritórios nacionais de patentes adotem seu próprio sistema técnico de classificação, em todos os países signatários do [...] Tratado de Cooperação em Matéria de Patente deve-se levar em conta também a Classificação Internacional de Patentes (CIP) no processo de concessão” (MIRANDA, 2014, p.83).
A complexidade das tecnologias listadas acima torna oneroso, e em muitos casos impossível, para uma firma incorporar todos os processos industrias associados ao desenvolvimento de biotecnologias (CORIAT, ORSI e WEINSTEIN, 2003). A resolução desse problema exige o estabelecimento por parte das organizações empresariais de relações de cooperação e proximidade com outros agentes econômicos de modo a facilitar a integração dos conhecimentos necessários para a obtenção de novos OGM. Em outros termos, a gestão eficiente das atividades inventivas no segmento econômico em estudo está intimamente ligada à construção de redes tecno-econômicas de colaboração por meio da articulação de parcerias com empresas privadas, universidades e instituições públicas de pesquisa.
O papel dos DPI nas indústrias caracterizadas pela presença de redes tecno- econômicas vai além da questão da recuperação dos investimentos em inovação através da cobrança de royalties. Sob esta perspectiva, os DPI são partes constitutivas das estruturas de governança que regem a coordenação sistêmica das atividades de P&D executadas pelas redes de pesquisa em biotecnologia vegetal, o que possibilita torná-las eficientes na geração de inovações (DAL POZ, 2006).
As relações compartilhadas entre os agentes econômicos que se encontram vinculados às redes de pesquisa são regidas, na maior parte das vezes, por contratos elaborados sob condições de incerteza, que, no entanto, seguem a legislação sobre os DPI. Estes contratos guiam e orientam a repartição dos ganhos advindos das inovações, as transferências e licenciamentos de tecnologias intermediárias, o compartilhamento de ativos intangíveis, os consórcios para utilização conjunta de equipamentos, os riscos e os ônus de possíveis litígios de violação de patentes. Dessa maneira, os DPI atuam “como intermediários e como fatores de agregação entre agentes, incorporados aos contratos que consubstanciam as cadeias inovativas”
(DAL POZ, SILVEIRA e FONSECA, 2004, p.350) presentes na indústria de biotecnologia vegetal.
Desde a década de 2000, as redes de pesquisa vêm incorporando cada vez mais novas organizações públicas e privadas de nacionalidades distintas (DAL POZ, 2006). À luz deste cenário de internacionalização, Dal Poz, Silveira e Fonseca (2004, p.364) ressaltam que a uniformização crescente das legislações patentárias nacionais engendrou um quadro institucional favorável à coordenação dos processos de criação, difusão e apropriação dos conhecimentos tecnológicos que circulam ao longo das redes internacionais de pesquisa em biotecnologia vegetal. Os autores ressaltam que os acordos entre países voltados para a harmonização dos DPI contribuíram para configurar um sistema de apropriabilidade global fortemente assimétrico que exibe como principais beneficiários as big six companies.
A pressões por uma maior convergência do sistema de propriedade intelectual internacional tiveram início nos anos 70 por iniciativa de empresas norte-americanas produtoras de bens intensivos em ciência e tecnologia. As corporações estadunidenses se queixavam da existência de legislações patentárias nacionais prejudiciais às tecnologias desenvolvidas nos EUA. Nesta visão, o padrão internacional de proteção aos DPI favorecia as práticas de engenharia reversa adotadas pelas empresas do sudeste da Ásia que geravam apropriação indevida do P&D de alto custo financiado pelo governo e pelo setor industrial norte-americano. Temia-se que as práticas de engenharia reversa pudessem gerar assimetrias de custos favoráveis às empresas asiáticas capazes de reverter a supremacia comercial norte-americana.
As queixas descritas acima foram discutidas nos diversos fóruns do GATT –
General Agreements on Tariffs and Trade – que trataram da internacionalização do comércio.
Em 1994, a “Rodada Uruguay” (26ª Rodada do GATT) culminou na assinatura dos acordos TRIPS, que têm por objetivo harmonizar as regras que regem o comercio internacional por meio da adoção de critérios comuns de proteção aos DPI. No ano seguinte, ocorreu a fundação da Organização Mundial de Comércio (OMC). Estabeleceu-se, por consequência, um prazo de cinco anos para o alinhamento das legislações patentárias dos Estados signatários da OMC frente às regras do TRIPS (CORREA, 2000 e 2007).
Em síntese, o TRIPS estabelece o patamar mínimo de proteção aos DPI que deve ser adotado pelos Estados membros da OMC. Uma vez atendido este escopo mínimo dos DPI, deixa-se a critério de cada país a definição do teto máximo da proteção patentária. Desta maneira, os acordos TRIPS preveem algumas flexibilidades e exceções relacionadas ao acesso a medicamentos e ao patenteamento de tecnologias que englobam plantas e demais seres vivos (CHAVES et al., 2007; BARBOSA, 2003). Os Artigos 27.1 e 27.3(b) dos TRIPS afetam diretamente a indústria de biotecnologia vegetal:
Art. 27.1 - Sem prejuízo do disposto nos parágrafos [27.2 e 27.3] abaixo, qualquer invenção, de produto ou de processo, em todo os setores tecnológicos, será patenteável, desde que seja nova, envolva um passo inventivo e seja passível de aplicação industrial [...]
Art.27.3 – Os Membros também podem considerar como não patenteáveis:
Art. 27.3(b) Plantas e animais, exceto microrganismos, e processos essencialmente biológicos para a produção de plantas ou animais, excetuando-se os processos não biológicos e microbiológicos. Não obstante, os Membros concederão proteção a variedades vegetais, seja por meio de patentes, [...seja por sistemas de proteção sui
genereis,] seja por uma combinação de ambos. (DAL POZ, 2006, p. 125)41.
41 Em síntese, o artigo 27.1 estabelece os objetos de patenteamento; o artigo 27.3(b) define que é possível excluir a
patenteabilidade de plantas, genes e processos biológicos. Caso ocorra a opção por esta exclusão, o mesmo artigo requer dos países signatários OMC algum tipo de proteção aos cultivares, através de legislação sui generis, mediante patentes ou, ainda, por meio da combinação dos dois mecanismos de proteção à propriedade intelectual.
O artigo 27.3(b) preservou o direito dos Estados signatários da OMC ao veto do patenteamento de plantas e sequências genéticas. À primeira vista, o acordo pode parecer desfavorável aos interesses da indústria de biotecnologia vegetal, voltados para difundir e proteger em outros países as tecnologias desenvolvidas e patenteadas originalmente nos EUA. No entanto, esta percepção inicial não se sustenta, uma vez que os TRIPS tiveram o efeito oposto: o acordo contribuiu para estender a proteção patentária concedida aos OGM para outras nações, inclusive para os países que optaram por adotar as exceções previstas pelo Artigo 27.3(b).
No período anterior aos TRIPS, os países desfrutavam de liberdade para selecionar os setores econômicos alvos de proteção patentária. O Artigo 27.1 determina que os Estados signatários do TRIPS, independente dos seus estágios de desenvolvimento econômico e social, devem garantir patamares mínimos de proteção aos DPI para todos os campos tecnológicos, inclusive para o setor farmacêutico e para a indústria de biotecnologia vegetal (CHAVES et al., 2007).
Uma leitura mais atenta do Artigo 27.3(b) do TRIPS revela que esta disposição obriga os membros da OMC a reconhecer patentes que reivindicam processos não biológicos voltados para a obtenção de plantas e animais. Dessa maneira, o artigo supracitado criou as condições institucionais para a aceitação das patentes que protegem as técnicas de engenharia genética utilizadas para inserir transgenes em células vegetais, tais como o procedimento de bombardeamento celular.
Ademais, conforme ressalta Dal Poz (2006), em grande parte dos países em desenvolvimento, a legislação patentária não traz uma definição clara a respeito das diferenças existentes entre os procedimentos biológicos e não biológicos de obtenção de plantas. Este vácuo legislatório contribuiu para estender a proteção patentária prevista pelo Artigo 27.3(b) para praticamente todas as ferramentas biotecnológicas que regulam os processos de inserção e expressão gênica em células vegetais. Em síntese, os acordos TRIPS forneceram o embasamento doutrinário necessário para a revalidação das patentes norte-americanas que protegem tecnologias habilitadoras nos demais Estados signatários da OMC.
Segundo Vieira e Buainain (2004, p.389-390) a vigência dos TRIPS impôs mudanças radicais na institucionalidade do sistema de propriedade intelectual internacional, não tanto pelas questões doutrinárias, uma vez que, em grande parte, o TRIPS apenas reproduz conceitos firmados em tratados anteriores, mas sobretudo, por criar mecanismos de penalização para os membros da OMC que descumprirem as suas regras. Os mecanismos de eforcement inexistiam nos acordos comerciais prévios. Nesta perspectiva, a mera ameaça de “retaliação
comercial ou de exclusão de negociações importantes em mercados internacionais levou os países em desenvolvimento a aprovar [...] novas legislações sobre propriedade intelectual em todas as áreas”.
Neste sentido, caso um Estado signatário do TRIPS, que optou por adotar as exceções previstas pelo Artigo 27.3(b), recusar o pagamento de royalties às empresas estrangeiras titulares das tecnologias habilitadoras que foram empregadas no desenvolvimento dos OGM atualmente cultivados em seu território, o país pode vir a sofrer retaliações comerciais na OMC. Não por acaso, Dal Poz (2006, p.278) ressalta:
[...] a real eficiência dos TRIPS como instrumentos de harmonização mundial de livre comércio, apesar de permitirem a exclusão de patentes genômicas pelos países membros da OMC. A eficiência destes acordos sobrepuja sua própria estrutura jurídica, pois, permitindo a exclusão, não necessariamente a defende; mantém assim um caráter ameno, que, na prática, se revela como facilitador das pressões sobre países em desenvolvimento para que fortaleçam seus sistemas de proteção aos DPI.
As big six companies figuram entre os grandes beneficiários dos acordos comerciais bilaterais e regionais articulados pelo governo dos EUA com outros países no período posterior à criação da OMC. Esses tratados comerciais têm contribuído para consolidar o argumento norte-americano que atribui aos esforços intelectuais humanos a descoberta e o isolamento dos genes passíveis de aplicação comercial. Nesta perspectiva, a proteção patentária remete aos direitos intelectuais dos cientistas que se empenharam na identificação e no isolamento das sequências nucleicas, e não propriamente às cadeias de aminoácidos que compõem o DNA. Em termos práticos, a aceitação crescente desta visão tem fornecido o embasamento doutrinário para a validação das patentes norte-americanas que reivindicam sequências genéticas em outras nações, inclusive em países cujas legislações não admitem oficialmente o patenteamento de genes e seres vivos. A consolidação dessa jurisprudência tende a enfraquecer o direito a veto previsto no Artigo 27.3(b) do TRIPS.