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O processo de internalização nas CEBs

DEUS NOSSO PAI E NOSSA SENHORA NOSSA MÃE

2. O processo de internalização nas CEBs

Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende. Por que é que todos não se reúnem, para sofrer e vencer juntos, de uma vez? Eu queria formar uma cidade da religião. (Guimarães Rosa)82.

Como se vê pelo que já foi exposto, os atuais membros das CEBs, na maioria oriundos do catolicismo tradicional popular, estão longe de renegar suas tradições religiosas. Nessa nova forma de catolicismo internalizado, que é parte integrante do cristianismo popular de libertação, estes sujeitos reformulam certas práticas tradicionais, extraindo delas novas forças e motivações simbólicas para sua sobrevivência imediata e para a sua luta sócio-política de médio e longo prazo83.

Do processo de internalização faz parte a incorporação do senso crítico, numa racionalização da fé mais próxima da modernidade, o que pode incidir em algum conflito com a base cultural do catolicismo tradicional popular brasileiro, de tendência à sincretização84.

A experiência religiosa, nas CEBs, passa a ser traduzida em termos éticos e políticos, a partir de um engajamento nas práticas de cidadania vinculadas a projetos populares que visam uma nova sociedade. Neste dinamismo, a questão que parece sinalizar maior risco à maneira popular, cuja cosmovisão guarda a crença numa intervenção extraordinária de Deus na história, é a da exclusão do mito como forma de inteligibilidade do real. Em nome de uma ruptura com o status quo político-social dominante, podem ocorrer tentativas de neutralização e até de erradicação de elementos importantes da tradição do catolicismo popular.

O interesse maior neste passo da reflexão é ver como ficam os valores religiosos tradicionais que não cabem nas reformulações, ao se passar da forma tradicional de catolicismo para a internalizada. Mas antes, é preciso tentar uma compreensão desse processo de internalização.

82 . Grande Sertão: veredas. 19a. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 326. 83 . PARKER, 1995, pp. 290; 198.

84 . Sanchis, referindo-se a como se dá o encontro de religiões diferentes no mesmo espaço social, afirma que o

povo brasileiro teve que aprender a declinar-se no plural, elaborando um sincretismo de gênero bem diferente daquele da Europa: SANCHIS, Pierre. “O campo religioso será ainda hoje o campo das religiões?” In HOORNAERT, Eduardo, et al. História da Igreja na América Latina e no Caribe: 1945-1995: o debate

metodológico. [trad. Ephraim Alves, Jaime Clasen e Lúcia Mathilde Endlich Orth]. Petrópolis: Vozes/CEHILA, 1995, pp. 81-131. O termo sincretismo, usado por Plutarco no sentido de uma união circunstancial de indivíduos geralmente hostis aos outros, com Erasmo passou a designar a frente constituída pelos humanistas e luteranos. No século XVII ganhou o sentido de harmonização de doutrinas e de correntes filosóficas diversas. Cf. FERRETI, Sérgio Figueiredo. Repensando o Sincretismo. São Paulo: EDUSP, 1995, p. 90. Mas aqui se segue Gruzinski, que critica a extensão do termo a outros campos além da religião, como faz Cristián Parker, e entende o termo nos seus significados múltiplos e até contraditórios. Diversos rituais sincréticos parecem manifestar uma espécie de “equilíbrio instável”, embora durável, entre tradições diversas. Cf. GRUZINSKI, 2001, pp. 46-47.

Entre os membros das CEBs, geralmente há uma compreensão clara da diferença entre a sua forma de viver o catolicismo e a pura tradição de catolicismo popular.

O que antes era um “cumprir a religião como a gente foi criada”, nas CEBs se torna “participação”. Muitas vezes, para ir à igreja, sinal de fidelidade ao catolicismo, era preciso levantar-se de madrugada e andar mais de dez quilômetros a pé. Não se media sacrifício. A igreja era entendida como lugar de “assistir” missa, rezar e receber alguns sacramentos, e muitas coisas não entravam na compreensão dos fiéis. Só ouvir a pregação do padre e rezar não dava um rumo à vida; não havia “aquele carisma que cativava a gente”; o pensamento ficava “meio misturado”. Rezava-se o terço sem ter um esclarecimento sobre o seu significado85.

O pessoal sabia era só rezar. Que o padre vinha lá e rezava em latim. O padre chegava lá, um tava rezando terço lá num canto, outro tava rezando Salve Rainha do lado, aqui o outro tava fazendo uma outra oração, o outro tava no pé da imagem lá, e o padre celebrando a missa de costa para o povo. Depois todos iam embora86.

Camargo utiliza as expressões “católico praticante” e “católico não praticante”, considerando a grande variação nos graus de devoção dos fiéis e nos níveis de adesão à vida religiosa, no catolicismo brasileiro, que é uma religião aberta a toda a população87. Mas, pode ser um tanto injusto classificar de “não-praticantes” este tipo de fiéis, dada a rica variedade das suas práticas religiosas e a profundidade da dedicação a elas. Pode-se concordar em que o caráter de não-praticante se aplique em relação a uma assiduidade àquelas práticas oficiais da Igreja regidas por seu clero, destacando-se a catequese, os atos litúrgicos e piedosos sob gerenciamento do poder eclesiástico romano e as práticas sacramentais. O catolicismo tradicional popular tem também, pela via da tradição leiga, um caráter celebrativo que inclui a valorização dos sacramentos e da liturgia. Seu ethos festivo faz tudo dar lugar à celebração88.

Tomando-se o processo de internalização como define Ferreira de Camargo, da “maneira pela qual o fiel participa da vida religiosa, adotando seus valores, normas e práticas de modo consciente e deliberado”89, pode-se ver como ocorre a passagem da tradição para a forma internalizada, na maneira das CEBs, através deste depoimento:

85 . A partir dos depoimentos principalmente de Assunta, 20/02/05; Maria de Jesus, 30/10/04; Marineuza,

23/01/05; Cícero, 18/04/03; João Carlos, 1/07/03.

86 . Depoimento de Teodoro, 25/03/05. 87 . CAMARGO, 1973, p. 42.

88 . MONTES, 1998, p. 105. VALLE; BOFF, 1993, p. 25. 89 . CAMARGO, 1973, p. 77.

Até ali, a Igreja, como era um pouco em latim, a gente ia por vocação familiar. Mas a partir do momento que a gente pegou uma Bíblia na mão e a gente começou a estudar a Bíblia, a gente encontrou alguma coisa que a gente tinha muita dúvida, se esclareceu. Já não era tudo pecado, a vida era uma coisa sagrada, a vida tinha que ser defendida. De qualquer maneira, a gente tinha que trabalhar em defesa da vida, fosse de quem fosse. Então, a partir daquele momento, acho que foi a luz de Jesus que se ascendeu pra gente. E aquilo deu força na caminhada. A gente não tinha só a nossa família. A nossa família era a de casa, a nossa família era a do grupo, a nossa família era a comunidade (...) Já não era uma base de família, mas uma base de fé90.

Freqüentar a igreja por “vocação familiar” significava simplesmente reproduzir a tradição. A “tomada da Bíblia” por dentro da cultura popular desencadeia no indivíduo uma nova percepção e redefinição dos valores religiosos, que leva à adesão consciente e deliberada91. O processo de “conscientização”, pelo qual se chega a uma “consciência crítica”, é entendido pelas pessoas ativas nas CEBs principalmente como um alargamento na mentalidade, um horizonte mais estendido, ou seja, uma visão de mundo mais ampla e mais profunda, possibilitada por maior conhecimento, discernimento e clareza. Uma expressão bastante usual, com referência à inserção nas realidades históricas que cercam o povo, é a de que se caminha com “pé no chão”. Conseqüentemente, a fé se torna mais esclarecida, convicta e madura, e segue mais forte92.

A responsabilidade religiosa que se restringia à família passa a uma co- responsabilidade no grupo de base, que é mais alargada na comunidade de fé. Ao mesmo tempo, a adesão consciente e livre só é possível por um processo de individuação. É o que se expressa no depoimento acima, quanto ao passar de uma “base de família” para uma “base de fé”.

Seguindo o que foi exposto no segmento anterior, pode-se buscar entender o processo de internalização com o olhar mais dirigido a dois dinamismos, marcados por certa incongruência, complementação, interpenetração e ambigüidade: passar da casa à sociedade e da communitas à comunidade.

90 . Depoimento de Jacira, 19/12/04.

91 . O catolicismo internalizado proporciona ao indivíduo uma percepção explícita e consciente dos valores

religiosos. A adesão “conscientizada” passa por uma formulação sacral transformada, que serve de ideologia para prover sentido à vida e legitimar normas coerentes com novos papéis sociais. O processo de conscientização dos valores religiosos, dependendo das situações concretas e dos grupos sociais envolvidos, pode ocorrer no contexto dos movimentos ideológicos de natureza sacral, quando, em momentos de crise e transição, a ideologia religiosa oferece novos valores e quadros de referência. O outro contexto, que é o que se evidencia no depoimento acima, é o do reavivamento da fé tradicional, quando valores são redefinidos e acomodam-se às transformações da sociedade inclusiva. Cf. CAMARGO, 1973, p. 78.

92 . Estes aspectos são insistentes na resposta à pergunta aberta do nosso questionário de pesquisa, que indagava:

O que mudou na sua devoção, desde que você começou a participar de CEBs? Das 317 pessoas que responderam a esta pergunta, 53 se referem a esse alargamento na mentalidade; 50 dizem que a fé se tornou mais convicta e madura; 12 utilizam a expressão “pé no chão”.

A primeira passagem, da casa à sociedade, se faz porque a nova compreensão dos valores cristãos chama a um comprometimento ativo pelo bem dos semelhantes, da sociedade e do mundo. Por uma mudança no entendimento do valor religioso da intervenção divina, adere-se à práxis de solidariedade e transformação social, o que se evidencia na insistência em que “não adianta só ficar rezando”, nem se deve “rezar só por nós”, mas é preciso “por as mãos na massa”. De forma consciente e deliberada, deixa-se de recorrer só à oração e aos rituais religiosos esperando que toda ação venha de Deus e dos santos. Novas convicções são as de que Deus não é o responsável pelas misérias e injustiças da sociedade, e “Deus age através de nós”, ao mesmo tempo em que se realçam as atitudes de amor ao próximo, que geralmente passam pela indignação ao ver os outros sofrendo por causa de injustiças sociais93. O alargamento de horizonte do amor ao próximo se faz a partir de uma dupla tomada de consciência: a de que todos fazemos parte de uma só família humana e que, portanto, temos responsabilidade por todos; e a de que só unidos podemos transformar o mundo94.

Afirma-se a interação da fé com a vida real e histórica e, mais especificamente, com o exercício da política. Através de uma compreensão das causas e conseqüências do sofrimento das pessoas que sofrem exclusões, nas classes populares, e de uma tomada de consciência de que se faz parte desse povo, os indivíduos redefinem o valor da fé, que passa a legitimar o engajamento em ações e movimentos sócio-políticos transformadores. A fé, nessa valoração renovada, provoca inquietude, vontade de lutar para transformar o mundo e mudar a história, com o objetivo de que “todos tenham vida verdadeira e a tenham em abundância”, conforme a passagem bíblica de João 10,10. É na perspectiva dessa fé que se fala de sonhos e ideais de libertação, e da utopia de um mundo justo95.

Ao contrário da competição e de um tipo de ascensão social restrita ao indivíduo e à sua família, afirma-se uma busca de felicidade dentro de um projeto de sociedade que

93 . As atitudes de amor ao próximo, explicitadas por 19 pessoas, concretizam-se através da compreensão,

aceitação e valorização das pessoas como elas são; acolhimento, respeito, perdão; respeito aos outros na sua cultura diferente; amizade e companheirismo. Uma das primeiras reformulações no entendimento dos valores, geralmente, é a de que Deus não quer o sofrimento, mas é alguma situação humana que o provoca. Cf. Depoimento de Cidinha, 18/04/03. João Carlos relatou como a visita a um assentamento lhe motivou um maior comprometimento nas CEBs: os assentados haviam feito plantações, e como tinham de esperar a hora de colher, só poderiam pagar a compra de alimentos para suas famílias com cheques. E seus cheques não eram aceitos pelas autoridades e pelos comerciantes da cidade, que os discriminavam e desacreditavam deles. A indignação de João Carlos assim se expressa: “Que mundo é esse que as pessoas ainda rejeitam outras pessoas?” (Depoimento dado no dia 1/07/03).

94 . São muitas as ações de solidariedade e ajuda humanitária, praticadas pelos membros das CEBs, como

evidenciaram as respostas dadas por 26 pessoas. Essas ações concretas são dirigidas principalmente às pessoas que sofrem maiores exclusões na sociedade. A motivação da fé revalorizada faz ver nessas pessoas o próprio Cristo.

95 . 28 pessoas insistiram em que o compromisso de engajamento social e político transformador se afirma a

proporcione bem-estar para todas as pessoas, consciente de que o acesso de todos aos bens essenciais não cai do céu:

Eu só vou ser feliz se um dia todo mundo tiver um pedaço de terra, tiver uma casa pra morar, tiver acesso a um hospital, tiver a alegria que eu tenho em viver (..). O ponto maior da minha fé é o serviço. Eu acho que eu tenho que viver a serviço do semelhante96.

Valor conscientizado é também o da relação com Deus. Uma nova compreensão de Deus, através do conhecimento bíblico, é a do “Deus conosco”, aquele que caminha e atua junto do povo em suas lutas e conquistas, “libertador”, “Deus da vida”, presente nos irmãos, que inspira total confiança. Atualmente, pela influência das novas abordagens que reivindicam superação das desigualdades de gênero, começa-se a dizer que Deus é “pai e mãe que nos ama como filhos e filhas”. A relação com Jesus Cristo é uma relação com a divindade mais na dimensão de irmão e companheiro, mas nele também se busca força. Ele é compreendido a partir da sua realidade histórica, como Jesus de Nazaré: parceiro que anima a caminhada, libertador, comprometido com o seu povo, sofredor na pessoa dos sofredores de hoje e lutador na pessoa dos homens e mulheres que lutam por justiça e igualdade.

Entretanto, a internalização da relação com Jesus Cristo, nas CEBs, faz tomar como referencial da práxis a fé que moveu a ele próprio. Entende-se o seguimento de Jesus como compromisso com o seu projeto de “Reino de Deus”, que começa aqui na terra e se destina a todos e todas, especialmente às pessoas que neste mundo sofrem maiores exclusões. Uma tomada de consciência de que toda pessoa batizada é chamada à missão cristã de evangelizar, faz revalorizar a pertença à Igreja, assumida como adesão voluntária, consciente e fervorosa. No entanto, por causa da priorização do que se costuma chamar de “projeto do Reino de Deus”, socialmente traduzido na dedicação aos projetos terrenos e históricos voltados para os direitos de todas as pessoas e grupos, esta adesão é mais “como” Igreja que “à” Igreja97. Fato interessante é que esta ênfase maior na “fé de Jesus” que na “fé em Jesus” já fazia parte das formulações da teologia liberal no pólo da Reforma protestante98.

96 . Depoimento de Marcelino, 6/07/03.

97 . Conforme os dados da resposta à pergunta aberta do questionário de pesquisa.

98 . A teologia liberal, que tinha suas raízes na Ilustração, no século XIX centrou-se na temática de fé e história.

Os teólogos liberais lançaram-se no estudo histórico-crítico do Novo Testamento, na busca do Jesus “real”, “verdadeiro” e de sua mensagem por trás dos acréscimos da dogmática. Foi neste caminho que distinguiram a religião “de” Jesus da religião “sobre” Jesus, num prisma da fé cristã entendida como mensagem de Jesus sobre o reino de um Deus que é amor. Cf. DREHER, Martin Norberto. A Igreja Latino-Americana no Contexto

Através do caráter reflexivo da internalização, que perpassa a práxis, os indivíduos alcançam uma nova maneira de intimidade com o sagrado, impulsionada pela motivação religiosa do compromisso. Isto se evidencia nos ritos de celebração e nas novas relações com os agentes e as instituições religiosas99. Esse processo possibilita uma reformulação de valores, como o do afastamento do pecado, por exemplo. Certos atos e atitudes antes vistos como pecado, como dançar e fazer festa, passam a ser entendidos como positivos e sadios. Esta postura se liga a uma compreensão de Deus mais amorosa, ao mesmo tempo em que comprometida com o que se entende como seu projeto de justiça e igualdade para todos e todas. O jovem Ivanildo relatou como ficava “de cabelo em pé” quando sua tia, introduzindo- o na vivência da CEB, explicava-lhe os assuntos da catequese na perspectiva da TdL. E uma das explicações que mais ficaram marcadas em sua compreensão foi a de que dançar e fazer festa não é pecado100.

A reflexão sobre a realidade social já fazia parte do catolicismo tradicional popular, à sua maneira. A novidade, nas CEBs, é que a reflexão ganha um método mais rigoroso e fontes de informação mais amplas. Assim, uma das dimensões da relação com o sagrado passa a ser a reflexão consciente e articulada sobre a realidade vivida, com as práticas dali decorrentes, que assumem maior direcionamento para a transformação das estruturas sociais101.

Da parte do indivíduo, uma percepção explícita e consciente dos valores religiosos pode conduzir a uma coerência racional entre esses valores e a sua conduta como pessoa individual. Por isso não é raro o surgimento de uma certa tensão entre os valores religiosos conscientes e o sistema axiológico predominante na sociedade global. Determinadas pessoas que praticam o catolicismo, no Brasil, passam pelo processo de internalização adotando uma postura crítica e esquerdizante: internalizam sua vida religiosa, inspirados em valores que levam ao protesto social. As bases dessa forma de adesão religiosa “de contestação” são estabelecidas pela mensagem ética do Cristianismo, de amor ao próximo e fraternidade, assumida como o valor mais alto. Uma nova responsabilidade de cristãos face a situações sociais concretas é estabelecida pela conveniência de participação da Igreja nos problemas da sociedade102. Dentre uma abundância de experiências neste sentido, narradas por membros de CEBs, há uma que pode ser ilustrativa:

99 . VALLE; BOFF, 1993, pp. 57-59.

100 . Depoimento de Ivanildo, 28/11/04. Observações de que uma das mudanças na maneira de praticar a

devoção, a partir da entrada nas CEBs, foi uma nova compreensão de pecado, foram anotadas por diversas das pessoas abordadas.

101 . VALLE; BOFF, 1993, pp. 24-25.

102 . Segundo Camargo, o catolicismo internalizado tem três funções, que não se excluem mutuamente:

Cidinha, uma líder de CEB da periferia de Campinas, foi eleita presidente da associação dos moradores do bairro onde morava e atuava. Enquanto seu trabalho na associação, na CEB e em outras organizações populares era voluntário, para ajudar sua família a se manter ela trabalhava numa creche particular, com a remuneração de um salário mínimo. Sua liderança chegou ao conhecimento do prefeito da cidade, que a chamou e tentou convencê-la a aceitar uma proposta de aliciamento, dizendo que, dentre todos os presidentes de associações de bairro, só faltava a sua adesão. A proposta era a de que ela fosse trabalhar com ele na prefeitura, com uma remuneração de três salários mínimos e mais o privilégio de ficar isenta do pagamento pela instalação de toda a infra-estrutura em seu bairro. À pergunta de Cidinha sobre suas intenções, o prefeito respondeu: “Que você seja uma das nossas”. Indignada, ela respondeu que jamais trairia seu povo: “Eu não sou presidente porque eu quis ser presidente, mas eu sou presidente daquela associação porque me escolheram, e se me escolheram, me confiaram, eles merecem a minha confiança”. Voltou para casa e reuniu as pessoas de liderança da associação, propondo uma reunião geral. Reunidos os moradores, ela relatou a “tamanha sacanagem que o prefeito está fazendo com os outros bairros”103.

Entre os fatores que favorecem o alargamento da visão de mundo são lembrados principalmente: a participação direta ou, ao menos, uma sintonia com os movimentos sociais; a maneira de assumir os trabalhos e serviços sempre em equipe, com o cultivo da amizade; o aprendizado do exercício de liderança no pequeno grupo de base; o exercício do método popular libertador de leitura bíblica; os cursos de formação104.

Já não se concebe a possibilidade de adesão ao Cristianismo, através da Igreja Católica, sem ser praticante. E ser praticante, na compreensão dos membros de CEBs que abordamos, pode ser assim explicitado: ser uma pessoa conscientizada; assumir o compromisso de batismo com responsabilidade e comprometimento; praticar a religião com a vida, através de ações concretas; ser solidário com os outros, a ponto de pensar antes nos outros que em si próprio; buscar continuamente crescer na vida cristã, através de etapas organizadas de formação permanente; buscar realizar a vontade de Deus; assumir a missão