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Processo Judicial n 016/1.14.0006785-3: Cenilda Udich Mattioni X Estado

3 ANÁLISE DE AÇÕES JUDICIAIS/CASOS PRÁTICOS, QUE VISAM O

3.3 Processo Judicial n 016/1.14.0006785-3: Cenilda Udich Mattioni X Estado

CENILDA UDICH MATTIONI, representada judicialmente pela Defensoria Pública, ajuizou ação ordinária com pedido de tutela antecipada em face do ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL e do MUNICÍPIO DE IJUÍ, na qual alega ser portadora da doença cadastrada sob o CID F31.3, razão pela qual necessita fazer uso dos fármacos CITALOPRAM (PROCIMAX) 20mg, LAMOTRIGINA (LAMITOR) 25mg e PRAMIPEXOL (SIFROL) 0,25mg. Assim, alegando que o uso dos fármacos supramencionados é indispensável à manutenção de sua vida e saúde, requereu a concessão da gratuidade da justiça, bem como o deferimento da tutela antecipada com posterior julgamento de procedência da ação.

Recebida a inicial, o Juízo deferiu o pedido de gratuidade da justiça, bem como o pedido de tutela antecipada e determinou a citação dos entes públicos.

O Município de Ijuí contestou a ação, referindo que os medicamentos postulados pela autora não fazem parte da lista de sua competência de dispensação, razão pela qual o Município deveria ser excluído do polo passivo da demanda, e o processo julgado improcedente.

O ente público estadual apresentou contestação, na qual referiu que o fármaco PRAMIPEXOL encontra-se na lista do SUS, sendo competência do Estado o fornecimento, razão pela qual sua contestação não deverá ser aplicada com relação ao pedido deste fármaco. Já com relação aos demais fármacos pleiteados, referiu que além de estes não estarem presentes na lista do SUS, segundo parecer técnico elaborado pelos médicos da Secretaria Estadual de Saúde/SES, estes não são indicados para o tratamento da doença que acomete a autora. Referiu, ainda, que a há na lista do SUS outros fármacos disponíveis para o tratamento da enfermidade da autora e requereu a intimação do médico assistente desta para manifestar-se em relação à possibilidade de substituição do fármaco prescrito inicialmente, pelos presentes na lista do SUS.

O Juízo determinou a intimação das partes para manifestarem o interesse na produção de outras provas ou se concordam com o julgamento do feito no estado em que se encontra.

A autora requereu o julgamento do feito no estado em que se encontra.

O Estado reiterou o pedido feito em sede de contestação, requerendo a intimação do profissional médico que assiste a parte autora, para que este se manifeste m relação às conclusões apontadas no parecer técnico da SES, especialmente quanto á possibilidade de substituição dos fármacos prescritos, em detrimento das alternativas presentes na lista do SUS.

Sobreveio manifestação da autora referindo que os entes públicos não lhe forneceram o medicamento na via administrativa, razão pela qual pugnou pelo deferimento de bloqueio judicial nas contas públicas para aquisição dos fármacos que faz uso.

Com vista dos autos, o Ministério Público opinou pelo deferimento do pedido de provas do Estado, bem como pelo acolhimento do pedido da autora com relação ao bloqueio judicial de valores nas contas públicas para aquisição da medicação.

O parecer ministerial foi acolhido integralmente pelo Juízo.

Intimado, o médico assistente da parte autora referiu que não faz mais acompanhamento do quadro clínico da autora, razão pela qual não poderia responder aos questionamentos feitos pelo ente público estadual.

A autora juntou novos laudos e receituários médicos aos autos, requerendo a substituição do fármaco CITALOPRAM por VENLAFAXINA, conforme prescrição médica.

O Estado manifestou-se pelo indeferimento do pedido de inclusão de novos medicamentos, visto que é vedado pelo Código de Processo Civil, a inclusão de novos pedido nos feito após a citação do réu, sem que haja concordância deste.

Referiu, ainda, que os medicamentos que a autora faz uso possuem estoque regular e/ou previsão de estoque e dispensação. Por fim, reiterou o pedido de intimação do médico assistente da autora para manifestar-se em relação às conclusões apontadas no parecer técnico da SES.

O Ministério Público opinou pelo deferimento do pedido do Estado, no que tange á intimação do médico para manifestar-se em relação às conclusões apontadas no parecer técnico da SES.

A autora manifestou-se reiterando o pedido de substituição do fármaco CITALOPRAM por VENLAFAXINA, nos termos indicados por seu médico assistente nos laudos juntados no curso do processo.

Com vista dos autos, o Ministério Público opinou pelo deferimento do pedido da autora, no sentido de que fosse realizada a substituição indicada pelo médico assistente.

O Estado manifestou-se juntando parecer técnico complementar para o caso da substituição do fármaco CITALOPRAM por VENLAFAXINA.

Sobreveio manifestação da autora noticiando que não faz mais uso dos fármacos CITALOPRAM e VENLAFAXINA, razão pela qual requereu o prosseguimento do feito quanto aos demais fármacos pleiteados na inicial.

Com vista dos autos, o Município reiterou os termos da contestação pugnando pela sua exclusão do polo passivo da demanda.

O Estado manifestou-se reiterando os pedidos feitos anteriormente, no sentido de que fosse médico assistente da autora para manifestar-se acerca das conclusões apontadas no parecer técnico da SES. O Ministério Público opinou pelo deferimento do pedido e o Juízo deferiu, conforme postulado.

O profissional médico intimado reiterou a manifestação juntada anteriormente referindo que não é mais o responsável pelo tratamento da autora, razão pela qual não pode responder aos questionamentos do Estado.

A autora manifestou-se referindo que atualmente faz tratamento junto ao CAPS II COLMÉIA, com a médica MACLOVIA AMMAR, e informou o endereço desta para possibilitar sua intimação.

O Ministério Público opinou pela intimação da médica indicada pela autora, o que foi acolhido pelo Juízo.

Sobreveio manifestação da médica assistente da autora, na qual esta referiu que desconhece que a autora é ou foi usuária dos fármacos CITALOPRAM e LAMOTRIGINA. Referiu, ainda, que atualmente é necessário que a autora permaneça utilizando apenas o fármaco PRAMIPEXOL.

Ciente da manifestação da médica assistente, os entes públicos reiteraram os argumentos de suas contestações, pugnando pelo julgamento de improcedência da demanda.

Atualmente o processo encontra-se em carga com o Ministério Público para análise e provável elaboração de parecer de mérito da demanda.

CONCLUSÃO

O direito fundamental á saúde está positivado em nosso ordenamento jurídico, no art. 196, da Constituição Federal, o qual dispõe que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado. Contudo, em que pese o texto constitucional assegure que a saúde é um direito de todo cidadão e um dever do Estado, tanto o poder público quanto o cidadão, tem enfrentado algumas dificuldades para garantir o acesso ao direito ou para acessá-lo em sua plenitude.

O poder público, como responsável pelo fornecimento dos serviços sanitários aos cidadãos, precisou organizar-se em âmbito administrativo, criando normas administrativas que regulam a política de acesso aos serviços sanitários. Tais normas foram criadas para garantir que o Estado possa efetivar o direito garantido pelo constituinte sem ferir o orçamento público, visto que o poder público é o responsável não só pela garantia do direito à saúde, mas também a outros direitos previstos no texto constitucional.

Para tanto, o Ministério da Saúde criou o documento conhecido como “lista do SUS”. Tal documento é uma relação de todos os medicamentos, insumos e/ou procedimentos realizados em paciente que deles venham a necessitar, e que são integralmente custeados pelo Estado. Na lista do SUS estão contemplados mais de 800 fármacos indicados para os tratamentos das mais diversas enfermidades e são distribuídos de forma gratuita à população por meio das farmácias públicas.

Contudo, em muitas ocasiões, o profissional médico que assiste aos cidadãos, prescreve determinados medicamentos para o controle de determinada doença, que não está presente na lista do SUS. É a partir desse momento que se

inicia a participação do Poder Judiciário e dos órgãos de acesso á justiça nas questões envolvendo o direito fundamental à saúde.

No momento em que foi criada a lista do SUS pelo Ministério da Saúde, este incluiu na lista os medicamentos avaliados como os melhores em termos de eficácia, mas também como os menos onerosos aos cofres públicos. Além disso, sabendo-se que a indústria farmacêutica evolui constantemente a cada dia, não seria viável a inclusão de todo e qualquer fármaco criado pela indústria na lista do SUS.

Assim, a partir do momento no qual o cidadão, munido da indicação médica de uso de determinado fármaco se dirige até a farmácia pública e verifica que aquele fármaco não se encontra na lista do SUS, ou que ainda que se encontre, está sem estoque disponível, este acaba por acionar aos órgão de acesso à justiça, quais sejam, a Defensoria Pública e/ou o Ministério Público, para que estes lhe prestem auxílio na efetivação de seu direito, o qual será levado até o Poder Judiciário para fins de que este decida se ele terá direito/acesso ou não àquele medicamento.

Após uma enxurrada de ações judiciais propostas tendo como pedido o fornecimento de medicamentos que não estavam presentes na lista do SUS, bem como as controvérsias discutidas nas ações entre o médico assistente da parte que pede e os médicos estatais que criticam acerca da possibilidade de substituição do fármaco ou se é realmente o caso de sua utilização, o tema foi parar no STJ como recurso repetitivo, o qual foi cadastrado sob o tema 106 e foi julgado no dia 25.04.2018.

O STJ decidiu que ainda que os medicamentos postulados nas ações judiciais posteriores à decisão proferida não estiverem presentes na lista do SUS, é dever do poder público o fornecimento destes. Contudo, para que seja possível o fornecimento dos medicamentos “fora lista” deverão ser observados os seguintes critérios: (1) o médico assistente da parte que pede o fármacos deverá manifestar-se no processo, por meio de laudo fundamentado e circunstanciado, acerca da imprescindibilidade ou da real necessidade de uso daquele medicamento, especificando acerca da realização de tratamento anterior utilizando os fármacos presentes na lista SUS e a ineficácia da utilização destes; (2) o cidadão que pede o

medicamento que está fora da lista deverá comprovar a incapacidade de arcar com o custo do medicamento que solicita; e (3) deverá ser comprovado nos autos do processo que o medicamento postulado está devidamente registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA.

Com relação às ações judiciais que pleiteiam o fornecimento de fármacos presentes na lista do SUS, o STJ não se manifestou, de modo que se presume que a tramitação destas ações será feita da forma como vinha sendo feita antes.

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